Thursday, October 22, 2009

HILDA HILST

Roteiro do Silêncio

Não há silêncio bastante
Para meu silêncio.
Nas prisões e nos conventos
Nas igrejas e na noite
Não há silêncio Bastante
Para o meu silêncio.

Os amantes no quarto.
Os ratos nos muros.
A menina
Nos longos corredores do colégio.
Todos os cães perdidos
Pelos quais tenho sofrido
Quero que saibam:
O meu silêncio é maior
Que toda a solidão
E que todo silêncio.

Exercícios
Ed. Globo, São Paulo, 2001

Sunday, October 18, 2009

Canção dos Olhos


Meu Deus, o que será que tem
Nesses olhos teus
O que será que tem
Pra me seduzir
Pra me escravizar
Não sei
E não saberei também
Como resistir
A seu modo amar

Eu só estou sabendo
Que para te amar
Eu viverei sofrendo
Mas já não resiste
O coração
Quero viver triste
E então

E quando eu tiver os meus olhos chorando
Saberei então seu olhar ilusão


História de Canções - Chico Buarque





...


Este convite é fatal.
Uau!
Olhos de Chico Buarque de Hollanda.
Muita beleza em uma única fotografia.
Muita poesia em uma única mirada.
My god, nem vou dizer mais nada...

Thursday, October 15, 2009

Algo Existe

.

Algo existe num dia de verão,
No lento apagar de suas chamas,
Que me impele a ser solene.

.

Algo, num meio-dia de verão
Uma fundura - um azul - uma fragrância,
Que o êxtase transcende.

.

Há, também, numa noite de verão,
Algo tão brilhante e arrebatador
Que só para ver aplaudo -

.

E escondo minha face inquisidora
Receando que um encanto assim tão trêmulo
E sutil, de mim se escape.

Emily Dickinson
Tradução de Lucia Olinto


L’ÂGE MÛR



L'âge Mûr - A idade madura - escultura de Camille Claudel.

.

Lá vem a Rosa fatídica

espectro no meu toucador

Rosa-sombra

fantasma na minha cama.

Rosas?

.
As do jardim são belas

perfumam

o luar fendido.

Tu, Rosa inodora

madura e obscura

leva em surdina

na madrugada escura

o augusto corpo

do homem meu

.

O deus voou?

.

Que nada!

Foi raptado

por uma Rosa

descarnada

.

E nas suas pegadas

a flor humilhada

eterna suplicante

replicante

.

MORTA!

.

Milhões de anos

escorrerão pelas ampulhetas

todas as estrelas derretidas

o universo líquido

tudo aniquilado em água

.

O Deus Desconhecido

Este que hora me ignora

verá – incrédulo –

nadando no azul-olhos-de-Camille

.

O casal que escapa

Rosa cruel o esconde em sua capa

esquálida face sem escrúpulos

.

as mãos da suplicante – dor da dor -

querendo alcançar o deus de hoje

que a Rosa horrorosa leva

sem pudor.

Bárbara Lia

- Para Camille, com uma flor de pedra


...

Nesta escultura Camille Claudel é a -suplicante- O homem mais velho levado pela mulher mais velha - representada por um rosto descarnado - horrível. O homem é Rodin a mulher Rose. Camille a representa como uma figura velha, caquética, quase morta. Estas poesias da série - Para Camille, com uma flor de pedra - foram escritas usando a licença poética de me imaginar na pele de Camille. Todas as poesias tem por título uma obra de Camille.

Wednesday, October 14, 2009

Anos loucos



O relógio virou peça de decoração. O alívio neste tempo sem hora marcada, sem precisar bater o ponto. Pena que o cansaço daquela noite fez com que eu desmaiasse no sofá. O filme que começava era - Anos loucos - Kiefer Sutherland interpretando William Burroughs e a cena que vi antes de apagar - ele coloca o chapéu, despede-se da esposa (Courtney Love) e sai. A sala e a porta iguais as minhas. A imagem daquele homem de terno e chapéu e óculos. Ele diz tchau e sai pela porta. Acordo com a Tv desligada. Sempre tem algum filho que desliga o aparelho e eu fico ali, no meu sofá preferido, dormindo. Acordei com aquela sensação que o moço que saiu ia voltar. Lá estava eu acordando para a realidade misturada com a fantasia do cinema. Alguns segundos para perceber que aquele era um personagem. Que aquela porta da cena não era minha. Pena! Ia ser maravilhoso se ele retornasse, ali, na minha sala, na minha porta e sentasse alguns minutos para um café, bem brasileiro. Um café com William Burroughs. Esperar que o canal reprise, esperar para ver o filme. A crítica não é boa, é que nada consegue alcançar os mitos. Nada. O cinema tenta, mas, não é bom sentar para ver um filme dos beats, ou John Fante. Aquelas caras de Hollywood vestindo o imagem daquelas feras. Os caras. Eu pensei em uma estratégia que certamente os diretores não pensam - contratar atores novos, desconhecidos. Se eles soubessem como construímos no imaginário os nossos mitos, os escritores que admiramos, quiçá eles entendessem e não colocassem estes galãs na pele dos nossos caras. Quem sabe.

hoje em sampa

Saturday, October 10, 2009

Jardim do Caos I

.

Primeira manhã do mundo

A mãe das Hespérides

Enlouquece do mal da espera

.

Lembra sua imagem na árvore - cicatriz -

Entalhe do corpo extasiado em pleno rito

Uma obra de Claudel – in natura.

.

Pés lascivos a entrelaçar-se

Tango na grama do bosque secreto

Corpos estremecidos no ato

.

Platéia silenciosa do outono:

Folhas amarelas & Butterflies

Fugitivas de Alcatraz.

Bárbara Lia

TRÍADE DA ESTRELA TRISTE

(livro inédito)

Movimento em Falso





O Telecine Cult está apresentando em todas as sextas de outubro a sessão - Drive In - dedicada aos trabalhos menos conhecido do diretor Wim Wenders. Ontem vi Movimento em Falso, interrompido pela chegada de uma visita, algumas cenas perdidas. Você convida a visita para ver o filme - Vamos ver Win Wenders. O filme começa com a mãe que leva o filho a estação e diz para ele não se abalar com aquela estranha pergunta - O que você faz? É claro que todo mundo se surpreende quando você não diz, médico, contador, professor... Genial a velhinha dizer para ele se impor como escritor. On the road. Pela sinopse acreditei que o filme todo seria em um trem, os personagens deixaram o trem, pegaram um carro, atravessaram cidades alemãs. Nastassja Kinski uma menina. O filme traz uma atriz que não mais ouvi falar - Hanna Schygulla - e Rudiger Vogler no papel do escritor. Tem um senhor mais velho, um atleta olímpico que foi um dos torturadores nos campos nazistas e leva a garota Mignon - Nastassja - com ele na viagem, a atriz e um poeta que encontram no trem nesta travessia. Quando o filme é dele eu me sento e espero para ver poesia - e uma das falas do escritor - mais vale querer escrever que escrever, mais vale querer amar que amar. É o desejo que impulsiona o mundo. O querer. As asas. As asas do desejo.

Wednesday, October 07, 2009

Constelação de Ossos

(...)


No embalo lento da rede ele contou sobre sua nova missão –

Viajar para a Espanha e fazer uma matéria sobre as mulheres do Brasil que seguem para lá e acabam trabalhando em boates e viram escravas do sexo.

Uma catarata abrupta de água gelada despencou em mim.

Como se meu passado fosse um cão perdigueiro que nunca vai perder as minhas pegadas.

Minhas mãos crispam e ele me olha de uma forma estranha.

Sinto desejo de repetir a frase.

A primeira frase que quase disse a ele quando da sua chegada.

Então, eu sou a Lyn, garota de programa.

Sou puta.

Mas, eu não era mais, eu não queria ser.

Ele era diferente de tudo e de todos que encontrei.

Heleno era um amante que eu dividia com minha vida de favores pagos para comerem minha carne, e eu nunca pensava que queria ser só de Heleno, que queria beijar só Heleno e que doía muito pensar Heleno perdido em outros braços.

Não.

Heleno era um caso. Igor era outro eu.

Sentia-me parte dele e as nossas mãos fundidas davam aquela sensação de continuidade – meu corpo continuava no seu corpo.

Meu silêncio fez com que ele me interrogasse com seus olhos lindos.

Sorri tentando apagar a lembrança de noites, corpos, gemidos.

Eu seguia tentando afogar os gemidos, cerrar as cortinas, fechar a porta de todos os quartos onde estive e cedi meu corpo e fui apenas carne porta-esperma perfume de juventude curvas boca de Afrodite cona de Lucrecia Bórgia dançarina do ventre gueixa.

Onde lavar-me para destruir cada digital na pele toda agonia de orgasmos que abriguei em troca de uma nota azul com uma garoupa estampada?

Igor tirou uma mecha de cabelo da minha testa.

– Só três semanas, Lyn.

(...)

Bárbara Lia

-fragmento de um romance inédito

La nave va...

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