Thursday, January 14, 2010

Lágrima

Penelope Dullaghan - Isolation Help

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Crescente

a lágrima
a lâmina
ceifa sorrindo,
no lodo,
o lírio.


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GIZ RENDADO
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O que a onda diz
ao cão sentado
babando moluscos
e saudades?
Como rasgar a onda
sem cicatrizar em azul?
Beber a ardência seminal
de amantes afogados
como quem engole
segredos guardados
entre debruns
de ondas
em seu giz rendado.

...


CÉU FULIGEM


era de aquarius


15.05.05


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Pensei: vou morar em uma lágrima.
E vi cenários de Kandinski atrás da cristalina dor.
Vi os retorcidos rostos detrás dos espelhos d’água.
Vi uma casa-banheira, eu sempre líquida.
Vi um teto vidro fosco, eu a olhar estrelas.
E quando secar a minha casa?
E como secar meu coração?


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Lágrima – Velho Tema

Jorge de Lima
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Ó lágrima bendita e santa e universal,
Eu te quero cantar, e este meu canto inspire-o
A feição que eu te dei, de intérprete geral
Da dor – de todo ser infalível martírio…

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Que processo te faz no minério em cristal,
E na gota que luz no cálice do lírio?
Talvez tenham os dois, uma tortura igual
À tortura que funde em lágrimas o círio.

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Seja embora ilusão, hei de sempre mantê-la:
- No côncavo do céu, há lágrimas astrais
E o bólide celeste é a lágrima da estrela!

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Malfadadas irmãs! – são lágrimas iguais:
A resina que cobre as árvores fendidas
E a lágrima de dor das íntimas feridas!


Wednesday, January 13, 2010

os poetas da ação

Como los pájaros, que cuidan de sus hijos al hacer un nido alto de los árboles y en las
montañas, lejos de los depredadores, las amenazas y peligros, y más cerca de Dios,
debemos cuidar de nuestros niños como un bien sagrado, promover el respeto sus
derechos y protegerlos. (Zilda Arns)

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Certa vez escrevi que os poetas do nosso tempo são os ativistas do Greenpeace e os Médicos Sem Fronteiras. Nossa médica sem fronteiras merecia - mais que Obama - O Prêmio Nobel da Paz. As incontáveis vidas que ela salvou com a Pastoral da Criança. A força que ela imprimiu a um movimento que alimentou as criancinhas pobres do Brasil e que seguia, alimentando mundo afora. Hoje é um dia triste. Ao mesmo tempo é o momento de agradecer e agradecer e agradecer pela poesia-ação e a fome de vida que cresceu no coração de Zilda Arns. Morreu em ação. Em movimento. Rima viva sem ponto final. Poesia que não termina, que segue sendo escrita por um movimento que criou raízes e que fez do Brasil um País menos doente, menos faminto, menos triste.

Tuesday, January 12, 2010

Árvore


Van Gogh
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Decreto:
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Proibido derrubar

qualquer árvore
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(exceto para

construir
berços
e violinos)

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AZUL NOTURNO .


O anjo louco do casario deserto,
era invisível feito música.
De noite subia na árvore.
De dia descia ao poço.

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A voz – imã de luz.
O perfume – avenca suave.
A sombra – azul noturno.
O olhar de mar – salgado.
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Anjo sem céu.
Anjo da terra.
Enlouquecido
de som e luz.

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(O sal das rosas - Lumme Editor / 2007)

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HABIB

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Cedros do Líbano, entre-folhas secretas

Gravam nosso idílio - Saara incendiado.

Dança do ventre - teu olhar tâmara ardente.

Corpos reluzindo azeite - deleite - estrelas

Do deserto espiam. Alá me guia!

Tens sabor de damasco,

Olhos egípcios, pele de sol.

Habib. Habib.

Sussurro no auge.

Luz bruxuleia - tenda ao luar.

Luar a nos enlaçar

Na luz azul.

Guardar o gozo etéreo - eterno.

Habib - murmuro. Teu corpo se queda

Saciado, em meu corpo. Movendo astros.



...

(...)

Acordo

E tem um rio podre

Em minhas veias

Rasga e acelera

Meu coração

Em mágoa coagulada.

Nas pessoas, não há sorrisos.

Nem esperanças de primavera.

E na luz do dia, me apavoro...

Rostos que olho e

Vejo cadáveres,

Meninos mortos, esqueléticos.

Árvores sangrando

Folhas negras

E vento rasgando a rua.

Os cachecóis coloridos

São forcas esgarçadas

E as calçadas, areias movediças.

A música enlouquece em

Guitarras estridentes.

Anjos satânicos dedilhando gritos.

O sol esfria nas artérias.

O aroma do pão fresquinho congela no ar

E não chega aqui, para me lembrar — é dia!

(...)

(Fragmentos)





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ARCO-ÍRIS BRANCO

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Pássaro bicou a paina

no galho alto,

repercutiu neve.

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Caías em mim

— arco-íris

branco

fragmentado

em sete tons —

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pele

sorriso

fumaça do cigarro

esperma

notas do violão

voz e alma.

(Noir / 2006)


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Link para o conto - Mulher na àrvore



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A Árvore da Serra
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— As árvores, meu filho, não têm alma!
E esta árvore me serve de empecilho...
É preciso cortá-la, pois, meu filho,
Para que eu tenha uma velhice calma!
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— Meu pai, por que sua ira não se acalma?!
Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!
Deus pos almas nos cedros... no junquilho...
Esta árvore, meu pai, possui minh'alma! ...
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— Disse — e ajoelhou-se, numa rogativa:
«Não mate a árvore, pai, para que eu viva!»
E quando a árvore, olhando a pátria serra,
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Caiu aos golpes do machado bronco,
O moço triste se abraçou com o tronco
E nunca mais se levantou da terra!

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Augusto dos Anjos

(1.884 - 1914)

- biografia -




Monday, January 11, 2010

Rosas


Magritte - Rosa
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jardim de rosas falsas
em valsa
céu azul Magritte

(pano de fundo
para esta dor
azeviche)


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O SAL DAS ROSAS
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Leito de um rio de sal.
Cresce em mim
o desnecessário.
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Apodreço em rosas.
Rio sem foz.
Lua duplo espelho
no coração das águas.

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Lembranças,
esperanças
naufragam abraçadas
no involuntário rio
onde acordo.
(O sal das rosas / Lumme Editor - 2007)
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DELANTE DE LA VENTANA, EL ROSEDAL

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Testamento enterrado

a la sombra del rosedal:
Le dejo mi guitarra

al vendedor de la panadería.

La hierba bendita

a la vieja del balcón.

La caldera

que silba Villa Lobos

al Fray Gustavo

que cose almas

los miércoles por la mañana.

El libro de poesía

de Augusto dos Anjos,

al cobrador del Expreso 022.

Firmado:
La niña de los ojos tristes.

Chico Buarque me llamaba de Carolina,

Pero era sólo un disfraz.

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Soy yo la niña

que vio el tiempo pasar en la ventana,

sin ver.

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DIANTE DA JANELA, O ROSEIRAL

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Testamento enterrado

à sombra do roseiral:
Deixo meu violão

para a balconista da padaria.

A erva benta

para a velha do sobrado.

A chaleira

que chia Villa-Lobos

para Frei Gustavo,

que costura almas

nas manhãs de quarta.

O livro de poesia

de Augusto dos Anjos,

para o cobrador do expresso 022.

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Assinado:
A menina dos olhos tristes.

Chico me chamava de Carolina,

mas era só um disfarce.

Sou eu a menina

que viu o tempo passar na janela,

sem ver.

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- O sal das rosas (Lumme editor/2007)



AS ROSAS MORTAS A ME CONTEMPLAR

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Quando eu era menina
tinha medo da cortina
que lembrava
o quintal do mal.
Era adornada de pecado
rosas em gritos menstruais
sangrando folhas descomunais.
Durante o dia eram bizarras.
Na noite me assombravam
formando rostos
na contra luz da lua azougue.
Eu farfalhava no colchão
cerrava os olhos
encolhia-me em posição fetal.
Nunca disse à minha mãe
(que trocaria a cortina – para minha paz)
Nasci de frente para os fantasmas.
Contemplo.
Não expulso.
Não acendo a lâmpada.
Enfrento.
No quarto escuro
(agora da alma)
os mil rostos
de rosas mortas
a me contemplar.
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A última chuva - (ME - 2007)

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LENDO CLARICE LISPECTOR


Mulheres
Sofrem meio às rosas
Espinhos escondidos
Em seus cabelos.
Seios nus
Beijados pelo amado.
Lençóis ao vento.
Vela de um barco
Onde o timão balança
Entre a neve
E a primavera.
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Todos sofrem:
A gota prata
Do orvalho na rosa
É lágrima fêmea
Que brilha
Enquanto sofre.

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(O sal das rosas - Lumme Editor -2007)

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Ela:

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Sépala, pétala, espinho.

Na vulgar manhã de Verão –

Brilho de orvalho – uma abelha ou duas –

Brisa saltando nas árvores –

- E sou uma rosa!

EMILY DICKINSON



La nave va...

"Não o convidei ao meu corpo" no Canal Senhora Literatura

  "Não o convidei ao meu corpo" no Canal Senhora Literatura da escritora Francine Cruz. https://www.youtube.com/watch? v=IxpCcdUM7...