Ontem encontrei Ana Miranda na Bienal do Livro. Ao acaso. Em 2002 eu estava em um debate e sentei na primeira fila. Só tinha comigo a programação do evento, mas, quis um autógrafo da Ana. Ana que iluminou meus dias com seus livros desde que li - Boca do Inferno - ela trouxe Augusto dos Anjos e Gonçalves Dias em outros relatos - A Última Quimera e Dias e Dias. O impacto da narrativa de Boca do Inferno foi imprescindível. Ali estava a Mestra. É assim que quero compor meus livros. Trazer toda a gente pra caminhar ao meu lado. Sim, eu caminhei. Eu vi Gregório de Matos e o Padre Antonio Vieira caminhando pela minha sala. Esta é a poesia em prosa. Faz muito tempo, desde então eu busco cada nova obra com ansiedade. Ana é suave, transborda calma. Na noite em que me aproximei pela vez primeira eu disse, li seus livros, quero um autógrafo. Ela perguntou meu nome e escreveu com cuidado - Para Bárbara, de olhar tão pristino e tão doce. Guardo com carinho. Ontem não pude ir ao Café Literário onde, ao lado de Márcio Souza, ela ia falar sobre o tema - Quando a vida vira ficção. Enfrentando o frio violento pela segunda vez, depois de embarcar em uma manhã de gelo para votar, embarco novamente nas brumas frias da quase noite para ir ver o Frei Betto que no Espaço Livre vai falar sobre Fé e Liberdade ao lado do Mario Sanches - professor de Teologia da PUC. Ana foi ouvir o amigo e eu a vi. Ela me sorriu e ficamos ali, um belo lugar para estar. Ouvindo Frei Betto e Mario - que eu não conhecia - percebi que existe sempre um lugar. Um lugar diferente para estar, onde os absurdos não ferem os ouvidos. Belo lugar para encerrar estes meses tristes. Um país perdido nas mãos de uma mídia indecente e despudorada Então eu estava ali, ouvindo duas pessoas tecendo paralelos entre ciência religião e liberdade e respirando belezas e sonhos para voltar ao caminho. Abracei o Betto e me armei de coragem para dizer oi pra ela. A Mestra. Nossa conversa foi rápida e frutífera. Coisas que ela disse para que eu gravasse com cuidado. Uma alegria. Quero ler Yuxin - Alma, seu mais recente livro. Sou indígena e tenho orgulho de ser. Vou gravar na pedra bruta do meu coração cansado as palavras trocadas com Ana Miranda. O cuidado que ela teve em dedicar seu tempo a uma escritora que começa. O cuidado que as pessoas de grande alma (Yuxin) mantém. Eu aprendi a reconhecer um escritor em carne viva. Ele vai ao seu encontro sem medo. Como ela me disse para me colocar inteira no que escrevo. O grande escritor está inteiro em sua obra e não tem medo. Voltei plena de Liberdade e Promessas. Pronta para os desafios.
Monday, October 04, 2010
Adriano Smaniotto
Vísceras à Vista - do poeta Adriano Smaniotto - é mais uma publicação da Secretaria do Estado da Cultura - Governo do Paraná.
Comemorar este livro do Adriano a poesia que tão bem define o Márcio Claudino na contra-capa:
Seu trânsito é feito (e efeito) desse hibrido transe, dicotômico, entre o acadêmico-críptico X boêmio-místico, o real das ruas X o mítico apolíneo da refinada consciência da literariedade do verso que forma o poema, com o requinte da atmosfera dionisíaca que engendra a poesia. Isto equivale dizer que ele está de bem tanto com o singelo, o pungente (via comoção essencial), quanto com a elaboração analítica (via apurada fruição artística), ainda que prime pela irreverência e picardia, algumas de suas marcas registradas.
Márcio Claudino
LIÇÕES DE AREIA E SAL
1. TERAPIA
eu fui ver o mar
pra lembrar do meu tamanho,
bem menor
bem mundano
ele falou gaivotas,
pedras antigas,
conchas ao meio
e de sua esquiva rota
a mesma e não
a cada dia
eu disse
perdão por ser pequeno
e achar que as coisas são
como eu acho que as coisas são
ele continuo dizendo
ondas vagarosas e perfeitas
siris que se escondiam
e que o vento é sábio
porque ensina com o silêncio
e aprende com desvios
acima
o céu não intervinha
ameno
dizia estrelas em nuvens de algodão
então,
eu vi que não sou melhor que os peixes,
eu que penso ser melhor que os homens
eu senti que não serei um milésimo do poente,
eu que já me acho um grande mestre
eu lembrei o valor dos pescadores
e da humilde gente
eu que sou da cidade de plástico
e vi que a vida é perfeita
porque não escolhe
a praia ou o campo,
esta ou aquela areia
ela apenas segue e se desenvolve
em busca de mais vida
e quando convém ao viver
ela morre
2. NIETZCHE HOJE NÃO
mar me ensine:
se eu disser raiva
diga praia mansa
se eu pensar em guerra
leve-me numa vaga
que me lance
dois mil e nove nós no oceano
para que eu me torne
menos que a água
e mais que a terra
humano, sem demasia, humano.
3. TARDE
dois moleques
com suas conchas colhidas
suas bermudas de areia
na praia que termina o sol
estivesse aqui minha sereia
e eu seria deles, um igual.
ADRIANO SMANIOTTO
Vísceras à Vista
SEEC PR/IMPRENSA OFICIAL DO PARANÁ 2010
Adriano Smaniotto - nasceu em Curitiba PR, 1975. Publicou - Vinte vozes de uma mesma veia (1999), Versejar a voz do ser é ser de si algoz (2000), em 2003 integrou a Antologia - Passagens - organizada por Ademir Demarchi. Formado em Letras pela PUC/PR atutalmente mestrando em Estudos Literários pela UFPR. Professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira.
Adriano vê na poesia uma forma de reflexão e revolta diante do mundo. Ama algumas pessoas, além e seus pais, e acredita no ser humano, apesar de nunca ter conhecido um.
Saturday, October 02, 2010
"Até que os serafins acenem com seus chapéus brancos" - Emily Dickinson
Não nasci para resfriar o mundo
Neste lerdo cortejo de omissões
Estas palavras interditas
Suspensas
Não vim quebrar as pernas do sol
Silenciar cada bemol
Não vim para arrebentar o anzol
Do velho de Hemingway
Sou Mar e Trovão no Coração
Nasci para Amar sem lastro
Para dançar no pátio
It is My Way
Bárbara Lia
2010
Friday, October 01, 2010
Arte final da capa - Constelação de Ossos - Ricardo Hegenbart
Constelação Lynx
detalhe da capa
Foto de Ricardo Hegenbart - modelo Larissa Heinzelman
A Constelação que dá nome à personagem do livro inspirou o detalhe da capa - no belo trabalho do Ricardo Hegenbart - este detalhe da tatuagem.
O meu desejo de imprimir um romance neste semestre e o desejo da editora Carmen Silvia Pressoto de publicar minha poesia se encontraram. O outro editor Vidráguas é também Fotógrafo e nasceu esta capa. Profana quase - Humana apenas -
. Estava lendo Trilogia Suja de Havana - Quem atinge o repouso em equilibrio está perto demais de Deus para ser artista - Pedro Juan Gutiérrez - Demorei muito tempo pra visitar Pedro Juan Gutiérrez e ele salvou o tédio de esperas infindáveis em aeroportos como se eu nunca mais fosse voltar para casa.
Fiquei grifando as palavras do Pedro Juan Gutiérrez:
"Fiquei muitos anos tentando me desprender de tanta merda que se acumulou em cima de mim. Não era fácil. Se você passar os primeiros quarenta anos de sua vida sendo um sujeito dócil, domesticado e acreditando em tudo que lhe dizem, depois vai ser quase impossível aprender a dizer "não", "vão à merda", " me deixem em paz"...
Trilogia Suja de Havana
Pedro Juan Gutiérrez
Alfaguara
pg. 28
Thursday, September 30, 2010
Belo Horizonte - Primavera - Estrelas - Imagens da noite do lançamento - Constelação de Ossos
Café com Letras
Com Sarah Vaz - Café com Letras
O Jornalista e Escritor José Aloise Bahia
Com
Eduardo Rennó e Dayane
Henrique - do Café com Letras - Recepção Maravilhosa - Gracias!
Meu amigo Isaias Faria e a Mõnica - poesia e chuva - encontros -
valeu!
Ao lado do Luciano Pelotti e da Mônica
Belô!!!!!!!
-
Wednesday, September 29, 2010
ontem em BH
voltando pra casa, depois mais imagens da noite da constelação - a foto é do Isaias Faria
Thursday, September 23, 2010
Poesia do Curitibano Márcio Davie Claudino
9
Nossos dedos
não trocaram alianças
nem fomos mais felizes
do que ainda podemos ser.
Somos apenas peixe e anzol, lua e sol,
num horizonte tardio
que se entreolham
num breve sorriso meio triste
cheio de suposições
que podem dizer muitas coisa e nada
ou qualquer clichê, como esse
de um poema que troca sua camisa desprezada;
Nossos dedos
não trocaram alianças
nem fomos mais felizes
do que ainda podemos ser.
Somos apenas peixe e anzol, lua e sol,
num horizonte tardio
que se entreolham
num breve sorriso meio triste
cheio de suposições
que podem dizer muitas coisa e nada
ou qualquer clichê, como esse
de um poema que troca sua camisa desprezada;
Wednesday, September 22, 2010
poesia de Minas
fotografia - Isaias Faria
da mesma forma
ele tem um jardim
que estampa bem a frente da casa.
dentro, o sol bate e faz as
paredes ficarem com bastante vida
por volta das 10 da manhã.
mas é muito estranho, confuso e
belo ao mesmo tempo,
porque tudo foi deixado como ela
gostava.
Isaias Faria
http://isaiasfaria.blogspot.com/
Mais poesias do Isaias Faria no Cronópios:
http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=4742
Sunday, September 19, 2010
O poeta
Bright Star retrata o amor de John Keats e Fanny Brawne. A veracidade do filme nos acolhe, é possível sentir o farfalhar das borboletas em um quarto branco a lembrar a eternidade do amor. Como se o poeta assinasse um atestado de vida, assim como assinam a morte da carne em atestados ele assinou o de vida. O que morre? Nada morre, nem Keats, nem Fanny, nem a poesia. As falas colhidas como se eu habitasse Keats - O que ele fala sobre a poesia, o nascimento dela, como quem sabe
- a poesia é uma experiência além do pensamento -
"A construção poética é uma carcaça, uma fraude. Se a poesia não vem naturalmente, é melhor que não venha"
- a poesia é uma experiência além do pensamento -
"A construção poética é uma carcaça, uma fraude. Se a poesia não vem naturalmente, é melhor que não venha"
O mundo está contaminado pelos discursos milenares, pela hipocrisia, pela era do - brilho a qualquer custo - O poeta sabe que é uma experiência de dor, abrir seu ser para conter multidões... Ser um outro... O poeta sabe e Keats sabia. O POETA vive a respiração da dúvida, a certeza de que não é nada, a angústia dos passos que o cercam, a incerteza de tudo. Os passos gastos perfurando a neve. É certo que ele viveu um período romântico, mas, é para o agora cada palavra:
"O poeta não é nenhum pouco poético. É a coisa mais antipoética que existe. Ele não tem identidade. Ele preenche continuamente outro corpo..."
Thursday, September 16, 2010
O ZAL DAS ROSAS
Título de livro é como nome de filho. Uma busca, uma dúvida e lá está - sem chance de retorno. Batizado. O que pensei nesta semana foi em algo inusitado. Uma segunda publicação de - O sal das rosas - ia ter um mudança pequena, uma mínima troca que eu já teria feito, caso tivesse lido há alguns anos o livro que leio agora - O funeral de Chopin, de Benita Eisler, ed. Planeta.
Na página 53 encontro a palavra. Lendo concentrada no ônibus para Paranaguá - terça - onde fui ver os monumentos e museus e bibliotecas para compor enredos e personagens do romance novo. Estava lá a palavra nova - ZAL. Eu mudaria o título de - O sal das rosas - pois cobriria de mistério e música com este adendo.
zal (essa palavra polonesa rica e intraduzível, carregada de todas as nuanças da tristeza, do arrependimento ao luto)
Andava com saudades de Chopin e foi muito especial ler um livro e conhecer sua vida de uma forma mais profunda. George Sand, Delacroix, Litz... E um lugar -Nohant- os amantes sempre tem um lugar, este espaço que se eterniza.
Lançamento de Verso para outro sentido - Felipe Stefani
FELIPE STEFANI
Eu vi o escasso tempo de malabarismos juvenis
A estalar a seiva acidentada da tarde,
A aurora pura entrelaçada ao meu próprio sono
Nos instantes precários de um segredo vago.
Na oblíqua solidez dos corpos
Abre-se a rosa inicial sem nome, turva e casta,
Impura como a brisa imaculada dos sonhos, da voz,
Em uma espécie de chamado.
Eu vi o estrondo de uma gloriosa infância,
A alegria que em mim eram crianças cintilantes,
Na tarde volúvel, onde o mar, em silêncio maior,
Faz dos corpos uma presença errante.
Devo amar calado o triunfo crepuscular da juventude,
Seus beijos ao mar e sua oferenda de mistérios,
Na rosa oblíqua de um chamado puro,
Na vastidão precária dos instantes.
Eu vi tudo isso e amei, sendo eu mesmo uma oferenda eclusa
Aos mistérios juvenis, que desafiam os segredos do mar.
tratado sobre o silêncio - Karen Debértolis
O silêncio dói muito mais na pele do inimigo que o grito.
Pousa, assim, cálido, como uma resposta sem pontuação.
Deita suave nas concavidades do ouvido.
Desconserta.
Hospeda pulgas atrás da orelha.
Arma afiada
Toque lancinante
Estratégia zen
Linguagem dos deuses da arte da guerra
KAREN DEBÉRTOLIS
- poesia extraída da coluna - "A Genética da Coisa" do site Germina:
://www.germinaliteratura.com.br/2010/ageneticadacoisa_karendebertolis_set10.htm
Pousa, assim, cálido, como uma resposta sem pontuação.
Deita suave nas concavidades do ouvido.
Desconserta.
Hospeda pulgas atrás da orelha.
Arma afiada
Toque lancinante
Estratégia zen
Linguagem dos deuses da arte da guerra
KAREN DEBÉRTOLIS
- poesia extraída da coluna - "A Genética da Coisa" do site Germina:
://www.germinaliteratura.com.br/2010/ageneticadacoisa_karendebertolis_set10.htm
Wednesday, September 15, 2010
diálogos poéticos
Na noite do lançamento de - Constelação de Ossos - a poeta Berenice Sica Lamas contou da poesia escrita após a leitura de - Solidão Calcinada - Inspirada na história de Pietra / Serena / Esperança e Bárbara. Recebi a poesia e publico. Estes diálogos que a Arte permite. A construção a partir da construção - o olhar sobre o olhar. A alegria com estes frutos pela passagem de - Solidão Calcinada - no Clube de Leitura -Rastros de um livro.
Poema das 4 geraçoes
Orfilia Rosa Marília Berenice
linguagem força fragilidade
mulheres
transgeracionais
gerânio pêssego jasmim
sombras e luzes umas sobre
as outras
leite mel e sal, historias
(des)construidas
possibilidades de
nuanças mudanças
irradiam
eu, pluri-habitada
evolui a desabitante
desmim
berenice sica lamas
julho/10
Berenice Sica Lamas:
http://www.artistasgauchos.com.br/portal/?id=90
Sunday, September 12, 2010
Constelação de Ossos
Jackson Pollock
O ar raspando o sangue seco da alma. Alma mutilada a minha. Sangue incrustado em suas paredes desde a infância, algumas feridas já cicatrizadas. Minha alma um painel de Pollock. Onde ainda não cicatrizara, a tinta escorria espessa. Por muitas noites eu não dormia. A cor que mais doía era o amarelo aflito, aquele amarelo gritante.
Constelação de Ossos
Bárbara Lia
(Vidráguas/2010)
pg.35
Kandinsky
Pensei: vou morar em uma lágrima.
E vi cenários de Kandinsky
atrás da cristalina dor.
Vi os retorcidos rostos
detrás dos espelhos d’água.
Vi uma casa-banheira
eu sempre líquida.
Vi um teto vidro fosco
eu a olhar estrelas.
E quando secasse a minha casa?
E como secar meu coração?
Bárbara Lia
À Sombra dos Murais em Flor
À sombra dos murais em flor
(para Frida Kahlo)
(Cravos na pele
Os seios
Os seios
A coluna jônica
A pele tolteca
Os pregos
Os pregos
Via crucis
Expiação)
Pinto em palavras
A tua dor
Vivo os maremotos sutis
As espinhosas horas
Que nos traz o amor
Pinto girassóis de aço
Espumas
Estrelas
Vou colorindo
Com vulcânicos
Abraços
A solene tela
(Riso-sol de meu Diego.
À sombra
Dos murais em flor)
Bárbara Lia
O sal das rosas/Lumme - 2007
Mondo Modigliani
Amedeo Modigliani
Paris e um amor
A voz de Piaf acorda
As pedras de um beco:
“C'est lui pour moi
Moi pour lui dans la vie”
Um passo uma dança
O peito tísico abraça:
Pele lunar de Jeanne
- A musa sem olhos -
Os bêbados rasgados
A lua amassada
E o triste passado
Do menino de Livorno
Bárbara Lia
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