Thursday, October 28, 2010

Solidão Calcinada




Moema Carneiro Solheid e Tatiana Alves alunas da Oficina de Jornalismo Cultural e Crítica Literária, na FCC, ministrada pelo Prof. Otto Winck, apresentaram dentro do projeto da Oficina o meu livro - Solidão Calcinada. Otto Leopoldo Winck foi vencedor do Prêmio da Academia de Letras da Bahia - Braskem - de 2005, com o romance Jaboc. A apresentação de Solidão Calcinada foi seguida de uma conversa descontraída. A escrita é mistério e a poesia é um mistério maior. Para mim foi um momento bonito. Espero que para os que lá estavam também. Os rumos de Solidão Calcinada pedem uma segunda edição. Considero que a publicação da SEEC foi o sopro primeiro para que minha prosa figurasse em páginas e voasse da minha gaveta de guardados. Um pouco arcaica esta expressão. Hoje em dia nossos inéditos estão em arquivos word ou pendrives.
O tempo me dá a certeza que minha poesia está atrelada à prosa. Escrever em prosa poética os enredos, histórias que nascem, personagens que ganham vida. Frei Betto disse que a saga de Pietra, Esperança, Serena e Bárbara é PROESIA.
Constelação de Ossos é PROESIA.
Atendi ao pedido delas para ir pessoalmente na noite do meu livro e conheci pessoas muito especiais e revi o Otto que está fazendo este belo trabalho. Foi muito bom ter dito SIM.
E, não. Meus romances não contam a minha história.
Minha Biografia devo escrever antes que - novamente - a pressão arterial vá parar na estratosfera. Antes que eu morra de tédio ou de felicidade. Penso que está na hora de contar a minha história. Ser personagem do meu enredo. Sim. Devo fazer isto para provar que sou sublime, como disse Fernando Pessoa.
Enquanto isto cada qual tece sua própria imagem da mulher e da poeta. E a vida sangra incompreensões arquivadas e alegrias novas.
Como o amanhã que vai nascer breve. Como encontros feito aquele de ontem falando do livro e de poesia. A canção emprestei do meu neto Arthur, tem apenas nove meses e já gosta do Renato Russo. Ele começou a dançar no meu colo quando a TV apresentou um comercial.
É certo que o sol chegou com o menino - meu neto que ama música e tem nome de poeta.



MAIS UMA VEZ - RENATO RUSSO


Mas é claro que o sol vai voltar amanhã
Mais uma vez eu sei
Escuridão já vi pior de endoidecer gente sã
Espera que o sol já vem.

Tem gente que está do mesmo lado que você
Mas deveria estar do lado de lá
Tem gente que machuca os outros
Tem gente que não sabe amar
Tem gente enganando a gente
Veja a nossa vida como está
Mas eu sei que um dia a gente aprende
Se você quiser alguém em quem confiar
Confie em si mesmo

Quem acredita sempre alcança!


Mas é claro que o sol vai voltar amanhã
Mais uma vez eu sei
Escuridão já vi pior de endoidecer gente sã
Espera que o sol já vem.

Nunca deixe que lhe digam que não vale a pena
Acreditar no sonho que se tem
Ou que seus planos nunca vão dar certo
Ou que você nunca vai ser alguém
Tem gente que machuca os outros
Tem gente que não sabe amar
Mas eu sei que um dia a gente aprende
Se você quiser alguém em quem confiar
Confie em si mesmo
Quem acredita sempre alcança!



Monday, October 25, 2010

SET


 

Meu nome é Zayin. Um signo, dos mais potentes. Símbolo sagrado para os filhos de Abraão (o imaculado que significa o Zayin) por mim vilipendiado e desonrado. Meu sobrenome – Neves. Zayin Neves. A sétima letra hebraica – Zayin. O Neves invertido – seven

E além do nome duplamente assinalado sinto que tenho a alma horripilante do meu duplo, o deus Set. O horripilante assassino que há dentro de mim ressuscitou na noite em que vi a mulher com o Zayin tatuado no lírio da pele. A ruiva do Bar Sossego.

A tatuagem dela na nuca raspada, abaixo dos cabelos de fogo, o símbolo (zayin).

Acho que nos olhamos por pura identidade. Ruivos. A pele enferrujada, os cabelos vermelhos e os olhos azuis como duas contas de vidro. Na mesa ao lado, quando ela se curvou para ouvir melhor um senhor que tentava falar mais alto que a música, sem conseguir, brilhou a tatuagem diante dos meus olhos. Negro no branco e acima os cabelos curtos eram uma chuva de fogo. Estremeci. Um desejo que rasgou meu plexo solar de forma dolorida. Um desejo.Eu campeão de desejos nunca realizados. Eu, o abandonado. Eu, o órfão, órfão sempre.Eterno órfão no sótão negro.

Um verso de Dante em chispas na memória, tal qual a fagulha elétrica que produz o encontro de dois fios desencapados... Nas chispas da memória entre o azul do atrito de fios desencapados eu, o menino no sótão mal cheiroso. Só, entre as réstias do sol que entra pela janela. Um e outro raio clareando a tessitura prata da aranha que era minha companhia.

Lendo livros que tumultuaram todos os neurônios em uma guerra caótica:

O certo o errado.

Deus e o demônio.

Céu e inferno.

Guerras e amores aflitos.

Uma sucessão de símbolos.

Um menino perdido no sótão com Clarissa, a aranha confidente, ela seguia meus passos rangentes pelo quarto pequeno, que observava meu caminhar, que respirava uníssono para não acordar-me nas noites. Sentia até mesmo a alegria em seu ego aracnídeo massageado cada vez que meu olhar celeste palmilhava cada milímetro da sua teia.

O verso de Dante sacode o mar interior.

Não. Nunca tive um Virgílio a palmilhar o reino da escuridão que se chama viver.

Ela estanca diante da minha mesa. A moça tatuada.

- O senhor já escolheu?

- Uma Bohemia.

Na hora de pagar a conta não consegui me conter.

- Que horas termina teu turno?

- Dez da noite...

- Se importa se eu te esperar? Meu carro é aquela Pajero, cor violeta...

Aponto para a rua. Diante do bar o carro embaixo de uma árvore, no escuro noturno, com sua cor estonteante – violeta - sétima cor do arco-íris.

- Ok!

Ok. Amava o século das condescendências.

Sorriso fast-food.

Tudo à mão na hora que se quer...

Ok, ok ok ok ok ok ok ok ok ok

Fui dizendo ok da minha mesa ao interior do carro, liguei o rádio.

... We are de champions, my friends...

Há quanto tempo não ouvia Queen?

Noite sete de confusão interior.

Quase viro a chave na ignição e esqueço a ruiva tatuada que deve deixar dentro de alguns minutos o trabalho.

O ódio vence.

O casarão nas imediações do Lago Barigui era herança da mulher para quem meu pai me entregou, ela era enfermeira.

Aquela que me alimentava pouco e me trancava no sótão escuro.

Na meia-idade, quase chegando à velhice, cativou um solitário.

Na adolescência a guinada súbita e o estranhamento.

Ficar rico de repente.

Minha mãe postiça era alma gelada.

Sem têmpera.

Sem cor.

Bege.

Nada mais cruel que uma pessoa bege.

São as pessoas beges que criam os monstros, são as pessoas beges que descolorem todas as pinturas do paraíso.

Para que eu pudesse ter uma vida sempre calma, ela disse sim ao senhor embora estivesse brilhando no olhar a ausência do amor e do desejo e do tesão.

Mas já havia fantasmas demais no meu sótão, vômito de harpias, coco de morcegos, mênstruo das serpentes antigas.

Quando a ruiva abriu a porta e me olhou e sorriu como uma ovelhinha que segue o carniceiro.

Meu pensamento voou até meu quarto, onde, por puro acaso estava uma caixa com pequenos envelopes de estricnina.

Minha sala poderia ser a sala de um apartamento do centro de Nova Iorque.

Minha sala se dava ao luxo de ter um quadro de Portinari, um piano branco e uma leveza que fez a menina arregalar os olhos.

- Vinho?

- Nooooosssaaaaa! Que linda a tua casa?

- Olhando esta estrutura de pedra antiga ninguém imagina um mundo moderno aqui, não é?

Por um momento imaginei um instante normal.

Um homem e uma mulher, o vinho, uma trepada cinematográfica, descobrir a temperatura da pele, embora eu pressentisse que ela era uma daquelas pessoas que armazenam gelo na superfície, estas que quando se abraça nada se sente.

Na segunda vez que derramei o vinho, derramei a morte, e esperei que ela morresse silenciosamente no sofá.

O silêncio da noite era quebrado pelo som alto da sinfonia, para que não ouvissem o meu cavar à luz lilás da lua, abaixo do imenso pé de ipê.

No meu banheiro cinco estrelas eu tocava meu corpo, o sexo murcho, sem demonstrar nenhuma reação, desde o instante no bar quando pedi a cerveja até o instante que a última pá de terra a soterrou.

Coloquei uma roupa esportiva e fui correr no Parque Barigui.

Depois do crime, da manhã estranha, do almoço inquieto, do banho e do chá de melissas. Lembrei Flor.

Flor de Lis.

A menina do sobrado ao lado da casa tétrica onde me enfurnavam no sótão - tardes e noites – a casa onde eu vivia como um abandonado.

Mas, aos sábados a madrasta abria as asas e se fazia humana, e eu podia brincar no quintal de Flor, diante do olhar de sua mãe.

Flor de Lis foi o meu refúgio divino naquela infância de pedra.

Acho que o último comboio que levou Deus para sempre do meu mundo foi o mesmo que levou Flor de Lis.

E eu me sentava aos sábados na varanda e montávamos jogos e tomávamos chocolate quente e biscoito.

Nada me faria esquecer Flor.

Ela saltitando na única neve curitibana, seus braços abertos e a neve, seu gorro branco branco branco, suas mãos me chamando para o quintal, e nossas mãos meninas tecendo o boneco eternizado naquela foto que adorna o meu quarto:

- duas crianças, um boneco de neve, uma casa azul ao fundo –

Uma alegria pequena na minha face sempre tão agressiva.

Depois das tardes de Lis, eu me recolhia ao sótão, ao fúnebre ar daquela casa, e me enrolava naquela colcha de retalhos, de tantos retalhos de tantas cores, que eu já decorara cada milímetro e dormia esperando o sábado.

E desenhava a flor que era seu nome, e meu quarto era inundado da flor da real flor da monarquia francesa.

A vida era leve com Flor, e só sobrou mesmo voltar à companhia da aranha, depois do drama, do fim.

Lembro que não chorei, pois estava estático - dentro e fora.

Uma mão de ferro embalsamando cada músculo meu.

Não me lembro de mover um músculo, nem uma lágrima, nada.

Minha infância e suas perdas ininterruptas.

Pai Mãe e Flor.

A ferida mortal no cérebro extirpou-a tão rápido da cena, com raiz e tudo...

Ficou a doçura de histórias e tardes e uma foto que prendeu meu olhar pelo resto de um sábado inteiro.

O que Flor diria a seu amigo louco?

Minha náusea ao lembrar a menina e a vida pura fez com que eu corresse e vertesse minhas golfadas no banheiro.

Vomitar até sentir que eu saíra de mim.

Depois guardar a foto dela entre as toalhas perfumadas.

Nos jornais por meses a pergunta era sobre o desaparecimento.

A cada dia eu acordava com toques de campainhas e toques de celulares, mas, depois era só o bem-te-vi e olhando da janela eu via a árvore e as folhas lilases beijando a terra e o ar calmo das manhãs foi lavando o medo.

Matar, no entanto, é soltar o trenó do alto da montanha de neve.

Eu havia acionado a minha descida ao inferno, sem Virgílio, sem Dante, e pior, minha Beatriz estava mesmo no céu, com nove anos e um vestido azul.

Só lembrava depois de cada morte que sempre era sete, que eram peles de lírio e que eu tinha um rasgo de lucidez, pois apanhava as vítimas sempre onde não havia ninguém, testemunha alguma, sempre na solidão, eu a mulher branca e o ódio antigo.

A gótica chorando sentada no monumento do centro histórico. Largo da Ordem. O cavalo babava silenciosamente. Nunca entendi aquele cavalo que baba, que simbologia estranha, a água não saia de cântaros, nem da boca de peixes. Mas, da boca do cavalo, a escultura era só a cabeça e vertia água pela boca.

Fim de tarde de um dia sete na Estrada Graciosa. A moça parada e o carro quebrado. E o mesmo jeito estranho de segurar os cigarros – como a madrasta - não como todo mundo entre os dois dedos. Ela segurava como a madrasta. Unindo polegar, indicador e anular, e tinha o mesmo jeito de sacudir os ombros. Dizia que Deus me mandara.

Naquela manhã acordei com ressaca e tomei um banho rápido e tomei um suco de laranja. Quando meu corpo caiu no azulejo frio, em um átimo de segundo compreendi. De onde vinha aquele “açúcar”. Na euforia do momento esqueci três pequenos pacotes do veneno no criado mudo. A última mulher, com ela fiz amor. A boca quente dela e suas mãos tateando meu corpo, tudo isto me fez esquecer o resto.

No outro dia estava lá a diarista, Rita. Rita, a mão de vaca. Pude ver Rita confundindo o pacote com aqueles que eu trazia nas viagens. Rita, a econômica. Pude vê-la balançando a cabeça e colocando o pó no açucareiro. Último som que ouço - gargalhadas trazidas pelo vento, flores roxas adornando-me, a porta da cozinha aberta, e o vento depositando riso lilás na porta. Estendi a mão para discar o número de emergência, e no meio do meu torpor, o mundo todo esgazeado, uma ciranda abaixo da árvore.

Uma ciranda de mulheres brancas e aladas.



-BÁRBARA LIA-

Conto premiado no I Concurso Literário 'Contos Grotescos' - Prêmio Edgar Allan Poe


O amor dorme na terra nua, às portas das casas, ou nas ruas profundas por debaixo das estrelas do céu, partilhando sempre a pobreza da sua mãe… No espaço de um dia ora se revela vivo e brilhante, ora à beira da morte.

.



O amor é pobre, magro, mal apresentado, sem sapatos, sem domicílio, sem outra cama que a terra, dormindo sob as estrelas, sem cobertores, junto das portas e nas ruas, irremediavelmente miserável, imitando a sua mãe.



.



No mesmo dia, ao mesmo tempo, o amor é florescente, pleno de vida, e tudo o que é grandioso abunda nele, antes de desaparecer e morrer, antes de reviver de novo.

Platão, O Banquete

Friday, October 22, 2010

como quien contorna un río donde se bañó el amado









No piso las hojas cálidas,
ésta alfombra
aterciopelada
que pulsa
en vida y savia.


Es como pisar el amor
ya tan pisoteado.


Rodeo veredas
de Ipés desmayados
como quien contorna
un río donde se bañó el amado.

Bárbara Lia

Thursday, October 21, 2010


Toulouse-Lautrec




Uma só rosa no meio do inferno é o paraíso.
Eduardo Lourenço escreveu isto, um poeta lusitano.
Uma só rosa!
Rosa sub-rosa extra-rosa proto-rosa magma-rosa ex-rosa.
O furor daquela mulher desabrochou em uma rosa UNA. Os  pelos dela nuvem lassa entre as coxas brancas - nuvem caramelo - pelos perfumados qual o coração. Afundava as narinas entre os pequenos lábios abraçado às suas coxas e cheirava como a um alucinógeno - o céu o céu o céu. Afastava a cortina de fogo  brando e violava sua flor acesa. O coração trôpego querendo alcançar o céu da boca... Estes são os dias em que as aves se debruçam para olhar uma cena e morrem de infarto. Estouram na calçada, pássaros caídos do nada. Mortos após contemplar a orgia amorosa plena.

- Coreografia do Caos
BÁRBARA LIA
21 gramas/2010



Wednesday, October 20, 2010

Tuesday, October 19, 2010

Homenagem - Cláudio Bettega

30 de outubro, às 16h00,  "Pleno x Vazio"
Café Leite Quente e Poesia
Café do Paço
Paço da Liberdade/SESC Paraná


Elisson Silva - Orientador de Atividades do Sesc Pr - Paço da Liberdade convida poetas e amigos do Cláudio Bettega para uma homenagem no dia 30 de outubro. Cláudio estava escalado para,  junto a Luis Carlos Leme Franco, declamar poemas no projeto tratando da temática "Pleno x Vazio". O evento se transforma agora em uma homenagem ao poeta e ator.

Saturday, October 16, 2010

Constelação de Ossos








Na presença da candura materna eu mergulhava as mãos na terra negra e a ajudava enquanto ela plantava sua horta. Na casa de Layla havia o jardim que alimentava o espírito; na minha casa havia a horta que não permitia que a fome viesse e se sentasse na cadeira vaga.

A cadeira vaga era de Manuel. Manuel não viveu mais que um ano, mas, minha mãe nunca o exilou para o reino dos mortos. Meu irmão mais velho que eu não conheci.

Foi na horta, enquanto ela retirava um pé de chicória que eu perguntei pela primeira vez a razão de meu nome.

Eu tinha sete anos e estava um pouco assustada com a reação na escola. Era a primeira vez que aparecia por lá uma aluna que se chamava Lynx. Minha mãe segurou minha mão e me levou para a cozinha. Um pé de chicória na outra mão. Depositou na pia a hortaliça e começou a lavar suas folhas de um verde amargo. Nunca mais comi chicória depois que ela se foi, fiquei com a impressão de que o céu tinha aquele gosto amargo. Chicória com óleo e sal e os pingos de limão-rosa que ela adicionava. Com paciência só dela começou como sempre fazia, dizendo que tudo deveria começar... Do começo.
- Um gosto amargo de céu - pg. 9

Constelação de Ossos
Bárbara Lia
coleção Anáguas - Vidráguas 2010
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a venda deste livro é via internet - quem desejar o livro entre em contato:



Wednesday, October 13, 2010

O COMEÇO DA BUSCA





Nephelibata


convida para o lançamento de sua nova coleção, O começo da busca, coordenada por Floriano Martins, apresentando seus três primeiros títulos:



O caracol privado, prosa poética de Aldo Pellegrini

O portão dourado, contos de Jacob Klintowitz

Autobiografia de um truque, prosa poética de Floriano Martins



Na ocasião também serão lançados outros dois livros:



Suspenso e alheio, de Jéferson Dantas

Jogo de sombras

, de Ian Curtis (organização e tradução de Gleiton Lentz)



Estarão presentes na noite Floriano Martins, Gleiton Lentz e Jéferson Dantas.

Serão projetados alguns vídeos de Floriano Martins.



Dia 20 de Outubro às 20hs

Taliesyn Rock Bar

Rua Fernando Machado, nº 36 Centro

Florianópolis
Santa Catarina

(48) 9916-9578

http://www.taliesyn.com.br/

www.hagah.com.br/sc/florianopolis/local/267699,2,taliesyn-rock-bar.html

Tuesday, October 12, 2010

PIETRA - 1910



    chafariz preventorio



Paquetá



Segunda-feira



Dialectos solares somam-se às notas do violino do vizinho. O estranho Sr. Cassius. Enclausurado em sua casa a genuflectir o espanto em notas que nos levam a passear pelo jardim de Vênus. Música que estanca diante do pórtico nítido da agonia com suas centelhas de notas graníticas. Paquetá, prisão que me abriga. Dilacerações nocturnas - saudades do Rio de Janeiro. Das conversas na varanda sentindo o aroma das romãzeiras.

Agora o silêncio reina, mas, ainda vibram no ar as notas do senhor Cássius que passa os dias dedilhando músicas em uma plangência que dói fundo na alma e me deixa mais triste. Mais triste por estar nesta praia, enclausurada, enquanto no Rio minhas amigas vão à confeitaria e às compras.

Nossos passos pelo quintal triturando folhas. O jardim mal-cuidado e papai recomendando que mamãe procure um jardineiro na ilha.

Lygia deve estar, neste momento, na confeitaria Colombo. Seus pais conversam e ela percorre o salão à procura de um galante rapaz.

Gestos de nobreza segurando a ponta do talher com delicadeza. Quase deixando escapar por entre os dedos. Levará muito tempo para comer sua torta. A luva de renda. A roupa que farfalha e o olhar dos pais, impacientes, à espera que ela termine a torta. À espera que seu olhar deixe de flanar pelo ambiente de sons metálicos da Confeitaria Colombo à procura daquilo que uma garota sonha: Um cavalheiro belo de olhar gentil.

Eu aqui – cobalto magnífico, maresia. Não posso negar as belezas desta ilha. É por pouco tempo - diz mamãe - só para seu pai se recuperar desta anemia e deste cansaço.

Imploro que Chronos altere a ampulheta universal e acelere estes dias para que eu possa senti-los como um sopro, um sussurro, e voltar correndo para o meu Rio de Janeiro, minhas amigas, minhas aulas, o piano, os passeios...




   foto André Rocha


Terça-feira


 
Eu, a olhar as empíreas barcas. Eu, a erguer os olhos ao alto, às nuvens em alucinada dança. Aglutinadas formam acima de mim uma clarabóia azul. E eu penso que se minhas mãos alcançassem alto, eu poderia empurrar a porta e entrar na paz dos anjos em um lugar onde a dor não mora. Viver lá no jardim eterno a beber o néctar da felicidade... Um papiro imaginário rasga-se diante dos meus olhos. Os pensamentos loucos dos meus dezessete anos que não quer as noites orgíacas das orquídeas piromaníacas. Meu ser que vacila diante da trajectória que me leva a uma forquilha que obriga a decidir para que lado seguir... Neste meditar volto a olhar o céu e os chumaços de algodão se expandem, desfazem a clarabóia, a minha possibilidade de alçar o éden. O súbito azulejar fere de luz meus olhos, tropeço na areia fria.

Uma dor profunda rasgando os tendões do meu tornozelo. Uma dor que me fez gritar e ficar lá atirada na areia. Meu grito chamou a atenção de Angélica. Ela voltou em desabalada carreira. Meu pai doente e branco como uma folha de lírio me tomou em seus braços e me levou para casa.

Ervas, ervas e meu pé enfaixado. Dor insuportável.

Mamãe trouxe-me uma sopa fumegante e fiquei a tarde toda olhando a paisagem com um livro perdido em minhas mãos sem conseguir concentrar-me.

Ter esta idade e pensar – o que é vida?

Mamãe olha-me com olhares repletos de cenhos franzidos. Com perguntas morrendo em sua garganta. As palavras quase saem, mas, fica lá como um náufrago que não suporta o furor das águas. O que deseja dizer-me?

Já quase morria o dia. Um divino silêncio precedeu à miragem. Como se anjos viessem à frente para trazer-me este instante. E a cortina bailava em sua cor suave, clara, límpida. Hora do ocaso. O horizonte de fogo lançando chamas sobre o mar, uma nova noite, um novo alento, e a cortina bailando, e o vulto de meu pai diante da casa e o outro vulto se aproxima e lhe diz:

— Boa Noite!

E as horas todas resfriam em algum lugar do Universo. Tudo pára.

Paquetá nem ao menos respira e a voz ecoa como um piano de pétalas. Uma voz de uma planície aveludada. Meus olhos perdidos entre as rendas da cortina em um vulto alto, porte de elegância britânica, um homem belo, de cabelos de ouro.

Eles conversam. Apuro os ouvidos e ouço.

Já não me arrependo do dia em que entrei na barca da Companhia Ferry, no caís Pharoux. Bendigo o instante e guardo o eco da voz. Quem é aquele homem?

Belo, não muito jovem. Olho ao redor e saio pulando em uma perna até à varanda. Posso ver um vulto que veste um costume impecável dobrar a esquina com uma sobriedade de príncipe. Meu pai abre o portão e me diz:

— Pietra, você não pode ainda sair da cama!







Quarta-feira



Amo tamarindos e os coqueiros à beira-mar em festa, como que saudando esta minh’alma nova de súbita presença envolvida em música que se chama – voz de um estranho.

Tudo ressalta belo diante dos meus olhos neste dia de azul inesquecível: o café com leite quentinho, o pão que estala em minha boca e me faz pensar que a vida é esta amplitude de sonhos. Um olhar que não sei a cor, uma voz que jamais esqueço.

O tornozelo dói. Ainda dói como se meu coração trafegasse em seus ligamentos. Agora a dor não me apavora é como se fosse parte de um ônus. Suporto a dor ante a visão de ontem. Ante a descoberta do príncipe andante.

Perscruto meu pai e quero perguntar quem é. Quem é aquela criatura que estancou diante do pequeno portão branco? Que voz é aquela? Existe, ou imaginei, após o delírio da queda.

Papai lê na varanda, um processo, com atenção absoluta. Como vai descansar se trouxe trabalho para a ilha?

Angélica se conforma em ficar trancada em casa em um dia de esplendoroso sol. Cuida-me com jeitinho materno. Pergunta-me se dói, onde dói, coloca sua boneca de louça na cama e salta ao meu redor.

Seus cachos negros, adornados de fita rosa sacodem na saliência de sua dança e não permite que eu divague na lembrança do ausente cavalheiro que ainda dobra aquela esquina, ainda caminha como um Lord, ainda cobre de mel a calçada com o rastro de sua voz. Até a música soturna do vizinho não mais me chateia, nem as pulsações das dores da queda, nem aquele incômodo mensal que surge na praia, que surge talvez do susto da queda, que surge e me deixa assim plena de dores.

Mas não foi preciso perguntar, nem interrogar quem era. Ele é ilustre. Ilustre – a palavra que papai utilizou.

O ilustre Senhor Giancarlo. Ele diz e uma rocha de gelo se aloja em meu peito.

— O ilustre senhor Giancarlo...

Continua meu pai a enumerar para minha mãe os cargos daquele que tem a voz mais bela que ouvi na minha pouca vida, e a dizer aquilo que faz ancorar uma geleira em minh’alma.

— Sabe, Anita. Giancarlo está vivendo sozinho na ilha. Deixou um advogado amigo encarregado de seus negócios e está recluso, tentando se refazer da tragédia.

— Tragédia?

Perguntou mamãe, enquanto eu ansiava pela resposta mais do que ela própria.

— Sim, a esposa dele se atirou ao mar. Temia uma doença, que segundo os médicos a mataria aos poucos, e acelerou o fim.

As palavras de meu pai projectam diante dos meus olhos a cena que a seguir se dissolve como flecha coagulada...

Circunlóquio do espanto, suspiros, leques aflitos, diademas arfantes em seios suspirantes. A beleza da voz dele: — Boa noite! Entra na cena que meu pai narra. A voz dele arquitectura sonora da beleza.

Recolho-me ao quarto e procuro entre os pontos do bordado e as notas áridas do vizinho Cássius uma explicação para este solar crepitar da alma.




 
 
Quinta-feira

Gosto de divagar em cenas que eu nem sei se serão reais, um dia. Mas, em meu coração e alma, naquele instante elas são nítidas, cristalinas e, portanto existem. Em meu coração existem.

Eu estava vestida de um vestido da cor da areia de Paquetá. Eu tinha os negros cabelos caídos em ondas pelo meu ombro. Eu erguia o meu vestido até os joelhos e caminhava devagar pela dor da queda da semana anterior. Quando abri a porta da sala o tempo parou diante da imagem. Ali, olhando uma escultura de um anjo barroco estava o jovem Giancarlo. Soltei as bordas do vestido e me pus a contemplar o corpo dele dos pés à cabeça. Ele vestia branco. Os cabelos estavam crescidos como se fosse um desleixo. Como se ele não se importasse mais com a aparência. Sem saber que aquele ar descuidado dava a ele uma ternura selvagem.

De relance percebi que ele não fazia a barba há dias e quando ele virou-se a primeira coisa que vi foram suas olheiras profundas. Os olhos eram de um verde violento, um mar revolto, uma tempestade. Fiquei parada diante dele com a pele banhada de sol, os cabelos soltos, o vestido molhado de mar e sem conseguir articular uma palavra.

— Bom dia Senhorita...

— Pietra.

— Senhorita Pietra. Como estás? Sou Giancarlo, amigo de seu pai.

Sorri sem saber o que dizer. Desejando desaparecer dentro dos meus trajes e ressurgir em noite de gala com os cabelos adornados e a pele cuidada e então ele veria. Sim, ele veria que eu era bem mais que uma garotinha correndo em uma praia. Murmurei alguma coisa e saí correndo para a cozinha, esquecida da dor. Odiei aquele primeiro encontro. Queria que o impacto da minha visão fizesse com que ele descobrisse um outro sonho em mim. Uma outra mulher para amar. E ele viu apenas uma garotinha que brinca na praia, de cabelos soltos, mal-cuidado, uma menina com nome de Pedra.

No almoço ele se portou gentil, respeitoso diante de meus pais. Por um segundo pensei sentir o peso de um olhar em mim, enrubesci, mas acho que sou uma menina que constrói sonhos do nada.






Sexta-feira


Minha mãe disse algo ontem sobre esses amores que terminam como o dele. Que nada pode substituir esta perda, pois ele a perdeu no auge do amor e que ninguém poderá convencê-lo de que amar de novo vai valer a pena. Mamãe começou a divagar sobre Shakespeare e sua genialidade em matar tanto Romeu quanto Julieta, eu não sei. Mas, não foi Shakespeare quem matou Romeu ou Julieta, ele apenas escreveu uma lenda. Ele contou uma história. E na verdade não foi Shakespeare quem matou ninguém. Ele era um poeta na alma e ele foi escrevendo o que as pessoas lhe contaram, não criou a história, apenas verteu ao papel.

A sua poesia foi que venceu os séculos. Não seria a mesma coisa se um tolo resolvesse escrever sobre os apaixonados mais famosos do mundo. Ou se outro escrevesse sobre o príncipe da Dinamarca...

Penso que a arte é este mistério onde um homem como Shakespeare é capaz de transformar em inefável beleza as lendas do mundo. As coisas simples. Bem como Michelangelo eternizar o belo com suas mãos sagradas.

Penso em coisas amenas, e penso que não devo dizer nem mesmo a Lygia que meu coração foi arrebatado de amor por um homem mais velho, um príncipe inacessível. Penso que as coisas não são tão simples como em meu mundo imaginário.

Que existe um véu de aço entre o homem belo e as criaturas. Que pode estar certa minha mãe sobre esta dor que está aninhada em seu coração.

Foi com estes acordes profundos, rascantes como a música do meu vizinho Cássius que sai a caminhar pela ilha a me despedir de suas pedras e palmeiras e até mesmo das ondas do mar.

E lá estava eu apreciando a morte do sol. Vendo o fim do dia quando alguém tocou em meu ombro e eu me voltei. Cascatas de sons, noturnos extraviados de sinfonias de amor.

Era Giancarlo, o triste.

— Buonacera, senhorita Pietra...

— Como está o senhor?

— Bebendo a brisa da tarde. Gosto dos crepúsculos. É sempre neste momento que saio para passear. Muito bela sua família, Senhorita Pietra...

— Gracias, senhor Giancarlo.

— Digo isto embriagado de uma nostalgia sem fim...

— Aceite minhas condolências, senhor, meu pai contou-me que perdeu sua esposa...

— Poderíamos ter tido uma família assim como a tua. Mas, Henriqueta não podia ter filhos. Com o tempo percebi que nossa felicidade não seria abalada por isto. Quando começamos a divagar sobre a possibilidade de adotar uma criança, Henriqueta recebeu a noticia de que sua saúde estava muito frágil...

— Sinto muito...

— Ela precipitou-se, menina Pietra...

— Por favor, não me chame de menina.

Ele colocou seus olhos de mar em mim e eu soube que entendeu todo o vendaval. A valsa dos sentimentos rodopiando pela minha pele, meu coração, minh’alma.

— Certamente, senhorita.

— É que já tenho dezessete anos.

— Sim, eu me lembro de quando tinha dezessete.

— Também não gosto de zombarias...

O meu sangue fervia. Estava até mesmo desejando que ele me decepcionasse para que eu pudesse apagar tudo aquilo, quebrar o encanto.

Estava começando a ficar irritada, quando ele pousou, novamente, a mão nos meus ombros e disse de forma carinhosa.

— Não estou zombando de ti. Só estou tentando dizer que não há pressa em crescer, Pietra... O mundo é cruel demais para quem se torna homem, mulher, adulto, enfim... A felicidade mora neste tempo, não deixe de vivê-la. O tempo vai varrer isto de ti, e eu queria que você fosse feliz por mais tempo e não quisesse pular a linha dos anos, é só isso...

Ele pousou delicadamente a mão em meu rosto e me acariciou.

O calor dele ficou impregnado em mim.

Ele sorriu e seguiu em silêncio pela praia.

Fiquei vertida em líquido desejo diante do mar e do dia que morria e dos olhos dele e da palma que valsou em minha pele e de uma saudade que jamais eu deixaria de sentir enquanto fosse Pietra e enquanto vivesse ele estaria ali diante do mar a me sussurrar que a vida é bela aos dezessete, e jamais esqueci.


BÁRBARA LIA
Capítulo: Pietra, 1910 - do livro SOLIDÃO CALCINADA - publicado pela Imprensa Oficial do Paraná

As fotos foram gentilmente autorizadas por Jacques Azicoff
responsável pelo Projeto Pró-Memória da Ilha de Paquetá Acervo Histórico e Iconográfico:


a foto do barco solitário é de André Rocha

La nave va...

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