Monday, August 15, 2011

O SORRISO DE LEONARDO





Criei uma página com poesias do meu primeiro livro - O sorriso de Leonardo - O livro foi lançado no dia 15 de dezembro de 2004, dia do aniversário do meu filho Thomas e do poeta Marcos Prado.




Sunday, August 14, 2011

CONSTELAÇÃO DE OSSOS

CAPA DE GELO EM SUAS ASAS DE VIDRO
A primeira poesia que fiz eu tinha dez anos. Tomada de uma tristeza estranha ao ver uma abelha morta coberta por uma fria camada de gelo no vaso de antúrio que existia nos fundos da casa. Mortificava-me o medo das abelhas nas tardes de primavera temendo uma ferroada, temendo a dor que era ser picada por uma delas. Elas chegavam sempre apavorando a minha infância. Ficava temerária esperando o instante da dor. E no final, a dor foi outra. Vi uma abelhinha morta em uma flor vermelha. Uma camada de geada a cobria, como o açúcar que cristalizava os doces que minha mãe fazia. Sob o gelo ela estava inteira. As asas de vidro e o corpo amarelo forte. Amei aquela abelha como quem ama pela primeira vez. Quis ressuscitá-la, mas, estava nítida a sua rigidez, sua vida estancada em um inverno, petrificada. Não recordo os versos, a poesia se perdeu. Falava de uma amizade desperdiçada, por medo, por puro medo de enfrentar a sua natureza. Minha professora disse que era filosófico demais para uma menina da minha idade. Depois disto, cada descoberta, ou perda, ou alegria ou dor, eu delineava em versos. Catarse. Pura catarse. Quando cresci, aprendi que a poesia merecia certo apuro e um carinho estético. Então eu comecei a compor poesia com cuidado, pura reverência. Guardei-as, guardei-as por anos a fio. Como quem guarda um pedaço de sua alma em uma concha secreta.

Constelação de Ossos
ed. vidráguas / 2010

Saturday, August 13, 2011

Tem um pássaro cantando dentro de mim


EM CARNE VIVA




Um poeta em carne viva
abriga a terrível pulsação
de um coração-estrela
e um silêncio
encravado nas entranhas
como filho bastardo
que nasce
à revelia do seu canto

Um poeta em carne viva
pisa as pedras
imaginando-as
seda da China

Um poeta em carne viva
é um louco no tribunal
das almas de chumbo:
culpado sempre

Culpado de ser humano da fala ao falo

Bárbara Lia
Tem um pássaro cantando
dentro de mim
2011

Wednesday, August 10, 2011

Chuva de Maçãs

Chuva de Maçãs

arvoredo sereno do paraíso
adão e eva:
chuva de maçãs

serpente amada
pele de sal
no silêncio da noite

pedra no caís
murmúrio de ondas
gaivotas. o espírito santo

sopra do mirante
e teu lábio me aquece
drops de hortelã

Bárbara Lia
2002





William Blake

Monday, August 08, 2011

Uma ponte para Maputo

Uma grande alegria ter enviado para Maputo alguns livros.
Para o  acervo em formação do Movimento Literário Kuphaluxa os livros:

A última chuva
Constelação de Ossos
Tem um pássaro cantando dentro de mim

A poeta Ana Rüsche se encarregou de levar os livros para Maputo - 32 kg de afeto - como ela nominou. Livros de autores brasileiros para Moçambique.
Ana passou alguns dias em Maputo, sua ida narrada aqui na Revista Literatas. Gracias a Ana Rüsche por levar estes exemplares, espero um dia pisar areias de Maputo como escrevi naquela poesia antiga.

PROJETO: 32 kg de Afetos contrabandeados em Papel
de 1º a 5 de agosto de 2011
Ana Rüsche cumpriu extensa programação entre entrevista, oficina literária e palestras... Mais notícias nas páginas de Maputo:













Friday, August 05, 2011

A flor dentro da árvore

“O gelo da morte na vidraça”





Láudano para as dores reais
estas que bailam
nos olhos ejaculados

Para as dores invisíveis
chá de espectros
na chávena em chamas

Nunca me livrarei
dos vampiros anêmicos
Nunca os expulsarei
da mesa rústica
de sal e conchas

Ao meu redor
a dança alucinada -
reverso do tango:

Ódio amornado em mel
Ódio guardado vaporoso
Ódio consagrado em si bemol

Purpurina enfática cai
Nas feridas frias
Como manto de rainha bastarda -
Azul - de ódio adulterado

Bárbara Lia

Wednesday, August 03, 2011

The Edge of Love - a única coisa mais perigosa que a guerra é o amor




"A primeira visão que incendeia as estrelas"

O primeiro amor incendeia as estrelas? I don't no. Neste caso fico com o soldado William que apostava no último amor. Inverno e o filme que narra os relacionamentos do poeta Dylan Thomas, quando ele reencontra, em plena Segunda Guerra, o seu primeiro amor. Um quatrilho explosivo. A esposa verdadeira Caitlin. Vera, o primeiro amor de Dylan, e um soldado (William) que fica obcecado por Vera e a pede em casamento antes de se mandar para o front. Muita poesia jorrando na tela...




AMOR NO HOSPÍCIO






Uma estranha chegou
A dividir comigo um quarto nessa casa que anda mal da cabeça,
Uma jovem louca como os pássaros


Que trancava a porta da noite com seus braços, suas plumas.
Espigada no leito em desordem
Ela tapeia com nuvens penetrantes a casa à prova dos céus


Até iludir com seus passos o quarto imerso em pesadelo,
Livre como os mortos,
Ou cavalga os oceanos imaginários do pavilhão dos homens,


Chegou possessa
Aquela que admite a ilusória luz através do muro saltitante,
Possuída pêlos céus
Ela dorme no catre estreito, e no entanto vagueia na poeira
E no entanto delira à vontade
Sobre as tábuas do manicômio aplainadas por minhas lágrimas deâmbulas.


E arrebatado pela luz de seus braços, enfim, meu Deus, enfim
Posso de fato
Suportar a primeira visão que incendeia as estrelas.


DYLAN THOMAS(tradução: Ivan Junqueira)





Dylan Thomas nasceu em Swansea, no País de Gales, a 27 de outubro de 1914. Considerado um dos maiores poetas do século XX em língua inglesa, juntamente com W.Carlos Williams, Wallace Stevens, T.S. Eliot e W.B. Yeats


Dylan e sua esposa Caitlin

Monday, August 01, 2011

Lezama


Começar a semana com este fragmento do livro de Luis Eustáquio Soares
- José Lezama Lima - Anacronia, Lepra, Barroco e Utopia (Edufes)




Hay, pues, una dimensón última en el hombre, donde ya se le regala el espacio gnóstico, donde ya se le vuelve favorable "lo otro sagrado", es decir, lo invisible, lo irreal, la infinitud, buscan su momentánea transparecia, el signo en la materia, o ya la posibilidad en la infinitud.
(Lima, la posibilidad en el espacio gnóstico americano)

(pg; 47 de José Lezama Lima - Anacronia, Lepra, Barroco e Utopia)


Até aqui li apenas dois livros de Lezama - Paradiso e La cantidad hechizada. Neste último ele fala de um poeta cubano - Juan Clemente Zenea - e da narrativa que Zenea fêz do Crepúsculo. Colhi a poesia Chiaroscuro da nitidez estampada, no livro, de um horizonte de fogo:



CHIAROSCURO

Bárbara Lia




Hora suspensa. Horizonte de sangue.
Despediu-se o sol, não brilha a lua.
Barcas estremecem em marés de fogo.

Sinos dobram a Ave-Maria.
O Bem chora a evaporação do dia.
Lágrimas de anjos pela humanidade crua.

Encontro e fuga de almas no ocaso,
Bebendo o sangue solar – poção
De luz para os dias de aço.

Crepúsculo incendiado.
Átimo de esperança: Um Serafim alado,
Flauta de estrelas flana acima de algas e corais.

Toca a música divina estremecendo cristais.
(Jazz, blues, salsa cubana, sinfonia?)
Som azul unindo sangue celeste e marinho.

Serafim, flauta e sol
Evaporam em silêncio de prece.
A branda noite abraça o arrebol.

O eco da flauta aos puros adormece.

Sunday, July 31, 2011

21 Gramas



BREVE NOVIDADES NO PROJETO 21 GRAMAS
contato - barbaralia@gmail.com
Para quem não conhece o projeto dos livros artesanais, o histórico está blog:
http://edicoes21gramas.blogspot.com/

Poesia / Terapia nas madrugadas




vou passar a madrugada em poesia enlaçada nas estrelas e debruçada sobre a Via Láctea...
ontem passei a madrugada acordada só para ouvir a chuva e ver o clarão na cortina a cada raio aquela música antiga e aconchegante de infância e seus odores a cada raio nas tempestades minha mãe queimava um ramo bento e clamava por Santa Bárbara com um temor qual de Fernando Pessoa e abraço esta natureza bruta e quero repetir nas madrugadas um banho de poesia, terapia sem trégua para voltar a ter a mesma ternura daquele menino do filme que acabou de passar no Canal Brasil... Corpos Celestes. Lindo, de poesia derramada em saudade das cidades pequenas onde vivi, do Brasil tri-campeão, do meu pai colocando seu teodolito no quintal a me erguer com suas mãos fortes para que eu pudesse olhar as crateras da lua, não era um telescópio, era o instrumento com o qual ele media terras... e este amalgama de chuva e estrelas e esta vontade de repetir o ritual e voltar a buscar a poesia em uma cena, uma frase, um céu de estrelas e um gramado, deitar de costas, deixar que os astros me soterrem...
belo filme do Marcos Jorge e Fernando Severo, uma constelação de atores curitibanos e aquela sensação gostosa e adocicada, comendo arroz doce na sala, acompanhando a trajetória do menino triste espalhando astros...


http://www.corposcelestes.com.br/



Wednesday, July 27, 2011

o gênio na cinemateca


29 a 31 de julho
15h45, 18h e 20h
Cinemateca de Curitiba
Entrada franca



a mentira é a melhor é a melhor amiga das artes
nela, gelatinosa, as glosas seculares
minúcias de paisagens inexistentes
um coração onde cabe um milhão diferentes

dondoca de agora, amanhã de coturno
segue sempre os passos de um antigo perjuro
a arte imita a arte que imita tudo
e é profunda, é verdade, bem no fundo

mas somos piores que os pintores de florença
ridículos comparados aos poetas de provença
michelângelo cagaria em cima de nossas estátuas
bethoven se limparia com as nossas pautas

que é a nossa dança diante de um delírio índio?
que é um soco nosso perto de um clay vindo?
por que, se finda é a arte, continuar mentindo?
repetir o que se repetiu de novo se repetindo?


(Marcos Prado)


Sunday, July 24, 2011

Percepções (diário de Magnólia)

No silêncio da noite a tela do computador enegrecida. Estava saturada do virtual. Queria o mundo real e sua respiração primeva. Tinha anseios de pisar de novo o chão, andar descalça como menina, andar sem medo da sujeira, sem medo de ferir a sola, sem medo.


Medo era a palavra do milênio.

Viver mergulhada em um mundo medroso era a angústia suprema.

No entanto, não via poetas escrevendo odes ao medo.

Estavam escondidos os poetas.

Em suas catacumbas ou em suas torres de marfim?

Andava a procura de um poeta maldito que subisse em um monumento e vociferasse um canto que fizesse mais alarde que o balé das pombas na Praça Santos Andrade.

A poesia escassa, o ar escasso, o amor escasso...

Sonhou percepções, ansiou-as como um doente terminal ao soro salvador.

Retirar da cartola lentamente as percepções primeiras.

Bebeu uma jarra inteira de suco de maracujá lembrando a exótica flor do maracujá no quintal da infância.

Bebeu cada estriada luz lilás dos filamentos da flor.

Respirou uma sinfonia de Beethoven, acendeu o incenso de eucalipto e desejou que o mundo todo pintasse o amor verde-azul, as noites estreladas de Van Gogh, a poesia em um quadro que a fizesse crer que era bem mais a vida que a ausência de ar e de poetas. Escrevia suas poesias em um livro de capa grossa azul que não mostrava a ninguém. Passou dias e dias bebendo poesias lembrando o tempo das percepções:
 
 
Bárbara Lia
Percepções - 21 gramas 2010

Percepções (diário de Magnólia)

Primeira percepção

A noite é perfumada





A menina Magnólia vivia como se fosse alma.


Hoje a realidade a prega no chão bruto, piso marrom manchado de vinho, janela com cortina bege e vista para o bairro.

Vista para a cidade cinza.

Magnólia sempre foi alma.

Sempre usou o corpo como um títere.

Manejava acima o enredo seu: escolhia a música e a poesia.

O corpo era instrumento amorfo.

Vivia com a alma.

Percepções.

A primeira percepção da menina – A noite é perfumada.

Respirava a noite.

Calçada estreita de cimento cinza e lateral de tijolos díspares como dentes encavalados.

A fila de tijolos ocres cercando a calçada cinza quase branca e acima dela mais brancas ainda as pequeninas flores e mais acima e mais brancas quiçá, as estrelas.

O perfume era imã para a felicidade.

De dentro da casa a luz não era irritante como as deste século.

Ligeiramente avermelhada como o brilho das sementes de romãs.

No rádio uma música de seresta, ou uma viola sertaneja.

A noite é perfumada;

Nunca soube se de mínimas flores ou de estrelas aquele perfume.

Mas guardou a imagem intacta na tela:

A menina magrela com vestido de babados de tecido anarruga branco.

Cabelos curtos, uma franja bonita na testa sábia.

Saltitando entre uma chuva de pequenas pétalas em uma estreita calçada.


Bárbara Lia (Percepções - 21 gramas/2010)

desenho - Ane Fiuza

Percepções (diário de Magnólia)



desenho - Ane Fiuza


Segunda percepção

A luz se move.






Vaga-lumes são faróis terrestres.

Siameses de estrelinhas verdes.

Espiões de meninas travessas.

Detrás das árvores de flores brancas eles abduziam Magnólia.

Piscavam, enfeitiçavam.

O lusco-fusco magnético fazia com que ela estendesse a mão, sempre impossível alcançar a luz.

Ninguém ensinou à Magnólia como colher vaga-lumes e estrelas.

A primeira vez que Magnólia entrou solenemente na vida, era esta a percepção:

Uma calçada clara clareada de chuva de mínimas flores brancas, a árvore florida e ao lado dela uma janela com luz estranha lembrando o miolo de romãs. Vaga-lumes distantes de seus dedos frágeis.

Magnólia colecionava palavras e não sabia qual a sua primeira palavra.
A mãe jamais dissera.

Por isto imaginava que sua primeira palavra tinha a ver com flor e luz e inseto que incendeia em lusco-fusco.

Talvez tenha sido um suspiro sua primeira palavra.

Ou uma interjeição: Ah!

O que mais pode expressar o sentimento de inserção...

Talvez tivesse repetido o som da flor que cai suave branca na calçada branca...

E este som ainda era o prenúncio de que o paraíso está ali na esquina.

Andava com prenúncios de paraíso ouvindo o som da flor que cai.


Bárbara Lia
Percepções / 21 gramas - 2010

Percepcões (diário de Magnólia)






Terceira percepção

As árvores dançam




Os olhos fixos na paisagem. Sensação inversa. Não é o carro que anda são as árvores que dançam em câmara ligeira. Velocidade 8 x mais. No espelho dos olhos verdes de Magnólia o verde de vento e copa e folhas e galhos.

As árvores dançam.

Como se um pintor passasse o pincel e o retirasse rápido respingava a tinta da tarde de cada cena que se move.

As árvores pálidas do inverno, sol filtrado dentro e os olhos bebendo a dança das árvores.

Não sentia o movimento do veículo. Não sentia o corpo trepidar na estrada de barro. Apenas o vôo orquestrado na retina, um rodopio de floresta, e então Magnólia percebeu na manhã de outono pálido – as árvores dançam.

Percepções
Bárbara Lia

Percepções (diário de Magnólia)






Quarta percepção

A alma é um beija-flor



A alma tem o peso de um beija-flor.

21 gramas?

Sabia depois de Guillermo Arriaga e de seus enredos únicos. Finalmente o cinema americano tinha alma, embora fosse alma de um mexicano. Tinha alma e ela pesava 21 gramas.

Na infância a percepção da alma trazia um estranhamento que a tirou do tédio.

Então somos algo mais...

Mais que barro, bem mais que terra & água modeladas por um Criador.

O sopro de Deus tinha 21 gramas de ar e inflava dentro esta angústia ou esta sensação de hosana.

Sabia que a alma pesava pouco quando era feliz. Elevava-se a potências infindas quando vinha a dor. A dor aumentava o volume metafísico do elemento que nos aproximava de um éden.

Magnólia não gostava de perder tempo pensando no éden. Achava um desperdício viver em função do desconhecido.

Achava enganação acreditar no perdão e em reinos que cobririam todas as dores...

Em um final de inverno, ela veria o beija-flor.

A um palmo de seu rosto.

Penugem de veludo verde escuro olhos mínimos negros.

Esteve mais próxima do beija-flor que jamais estivera de outra alma.

Um diálogo de olhares de Magnólia com o beija-flor:

- Voas?

- Por vezes...

Foi o que Magnólia pensou em resposta à súbita interrogação.

Para provocá-lo pensou – sabendo que eles lêem mentes como todos os pássaros...

- Minha alma tem o peso da constelação Ursa Maior -

O beija-flor arregalou os olhos negros e teve pena de Magnólia.

Sabia que faltavam apenas cinco horas para que ela mergulhasse no inexorável abismo – Amar até o fim...

Ela queria tocar o veludo verde que cobria o corpo mínimo e ele se foi sem que ela tivesse tempo de estender as mãos.

Bárbara Lia
Percepções
21 gramas /2010

Thursday, July 21, 2011

L'amour ça sert à quoi ?


Magritte


Porque Era Ela, Porque Era Eu
Chico Buarque


Eu não sabia explicar nós dois
Ela mais eu
Porque eu e ela
Não conhecia poemas
Nem muitas palavras belas
Mas ela foi me levando pela mão
Íamos todos os dois
Assim ao léo
Ríamos, choravamos sem razão

Hoje lembrando-me dela
Me vendo nos olhos dela
Sei que o que tinha de ser se deu
Porque era ela
Porque era eu

L'amour ça sert à quoi ?




La vie en noir

Cantar a dor – Piaf
Pintar a angústia – Kahlo
Esculpir a mágoa - Claudel


Não me afasto dos mitos
Escrevo o abandono
Com a coluna partida
La vie en noir

Bárbara Lia

L'amour ça sert à quoi ?

Camille Claudel posando para Rodin





Rue Notre-Dame-des-Champs
Recordas?
Entre nós não foi apenas valsa
Como a que dancei com Debussy
E talhei em mármore.
Não foi espanto apenas
Como meu olhar azul na onda
- Fuji ao fundo -
Terna reverência à Hokusai.
Lampejos de esperança – nosso encontro -
Sem saber que em minha vaga
Ao tecer crianças prestes a um naufrágio
Reproduzia o meu destino trágico
Mas, com minhas mãos pequenas
Esculpo apenas o que pulsa
Cão criança mulher amado.
Amado!
Raptado pela rosa fendida
Rose, meu espinho
Tu, carinho que eu perdi
Entre as vagas e a maré de egos.



Rue Notre-Dame-des-Champs
Recordas?
A minha agonia que nem podia
Esperar o novo dia
Estar em tua porta
Deitar-me
Natureza morta
Para que me eternizasse
- Danaide -
Sem saber que meus dedos
Iam moldar meu alienado fim:
Rupturas e súplicas.
Espanto em rostos de Ninfas
Medusa, Castelãs, Crianças.



Rue Notre-Dame-des-Champs
Tua criança amorável eu era
Dezoito anos, olhos de céu no dia da criação
Lábios sensuais em flor. Comecei a esculpir
– Pés, pés, pés...
Sem saber que dentro
Da alma fera e feminina
Esculpia um coração de vidro
Sem imaginar que um dia
A onda mais alta e brilhante
Me soterraria –Viva!

Bárbara Lia
Para Camille, com uma flor de pedra
21 gramas/2010

L'amour ça sert à quoi ?

imagem do site a place in the sun




O amor é uma sombra.


Como você chora e mente por ele.

Ouça: estes são seus cascos; fugiram, como cavalos.

 
fragmento de Olmo - Sylvia Plath

L'amour ça sert à quoi ?








Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas lhe lembrava sempre o destino dos amores contrariados.

Havia revistas e jornais velhos em todos os cantos, pilhas de negativos em placas de vidro, móveis quebrados, mas tudo estava preservado da poeira por mãos diligentes. Embora o ar da janela houvesse purificado o ambiente, ainda persistia para quem soubesse identificá-lo o rescaldo morno dos amores sem ventura das amêndoas amargas.

“Não faltará por aqui algum louco de amor que lhe dê a oportunidade um dia destes.” E só ao dizê-lo percebeu que entre os incontáveis suicídios que lembrava, aquele era o primeiro com cianureto que não tinha sido causado por um infortúnio de amor. Algo se alterou então na sua maneira de falar.

- Quando encontrá-lo, preste bem atenção – disse ao praticante: – costumam ter areia no coração.



Gabriel Garcia Marquez in O Amor nos Tempos do Cólera

La nave va...

"Não o convidei ao meu corpo" no Canal Senhora Literatura

  "Não o convidei ao meu corpo" no Canal Senhora Literatura da escritora Francine Cruz. https://www.youtube.com/watch? v=IxpCcdUM7...