Saturday, September 15, 2012

O livro do desassossego - Bernardo Soares



Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. Faço férias das sensações. Compreendo bem as bordadoras por mágoa e as que fazem meia porque há vida. Minha tia velha fazia paciências durante o infinito do serão. Estas confissões de sentir são paciências minhas. Não as interpreto, como quem usasse cartas para saber o destino. Não as ausculto, porque nas paciências as cartas não têm propriamente valia. Desenrolo-me como uma meada multicolor, ou faço comigo figuras de cordel, como as que se tecem nas mãos espetadas e se passam de umas crianças para as outras. Cuido só de que o polegar não falhe o laço que lhe compete. Depois viro a mão e a imagem fica diferente. E recomeço.
- O LIVRO DO DESASSOSSEGO - Bernardo Soares.


Friday, September 14, 2012

Viva!





Não posso publicar o que escrevo, pois vai para um concurso.
Não posso falar sobre o que escrevo. Segundo meu amigo Frei Betto, não dá sorte. Além do mais, acabo delatanto um livro que precisa ficar inédito.
Fico publicando poemas de amor...
Não devo publicar meu poema de amor que está na Antologia - Amar, verbo atemporal - Não acho ético.
Assinei um contrato de cessão de direitos. Fico aqui com o meus versos antigos e nada de novo que eu possa dar aos meus leitores.

Pensei em um blog que criei onde postei algumas poesias do livro - O sorriso de Leonardo - Uma pequena amostra do livro. Poesias ilustradas com Desenhos e Telas de Leonardo da Vinci. Boa leitura! Boa tarde! Estou viva, compondo uma obra. O sol anuncia uma primavera amena. Tudo está em seu lugar. 


Thursday, September 13, 2012

Eles falam de amor - Eugenio Montale




Desci um milhão de escadas


Desci, dando-te o braço, ao menos um milhão de escadas
e agora que aqui não estás é o vazio a cada degrau.
Mesmo assim foi breve nossa longa viagem.
A minha dura ainda, já não me ocorre pensar
nas conexões, nas reservas,
nas ciladas, nos vexames dos que crêem
que a realidade é aquilo que se vê.

Desci milhões de escadas dando-te o braço
e não porque com quatro olhos talvez se veja melhor.
Contigo as desci porque sabia que de nós dois
as únicas verdadeiras pupilas, ainda que tão ofuscadas,
eram as tuas.

Eugenio Montale 
(1896-1981)
Prêmio Nobel de Literatura - 1975

(tradução Equipa "O Ponto de Encontro")
poesia encontrada neste link do site Luso Poemas

Tuesday, September 11, 2012

O Centauro no Jardim






O CENTAURO NO JARDIM
Sou uma esfinge
leoa-mulher
e amo
um centauro em um jardim.
Morreria por ele.
De herança:
minha pata-leoa.
minha mão escritora.
A mesma que tocou os cabelos
do mitológico ser
e o amou
um amor enjaulado
um amor siderado.
Dói amar um ser
que cavalga em poesia
que grita belezas no silêncio…
A esfinge se cala
e entrega
de mão beijada
o centauro amado
a quem jamais
o amou assim.
Bárbara Lia
(Leitura poética do livro O centauro no jardim, de Moacyr Scliar)


Há mais de dez anos uma poesia surgiu logo após a leitura do livro - O centauro no jardim - Não sei dizer qual livro vai gerar versos. A maioria se completa ao final da leitura, alguns ficam martelando dentro da alma, uma palavra, uma inquietação... A leitura só termina quando nasce o poema. Estes diálogos acontecem com filmes, com telas, com outros poetas. O centauro no jardim segue ilhado no jardim, não entrou em nenhum livro meu. Fico meses e até anos sem pensar no livro e na poesia e como um filho distante que chega sem aviso ele retorna: A visita nostálgica.

Tuesday, September 04, 2012

Volva

Serviço:


Exposição: Volva de Andrea Nardi, Eleonora Gomes, Lourdes Duarte, Milena Costa e Raquel Camacho.
Abertura: 17.08. 2012 às 19h
Exposição até dia 23 de setembro de 2012
Local: Museu Alfredo Andersen
Rua Mateus Leme, 336
Curitiba/Pr.
http://grupoovo.blogspot.com.br/


O Grupo Ovo tem como uma de suas principais inquietações o universo feminino: os mistérios de seu corpo e da sua subjetividade. E nada é mais instigante para uma pesquisa estética, do que o rito de passagem representado pelo nascimento.
Volver ao local de origem da vida, a experiência única de nadar no líquido amniótico, sentir-se aconchegado, e finalmente vir para a luz, é o convite para essa viagem inusitada que nos fazem as artistas Andrea Nardi, Eleonora Gomes, Lourdes Duarte, Milena Costa e Raquel Camacho. (Izabel Liviski) -
Ler o texto completo sobre esta exposição no site Contemporartes no link abaixo. Fragmento do meu poema - Cigarras no Apocalipse - integra este projeto, evidenciando outro nascimento - o nascimento do poeta... Até dia 23 de setembro no Museu Alfredo Andersen. Vamos lá!
 

Monday, September 03, 2012

05/09 - Dia da Amazônia







Decreto:
Proibido derrubar
qualquer árvore

(exceto para
construir
berços
e violinos)

Bárbara Lia
in Tem tem pássaro cantando dentro de mim (2011)


Greenpeace:
http://www.greenpeace.org/brasil/pt/

O ritmo da prosa



Saudades da mulher ávida que se sentava nas platéias e bebia com ansiedade cada palavra dos seus autores mais amados. Lembro de ouvir Ana Miranda dizer que ficou nove anos pesquisando, sem sair com amigos, sem vida social, debruçada em documentos e encerrada em Bibliotecas na pesquisa que propiciou aquela obra maravilhosa - Boca do Inferno. Eu estava encantada com o livro, com a autora que estava em minha cidade. Recordo estes dias como o bálsamo primeiro, o sopro, a poesia. Eu buscava os ícones para me espelhar em seus caminhos. O mundo virtual onde todos caimos torna quase uma lenda esta mulher (Ana) em um lugar, desconectada do mundo, cobrindo a mesa e a cama com toda a papelada que vai engendrar uma história magnífica. Insisto. Por pura teimosia de virginiana e guerreira - Insisto. Por isto, eu calo meu blog, não estou presente em tanto alarde que permeia as redes, fico aqui nesta trincheira do ontem, cultivando um enredo, pois eu ainda sou a menina de doze anos a voar nos verões de ouro no balanço rústico da casa feliz, compondo aquela certeza de que um dia seria escritora. Sinto saudades de ouvir algo que espelhe a vida de um escritor tal qual eu presumia. As manhãs caladas, o batuque das letras, o mundo descortinando o novo. O ritmo da prosa é este. Por estar neste ritmo eu não estou postando aqui. Neste ano a poesia brilhou aqui e ali - Os sonetos dialogando com Fernando Pessoa nas páginas do Rascunho. A publicação de A flor dentro da árvore. O Prêmio Cataratas que me levou ao evento em Foz do Iguaçu no mês de Maio. O convite de Celina Portocarrero que me levou ao Rio para festejar a Antologia - Amar, Verbo Atemporal. Penso em voltar ao verso como quem volta ao amante mais desejado. Por enquanto é a prosa, o ritmo lento, a pesquisa, o apego ao silêncio. Lá fora a vida literária é puro alarde. Muitos acreditam que é preciso ser visto para ser lembrado. Eu penso que só uma obra de valor pode fazer qualquer autor ser lembrado em qualquer tempo. Se a Literatura deixar de ser o que até aqui tem sido, prefiro me isolar para sempre. Quem não é visto não é lembrado para mim tem cheiro de pop pobre e equivale a dizer que tudo vale a qualquer custo. Que graça tem isto? Que graça tem se a magia maior é o momento da criação? E só ele importa e sem ele nada há. Mergulho nele e faço deste momento a minha Festa. 

Saturday, September 01, 2012

Sáfaras noites bárbaras...


fac-simile da poesia - Wild Nights - Emily Dickinson



Tradução da poesia está na página de Emily Dickinson no link acima, em tradução de M. C. Ferreira:







Sáfaras noites bárbaras! 
fosse eu por ti 
vi'king's - cenário e fúria 
nossa luxúria! 

Correr coxias 
Donne's - compassos - 
porto in'seguro 
e cuor ingrato! 
De um bote ao éden 
THALASSA! THALASSA! 
possa essa noite ricochetear 
maremotos!

Emily Dickinson
trad. M.C. Ferreira

REPRESENTAÇÕES DA MULHER NA LITERATURA DE AUTORIA FEMININA PARANAENSE: UM OLHAR SOBRE A NARRATIVA DE BÁRBARA LIA - Adriana Lopes de Araujo






Texto publicado em:
Anais do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura / V Seminário Internacional Mulher e Literatura - disponível em PDF na Internet link AQUI

Página onde é possível ler todos os textos:
http://www.mulhereliteratura.com.br/


Sunday, August 26, 2012

21 Gramas






21 gramas - Livros artesanais - Inventário poético by Bárbara Lia.

A flor dentro da árvore - Bárbara Lia






http://www.musarara.com.br/a-flor-dentro-da-arvore

Tem um pássaro cantando dentro de mim - Bárbara Lia







PEQUENO TRATADO DA DELICADEZA


p/Rodrigo de Souza Leão





Rimbaud te espera
No barco bêbado encalhado
Em um mar crispado de turmalinas
- lágrimas dos poetas -
Nas mãos, duas taças de absinto
Para brindar a vida fera
Dois homens de branco
Ancorados na beleza
A repartir
O fogo santo
O espanto
O canto
O eterno canto
Dos poetas...
- Por delicadeza
Perdi minha vida -
Por delicadeza
Entregamos a vida
Aos escarros
Por delicadeza
Entregamos a carne
Aos caninos ávidos
Por delicadeza
Atravessamos a bruma
Com lírios brancos
Nos braços

Rimbaud sempre à espera
Para brindar
A eterna primavera

Bárbara Lia
Tem um pássaro cantando dentro de mim (2011)
p32

Constelação de Ossos - Bárbara Lia

foto do poeta Isaias Faria


http://paliavana4.blogspot.com.br/2011/01/12.html

texto no blog do poeta Darlan Cunha

A última chuva - Bárbara Lia



DESDÊMONA

 
Olhou-me como nuvem
A sugar os vapores
Da minha alma
Por que ele é meu deus
Guardei-o em um lago
Onde Iago
Jamais chegará

Bárbara Lia
A última chuva (2007)
Mulheres Emergentes Edições

Solidão Calcinada - Bárbara Lia





http://solidaocalcinada.blogspot.com.br/2009/07/escrita-de-mulheres-izabel-liviski.html

O sal das rosas - Bárbara Lia






KAMIKAZES 




Doze kamikazes

arrastam a delicada açucena. 



Doze kamikazes.



As lágrimas descem

feito fontes. 



Nenhuma música

de anjos sonoros,

nenhuma. 



Nas nuvens que passeiam,

exausto de tédio, atira longe

o grão da maldade – o dragão da guerra. 

Bárbara Lia 
O sal das rosas / Lumme editor 2007 
  
  

Noir - Bárbara Lia





PROFANA
A cor do amor é branca,
e o amor tem uma covinha do lado direito do rosto
e o amor me olha como alguém
que jamais vai tirar a minha calcinha
e gozar o céu dentro de mim.
O amor sempre vai me olhar
como se eu estivesse num altar de papel.
Para o amor, eu sou uma rima
e rima não tem vagina.
Para o amor, eu sou uma ode
com uma ode ninguém fode.
Eu sou um verso alexandrino
jamais tocado pelo herdeiro deste nome.
Eu sou a palavra, e a palavra, a palavra é Deus
Deus ninguém come, mas,
será que beber
pode?
BÁRBARA LIA (NOIR - ed. independente-2006)

O sorriso de Leonardo - Bárbara Lia




Publicado em 2004 - 14 poesias - Livro de Bolso




O sorriso de Leonardo - Bárbara Lia

 
 
Dissecar cadáveres
Para buscar
A perfeita anatomia
Libertar pássaros
Nos mercados
Da Itália renascentista
Beleza clara
Cabelo e barba
Emaranhados
Luz em desalinho
Toga cor-de-rosa
Levita na pele
Suntuosa de gênio.
- Inocência serena -
Leonardo - in carbon -
Copiando a própria beleza
Em sorrisos negados
Sorriso de Leonardo
Inauguraria um novo sol
Aplacaria o brilho do astro
Seu sorriso imaginado
Seus quadros incendiados
Nos conduzem enquanto
Vamos dissecando o verbo
Com fúria encantada
Desejo leonardiano
De libertar o poema
E revelar a musculatura exata
De cada palavra

La nave va...

"Não o convidei ao meu corpo" no Canal Senhora Literatura

  "Não o convidei ao meu corpo" no Canal Senhora Literatura da escritora Francine Cruz. https://www.youtube.com/watch? v=IxpCcdUM7...