Thursday, April 23, 2015

Dia Mundial do Livro


Imagem do filme - O Leitor




Dia Mundial do Livro.
Nunca consegui escolher o - meu livro favorito.
Quando escolho um autor, logo em seguida outros chegam, invadem minhas veias, hospedam-se para todo sempre... Algumas vezes meu corpo é um edifício com tantos moradores que acabo por ser expulsa, fica esta gente toda a me habitar sem cerimônia. Alguns chegam e vão embora, demoram a voltar, mudados, uma outra vida, outra história. Escritor é um camaleão atravessando séculos e almas... Hoje vive em Roma, amanhã lá na Patagônia. Há muito tempo eu vivi em Santiago do Chile, embalada pela capa escura de Neruda, flanando ao redor de uma estudante para quem ele escreveu vinte poemas de amor e uma canção desesperada... Atravessei a Rússia em poesia,  um dia materializei-me em um bar esfumaçado e vi Isadora e Iessiênin. Ouvi o som de tantos corações de poetas que quando deito tem sempre um bumbo no meu ouvido. Somos tão loucos que os corações não param, nem mesmo quando morremos, fica esta música atemporal, coração em versos despetalados em muitas memórias, em poemas, sangrando ainda...
Hoje é Dia do Livro... E o livro nasce antes em cada alma, desgovernada e louca ou livre e embalada de ternura... Saudade de uma primavera com os existencialista (lembro que me apaixonei por Camus), nostalgia de um verão inteiro com Borges... Um ano inteiro caminhando pelos clássicos com um amigo... E a Poesia, esta é sempre feminina, esta me ata às poetas que eu adoro... Hoje é o Dia do Livro, e ele está além da materialidade, ele pulsa, e pulsa, e tem este mistério, é mais que papel e tinta, é um Universo...
Bárbara Lia
abril de 2015

Friday, April 17, 2015

sobre poemas de amor...

Luiz César / Bárbara Lia (1981)

Escrevi um poema. Vou guardar e não vou publicar agora, pela incrível coincidência de levar o título de um livro enviado a um concurso. O poema título nasceu depois. Acontece. Não estou naquela fase de derramamento de versos. Eles ficam espaçados. Escondidos durante este processo que me rouba do lírico: Mudança, coisas palpáveis, áridas. Não sou prática, mas muito na minha vida ficou mais brando com estes filhos que colocam o trem nos trilhos. Qualquer dia largo o poema escrito e fico só com a concretude da vida e do poema/dia. As horas poéticas que não sei dizer. Eles (filhos/neto) estão em um patamar sagrado, tão alto que até agora só disse em um poema destes filhos incríveis, e fico sem narrar. Sei que não direi palavras ao - grande amor. Nunca escrevi poemas ao meu ex-marido, ou cartas de amor. Ele reclamou disto, um dia, ao encontrar uma carta (não enviada) em um caderno do tempo da Universidade (todas as cartas de amor são ridículas). Depois da morte dele, eu estava pensando na nossa vida no tempo que dividimos uma história, e na mesma hora minha filha ligou, ela estava na estrada com a família dela e disse: - Mãe tá vendo o eclipse da lua? Sai na sacada pra ver e escrevi um poema ao pai dos meus filhos: Tarde demais para dedicar uma poesia. Ele já havia morrido e nunca soube, mas, eu sou assim... Estes poemas de amor que fazem crer que foram para grandes amores meus... Foram apenas acertos, eu e meu coração, interrogações, desejo de entender. Não há poemas para os amados essenciais... Ou quiçá, um dia, por ora é tudo desejo e reparação...

Monday, April 13, 2015

Poetry

 


Sobre “O sorriso de Leonardo”, o poeta e artista plástico português, Fernando Aguiar, escreveu:


A poesia de Bárbara Lia junta um lirismo muito feminino à realidade que todos os dias bate à porta dos seus olhos. Poética dos homens, da terra, mas também dos sonhos onde “Para quem dorme a chuva tem a magia do canto das sereias

  




Fragmento de um texto do poeta português Luis Serguilha, sobre “Noir”:

BARBARA encandeia com a violência dos seus ecos, com o naufrágio da claridade dos ritmos, com o sal-húmus das gargantas dos cenários.
As imagens ampliadas dos corpos fluem através das mandíbulas líquidas que proliferam sobre os acordes inatacáveis deste livro, porque a Barbara modela-se a si própria entre as unânimes correspondências: aqui a reciprocidade das vibrações forma os cavalos dos limites onde as loucas marchas despertam os halos do pulsar erótico.
A performance da palavra explora o bálsamo perfeito e descodifica a arqueologia dos sentidos. Barbara explora a jubilação da folhagem humana, desenha a efervescência da comunicação para consumar o ciclone paradisíaco ou a loucura da graça do absurdo .
O balanço afrodisíaco e vegetal sopra sobre os espelhos enunciadores da andadura dos signos onde a gigantesca luz do amor é sempre trágica e incompreendida.
O olhar de NOIR abre o ancoradouro solar e tropeça nas árvores cósmicas como um corpo secreto a alimentar as coordenadas criadoras doutro corpo, porque quer abraçar livremente o mundo.
A musicalidade ramifica a navegação da génese das palavras e eleva a Barbara a uma paisagem de fantasia. O sofrimento humano interroga as fugas inextinguíveis como uma constelação de aprendizagens sobre obstáculos permanentes.
NOIR procura profundamente a respiração visual do desejo, relembrando Ramos Rosa ´´ que não pode adiar o amor para outro século ainda que o grito sufoque a garganta´´.






Sobre “O sal das rosas”, o Poeta Márcio Davie Claudino, Escreveu:


A POESIA DO PERTENCIMENTO DE BÁRBARA LIA


   Quando eu disse à poeta Bárbara Lia que percebesse, mediante
circunstâncias singulares, o que realmente fazia sentido e que se traduzia
em um sentimento de pertencimento, minha intenção era que estimasse tal noção partindo de critérios avaliativos subjetivos, ou seja, do que fosse mais verdadeiro e autêntico em sua vida e projeto literário; e não pensei que ela levasse tão a sério aquelas palavras. Qual não foi a minha surpresa quando me deparei com o poema que abre este “O Sal das rosas”, cujo título é “O que me pertence”. Somos assim, e que bom. Movidos algumas vezes pelo verso do outro, por palavras escritas ou proferidas em algum momento, em alguma luz ou treva, e que o atento escriba sabe captar em suas faixas, para irradiar na sintonia de outros canais. Afinal, o que mais nos pertence, além da extensão de nós mesmos e de nossa alma? Algo como os filhos, por exemplo; ou a própria literatura, porque viaja nessa dimensão, do pertencimento mágico ao real, num movimento pendular entre o que temos e somos e o que anelamos e projetamos.
     E, afinal, o que não nos pertence? Algo que nos escapa ou no qual não
nos encaixamos, este sentimento de não-adequação tão comum à própria noção de não-pertencimento. E a quê? A tantas coisas inumeráveis, situações e coisas não-poesia.
  O projeto de Bárbara Lia continua, ainda que na contramão das coisas
não-poesia, das condições não-pertencimento, contrapondo-se justamente pelo viés do autêntico e do verdadeiro, do que mais lhe pertence. E aqui, neste “O Sal das Rosas” ela os apresenta, como se vê, na maioria dos poemas, seja através do “riso dos filhos”, dos amores e dores, ou do seu constante exercício de pensar e reescrever o mundo de suas leituras e diálogos, indissociáveis, de todo modo, de suas identificações ideológicas, passionais e de sua busca constante pelo ideal humanista.



Sobre o livro – A flor dentro da árvore:



Existe uma musicalidade que nasce no interior do silêncio e esta musicalidade está presente neste livro que você, leitor tem em mãos.
Penso que nossa consciência se divide em uma parte que observa e outra parte que vive, nos poemas de Bárbara Lia acontece, uma delicada fusão destas duas partes da consciência, temos aqui uma poética que se alimenta desta fusão e com uma elegante  concisão ata, costura estas duas metades de um eu lírico, que todos no fundo possuem e poucos sabem fazer cantar e florescer num poema que no fundo é como a flor de uma  árvore, que poderíamos sim, chamar de árvore da vida, a poesia seria justamente essa flor, que Bárbara soube tão bem indicar no meio desse misterioso jardim onde cresce a árvore da vida, não é esta flor, uma flor no Ártico como apontou Rimbaud em uma de sua iluminações, é uma flor-árvore que cresce em toda parte, como poderá intuir, quem ler este belo livro.

Marcelo Ariel




Sobre “Respirar”:


A mais alta poesia gira ao redor desse livro, porque orbita ao teu redor com uma naturalidade absurda. Não conheço nenhum outro poeta que alcance as notas tão facilmente e seguramente quanto você. É tanta música e pintura e céu com aquele azul decisivo, que o verso se faz carne e sonho com a mesma desenvoltura.

Fernando Koproski.


Thursday, April 09, 2015

Bárbara / Plath



























Vida muita Vida
Ar raro Ar/Luz
Luz toda Luz -
Amor excesso/
Excelso tempo
As dores toscas
A morte lenta
Tudo escoando
O Ar voltando -
Raio possante
Cavalo do céu
Menos. Eu digo
Menos. Calma
Vida retornada
Ar curativo Blue
Permito sua lerda
Chegada. Sim!
Devagar o Ar
Raro Ar em mim
Para não detonar
O estropiado
Coração


Bárbara Lia


Monday, April 06, 2015

escrever...

foto by winona evelyn




Meu pai é - com certeza - alguém que merece ter sua vida registrada. Chegou o momento de encontrar tempo para mergulhar na trilha que o levou - menino - no lombo de um burro ao sertão paranaense. É o início, um menino que cresceu ao lado dos Caingangues lá em São Jerônimo da Serra e que viveu com o - poético - atrelado às suas roupas. Quer fosse sua roupa de desbravador e peão, quer fosse aquela capa de chuva da cor cinza, que o tornava uma espécie de Cary Grant, um homem belo. A vida e tudo que sou tem este tom de Grandeza graças ao tom lírico com o qual ele me apontava tudo... 


No mais, vou ficar aqui, nesta sala quieta, com suas falas, memórias, poemas e a certeza de que preciso - agora - antes que meu tempo acabe, falar sobre este homem e é a vida dele que precisa ser narrada, não a minha...
Quando imprimi os contos pueris falando sobre minha vida de menina em Paraísos de Pedra, algumas primas que conviveram com meu pai ficaram tocadas com a lembrança dele, foi como um grande presente sentar-me com aquelas senhoras e ouvir sobre este - reconhecimento - elas diziam, é assim que ele era, como está no teu livro. E sugeriram que eu falasse mais sobre este homem que tinha uma paixão pela Poesia, que lia grandes filósofos e que tinha um pensamento (politico) bem diverso do meu.
Na virada do século quando comentei com Frei Betto que me sentia muito estranha ao me sentir tão à esquerda e admirar pessoas que meu pai detestava, sendo que - ao mesmo tempo - ele era meu amor maior e a grande inspiração do meu caminho... Então, ele sugeriu, por ficar também literariamente mais poético, que eu retirasse o sobrenome. Não estou atada à nenhuma raiz familiar quando escrevo. Sou apenas a menina cujo nome ele escolheu, longe dos laços de uma família conservadora, que tende à direita e que não concordaria com quase nenhum dos meus pensamentos. Ainda assim, fomos companheiros em uma jornada incrível. A Vida. A nossa vida, quase quarenta anos de um encontro entre uma menina poeta e seu pai... Preciso escrever isto, antes que seja tarde demais...

Wednesday, April 01, 2015

...uma rosa adulterada



by Tina Modotti





 (uma deusa é uma deusa é uma deusa)





Quem – neste tempo
de futilidades –
encarnaria
uma deusa antiga?







 (um cais é um cais é um cais)


                                                                         
Beijar a quilha
Do velho navio
Que te depositou 
Neste cais





(uma primavera é uma primavera é uma primavera)





Fique em silêncio
como um ramo seco
vem aí
uma primavera
a te florir


  



(um olhar é um olhar é um olhar)





“Apenas se olharam. Olharam-se era a casa de ambos”
(José Saramago)



E fico a olhar teu rosto
O olho esquerdo me ama
O direito rasga-me - navalha fria
Segue pelos flancos a desenhar estrelas
O sangue escorre doce para o chão frio
O sangue se transforma em rio
Meu néctar fluindo mel vermelho
E nele tudo que é vida diz teu nome

Bárbara Lia

Poemas do livro - RESPIRAR (2014)



Wednesday, March 04, 2015

10 anos e muita Poesia

Há dez anos nascia este blog. No início era uma espécie de cartão de visitas. As pessoas que conheci graças ao blog, os poetas com quem mantive diálogo, os caminhos que esta página abriu... Este blog foi essencial para a minha caminhada como Poeta e Escritora. Por mais que não tenha a mesma rotina diária, eu estou sempre aqui. Meu pequeno espaço de Liberdade. Não dá para dizer o quanto esta - vitrine virtual - foi responsável por coisas belas. Fico aqui com desejo de publicar algo inédito e não posso. Dia desses decidi montar um livro de Poesia, a gente sempre diz que não vai mais participar de concursos, mas, não resiste. Este ano vou tentar um Concurso de Poesia...
É isto... Para este ano apenas uma interrogação. Nada concreto, quem sabe deixar que o vento da Poesia conduza os dias... Abraço aos leitores do blog. A Poesia segue...


Paraísos de Pedra

O livro - Paraísos de Pedra - contos e memórias da infância, está em promoção no site da Editora Penalux, link abaixo. 





http://www.editorapenalux.com.br/loja/product_info.php?products_id=110

Para saber detalhes do livro, uma matéria da Gazeta do Povo - Caderno G - link AQUI

Sunday, March 01, 2015

10 anos do "Chapar as Borboletas". A festa é nossa!


No dia 04 de março de 2005 nasceu o meu blog. Antes das redes sociais os blogs foram vitrines. Os poetas apoderaram-se desta ferramenta. Um tempo suave como o voo das borboletas. Eu havia acabado de lançar - O sorriso de Leonardo. O blog levou minha Poesia pelo Brasil e pelo mundo...

*


Tentei abrir os comentários para todos, a ideia inicial, para quem leu aqui, era sortear dois livros... mas, a ferramenta não ativou os comentários.

Para comemorar esta data, vou dar os dois exemplares de "Respirar" de forma simbólica. Para os poetas de Curitiba, na pessoa do Ricardo Pozzo que na terça lança seu livro no Wonka Bar, se algo impedir minha ida até lá: Pozzo, um "Respirar" pra você. Pozzo lança pelo selo Patuá o seu livro - Alvéolos de petit pavê, no evento Vox Urbe, entrada R$.8,00 - o livro será vendido a 35,00 apenas cheque e dinheiro. Vamos lá!
- a partir das 19h no WNK Bar - Rua Trajano Reis, 326 - Curitiba - PR -

Simbolicamente para os poetas que não são de Curitiba, vou enviar um exemplar para a Mariana Gouveia de Cuiabá, que ao citar o blog evocou esta data - e para ela o meu mais recente livro.

É isto! 

Saturday, February 28, 2015

em linha reta





Viver é habitar reticências...

Bárbara Lia
(em linha reta)

Wednesday, February 25, 2015

+ um poema antigo

Blue-Ash Man

Blue-ash man 
Passava dias sob o sol colhendo hortelã & anis
E noites lecionando inglês para meninas apaixonadas
Olhar azul escuro bordado de luar 
Pele canela com gosto de pecado


Blue-ash man 
Deve estar velho alquebrado e triste
Não mais o corpo Adônis colado 
Ao meu ao ritmo de My Mistake
Em varandas chorando verde 
De samambaias e esperanças


- Na semana toda 
Eu levava aquele aroma curativo 
Que transmigrava
da pele dele para a minha -

Blue-ash man perfumado de calmante. 
Lábios de cuba-libre

- Dois corações errados 
Dois corpos tão certos –
Dançando ao ritmo de Pholhas:

“I am paying for my mistake”

Bárbara Lia 




 

Sunday, February 22, 2015

Um poema do livro "Respirar"






O Céu azul, não era
Dessa cor, antigamente;
Era branco como um lírio,
Ou como estrela cadente.

Florbela Espanca





Céu de rosas desfolhadas por Apeles
E sol mãos de assassino a pousar
Nas felizes casas brancas do mar

Amar esquecer amar esquecer
Amar de novo, esquecer outra vez
Restos da ave de aço em seu túmulo

A luz bruxuleia e Espanca
A chuva ainda é velha amiga
O céu se abre em lírios e estrelas
E a Flor bela ainda nos sussurra:

     “Uma alegria é feita dum tormento,
       Um riso é sempre o eco dum lamento”

Bárbara Lia 
Respirar (2014)
Página 45



* para encomendar o livro - barbaralia@gmail.com

Saturday, January 31, 2015

Na floresta de poemas...

Minha produção é alucinante e isto leva a um acúmulo de poemas e livros e pela lentidão das publicações, fica aquele arsenal de títulos formando uma floresta de poemas. Em  Há alguns anos comecei a tecer livros artesanais. Alguns são inéditos em publicação tradicional. Se eu morrer, devo deixar metade da produção sem entrar nos livros tradicionais, que foram publicados por editoras ou em edição independente... E, nesta espécie de roda-viva, separo poemas por temas, e vou tecendo pequenos livros para tentar organizar o caos.. A parte feliz é que amo tecer com fios e palavras... 


 
Primavera em Pasárgada - Poemas Curtos
Por não ser um livro comercial, apenas uma espécie
de arquivo pessoal, a imagem ainda não é domínio
público, apenas uma ilustração do exemplar para arquivo:
Marc Chagall



Deux poèts - Poemas apresentados no recital
homenagem ao centenário de Vinícius de Moraes.
Elas leem Vinícius ao lado de Marilda Confortin -
Fiz um livro único, um exemplar para mim, 
com poemas do evento.
Imagem da capa - Rosana Bossu




Jardim Nonsense é um livro eclético.
Todos os poemas que escrevi pós-filmes
Registro e impressão poética do que vi na tela
a capa é um desenho de Federico Garcia Lorca

Saturday, January 24, 2015

A última chuva






Pensando seriamente em preparar uma edição revisada e ampliada do livro - A última chuva.
Dos meus livros não cogito uma reedição de - O sorriso de Leonardo - e - Noir. Por esta razão publiquei no site ISSUU uma seleção dos poemas destes livros. Os livros de Poesia publicados a partir de 2007, cada livro de Poesia , provavelmente terá uma nova edição... 


ASAS DE NIETZSCHE

A essência da felicidade é não ter medo.
(Nietzsche)


Em urdidura silenciosa
escondem o pássaro
no crânio branco
-arapuca tétrica-
caveira fria.
Asas em valsa
coloridas de raios
que entram pelos olhos vazados,
e aquecem feito o fogo
e as papoulas
da primeira primavera.
Asas de pluma se ferem
no osso-cárcere, sangram;
asas metafísicas
voam céus de antes.
BÁRBARA LIA
A Última Chuva
Mulheres Emergentes Edições Alternativas
MG (2007)
Página 19



Thursday, January 15, 2015

as belas que são feras

Nunca fico muito empolgada com o Oscar. Por alguma razão de afinidade com estas atrizes, por não pertencerem ao nicho das mais badaladas, por gostar mesmo delas nos filmes e séries que vi, vou torcer por elas, como melhor atriz e melhor atriz coadjuvante, por "Garota Exemplar" e "Boyhood".






















foto de Rosamund Pike de Nadav Kander

"Não sei bem o que dizer, mas tenho de dizer qualquer coisa."





"Não sei bem o que dizer, mas tenho de dizer qualquer coisa."
Mesa-redonda aberta sobre o ataque ao Charlie Hedbo: o poder dos cartoons editoriais, liberdade de imprensa e expressão, limites sociais, contextos históricos da imprensa ilustrada.
Sara Figueiredo Costa, Nuno Saraiva, Osvaldo Macedo de Sousa e Eduardo Salavisa, com moderação de Pedro Moura.

Terça-feira, 20 de Janeiro, às 18h30, no Museu Arqueológico do Carmo.
Entrada livre.

O crime perpetrado contra o jornal satírico francês Charlie Hedbo colocou na ordem do dia junto ao grande público uma discussão que tem tido lugar em círculos especializados. Qual o papel do cartoon editorial nas democracias modernas, cujas leis de liberdade de expressão permitem um qualquer grau de negociação entre o que se entenderá por "aceitável" e "pertinente", por um lado, e "exagerado" e "ofensivo", por outro. Se se acreditar numa tal categorização, porém, há que compreender que ambas pertencem a uma longa tradição de trabalhos, e com particular presença na cultura francesa. A questão desta liberdade vai embater noutras questões, como os posicionamentos ideológicos, os ditos limites da imprensa, a censura prévia e as decisões judiciais, assim como a conjuntura actual a nível mundial cujas fricções são vistas por alguns como um "choque de civilizações". Não é difícil começar uma discussão sem tropeçar em controvérsias ou mesmo afirmações elas mesmas insustentadas, já que tudo isto implica emoções, limites ao nosso conhecimento, posicionamentos extremados, etc. 
A comunidade de artistas de banda desenhada, ilustração e cartoon editorial, assim como investigadores e críticos da área têm multiplicado a sua expressão de solidariedade, assombro e até mesmo incompreensão nos mais variados canais de comunicação. Alguns dos seus membros não sabem bem como começar a articular o que pensam e sentem, mas sentem também a urgência em fazer algo mais. Esta é uma oportunidade, entre outras, de dialogar.

Tuesday, January 13, 2015

em tempos negros...


imagem: Bernard Pras







No caminho havia uma parede. No desvio havia o muro do não. Na montanha uma pedra sagrada intocável que algum profeta deixou há quatro milênios ou mais. No rio uma barragem de desaba no inferno. Na pista de dança os vidros pontiagudos no chão. Na piscina alguém polvilhou antraz. No poço do Paraíso um balde de arsênio. Na única árvore do deserto os frutos queimam o interior de quem os devora e corroem e deixam cada um como uma boneca inflada, de pele humana e oca. No jardim noturno as corujas são carnívoras. Na pradaria a grama cheira à formol e a terra é o cadáver apodrecido que exala o odor virulento de nossas almas amaldiçoadas. Os beija-flores não querem o néctar das flores do último jardim querem as jugulares e voam eletrizados aos pescoços distraídos com o bico agulha e a sede de mil vampiros. As borboletas cantam e enlouquecem, pois é o desesperado canto de profundezas negras. Não nascem mais crianças e o último violino rebentou suas cordas e está atirado em um sótão sombrio. Apagaram as letras de todos os livros de Poesia e a mente de quem as decorou e não há mais o encanto da palavra para oxigenar o humano. Os livros contam apenas as carnificinas da humanidade e são tantos livros de todas as tragédias que duplicaram o número de bibliotecas. As bibliotecas tem uma aura densa, pois agora elas guardam os atos cruéis, libidinosos, satânicos, escritos por robôs alimentados pela própria História. Uma noite um homem com dons de recuperar memórias sonhou com um poema de Dylan Thomas “Rage, rage against the dying of the light” e enlouqueceu com a beleza do ritmo e das palavras e pela certeza de saber que já caminhava pela noite escura e não dava mais para dar um passo atrás e não penetrar as trevas dos séculos e sentiu raiva dos que entraram – delicadamente – na noite escura... O louco que conseguiu vislumbrar um verso, perfurou os olhos e comeu soda cáustica com batatas fritas e brindou com uma água bege que sobrou do envenenamento das nascentes e, ao vislumbrar um lugar possível, de lírios e alfazemas, perfume de manhãs, cascatas,  cerrou os olhos docemente como um pássaro que bate, pela primeira vez, as asas.

Bárbara Lia
Janeiro/2015

Friday, January 09, 2015

Romãs adocicando auroras




















Naquele tempo eu colhia o sol mesmo nos dias tristes
Bastava abrir a tampa negra da bússola seguir a trilha
Agora inverno é cortina que nubla toda luz que sobra
Breve nem mundo ou bússola, soterrados pelo caos

Naquele tempo o aroma de canela nas tardes
Bolinhos de chuva em dias de sol ou temporal
Uma seresta patinando nas ondas do radio
E o estrondar das gargalhadas do pai                               
Retirando da coxia do universo
Uma dúzia de estrelas preguiçosas


Agora mapearam todas as galáxias
E não encontraram o coração de Deus...
Aquele que eu sepultei ao pé da romãzeira
Que trazia dentro dos frutos castos
Uma ninhada de estrelinhas vermelhas

Bárbara Lia
Chá para as borboletas
o livro da infância 
21 gramas

Desenho: Ane Fiúza

La nave va...

"Não o convidei ao meu corpo" no Canal Senhora Literatura

  "Não o convidei ao meu corpo" no Canal Senhora Literatura da escritora Francine Cruz. https://www.youtube.com/watch? v=IxpCcdUM7...