Monday, April 04, 2016

inédito

                                                   
      (foto by Angie Machado) - Semana Literária SESC - na mesa com Chacal



                                                         agora finalmente estou renunciando ao pacto
                                                         rasgo o contrato
                                                         devolvo a fita
                                                         Hilda Machado

                                                                                É crua a vida. Alça de tripa e metal.
                                                                                Nela despenco: pedra mórula ferida. 
                                                                                Hilda Hilst


Se eu me chamasse Hilda seria poeta irônica
Evocaria antigos deuses - júbilo amorável
Desfaria contratos usando a Poesia e diria
Nuvem de organdi – metáfora acariciante
Se eu fosse Hilda deixaria a casa nas manhãs
Adentraria a floresta das palavras
Voltaria com o almoço, o jantar e a sobremesa
Viveria do verbo, devoraria nas noites:
Megatério & Ilharga
Trufas & Mimesis
Floema & Mórula
Minha alma jamais teria fome
Escreveria como quem habita outro mundo
O mundo das rainhas com senso de humor
Viveria tal qual agora - sem amor -
Mas, com um vendaval de mistérios
Costurados na saia de poeta
Não sou Hilda Machado ou Hilst
Sou bárbara poeta que teima
Em cantar o feminino com cuidado
Para que todos entendam da palavra – Mulher –
O significado

Bárbara Lia

A Revista  Carlos Zemek Arte e Cultura publicou três poemas meus. O poema acima, inédito, e  o poema - quando eu quis atravessar as grandes águas - integram meu próximo livro, que trará inéditos em livro. 

link para a postagem da Revista:

http://revistacazemek.blogspot.com.br/2016/04/barbara-lia-quando-eu-quis-atravessar.html

Sunday, April 03, 2016

Respirar


A flor dentro da árvore



"Uma migalha de mim”

Teço
Um ego-vidraça
Para que enxergues
Meu Eu

Teço
Uma nuvem lassa
Cortina que qualquer mão
Atravessa

Teço
Um hímen de fumaça
Sobre a virgem essência
- tudo o que sou Eu

Bárbara Lia
in A flor dentro da árvore (2011)

Tem um pássaro cantando dentro de mim




Giz rendado

O que a onda diz
ao cão sentado
babando moluscos
e saudades?
Como rasgar a onda
sem cicatrizar em azul?
Beber a ardência seminal
de amantes afogados
como quem engole
segredos guardados
entre debruns
de ondas
em seu giz rendado

Bárbara Lia 
Tem um pássaro cantando dentro de mim (2011)
Página 06

A última chuva




TRISTESSA
.
ame quem te ama e conheça o inferno
fogo a fogo no porão do medo
fogo a fogo no cabelo da Medusa
atiçando cobras
atiçando demos.
ame quem te ama e conheça a dor
amputar pernas braços sexo e coração.
ame quem te ama
nesta luta cega
boitatás no milharal
não sobra espiga sobre espiga
e o espantalho, mudo, tira o chapéu
e dança triste no chão de palhas.
ame quem te ama e conheça o inferno
dois sustos travestidos de sons
querendo narrar o que o humano não narra
escrevendo em aramaico o avesso do vivido.
ame quem te ama
e se arrependa de viver rezando pelo amor.
ame quem te ama
e descubra
a agulha fina e gelada do olhar
o rio de deus que rola tua nuca quando ele te toca
o que é não sentir o corpo do outro
cópula de luz.
o que é ter a língua presa o corpo preso o gesto preso
e a alma livre pluma de algodão te levando onde não quer
onde não deve estar, nem teus pés, nem tuas mãos
Bárbara Lia
A última chuva
Mulheres emergentes (2007)

O sal das rosas




DEUS NO ORVALHO
(para Jorge Luiz Borges)

Jardim perfumado de Istambul.
Sol intolerável beija a rosa azul
no vaso branco, dois cães cor da lua
ao redor.
Teus olhos se perdem na rosa nua.
Olhos da cor do Mar Cáspio na aurora.
Gota de orvalho baila na pétala.
Cristal.
Ponto no espaço – Aleph
descortina o universo.
Sonhos enxertados de sóis, desertos,
aromas, fauna, primavera, borrascas.
Todo universo na gota clara
que cobre a rosa. A lágrima desce solar
ao lábio carmesim, e o peito arde de amor e luz.
Bárbara Lia in O sal das rosas (lumme editor)

este poema também integra a Antologia - Arqueologia da Palavra Anatomia da Língua (Literatas - Maputo)
**Livrarias Cultura ou via editora**

Noir






           Enamorar-se é criar uma religião cujo Deus é falível?

                                                 
Jorge Luis Borges

            



Creio no teu sorriso envolto no espírito do tabaco.
Creio no teu silêncio, que só se quebra para pronunciar meu nome.
Creio em teus versos lavados em minúcias e sustos.
Creio na paz que se instaura em quem senta ao teu lado.
Creio na morte da pequenez que teus passos aniquilam.
Creio na morte, la petite-mort que viverei em teus braços.

Bárbara Lia (Noir - 2006)




Texto Criativo sobre "NOIR", da poeta e historiadora Barbara Lia

por Luis Serguilha
A Sonoridade dos tigres das metáforas mobilizam as homenagens solares e a Barbara encaminha as linfas dos elementos energéticos até à desvairada obscuridade das criptas. As palavras como cordas expansíveis desencarceram os pássaros loucos da sua interioridade. NOIR símbolo da febre submarina e dos silêncios das escamas incandescentes que flutuam sobre as abóbadas da angústia e do medo. NOIR PALAVRA INESGOTÁVEL tentando completar a Barbara em sucessivos renascimentos. O lugar inaugural da catarse canta a solidão da rebeldia e transpõe a diminuição dos abismos como a verdadeira arte da mudança. Barbara restaura os magnetismos das palavras para iluminar a decisão primordial do desejo, libertando o silêncio e a vida absoluta porque quer a manifestação sensual na incorruptibilidade do ser.
Barbara diz ´´que é a palavra´´, ou o vivo movimento das origens das suas impulsões plenas de mistérios e de metamorfoses poéticas, revelando regeneradoramente o jogo erótico onde os astros soltam as línguas infindáveis. Os vestuários das inflexões atravessam os instantes do cromatismo das feridas, este circulo de crisálidas alucinantes que BARBARA encandeia com a violência dos seus ecos, com o naufrágio da claridade dos ritmos, com o sal-húmus das gargantas dos cenários.
As imagens ampliadas dos corpos fluem através das mandíbulas líquidas que proliferam sobre os acordes inatacáveis deste livro, porque a Barbara modela-se a si própria entre as unânimes correspondências: aqui a reciprocidade das vibrações forma os cavalos dos limites onde as loucas marchas despertam os halos do pulsar erótico.
A performance da palavra explora o bálsamo perfeito e descodifica a arqueologia dos sentidos. Barbara explora a jubilação da folhagem humana, desenha a efervescência da comunicação para consumar o ciclone paradisíaco ou a loucura da graça do absurdo .
O balanço afrodisíaco e vegetal sopra sobre os espelhos enunciadores da andadura dos signos onde a gigantesca luz do amor é sempre trágica e incompreendida.
O olhar de NOIR abre o ancoradouro solar e tropeça nas árvores cósmicas como um corpo secreto a alimentar as coordenadas criadoras doutro corpo, porque quer abraçar livremente o mundo.
A musicalidade ramifica a navegação da génese das palavras e eleva a Barbara a uma paisagem de fantasia. O sofrimento humano interroga as fugas inextinguíveis como uma constelação de aprendizagens sobre obstáculos permanentes.
NOIR procura profundamente a respiração visual do desejo, relembrando Ramos Rosa "que não pode adiar o amor para outro século ainda que o grito sufoque a garganta".

.
Luís Serguilha, poeta português, nasceu em Vila Nova de Famalicão, em 1966. Publicou, entre outros livros de poesia, O périplo do cacho, O outro, Embarcações, O externo tatuado da visão, Lorosa’e boca de sândalo e A Singradura do capinador

O sorriso de Leonardo (2004)




Entardecer lilás
brisa de raro fôlego
do deus das nuvens.

Pés descalços
liberdade de estar amando
na era dos mísseis.

Bárbara Lia

Friday, March 25, 2016

Poesia contra a guerra


Círculo vicioso

Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume
- "Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
Que arde no azul, como uma eterna vela!"
Masa estrela, fitando a luz, com ciúme:
- "Pudesse eu copiar o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela!"
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:
- "Mísera! Tivesse eu aquela enorme, aquela
Claridade imortal, que toda a luz resume!"
Mas o sol, inclinando a rútila capela:
- "Pesa-me esta brilhante auréola de nume...
Enfara-me esta luz e desmedida umbela...
Por que não nasci eu um simples vaga-lume?"
Machado de Assis

Tuesday, March 22, 2016

Março sempre prepara um abril despedaçado



.
.
Reunir cacos da Pátria
Na enseada da Esperança
Para construir um molhe
Lembra estes olhos ônix?
Eram os olhos da dignidade
Coloque-os ali, ao lado
Dos braços fortes da verdade
Nestas horas é preciso blindar
O músculo pulsante
Endureça-o com o aço da paz
Sabemos o que a podridão faz
Já vimos este filme tempos atrás
Beije pela última vez o teu amor
Breve teu coração arderá
Na fogueira da ira que virá
Melhor morrer na enseada
Na pequena ilha da esperança
Que viver na larga lagoa pútrida
Com patinhos fazendo plim-plim
(Isso, realmente, não é para mim)

Bárbara Lia


Gerda Taro (Foto: Robert Capa)


Sunday, March 20, 2016

Carol




A trilha sonora é linda. Algumas cenas lavadas pela neblina, ou por uma espécie de - matéria do sonho - uma nitidez escassa que enlaça em uma aura encantatória. A certeza ao final de Carol é que não mudou quase nada a forma como o mundo age, neste desnível de olhar, onde os homens tudo podem e as mulheres quase nada. A salvação é o que o amor ainda brota, apesar de tudo, em longos olhares, estes que duram 5, 4, 3, 2, 1 segundos... E neste instante tão mínimo na régua do tempo, dá para desvelar um mundo. Carol é para os que já mergulharam - um dia - no olhar do amado (a)... único espaço maior que a palavra... Sempre bom ver Cate Blanchett, incrível neste filme de Todd Haynes... um oásis meio ao caos.

Saturday, March 19, 2016

Ciudad sin sueño



Os homens que não sonham
(Bárbara Lia)


No duerme nadie por El cielo. Nadie, nadie.
No duerme nadie.
Las criaturas de La luna huelen y rondan sus cabañas.
Vendrán las iguanas vivas a morder a los hombres que no sueñan.
(Federico Garcia Lorca – fragmento de Ciudad sin sueño)




Os homens que não sonham demolem pontes catedrais parques cânions praças
Os homens que não sonham incineram as rosas cálidas das núpcias da moça feia
Os homens que não sonham afogam pássaros em nuvens escarlates enquanto riem
Os homens que não sonham pisam prímulas pálidas em varandas centenárias
Os homens que não sonham pintam máscaras de dor em crianças, com traços de Dali
Os homens que não sonham queimam o violino roto do último anjo que passou aqui
Os homens que não sonham armazenam cédulas, pepitas, moedas, esmeraldas, royalties
Os homens que não sonham caminham vestindo Armani olhos foscos atrás dos óculos
Os homens que não sonham trituram sonhos dos reais sonhadores como quem respira
Os homens que não sonham pisam pontes de gelo e alçam asas em pássaros niquelados
Os homens que não sonham nunca leram Lorca, não sabem de Las criaturas de la luna
Os homens que não sonham pisam flores de cerejeiras - tapete aveludado - e nem rezam
Os homens que não sonham odeiam flores nascidas pós-bombas em beleza voluntariosa
Os homens que não sonham ignoram iguanas vivas seus dentes de serra e olhar de vidro
Os homens que não sonham não veem os dentes afiados de iguanas tristes na pedra fria
Os homens que não sonham ignoram a mordida de iguana e ignoram que não sonham
Os homens que não sonham fecharam a via estreita que nos aproxima de um éden
Os homens que não sonham não amam iguanas, cidades, pedras, éden, cerejeiras, anjos
Os homens que não sonham não amam nada, não tocam nada, não vivem nada...


Thursday, March 10, 2016

a rosa selvagem




tempo de luta
das rosas rebeldes
não aquelas dos buquês
falo da rosa selvagem
aferrada ao solo
pra nunca mais ser morta


Bárbara Lia
Pagu, 1933 by Candido Portinari

Eu sou Poeta

  •     

  • Biblioteca Alceu Amoroso Lima - CSMB
    Rua Henrique Schaumann, 777, Pinheiros
    São Paulo

    Dia 19 março, sábado
    Local: Biblioteca Alceu Amoroso Lima
    Rua Henrique Schaumann, 777, Pinheiros, São Paulo (SP)

    10h: Oficina Lendo Mulheres: a potência da poesia feminina
    Com Jeanne Callegari
    Não haverá inscrição prévia. É só chegar, a lotação é de 30 pessoas. 

    14h: Abertura

    15h: Clube de Leitura
    Mediadoras: Lubi Prates e Pilar Bu
    Livro: Do desejo, Hilda Hilst
    Convidada: A confirmar
    Não haverá inscrição prévia. É só chegar, a lotação é de 30 pessoas. 

    16h: Tradutoras
    Mediadora: Francesca Cricelli
    Convidadas: Ana Cecília, Sarah Valle e Maurício Santana Dias

    18h: Sarau microfone aberto

    Dia 20 de março, domingo
    Local: Biblioteca Alceu Amoroso Lima
    Rua Henrique Schaumann, 777, Pinheiros, São Paulo (SP)

    10h: Oficina de fanzine: as línguas e os idiomas das mulheres
    Mediadora: Julia Francisca autora da zine [nectarina] 
    Oficina para mulheres conhecerem a linguagem do fanzine e aprenderem a publicar seus escritos com autonomia. Espaço de diálogo e troca de escritos, referências visuais e técnicas de publicação. O objetivo é reconhecer as diferentes vozes das mulheres e encontrar meios para que nós possamos falar para o mundo, publicar textos, etc.
    Não haverá inscrição prévia. É só chegar, a lotação é de 30 pessoas. 

    14h: Poesia é resistência?
    Mediadora: Juliana Bernardo
    Convidadas: Tula Pilar, Jarid Arraes, Geruza Zelnys e Jenyffer Nascimento 

    16h: Mulheres e invenção
    Mediadora: Maíra Mendes Galvão 
    Convidadas: Fabiana Faleiros, Luisa Nóbrega, Julia Mendes e Dirceu Villa

    18h: Microfone aberto

    19h: Encerramento: abraço geral

    * * * * * * * 

    https://eusoupoeta.wordpress.com/

Saturday, March 05, 2016

Mundo caduco


Agora, quando digo: 
— Sou Poeta
A voz trava na garganta. 
Je suis poète?
Não posso mais escolher como Drummond
“Não serei o poeta de um mundo caduco” 
Carlos, não há mais escolha: 
O mundo caducou

Bárbara Lia
Foto: EPA/Herbert P.

Saturday, February 20, 2016

Homenagem: Todo dia é dia da mulher




O dia das mulheres se aproxima e hoje fiquei bem feliz com uma homenagem no blog do Projeto Tataritatá do Luiz Alberto Machado, clicar neste link:


Ao lado da incrível Norah Jones e de um conto do Luiz Alberto Machado, o meu poema - Amar é respirar em casas naufragadas - e esta homenagem... Começar bem o final de semana:

VIVA LA VIDA!


Thursday, February 18, 2016

A garota dinamarquesa



'Meu Oscar" vai para o Eddie Redmayne... Ele me assombra. Ele incorporou Stephen Hawking... Agora ele arrasa como Lili.
Que espetacular sensibilidade vive neste moço que o torna uma espécie de vaso virgem que se transforma quando derramam dentro dele uma qualquer alma. 
O filme mostra os eventos da vida do pintor noruguês Einar Magnus Andreas Wegener, primeira pessoa que submeteu-se a uma cirurgia para
mudança de sexo, para - enfim - tornar-se Lili, aquela que gostaria de serdesde o início. Esta troca de amor palpável na tela é possível pela interação impecável dele com Alicia Vikander. 
Precisamos falar de Gerda...
Em um tempo em que tudo está tão na fala e longe da ação, ela amou. Ela AMOU. Ponto final. E penso no final daquele meu conto Mulher na Árvore. E a frase final fica batendo como sino. A certeza da beleza. Os esvoaçantes lenços claros sobre as charnecas, a coragem de transubstanciar o querer, por puro Amor... E a frase bate, como os pingos da tempestade no pátio lá fora:
- permaneço no amor.

As telas são de Gerda, que tocou meu coração de poeta com tanta beleza. Amei! Amei!

Sozinha na praça ônix (leitura poética de um sonho)




ela disse:
sou arquiteta de ideias
e primeira prostituta
no lupanar Pompeia
ao meu lado na praça ônix
nocauteava o chão
com seu salto agulha
cruel Marilyn Monroe morena

à minha esquerda
procissão bizarra
loucos estropiados
de olhos esgazeados
cantavam uma música
incompreensível

acima o céu estupendo
pontos brancos bordados
no cobalto irascível

na noite rançosa
sacudo asas
flano a dez centímetros
do ônix impassível

on the road singular
nem os loucos de lá;
nem a deslumbrada de cá
sigo á procura de quem
pesa menos que ar

Bárbara Lia

photo by Jan Saudek

La nave va...

Ilya! (Vmesto Pis'ma) - Bárbara Lia

Connor Storrie (Ilya Rozanov). Cenas da série canadense 'Heated Rivalry'. Baseada no livro de Rachel Reed. Direção e Adaptação do ge...