Há muitos anos toquei o ódio contra tua alma guerreira. Começou na tua primeira campanha à Presidência da República. Cresci em uma família conservadora e direita radical. Naquele ano eu estava com minha decisão tomada desde o início, era vital seguir com as políticas sociais implementadas por Lula. Tirar milhões da linha da miséria e da pobreza, dar dignidade às pessoas, permitir que os jovens pobres tivessem acesso às Universidades, ajudar com uma mudança jamais vista era e sempre foi um sonho meu, uma espécie de tempo de felicidade que sofreu um duro golpe no dia de hoje. Estava eu, em uma manhã, tranquila e calma em minha casa quando abri um e-mail enviado por algumas parentas. Era o mesmo e-mail com a mesma mentira. Era o começo daquela patrulha do ódio que planta coisas irreais, repetem à exaustão até convencer os que não tem um pensamento político sólido. O e-mail dizia que você era uma terrorista, uma ficha do dops, uma sequência de noticias sobre sua vida de luta pela liberdade. Sim, eu conhecia a tua luta e esta frase resume tua vida para quem conhece História. A "terrorista" não poderia governar o País. O e-mail deveria ser ignorado como sempre faço com os da família para não brigar com sangue do meu sangue, No entanto, sob impacto daquela invasão querendo impor-me uma ideia mentirosa, respondi bruscamente e criei atrito com irmã e primas. Seguiu um tempo onde - nunca antes na história deste país - alguém foi tão severamente atacada. E ao ver-te hoje a sorrir neste momento tão crítico eu fico pensando em antigas heroínas, e nas lendas que meu pai contava. Existe um lugar onde a força reside. Longe de filmes hollywoodianos e lado negro ou não da força, longe das coisas de agora que dissolvem líquidas sempre e em tudo, existe um lugar onde a força reside. E algumas almas tocam este lugar. Algumas pessoas sabem que existe um fator que a tudo sublima, e existe um ideal onde podemos amarrar nossos navios à salvo. Independente do futuro, do hoje, de toda nossa impotência diante da sanha e do ódio das almas pequenas, é la que você caminha, é onde você chegou. Li sobre o limite da dor humana. Quiçá aqueles antigos dias nas mãos do carrasco a tenha conduzido ao patamar inatingível. E você soube que bastava seguir o coração para encontrar a paz bendita dos fortes que vivem por amor. Obrigada Dilma por toda a sua dedicação desde sua adolescência. Obrigada por ter olhado os meninos, jovens, mulheres e estabelecido um tempo belo, dói saber que muitas conquistas irão para o ralo, mas, nos reergueremos meio aos escombros e este ideal de igualdade, de justiça social e este tempo tão raro que fez com que o Brasil fosse olhado com respeito em todo mundo, ele há de voltar. Querida e ainda nossa Presidenta, conte com nossa força e nossa luta.
Thursday, May 12, 2016
Monday, May 09, 2016
AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA - Rubens Jardim
Em Junho de 2011 o poeta Rubens Jardim iniciou um mapeamento das mulheres poetas na Literatura Brasileira, belo projeto que descortina um cenário pleno de vozes e estilos de várias épocas, quiçá o mais completo arquivo de poesia escrita por mulheres no Brasil. As postagem atingem neste momento o n° 75, a cada postagem figuram 04 poetas neste momento em que somos trezentas fica esta alegria e a expectativa de que haja igualdade nos meios literários, prêmios, espaço e reconhecimento... A Poesia segue... Seguimos
link para a página:
Texto de Rubens Jardim na abertura das publicações das mulheres poetas.
AS MULHERES NA LITERATURA BRASILEIRA
(Rubens Jardim)
(Rubens Jardim)
Não faz muito tempo que elas deixaram a cozinha, os crochês e as costuras. Hoje elas são executivas, médicas, empresárias, políticas , professoras --e até presidentes. Mas já faz tempo que elas ingressaram na literatura, onde fizeram e fazem um excelente trabalho. Vamos dedicar este espaço a divulgar o trabalho das nossas poetas. Antes, porém, leiam este histórico.
Quando fez, em 1928, a famosa palestra sobre a presença da mulher na literatura inglesa, na Universidade de Cambridge, Virginia Woolf jamais poderia imaginar que a famosíssima Britannica iria ignorar sua posição feminista e omitir de sua bibliografia o livro A Room of One’s Own, onde foi publicada a conferência e outros escritos.
Como se vê, não é privilégio tupiniquim o esquecimento proposital da contribuição cultural da mulher em vários campos do saber e das artes. No caso específico da literatura, a questão é mais séria ainda. Afinal, tanto Silvio Romero como José Veríssimo –famosos historiadores da nossa literatura no século 19-- registraram pouquíssimos nomes femininos.
E na História Concisa da Literatura Brasileira –a mais usada no ensino atual— o prof. Alfredo Bosi só menciona quatro nomes de poetisas: Francisca Júlia, Gilka Machado, Auta de Sousa e Narcisa Amália. Mesmo assim, somente a primeira mereceu biografia e algum destaque.
Mas essa ausência, que passa uma idéia equivocada da influência feminina na cultura do país, vem sendo corrigida através de pesquisas, teses, livros, artigos e ensaios. Escritoras Brasileiras do Século XIX, organizado por Zaidhé Muzart, foi o pontapé inicial em direção a uma reavaliação desse nosso patrimônio literário e cultural.
Publicado em 2000, o livro, com cerca de 1000 páginas, revela nada menos que 52 autoras e mostra nomes que nunca ouvimos falar —resultado desse trabalho paciente de “revolver escombros e garimpar entulhos” conforme texto introdutório da própria autora, Zaidhé Muzart
É inquestionável o mérito desse trabalho --e de um sem número de outros que foram surgindo sobre as questões relativas à mulher. É crescente, sem duvida, a presença delas em todas as áreas das atividades humanas. Hoje, temos até uma presidente mulher. Quanto à literatura mais recente, não podemos nos queixar. Existem muitas escritoras mulheres e elas também se apresentam em dissertações, teses de doutorado, pesquisas apresentadas em congressos e outras publicações.
Sem a pretensão de desenvolver uma avaliação desse panorama, utilizo este espaço para prestar uma homenagem às mulheres. Mais especificamente: às mulheres escritoras. Ou mais especificamente ainda: às mulheres escritoras de poemas. Afinal, por incrível que pareça, existe uma nítida predominância em nossa literatura de escritoras que se dedicaram à prosa, notadamente ao romance.
Caso de Rachel de Queiroz, por exemplo, a primeira mulher a ingressar, em 1977, no clube do bolinha que era a Academia Brasileira de Letras. Pouco depois, a ABL acolheu duas outras prosadoras consagradas: Dinah Silveira de Queiroz e Lygia Fagundes Telles. O incrédulo leitor poderá perguntar: e as nossas poetas, onde estão?
É curioso observar, mas mesmo em épocas mais recentes, as escritoras continuavam sendo preteridas. Um exemplo é a inexistência de qualquer nome feminino vinculado à literatura na Semana de 22. A exceção é Cecília Meirelles, que já havia publicado Espectros, em 1919 , Nunca Mais e Poema dos Poemas, em 1923, e Baladas para El Rei, em 1925. Assim mesmo, ela não participou da festejada Semana.
Só para não ficar sem registro, relaciono aqui alguns nomes femininos. Alguns são desconhecidos até de especialistas, outros conquistaram alguma visibilidade. Mas todas essas escritoras desempenharam um papel que não se restringia às funções de esposa, mãe e dona-de-casa. Elas foram à luta e deixaram seu recado --para além do recato.
São elas: Auta de Souza, Maria Firmina dos Reis, Narcisa Amália, Francisca Júlia, Cecília Meireles, Carolina Maria de Jesus, Clarice Lispector, Gilka Machado, Lúcia Miguel Pereira, Tatiana Belinky, Cora Coralina, Hilda Hilst, Dora Ferreira da Silva, Nísia Floresta, Adélia Prado, Barbara Lia, Renata Pallotini, Neide Arcanjo, Carolina Nabuco, Maria Rita Kehl, Adalgisa Nery, Lupe Cotrim, Astrid Cabral, Eunice Arruda, Helena Armond,Mirian de Carvalho,Raquel Naveira,Thereza Cristina Rocque de La Motta, Angélica Torres, Beatriz Bajo, Nydia Bonetti, Jacineide Travassos,etc.
Meus poemas entraram na seleção de n° 14
Monday, April 18, 2016
a escória
na tribuna falam em nome de deus
os que não têm noção
do que é O Sagrado
os que não têm noção
do que é O Sagrado
na tribuna homenageiam o demônio
que colocava ratos em vaginas
e arrancava os seios das mulheres
que colocava ratos em vaginas
e arrancava os seios das mulheres
na tribuna sorriem ao cão mor:
olhos de lince, cabelo lambido
sádico riso lavado em enxofre
olhos de lince, cabelo lambido
sádico riso lavado em enxofre
(nesta manhã foram encontrados
milhões de ratos mortos
atiraram-se ao rio profundo
para não serem comparados
à escória do mundo)
milhões de ratos mortos
atiraram-se ao rio profundo
para não serem comparados
à escória do mundo)
Bárbara Lia
Tuesday, April 12, 2016
Monday, April 04, 2016
inédito
(foto by Angie Machado) - Semana Literária SESC - na mesa com Chacal
agora finalmente estou renunciando ao pacto
rasgo o contrato
devolvo a fita
Hilda Machado
É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
Hilda Hilst
Se eu me chamasse Hilda seria poeta irônica
Evocaria antigos deuses - júbilo amorável
Desfaria contratos usando a Poesia e diria
Nuvem de organdi – metáfora acariciante
Se eu fosse Hilda deixaria a casa nas manhãs
Adentraria a floresta das palavras
Voltaria com o almoço, o jantar e a sobremesa
Viveria do verbo, devoraria nas noites:
Megatério & Ilharga
Trufas & Mimesis
Floema & Mórula
Minha alma jamais teria fome
Escreveria como quem habita outro mundo
O mundo das rainhas com senso de humor
Viveria tal qual agora - sem amor -
Mas, com um vendaval de mistérios
Costurados na saia de poeta
Não sou Hilda Machado ou Hilst
Sou bárbara poeta que teima
Em cantar o feminino com cuidado
Para que todos entendam da palavra – Mulher –
O significado
Bárbara Lia
A Revista Carlos Zemek Arte e Cultura publicou três poemas meus. O poema acima, inédito, e o poema - quando eu quis atravessar as grandes águas - integram meu próximo livro, que trará inéditos em livro.
link para a postagem da Revista:
http://revistacazemek.blogspot.com.br/2016/04/barbara-lia-quando-eu-quis-atravessar.html
Sunday, April 03, 2016
A flor dentro da árvore
"Uma migalha de mim”
Teço
Um ego-vidraça
Para que enxergues
Meu Eu
Um ego-vidraça
Para que enxergues
Meu Eu
Teço
Uma nuvem lassa
Cortina que qualquer mão
Atravessa
Cortina que qualquer mão
Atravessa
Teço
Um hímen de fumaça
Sobre a virgem essência
- tudo o que sou Eu
Um hímen de fumaça
Sobre a virgem essência
- tudo o que sou Eu
Bárbara Lia
in A flor dentro da árvore (2011)
in A flor dentro da árvore (2011)
Tem um pássaro cantando dentro de mim
Giz rendado
O que a onda diz
ao cão sentado
babando moluscos
e saudades?
Como rasgar a onda
sem cicatrizar em azul?
Beber a ardência seminal
de amantes afogados
como quem engole
segredos guardados
entre debruns
de ondas
em seu giz rendado
ao cão sentado
babando moluscos
e saudades?
Como rasgar a onda
sem cicatrizar em azul?
Beber a ardência seminal
de amantes afogados
como quem engole
segredos guardados
entre debruns
de ondas
em seu giz rendado
Bárbara Lia
Tem um pássaro cantando dentro de mim (2011)
Página 06
Página 06
A última chuva
TRISTESSA
.
.
ame quem te ama e conheça o inferno
fogo a fogo no porão do medo
fogo a fogo no cabelo da Medusa
atiçando cobras
atiçando demos.
ame quem te ama e conheça a dor
amputar pernas braços sexo e coração.
ame quem te ama
nesta luta cega
boitatás no milharal
não sobra espiga sobre espiga
e o espantalho, mudo, tira o chapéu
e dança triste no chão de palhas.
ame quem te ama e conheça o inferno
dois sustos travestidos de sons
querendo narrar o que o humano não narra
escrevendo em aramaico o avesso do vivido.
ame quem te ama
e se arrependa de viver rezando pelo amor.
ame quem te ama
e descubra
a agulha fina e gelada do olhar
o rio de deus que rola tua nuca quando ele te toca
o que é não sentir o corpo do outro
cópula de luz.
o que é ter a língua presa o corpo preso o gesto preso
e a alma livre pluma de algodão te levando onde não quer
onde não deve estar, nem teus pés, nem tuas mãos
fogo a fogo no porão do medo
fogo a fogo no cabelo da Medusa
atiçando cobras
atiçando demos.
ame quem te ama e conheça a dor
amputar pernas braços sexo e coração.
ame quem te ama
nesta luta cega
boitatás no milharal
não sobra espiga sobre espiga
e o espantalho, mudo, tira o chapéu
e dança triste no chão de palhas.
ame quem te ama e conheça o inferno
dois sustos travestidos de sons
querendo narrar o que o humano não narra
escrevendo em aramaico o avesso do vivido.
ame quem te ama
e se arrependa de viver rezando pelo amor.
ame quem te ama
e descubra
a agulha fina e gelada do olhar
o rio de deus que rola tua nuca quando ele te toca
o que é não sentir o corpo do outro
cópula de luz.
o que é ter a língua presa o corpo preso o gesto preso
e a alma livre pluma de algodão te levando onde não quer
onde não deve estar, nem teus pés, nem tuas mãos
Bárbara Lia
A última chuva
Mulheres emergentes (2007)
O sal das rosas
Jardim perfumado de Istambul.
Sol intolerável beija a rosa azul
no vaso branco, dois cães cor da lua
ao redor.
Teus olhos se perdem na rosa nua.
Olhos da cor do Mar Cáspio na aurora.
Gota de orvalho baila na pétala.
Cristal.
Ponto no espaço – Aleph
descortina o universo.
Sonhos enxertados de sóis, desertos,
aromas, fauna, primavera, borrascas.
Todo universo na gota clara
que cobre a rosa. A lágrima desce solar
ao lábio carmesim, e o peito arde de amor e luz.
Sol intolerável beija a rosa azul
no vaso branco, dois cães cor da lua
ao redor.
Teus olhos se perdem na rosa nua.
Olhos da cor do Mar Cáspio na aurora.
Gota de orvalho baila na pétala.
Cristal.
Ponto no espaço – Aleph
descortina o universo.
Sonhos enxertados de sóis, desertos,
aromas, fauna, primavera, borrascas.
Todo universo na gota clara
que cobre a rosa. A lágrima desce solar
ao lábio carmesim, e o peito arde de amor e luz.
Bárbara Lia in O sal das rosas (lumme editor)
este poema também integra a Antologia - Arqueologia da Palavra Anatomia da Língua (Literatas - Maputo)
**Livrarias Cultura ou via editora**
Noir
Enamorar-se é criar uma religião cujo Deus é falível?
Jorge Luis Borges
Creio no teu sorriso envolto no espírito do tabaco.
Creio no teu silêncio, que só se quebra para pronunciar meu nome.
Creio em teus versos lavados em minúcias e sustos.
Creio na paz que se instaura em quem senta ao teu lado.
Creio na morte da pequenez que teus passos aniquilam.
Creio na morte, la petite-mort que viverei em teus braços.
Bárbara Lia (Noir - 2006)
Texto Criativo sobre "NOIR", da poeta e historiadora Barbara Lia
por Luis Serguilha
A Sonoridade dos tigres das metáforas mobilizam as homenagens solares e a Barbara encaminha as linfas dos elementos energéticos até à desvairada obscuridade das criptas. As palavras como cordas expansíveis desencarceram os pássaros loucos da sua interioridade. NOIR símbolo da febre submarina e dos silêncios das escamas incandescentes que flutuam sobre as abóbadas da angústia e do medo. NOIR PALAVRA INESGOTÁVEL tentando completar a Barbara em sucessivos renascimentos. O lugar inaugural da catarse canta a solidão da rebeldia e transpõe a diminuição dos abismos como a verdadeira arte da mudança. Barbara restaura os magnetismos das palavras para iluminar a decisão primordial do desejo, libertando o silêncio e a vida absoluta porque quer a manifestação sensual na incorruptibilidade do ser.
Barbara diz ´´que é a palavra´´, ou o vivo movimento das origens das suas impulsões plenas de mistérios e de metamorfoses poéticas, revelando regeneradoramente o jogo erótico onde os astros soltam as línguas infindáveis. Os vestuários das inflexões atravessam os instantes do cromatismo das feridas, este circulo de crisálidas alucinantes que BARBARA encandeia com a violência dos seus ecos, com o naufrágio da claridade dos ritmos, com o sal-húmus das gargantas dos cenários.
As imagens ampliadas dos corpos fluem através das mandíbulas líquidas que proliferam sobre os acordes inatacáveis deste livro, porque a Barbara modela-se a si própria entre as unânimes correspondências: aqui a reciprocidade das vibrações forma os cavalos dos limites onde as loucas marchas despertam os halos do pulsar erótico.
A performance da palavra explora o bálsamo perfeito e descodifica a arqueologia dos sentidos. Barbara explora a jubilação da folhagem humana, desenha a efervescência da comunicação para consumar o ciclone paradisíaco ou a loucura da graça do absurdo .
O balanço afrodisíaco e vegetal sopra sobre os espelhos enunciadores da andadura dos signos onde a gigantesca luz do amor é sempre trágica e incompreendida.
O olhar de NOIR abre o ancoradouro solar e tropeça nas árvores cósmicas como um corpo secreto a alimentar as coordenadas criadoras doutro corpo, porque quer abraçar livremente o mundo.
A musicalidade ramifica a navegação da génese das palavras e eleva a Barbara a uma paisagem de fantasia. O sofrimento humano interroga as fugas inextinguíveis como uma constelação de aprendizagens sobre obstáculos permanentes.
NOIR procura profundamente a respiração visual do desejo, relembrando Ramos Rosa "que não pode adiar o amor para outro século ainda que o grito sufoque a garganta".
.
Luís Serguilha, poeta português, nasceuem Vila Nova de Famalicão, em 1966. Publicou, entre outros livros de poesia, O périplo do cacho, O outro, Embarcações, O externo tatuado da visão, Lorosa’e boca de sândalo e A Singradura do capinador
Barbara diz ´´que é a palavra´´, ou o vivo movimento das origens das suas impulsões plenas de mistérios e de metamorfoses poéticas, revelando regeneradoramente o jogo erótico onde os astros soltam as línguas infindáveis. Os vestuários das inflexões atravessam os instantes do cromatismo das feridas, este circulo de crisálidas alucinantes que BARBARA encandeia com a violência dos seus ecos, com o naufrágio da claridade dos ritmos, com o sal-húmus das gargantas dos cenários.
As imagens ampliadas dos corpos fluem através das mandíbulas líquidas que proliferam sobre os acordes inatacáveis deste livro, porque a Barbara modela-se a si própria entre as unânimes correspondências: aqui a reciprocidade das vibrações forma os cavalos dos limites onde as loucas marchas despertam os halos do pulsar erótico.
A performance da palavra explora o bálsamo perfeito e descodifica a arqueologia dos sentidos. Barbara explora a jubilação da folhagem humana, desenha a efervescência da comunicação para consumar o ciclone paradisíaco ou a loucura da graça do absurdo .
O balanço afrodisíaco e vegetal sopra sobre os espelhos enunciadores da andadura dos signos onde a gigantesca luz do amor é sempre trágica e incompreendida.
O olhar de NOIR abre o ancoradouro solar e tropeça nas árvores cósmicas como um corpo secreto a alimentar as coordenadas criadoras doutro corpo, porque quer abraçar livremente o mundo.
A musicalidade ramifica a navegação da génese das palavras e eleva a Barbara a uma paisagem de fantasia. O sofrimento humano interroga as fugas inextinguíveis como uma constelação de aprendizagens sobre obstáculos permanentes.
NOIR procura profundamente a respiração visual do desejo, relembrando Ramos Rosa "que não pode adiar o amor para outro século ainda que o grito sufoque a garganta".
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Luís Serguilha, poeta português, nasceu
O sorriso de Leonardo (2004)
Entardecer lilás
brisa de raro fôlego
do deus das nuvens.
Pés descalços
liberdade de estar amando
na era dos mísseis.
Bárbara Lia
Thursday, March 31, 2016
Friday, March 25, 2016
Poesia contra a guerra
Círculo vicioso
Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume
- "Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
Que arde no azul, como uma eterna vela!"
Masa estrela, fitando a luz, com ciúme:
- "Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
Que arde no azul, como uma eterna vela!"
Masa estrela, fitando a luz, com ciúme:
- "Pudesse eu copiar o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela!"
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela!"
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:
- "Mísera! Tivesse eu aquela enorme, aquela
Claridade imortal, que toda a luz resume!"
Mas o sol, inclinando a rútila capela:
Claridade imortal, que toda a luz resume!"
Mas o sol, inclinando a rútila capela:
- "Pesa-me esta brilhante auréola de nume...
Enfara-me esta luz e desmedida umbela...
Por que não nasci eu um simples vaga-lume?"
Enfara-me esta luz e desmedida umbela...
Por que não nasci eu um simples vaga-lume?"
Machado de Assis
Tuesday, March 22, 2016
Março sempre prepara um abril despedaçado
.
.
Reunir cacos da Pátria
Na enseada da Esperança
Para construir um molhe
Lembra estes olhos ônix?
Eram os olhos da dignidade
Coloque-os ali, ao lado
Dos braços fortes da verdade
Nestas horas é preciso blindar
O músculo pulsante
Endureça-o com o aço da paz
Sabemos o que a podridão faz
Já vimos este filme tempos atrás
Beije pela última vez o teu amor
Breve teu coração arderá
Na fogueira da ira que virá
Melhor morrer na enseada
Na pequena ilha da esperança
Que viver na larga lagoa pútrida
Com patinhos fazendo plim-plim
(Isso, realmente, não é para mim)
Bárbara Lia
Sunday, March 20, 2016
Carol
A trilha sonora é linda. Algumas cenas lavadas pela neblina, ou por uma espécie de - matéria do sonho - uma nitidez escassa que enlaça em uma aura encantatória. A certeza ao final de Carol é que não mudou quase nada a forma como o mundo age, neste desnível de olhar, onde os homens tudo podem e as mulheres quase nada. A salvação é o que o amor ainda brota, apesar de tudo, em longos olhares, estes que duram 5, 4, 3, 2, 1 segundos... E neste instante tão mínimo na régua do tempo, dá para desvelar um mundo. Carol é para os que já mergulharam - um dia - no olhar do amado (a)... único espaço maior que a palavra... Sempre bom ver Cate Blanchett, incrível neste filme de Todd Haynes... um oásis meio ao caos.
Saturday, March 19, 2016
Ciudad sin sueño
Os homens que não sonham
(Bárbara Lia)
No duerme nadie por El cielo. Nadie, nadie.
No duerme nadie.
Las criaturas de La luna huelen y rondan sus cabañas.
Vendrán las iguanas vivas a morder a los hombres que no sueñan.
(Federico Garcia Lorca – fragmento de Ciudad sin sueño)
Os homens que não sonham demolem pontes catedrais parques cânions praças
Os homens que não sonham incineram as rosas cálidas das núpcias da moça feia
Os homens que não sonham afogam pássaros em nuvens escarlates enquanto riem
Os homens que não sonham pisam prímulas pálidas em varandas centenárias
Os homens que não sonham pintam máscaras de dor em crianças, com traços de Dali
Os homens que não sonham queimam o violino roto do último anjo que passou aqui
Os homens que não sonham armazenam cédulas, pepitas, moedas, esmeraldas, royalties
Os homens que não sonham caminham vestindo Armani olhos foscos atrás dos óculos
Os homens que não sonham trituram sonhos dos reais sonhadores como quem respira
Os homens que não sonham pisam pontes de gelo e alçam asas em pássaros niquelados
Os homens que não sonham nunca leram Lorca, não sabem de Las criaturas de la luna
Os homens que não sonham pisam flores de cerejeiras - tapete aveludado - e nem rezam
Os homens que não sonham odeiam flores nascidas pós-bombas em beleza voluntariosa
Os homens que não sonham ignoram iguanas vivas seus dentes de serra e olhar de vidro
Os homens que não sonham não veem os dentes afiados de iguanas tristes na pedra fria
Os homens que não sonham ignoram a mordida de iguana e ignoram que não sonham
Os homens que não sonham fecharam a via estreita que nos aproxima de um éden
Os homens que não sonham não amam iguanas, cidades, pedras, éden, cerejeiras, anjos
Os homens que não sonham não amam nada, não tocam nada, não vivem nada...
Thursday, March 10, 2016
a rosa selvagem
tempo de luta
das rosas rebeldes
não aquelas dos buquês
falo da rosa selvagem
aferrada ao solo
pra nunca mais ser morta
das rosas rebeldes
não aquelas dos buquês
falo da rosa selvagem
aferrada ao solo
pra nunca mais ser morta
Bárbara Lia
Pagu, 1933 by Candido Portinari
Eu sou Poeta
-
- pinBiblioteca Alceu Amoroso Lima - CSMBRua Henrique Schaumann, 777, PinheirosSão PauloDia 19 março, sábado
Local: Biblioteca Alceu Amoroso Lima
Rua Henrique Schaumann, 777, Pinheiros, São Paulo (SP)
10h: Oficina Lendo Mulheres: a potência da poesia feminina
Com Jeanne Callegari
Não haverá inscrição prévia. É só chegar, a lotação é de 30 pessoas.
14h: Abertura
15h: Clube de Leitura
Mediadoras: Lubi Prates e Pilar Bu
Livro: Do desejo, Hilda Hilst
Convidada: A confirmar
Não haverá inscrição prévia. É só chegar, a lotação é de 30 pessoas.
16h: Tradutoras
Mediadora: Francesca Cricelli
Convidadas: Ana Cecília, Sarah Valle e Maurício Santana Dias
18h: Sarau microfone aberto
Dia 20 de março, domingo
Local: Biblioteca Alceu Amoroso Lima
Rua Henrique Schaumann, 777, Pinheiros, São Paulo (SP)
10h: Oficina de fanzine: as línguas e os idiomas das mulheres
Mediadora: Julia Francisca autora da zine [nectarina]
Oficina para mulheres conhecerem a linguagem do fanzine e aprenderem a publicar seus escritos com autonomia. Espaço de diálogo e troca de escritos, referências visuais e técnicas de publicação. O objetivo é reconhecer as diferentes vozes das mulheres e encontrar meios para que nós possamos falar para o mundo, publicar textos, etc.
Não haverá inscrição prévia. É só chegar, a lotação é de 30 pessoas.
14h: Poesia é resistência?
Mediadora: Juliana Bernardo
Convidadas: Tula Pilar, Jarid Arraes, Geruza Zelnys e Jenyffer Nascimento
16h: Mulheres e invenção
Mediadora: Maíra Mendes Galvão
Convidadas: Fabiana Faleiros, Luisa Nóbrega, Julia Mendes e Dirceu Villa
18h: Microfone aberto
19h: Encerramento: abraço geral
* * * * * * *
https://eusoupoeta.wordpress.com/
Saturday, March 05, 2016
Mundo caduco
Agora, quando digo:
— Sou Poeta
A voz trava na garganta.
Je suis poète?
Não posso mais escolher como Drummond
“Não serei o poeta de um mundo caduco”
Carlos, não há mais escolha:
O mundo caducou
Bárbara Lia
Foto: EPA/Herbert P.
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La nave va...
"Não o convidei ao meu corpo" no Canal Senhora Literatura
"Não o convidei ao meu corpo" no Canal Senhora Literatura da escritora Francine Cruz. https://www.youtube.com/watch? v=IxpCcdUM7...
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Amedeo Modigliani Paris e um amor Ode de absinto E dança A voz de Piaf acorda As pedras de um beco: “C'est lui pour moi Moi pour lui...
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Serviço: Lançamento da 2a. Temporada da websérie Pássaros Ruins Data: 11/09/2016 - Domingo Local: Cinemateca de Curiti...
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Javier Beltrán (Federico García Lorca) e Robert Pattinson (Salvador Dalí) em uma cena do filme - Poucas Cinzas - que revi e voltei a sentir...
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(Leitura poética de “Trato de Levante”) Livre. O poeta é livre. Canta Neruda com amor revolucionário. Depois que tanto...
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Louis Garrel _ Cena de "La Belle Personne" de Christophe Honoré "O poeta escreve sobre oceanos que não conhece...
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F rida inventou um novo verbo para dizer “Eu te amo”: Yo te cielo. Rimbaud queria reinventar o amor: L'amour est à réinventer. Quiç...
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É incrível que elas tenham nascido na mesma data, Clarice em 10 de dezembro de 1920 em Chechelnyk, Ucrânia e Emily Dickin...
-
INSÔNIA Este é o século da nossa insônia Mentes plugadas em telas isonômicas Longe dos mitos e da cosmogonia Dopados de “soma” e ...




















