Monday, July 11, 2016

Todas as tardes de maio serão tuas




nomear este estio virulento, esta esterilidade abrupta
vai ser sempre estranho como naquelas gravuras
onde uma silhueta vazada permeia a cena
estarás sempre ali como um presságio
ou o tudo que eu não via que eu não vi
e chorar isto vai ser jogar de novo o tempo pelo ralo
então eu calo então eu calo o tempo do estio bravio
os anos sáfaros em que estavas em mim
e - ao mesmo tempo - 
ausente na superfície das coisas pétreas


Bárbara Lia

Tuesday, July 05, 2016

As minhas mulheres...



Elas vieram a mim em bandos, primeiro a família Piccoli: Pietra, Esperança, Serena e Bárbara. Vieram para falar da Solidão Calcinada que as mulheres enfrentam quando dizem sim ao anjo da liberdade. Foi dolorido. Era a catarse minha. Queria expurgar minha culpa daquela crença da infância, eu não era culpada, mas me sentia assim. Eu me sentia culpada por acreditar, na adolescência, que os rebeldes dos anos sessenta eram terroristas. Foi a minha penitência. Eu sempre quis publicar meu primeiro romance com este tema, e consegui. No outro livro eram apenas duas: a garota que cantava em um bar e a poeta que foi viver meio à natureza. Elas eram noturnas, a deusa da noite (Nyx) e constelação mais apagada do céu (Lynx). Constelação de Ossos o filtro da minha alma, eu estava me sentindo marginalizada, me sentindo qual a garota à qual só sobra a rua, um palco, e a amiga/poesia. Depois, em um rompante louco, terminei de cerzir o que pode até mesmo ser o meu primeiro livro publicável, pois recordo que a ideia surgiu antes dos dois que foram lançados. As Filhas de Manuela é uma saga que traz como metáfora a maldição nossa de cada dia: o ser mulher, levar pela vida esta sombra sangrada. Em um rompante sem nexo elas seguem por quase dois séculos arrastando isto que incomoda, a força de ser quem pulsa vida, e não se dobra. As Filhas de Manuela tem oito capítulos encadeados, em uma espécie de epopeia, onde cada fala apresenta um ciclo de perdas e redenções. É isto. Até aqui encontrei algumas dissertações de mestrado dos meus romances já editados, e eles falam da Literatura escrita por mulheres, e a leitura é sempre a da certeza de que em minhas cenas só há espaço para - elas. As que chegam fortes, as que lutam por cada grão de liberdade. Já não é o modelo patriarcal, já não é mais a feminista que luta por ocupar o lugar, é alguém que ocupa e ponto final. Coloca-se ao lado. Digo tudo isto sobre estas mulheres dos romances que escrevi, pois hoje eu vi um corpo, envolto no sangue placentário, era forte, era alvo e pulsava. Há uma única personagem, pela primeira vez. Ela está a sós, e tive medo dela. Ela acabou de nascer e eu a temo. Quando veio a mim pelo sopro da criação, era menina ainda, é menina, só a vejo ali, uniforme escolar, primeira menstruação, um amor platônico pelo professor. Ela se apresenta e eu sei que agora eu vou desaparecer, segurando sua mão úmida ainda do sangue dos nascituros, e vamos adentrar o desconhecido... Ela exige que eu construa uma cidade, quase como em Dogville, e ela chega como em Dogville com assustados olhos azuis, e ela chega com enigmas. O que ela não sabe é que já sei a última cena, e entre a primeira e a última cena de uma vida bem longe do banal, décadas e quiçá um encontro, destes que nadie explica, uma espécie de mistério que cada um vive uma vez na vida. Talvez ela já seja a minha personagem preferida...

imagem: Nicole Kidman em Dogville

Monday, June 27, 2016

para Ana C.








...ausência frequentada sem mistério
céu que recua
sem pergunta

Ana Cristina Cesar



Subir a London Road de bicicleta
Tempo de cartões postais e promessas
Em cada canto do mundo um avião pousa - A teus pés
Como quem se move em um oceano de folhagens
O momento fel acena - céu que recua sem pergunta _
Anula o tratado de delicadeza
Ignora belas meninas nas estações vazias
Uma mala nas mãos e por companhia
Assombro e luvas de pelica



Bárbara Lia
in Respirar ( 2014)

Wednesday, June 22, 2016

Stellan Skarsgård - River



River, inspetor de polícia interpretado por Stellan Skarsgård é alguém que transita em um mundo onde ele não separa os vivos dos mortos. Isto faz dele aquele cara que chama a atenção. Por ser aquele cara que resolve a maioria dos casos, é sempre protegido pela sua chefe. River não quer ajuda psiquiátrica, ele crê que não vê fantasmas, ele chama de manifestações. 
Algum dia poderei dizer do fulminante impacto que a força deste ator trouxe para minha vida... Algumas vezes um poema, uma canção, um filme,  uma obra de Arte cai diante dos teus olhos para tocar o ponto crucial e trazer respostas... Acho que Stellan Skarsgård deve ter sido este canal de impacto em muitas pessoas pela vida, e penso que ele sabe.
A série está no Netflix: River.
Imperdível.

Sinopse: John River é um  brilhante inspetor de polícia  cuja genialidade está lado a lado com a fragilidade de sua mente. Ele é um homem assombrado pelas vítimas de assassinato cujos casos ele deve desvendar
Com Stellan Skarsgård, Nicola Walker, Lesley Manville...














Stellan Skarsgård

20 de junho

Entrei em estado de Stellan, apaixonada por ele, sim eu me apaixono com a perfeita fusão arte + artista. Fui atrás dos filmes deste deus viking: Stellan Skarsgård. É uma pena que muitos filmes são noruegueses e sem legenda, o que impossibilita. Ainda assim, fica a gratidão por dar de cara com a série River e ver, finalmente, Breaking the Waves. Stellan está em muitos filmes de Lars Von Trier, em todos que vi, por sinal... E acaba de ser eleito o ator mais amado por mim.





21 de junho:

Sigo em "estado de Stellan" e tento ver ao menos um filme dele ao dia, hoje encontrei um filme que é belo, mas com legenda em inglês e um russo falando e obliterando a fala original, todos os personagens sem a emoção do texto e só isto, quem sabe eu consiga ver até o fim...
...
Zero Kelvin - Sem limites: Na década de 20, três homens contratados como caçadores de focas tem que passar um ano de solidão no frio da Groelândia. Um deles é um jovem aspirante a poeta que vivia em Oslo, na capital norueguesa, e que decide largar a namorada para enfrentar a neve. Lá chegando, ele conhece os outros dois homens: um bruto mal-humorado e um cientista caladão. As personalidades distoantes dos três os levam a conflitos dentro de um casebre no gelo, que acabarão por deixar quando o cientista faz uma intervenção decisiva na situação.



Sunday, June 12, 2016

Despedida oficial do Wonka Bar - Vox Urbe - 15/06 - 21h



A noticia do fechamento do Wonka Bar antecipa a nostalgia. Já estou com saudades do palco do porão, das noites de poesia. O Wonka sempre foi um palco possível para tantos poetas e lá vivi noites inesquecíveis... Desde o Porão Loquax que iniciou em 2005 com a curadoria do poeta Mário Domingues. Um projeto lindo que por um tempo trouxe ao palco poetas incríveis de toda parte. Houve aquele hiato, por um tempo a poesia calou no porão, mas retornou com o Vox Urbe e a curadoria do poeta Ricardo Pozzo. Seguimos, com esta saudade que já brota, e com um obrigado enleado em poesia à Ieda Godoy, que abriu este espaço para a Poesia. Embora tudo possa renascer em outro espaço, sempre amei aquele toque de clandestinidade que atou com beleza extremada cada evento ao cenário. O porão do Wonka foi o palco mais poético que pisei, de todos os palcos onde li poemas, em todo estes anos. E eu me sentia em casa no porão do Wonka Bar, foi o que disse a Ieda quando recebi uma mensagem sobre esta última noite de poesia naquele incrível lugar.

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Recuperei um texto meu, que eu realmente não encontro de forma fácil meio aos meus arquivos e papéis, mas consta da monografia do Márcio Davie Claudino (Duas tendências da novíssima poesia Curitibana no alvorecer do século XXI) este texto escrevi para o folder de um dos aniversários do Porão Loquax:
Para alguns poetas em Curitiba o Porão do Wonka Bar acabou por tornar-se uma Confeitaria Richmond, uma London City. Algum dia vai figurar em livros, tal qual a Richmond que Borges freqüentava, ou London City, onde Cortazar escreveu – Os Prêmios. Algum dia será lembrado como o bar onde Maiakovski trafegava entre a fumaça revolucionária, o "Cão Vadio". Ou, o Café "A brasileira", onde Fernando Pessoa vivia.
Quando o poeta Mário Domingues anunciou o projeto Porão Loquax em uma parceria com Ieda Godoy do Wonka Bar, eles atiraram uma semente em um Porão. A poesia nossa de cada dia ganhou um dia sagrado – as terças-feiras. Desde a primavera de 2.005 o Projeto Porão Loquax segue dentro de sua linha independente. Em seu palco estiveram músicos, atores,poetas, escritores... Com uma doçura anárquica os idealizadores nunca rebaixaram o nível da Poesia. Este momento é único, passa longe das escolhas afetivas que permeiam algumas instituições, sem se preocupar com apadrinhamentos ou qualquer outro tipo de atitude que pudesse figurar um mínimo de discriminação. Os poetas encontraram um palco, um espaço para suas poesias, músicas e interpretações. Totalmente poético, o Porão surgiu como um lugar de resistência, que se faz necessário manter, para que a poesia se aloje definitivamente,com toda a sua bagagem e seus resistentes, com toda a sua contradição, sedução, brilho que só ela contém.



Porão Loquax
Cantos Bárbaros  (2006)
Melina Mulazani
Leitura de poemas do livro Noir


Painel com poemas de alguns poetas em uma exposição no porão
a arte é de Brenda Santos



Porão Loquax
O sal das rosas
2007



Lançamento do livro - A última chuva
Porão Loquax 2007
Noite de lançamento de três poetas
Márcio Claudino, Rodrigo Madeira e eu
Gabriela Caramuru lê alguns poemas do livro







Em 2007 selecionei poemas para uma homenagem a Sylvia Plath - 
'SYLVIA E O FALCÃO"
Porão Loquax
Um registro da homenagem à Sylvia Plath: 
Carolina Maia e Andrew Knoll 



C2H2 - Musas de Acetileno
Vox Urbe
Direção Geisa Mueller
Eu e Geisa Mueller no palco do Wonka Bar




Thursday, June 02, 2016

Inverno / A noite se foi ou o celibato do superman - Teuni - Teatro - Curitiba




foto: Vitor Dias

Aniversário de Ana C.


Ana Cristina Cesar
Rio de Janeiro, 2 de junho de 1952 — Rio de Janeiro, 29 de outubro de 1983




Século passado, estava na biblioteca do MUMA e à procura de poesia para ler meus olhos e mãos foram puxados para um exemplar de - A teus pés - foi esta a manhã que me revelou Ana C. 

Sai procurando livros e poemas de Ana Cristina Cesar, eu estava começando a escrever (na metade da minha vida) e ela havia começado quando aprendeu a falar. Sempre me assusto quando penso que ela é apenas três anos mais velha que eu. Eu sempre toco a delicada sensibilidade da essência de uma pessoa que de tanta vida preferiu a morte... Eu digo pessoa por estar cada dia mais machucada com tanta guerra entre os sexos, e abraço uma humanidade despida de sexo e penso nas coisas que podem ser iguais, na possibilidade de uma trégua e um lugar onde ser sensível não seja sinônimo de fraqueza. Eu mesma estou retalhada n'alma e ainda sustento o mundo com a ponta de um dedo e sempre pensei que o desmoronamento das possibilidades é que joga contra o paredão alguns poetas, Penso nisto quando evoco Sylvia Plath e penso nisto quando lembro Ana Cristina. A leveza dela permanece, como o fog de Londres, como as nuvens que a acompanhavam enquanto ela pedalava em alguma rua do mundo, 
O ofício do poeta é pensar, é digladiar com o mundo e nesta guerra alguns decidem que esta merda de mundo não vale a pena, e eu acho que a liberdade de viver ou morrer não macula nada. Pensar, tocar as arestas sangradas, sofrer... Meu neto tem apenas seis anos e já me disse um dia: Você pensa demais... É o que fazemos, e pingamos pensamentos como quem quer entender o que ninguém entende, Há metafísica no ar, Então, não peçam para descartar a metafísica, Não sou o Esteves do poema Tabacaria... 
Mas, isto não importa... importa que há algumas décadas nasceu uma poeta que aprendeu bem cedo que é a palavra a nossa arma de guerra, para a vida e para a morte.

Sunday, May 22, 2016

poetry!




não roubarão esta fagulha afoita
que nada dentro da mulher inteira
não tirarão o ar da agonia densa
- viver atada ao umbigo de deus -
não alcançarão minha alma libélula
para aprisionar em mesmices diplomáticas
ainda piso o primeiro rio
ainda canto na rua escura à luz das estrelas
e puxo o fio que desata as sempre vivas
danço na chuva de suas folhas brancas
não roubarão o fogo alucinado
que dorme e acorda - sempre - a meu lado
eu sou o que sou - habitante de um céu
estraçalhado -
caos, poema e santa rebeldia
não roubarão esta fagulha afoita
pra colocar no lugar uma farsa fria

Bárbara Lia

imagem da poeta Patti Smith

Wednesday, May 18, 2016

Breve anotação em tempos de barbárie...


Dizem que a cultura é descartável, que só importa trabalhar e não pensar... 

Os "vagabundos" que pessoas estão a ofender por aí. Um grão de areia no deserto da beleza - o que os músicos do Rio criaram ontem é só uma mínima mostra de quantos monstros vivos estão neste pais a criar para o palco, para a tela, para o livro, criando as canções da vida. O alicerce da cultura que vai mostrar quem fomos neste tempo... Somos sim, os que criam filmes e vida no palco, os que escrevem o que seus bisnetos vão ler e sentir aquele reconhecimento humano dentro. Que tempo triste este em que os que dão alma e dias na construção de algo intangível são obrigados a ser destratados e seguem a construir, a esculpir e a poetizar este tempo bárbaro, cruel, sem encanto, onde as coisas pequenas e tacanhas dão a ordem: calem-se, vagabundos.
Atrás da sombra dos séculos ofendem cada um que optou por trabalhar o pensamento, retirar da alma os elementos como um alquimista perpetuar o que há de mais humano em nós.


Monday, May 16, 2016

As Filhas de Manuela




Manuela acredita que o orvalho é lágrima das estrelas. Lava suas toalhinhas íntimas e depois de secas espera pelas lágrimas das estrelas com o desejo de esculpir em seu sexo a força vibrante e estremecida dos astros. Nas noites deita as toalhinhas na pedra escura diante da porta da cozinha.  Lenço rústico estendido – cor de algodão cru – na madrugada calada. O vento ondulando o tecido ao clarão da lua - um mínimo mar de algodão ondulado. Nas manhãs ela recolhe o pano refrescado pelo vento virgem. Sente na pele o atrito das estrelas em céu rascante – seu sexo inexplorado.
Sempre sonhava com uma estrela raspando o teto do mundo e acordava com aquela imagem na retina - invisível tatuagem que só ela via pregada nas paredes caiadas da casa. Gosta de sentir colado ao seu corpo virgem o tecido suave com a aura seca da lágrima evaporada, pernoitada lágrima de uma estrela qualquer.

As Filhas de Manuela - Bárbara Lia
Menção honrosa na primeira edição do Prémio Fundação Eça de Queiroz (Portugal)
Imagem: Ocais do porto de Paranaguá - Miguel Bakun
**Manuela é a personagem que inicia este romance no ano de 1839... Ela poderia emergir subitamente de uma tela de Miguel Bakun, nosso pintor mais incrível... Uma menina que se envolve com um homem da Armada Nacional que veio ao sul combater os Farrapos e o encontro dos dois engendra uma saga de mulheres amaldiçoadas que levam atrás de si uma sombra da cor do sangue... Realismo mágico, protagonistas femininas como tem sido sempre em meus livros. As mulheres da estirpe de Manuela dirão da vida, do amor, da morte, conquistas, saudade, sacrifício... Atravessando séculos, bruta aventura em prosa**

Thursday, May 12, 2016

Querida Presidenta...




Há muitos anos toquei o ódio contra tua alma guerreira. Começou na tua primeira campanha à Presidência da República. Cresci em uma família conservadora e direita radical. Naquele ano eu estava com minha decisão tomada desde o início, era vital seguir com as políticas sociais implementadas por Lula. Tirar milhões da linha da miséria e da pobreza, dar dignidade às pessoas, permitir que os jovens pobres tivessem acesso às Universidades, ajudar com uma mudança jamais vista era e sempre foi um sonho meu, uma espécie de tempo de felicidade que sofreu um duro golpe no dia de hoje. Estava eu, em uma manhã, tranquila e calma em minha casa quando abri um e-mail enviado por algumas parentas. Era o mesmo e-mail com a mesma mentira. Era o começo daquela patrulha do ódio que planta coisas irreais, repetem à exaustão até convencer os que não tem um pensamento político sólido. O e-mail dizia que você era uma terrorista, uma ficha do dops, uma sequência de noticias sobre sua vida de luta pela liberdade. Sim, eu conhecia a tua luta e esta frase resume tua vida para quem conhece História. A "terrorista" não poderia governar o País. O e-mail deveria ser ignorado como sempre faço com os da família para não brigar com sangue do meu sangue, No entanto, sob impacto daquela invasão querendo impor-me uma ideia mentirosa, respondi bruscamente e criei atrito com irmã e primas. Seguiu um tempo onde - nunca antes na história deste país - alguém foi tão severamente atacada. E ao ver-te hoje a sorrir neste momento tão crítico eu fico pensando em antigas heroínas, e nas lendas que meu pai contava. Existe um lugar onde a força reside. Longe de filmes hollywoodianos e lado negro ou não da força, longe das coisas de agora que dissolvem líquidas sempre e em tudo, existe um lugar onde a força reside. E algumas almas tocam este lugar. Algumas pessoas sabem que existe um fator que a tudo sublima, e existe um ideal onde podemos amarrar nossos navios à salvo. Independente do futuro, do hoje, de toda nossa impotência diante da sanha e do ódio das almas pequenas, é la que você caminha, é onde você chegou. Li sobre o limite da dor humana. Quiçá aqueles antigos dias nas mãos do carrasco a tenha conduzido ao patamar inatingível. E você soube que bastava seguir o coração para encontrar a paz bendita dos fortes que vivem por amor. Obrigada Dilma por toda a sua dedicação desde sua adolescência. Obrigada por ter olhado os meninos, jovens, mulheres e estabelecido um tempo belo, dói saber que muitas conquistas irão para o ralo, mas, nos reergueremos meio aos escombros e este ideal de igualdade, de justiça social e este tempo tão raro que fez com que o Brasil fosse olhado com respeito em todo mundo, ele há de voltar. Querida e ainda nossa Presidenta, conte com nossa força e nossa luta.

Monday, May 09, 2016

AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA - Rubens Jardim




Em Junho de 2011 o poeta Rubens Jardim iniciou um mapeamento das mulheres poetas na Literatura Brasileira, belo projeto que descortina um cenário pleno de vozes e estilos de várias épocas, quiçá o mais completo arquivo de poesia escrita por mulheres no Brasil. As postagem atingem neste momento o n° 75, a cada postagem figuram 04 poetas neste momento em que somos trezentas fica esta alegria e a expectativa de que haja igualdade nos meios literários, prêmios, espaço e reconhecimento... A Poesia segue... Seguimos

link para a página:


Texto de Rubens Jardim na abertura das publicações das mulheres poetas.

AS MULHERES NA LITERATURA BRASILEIRA

(Rubens Jardim)


Não faz muito tempo que elas deixaram a cozinha, os crochês e as costuras. Hoje elas são executivas, médicas, empresárias,  políticas , professoras --e até presidentes. Mas já faz tempo que elas ingressaram na literatura, onde fizeram e fazem um excelente trabalho. Vamos dedicar este espaço a divulgar o trabalho das nossas poetas. Antes, porém, leiam este histórico.
Quando fez, em 1928, a famosa palestra sobre a presença da mulher na literatura inglesa, na Universidade de Cambridge, Virginia Woolf jamais poderia imaginar que a famosíssima Britannica iria ignorar sua posição feminista e omitir de sua bibliografia o livro A Room of One’s Own, onde foi publicada a conferência e outros escritos.
Como se vê, não é privilégio tupiniquim o esquecimento proposital da contribuição cultural da mulher em vários campos do saber e das artes. No caso específico da literatura, a questão é mais séria ainda. Afinal, tanto Silvio Romero como José Veríssimo –famosos historiadores da nossa literatura no século 19-- registraram pouquíssimos nomes femininos.
E na História Concisa da Literatura Brasileira –a mais usada no ensino atual— o prof. Alfredo Bosi só menciona quatro nomes de poetisas: Francisca Júlia, Gilka Machado, Auta de Sousa e Narcisa Amália. Mesmo assim, somente a primeira mereceu biografia e algum destaque.
Mas essa ausência, que passa uma idéia equivocada da influência feminina na cultura do país, vem sendo corrigida através de pesquisas, teses, livros, artigos e ensaios. Escritoras Brasileiras do Século XIX, organizado por Zaidhé Muzart, foi o pontapé inicial  em direção a uma reavaliação desse nosso patrimônio literário e cultural.
Publicado em 2000, o livro, com cerca de 1000 páginas, revela nada menos que 52 autoras e mostra nomes que nunca ouvimos falar —resultado desse trabalho paciente de “revolver escombros e garimpar entulhos” conforme texto introdutório da própria autora, Zaidhé Muzart
É inquestionável o mérito desse trabalho --e de um sem número de outros que foram surgindo sobre as questões relativas à mulher. É crescente, sem duvida,  a  presença delas em todas as áreas das atividades humanas. Hoje, temos até uma presidente mulher. Quanto à literatura mais recente, não podemos nos queixar. Existem muitas escritoras mulheres e elas também se apresentam em dissertações, teses de doutorado, pesquisas apresentadas em congressos e outras publicações.
Sem a pretensão de desenvolver uma avaliação desse panorama, utilizo este espaço para prestar uma homenagem às mulheres. Mais especificamente: às mulheres escritoras. Ou mais especificamente ainda: às mulheres escritoras de poemas. Afinal, por incrível que pareça, existe uma nítida predominância em nossa literatura de escritoras que se dedicaram à prosa, notadamente ao romance.
Caso de Rachel de Queiroz, por exemplo, a primeira mulher a ingressar, em 1977, no clube do bolinha que era a Academia Brasileira de Letras. Pouco depois, a ABL acolheu duas outras prosadoras consagradas: Dinah Silveira de Queiroz e Lygia Fagundes Telles. O incrédulo leitor poderá perguntar: e as nossas poetas, onde estão?
É curioso observar, mas mesmo em épocas mais recentes, as escritoras continuavam sendo preteridas. Um exemplo é a inexistência de qualquer nome feminino vinculado à literatura na Semana de 22. A exceção é Cecília Meirelles, que  já havia publicado Espectros, em 1919 , Nunca Mais e Poema dos Poemas, em 1923, e Baladas para El Rei, em 1925. Assim mesmo, ela não participou da festejada Semana.
Só para não ficar sem registro, relaciono aqui alguns nomes femininos. Alguns são desconhecidos até de especialistas, outros conquistaram alguma visibilidade. Mas todas essas escritoras desempenharam um papel que não se restringia às funções de esposa, mãe e dona-de-casa. Elas foram à luta e deixaram  seu recado --para além do recato.
São elas: Auta de Souza, Maria Firmina dos Reis, Narcisa Amália, Francisca Júlia, Cecília Meireles, Carolina Maria de Jesus, Clarice Lispector, Gilka Machado, Lúcia Miguel Pereira, Tatiana Belinky, Cora Coralina, Hilda Hilst, Dora Ferreira da Silva, Nísia Floresta, Adélia Prado, Barbara Lia, Renata Pallotini, Neide Arcanjo, Carolina Nabuco, Maria Rita Kehl, Adalgisa Nery, Lupe Cotrim, Astrid Cabral, Eunice Arruda, Helena Armond,Mirian de Carvalho,Raquel Naveira,Thereza Cristina Rocque de La Motta, Angélica Torres, Beatriz Bajo, Nydia Bonetti, Jacineide Travassos,etc.


Meus poemas entraram na seleção de n° 14

Monday, April 18, 2016

a escória







na tribuna falam em nome de deus
os que não têm noção
do que é O Sagrado
na tribuna homenageiam o demônio
que colocava ratos em vaginas
e arrancava os seios das mulheres
na tribuna sorriem ao cão mor:
olhos de lince, cabelo lambido
sádico riso lavado em enxofre
(nesta manhã foram encontrados
milhões de ratos mortos
atiraram-se ao rio profundo
para não serem comparados
à escória do mundo)
Bárbara Lia

Monday, April 04, 2016

inédito

                                                   
      (foto by Angie Machado) - Semana Literária SESC - na mesa com Chacal



                                                         agora finalmente estou renunciando ao pacto
                                                         rasgo o contrato
                                                         devolvo a fita
                                                         Hilda Machado

                                                                                É crua a vida. Alça de tripa e metal.
                                                                                Nela despenco: pedra mórula ferida. 
                                                                                Hilda Hilst


Se eu me chamasse Hilda seria poeta irônica
Evocaria antigos deuses - júbilo amorável
Desfaria contratos usando a Poesia e diria
Nuvem de organdi – metáfora acariciante
Se eu fosse Hilda deixaria a casa nas manhãs
Adentraria a floresta das palavras
Voltaria com o almoço, o jantar e a sobremesa
Viveria do verbo, devoraria nas noites:
Megatério & Ilharga
Trufas & Mimesis
Floema & Mórula
Minha alma jamais teria fome
Escreveria como quem habita outro mundo
O mundo das rainhas com senso de humor
Viveria tal qual agora - sem amor -
Mas, com um vendaval de mistérios
Costurados na saia de poeta
Não sou Hilda Machado ou Hilst
Sou bárbara poeta que teima
Em cantar o feminino com cuidado
Para que todos entendam da palavra – Mulher –
O significado

Bárbara Lia

A Revista  Carlos Zemek Arte e Cultura publicou três poemas meus. O poema acima, inédito, e  o poema - quando eu quis atravessar as grandes águas - integram meu próximo livro, que trará inéditos em livro. 

link para a postagem da Revista:

http://revistacazemek.blogspot.com.br/2016/04/barbara-lia-quando-eu-quis-atravessar.html

Sunday, April 03, 2016

Respirar


A flor dentro da árvore



"Uma migalha de mim”

Teço
Um ego-vidraça
Para que enxergues
Meu Eu

Teço
Uma nuvem lassa
Cortina que qualquer mão
Atravessa

Teço
Um hímen de fumaça
Sobre a virgem essência
- tudo o que sou Eu

Bárbara Lia
in A flor dentro da árvore (2011)

La nave va...

Ilya! (Vmesto Pis'ma) - Bárbara Lia

Connor Storrie (Ilya Rozanov). Cenas da série canadense 'Heated Rivalry'. Baseada no livro de Rachel Reed. Direção e Adaptação do ge...