
Clarice Lispector
Nesse dia
O escritor original, enquanto não está morto, é sempre escandaloso.
Sempre é melhor
Sempre é melhor
Sempre é melhor










Tangência
de ferros nos trilhos rasga em ternura
Que ofende
de tão bela.
Existirá
paisagem de dor mais fecunda que
Trens
rasgando trilhos?
Nuvem ao
redor, que nuvem aquela?
Cenário
trepida por trás de uma cortina
Estremecida
Até o ar
se emociona quando o trem se aproxima
Diante
dele a ternura de açúcar fervido
balançando
em dobras de olvido
Esquecer!
Ser este
trem que parte e vai levando diante dele
Uma
cortina
Nossos corações diluídos acima dos trilhos
Eu e
você... Recorda?
Recorda a
fumaça do teu cigarro
Tua pele
clara, o gozo líquido
-
Cortinas de açúcar -
Recorda?
Recordam
– eternamente –
Trens
triturando trilhos
Bárbara Lia
O sal das rosas (2007 - Lumme Editor)

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IDADE
.
Às vezes,
Os deuses que fodem
Na névoa do teu cérebro
Se vingam.
Outras não.
Por via dessas dúvidas
Etílicas
É preciso tomar cuidado.
Livra-te, portanto,
Do canalha, idiota, torturador
Que, sorridente,
Enche o teu saco
Na mesa ao lado.
..
...
.
.
O INVASOR
.
Dizem que não trabalho as vírgulas.
Acusam-me de ignorar as hipérboles.
Riem dos pontos da minha exclamação.
O único Alexandrino que conheço
Era almirante em Botafogo.
Querem um poeta que ponha a rima rica
No fogo.
Não sei ser tão complicado.
Minhas metáforas entendem
Seu próprio significado.
.
...
.
LIVRO
.
Nem sei como me ajeitei
Sem me machucar muito
Na máquina de moer fé.
Acho que fui protegido
Por um livro
Achado no lixo
Chamado Robinson Crusoé.
..
...
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LIBERDADE
.
Fure os tímpanos
Corte a língua,
Vaze os olhos com um garfo,
Ponha ácido nas narinas,
Corte as mãos.
Dance na escuridão da cela
Do tamanho do seu caixão.
Então sim, possibilidade.
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FAUSTO WOLFF - O pacto de Wolffenbüttel e a recriação do homem (Bertrand Brasil, 2001) este livro tem na contra-capa uma carta do Manoel de Barros...
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Carta de Manoel de Barros sobre o primeiro livro de poesia - Cem poemas de amor e uma Canção despreocupada.
Campo Grande 5/11/00
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Caro poeta Fausto Wolff,
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Você não tinha nada que pedir desculpas por sua poesia que é poesia que é poesia. O que a gente sente é que você pegou a tarefa de livrar o mundo de suas chagas. Trabalhou e trabalha ainda através de seu verbo sarcástico para atacar as hipocrisias, etc. Por tudo isso o poeta foi abafado. Estava lendo os seus poemas com a Stella e ela comentou: como que um homem tão enorme, tão comunista e tão alcoólatra (como está confessando) pode ter uma alminha de borboleta e de passarinho! Eu respondi: é porque o Fausto brigador abafou o poeta. E porque a liberdade do poeta é terrível carcerária. Só agora deixou escapar por uma fresta a sua alminha de ternuras. Nossos parabéns e nossos beijos.
Stella e Neguinho.
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Última crônica do Fausto Wolff:
http://jbonline.terra.com.br/extra/2008/09/05/e050910341.html


Passei a vida inteira comendo sonhos
Comendo sonhos como os homens das cavernas comiam carne crua
Passei a vida inteira comendo possibilidades abortadas
Recolhi a flor no ventre escuro do caule
Acendi estrelas com incenso em brasa
Passei uma vida de encantar o tolo e encantar-me pelo nada
Só tua carne me alimenta
Só tua possibilidade é o parto de uma nebulosa de gerânios
Eu, a parteira, recebendo mil flores entre os dedos
Só tu acendes estrelas com teus dedos de carne
Bárbara Lia
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