Saturday, October 16, 2010

Constelação de Ossos








Na presença da candura materna eu mergulhava as mãos na terra negra e a ajudava enquanto ela plantava sua horta. Na casa de Layla havia o jardim que alimentava o espírito; na minha casa havia a horta que não permitia que a fome viesse e se sentasse na cadeira vaga.

A cadeira vaga era de Manuel. Manuel não viveu mais que um ano, mas, minha mãe nunca o exilou para o reino dos mortos. Meu irmão mais velho que eu não conheci.

Foi na horta, enquanto ela retirava um pé de chicória que eu perguntei pela primeira vez a razão de meu nome.

Eu tinha sete anos e estava um pouco assustada com a reação na escola. Era a primeira vez que aparecia por lá uma aluna que se chamava Lynx. Minha mãe segurou minha mão e me levou para a cozinha. Um pé de chicória na outra mão. Depositou na pia a hortaliça e começou a lavar suas folhas de um verde amargo. Nunca mais comi chicória depois que ela se foi, fiquei com a impressão de que o céu tinha aquele gosto amargo. Chicória com óleo e sal e os pingos de limão-rosa que ela adicionava. Com paciência só dela começou como sempre fazia, dizendo que tudo deveria começar... Do começo.
- Um gosto amargo de céu - pg. 9

Constelação de Ossos
Bárbara Lia
coleção Anáguas - Vidráguas 2010
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a venda deste livro é via internet - quem desejar o livro entre em contato:



Wednesday, October 13, 2010

O COMEÇO DA BUSCA





Nephelibata


convida para o lançamento de sua nova coleção, O começo da busca, coordenada por Floriano Martins, apresentando seus três primeiros títulos:



O caracol privado, prosa poética de Aldo Pellegrini

O portão dourado, contos de Jacob Klintowitz

Autobiografia de um truque, prosa poética de Floriano Martins



Na ocasião também serão lançados outros dois livros:



Suspenso e alheio, de Jéferson Dantas

Jogo de sombras

, de Ian Curtis (organização e tradução de Gleiton Lentz)



Estarão presentes na noite Floriano Martins, Gleiton Lentz e Jéferson Dantas.

Serão projetados alguns vídeos de Floriano Martins.



Dia 20 de Outubro às 20hs

Taliesyn Rock Bar

Rua Fernando Machado, nº 36 Centro

Florianópolis
Santa Catarina

(48) 9916-9578

http://www.taliesyn.com.br/

www.hagah.com.br/sc/florianopolis/local/267699,2,taliesyn-rock-bar.html

Tuesday, October 12, 2010

PIETRA - 1910



    chafariz preventorio



Paquetá



Segunda-feira



Dialectos solares somam-se às notas do violino do vizinho. O estranho Sr. Cassius. Enclausurado em sua casa a genuflectir o espanto em notas que nos levam a passear pelo jardim de Vênus. Música que estanca diante do pórtico nítido da agonia com suas centelhas de notas graníticas. Paquetá, prisão que me abriga. Dilacerações nocturnas - saudades do Rio de Janeiro. Das conversas na varanda sentindo o aroma das romãzeiras.

Agora o silêncio reina, mas, ainda vibram no ar as notas do senhor Cássius que passa os dias dedilhando músicas em uma plangência que dói fundo na alma e me deixa mais triste. Mais triste por estar nesta praia, enclausurada, enquanto no Rio minhas amigas vão à confeitaria e às compras.

Nossos passos pelo quintal triturando folhas. O jardim mal-cuidado e papai recomendando que mamãe procure um jardineiro na ilha.

Lygia deve estar, neste momento, na confeitaria Colombo. Seus pais conversam e ela percorre o salão à procura de um galante rapaz.

Gestos de nobreza segurando a ponta do talher com delicadeza. Quase deixando escapar por entre os dedos. Levará muito tempo para comer sua torta. A luva de renda. A roupa que farfalha e o olhar dos pais, impacientes, à espera que ela termine a torta. À espera que seu olhar deixe de flanar pelo ambiente de sons metálicos da Confeitaria Colombo à procura daquilo que uma garota sonha: Um cavalheiro belo de olhar gentil.

Eu aqui – cobalto magnífico, maresia. Não posso negar as belezas desta ilha. É por pouco tempo - diz mamãe - só para seu pai se recuperar desta anemia e deste cansaço.

Imploro que Chronos altere a ampulheta universal e acelere estes dias para que eu possa senti-los como um sopro, um sussurro, e voltar correndo para o meu Rio de Janeiro, minhas amigas, minhas aulas, o piano, os passeios...




   foto André Rocha


Terça-feira


 
Eu, a olhar as empíreas barcas. Eu, a erguer os olhos ao alto, às nuvens em alucinada dança. Aglutinadas formam acima de mim uma clarabóia azul. E eu penso que se minhas mãos alcançassem alto, eu poderia empurrar a porta e entrar na paz dos anjos em um lugar onde a dor não mora. Viver lá no jardim eterno a beber o néctar da felicidade... Um papiro imaginário rasga-se diante dos meus olhos. Os pensamentos loucos dos meus dezessete anos que não quer as noites orgíacas das orquídeas piromaníacas. Meu ser que vacila diante da trajectória que me leva a uma forquilha que obriga a decidir para que lado seguir... Neste meditar volto a olhar o céu e os chumaços de algodão se expandem, desfazem a clarabóia, a minha possibilidade de alçar o éden. O súbito azulejar fere de luz meus olhos, tropeço na areia fria.

Uma dor profunda rasgando os tendões do meu tornozelo. Uma dor que me fez gritar e ficar lá atirada na areia. Meu grito chamou a atenção de Angélica. Ela voltou em desabalada carreira. Meu pai doente e branco como uma folha de lírio me tomou em seus braços e me levou para casa.

Ervas, ervas e meu pé enfaixado. Dor insuportável.

Mamãe trouxe-me uma sopa fumegante e fiquei a tarde toda olhando a paisagem com um livro perdido em minhas mãos sem conseguir concentrar-me.

Ter esta idade e pensar – o que é vida?

Mamãe olha-me com olhares repletos de cenhos franzidos. Com perguntas morrendo em sua garganta. As palavras quase saem, mas, fica lá como um náufrago que não suporta o furor das águas. O que deseja dizer-me?

Já quase morria o dia. Um divino silêncio precedeu à miragem. Como se anjos viessem à frente para trazer-me este instante. E a cortina bailava em sua cor suave, clara, límpida. Hora do ocaso. O horizonte de fogo lançando chamas sobre o mar, uma nova noite, um novo alento, e a cortina bailando, e o vulto de meu pai diante da casa e o outro vulto se aproxima e lhe diz:

— Boa Noite!

E as horas todas resfriam em algum lugar do Universo. Tudo pára.

Paquetá nem ao menos respira e a voz ecoa como um piano de pétalas. Uma voz de uma planície aveludada. Meus olhos perdidos entre as rendas da cortina em um vulto alto, porte de elegância britânica, um homem belo, de cabelos de ouro.

Eles conversam. Apuro os ouvidos e ouço.

Já não me arrependo do dia em que entrei na barca da Companhia Ferry, no caís Pharoux. Bendigo o instante e guardo o eco da voz. Quem é aquele homem?

Belo, não muito jovem. Olho ao redor e saio pulando em uma perna até à varanda. Posso ver um vulto que veste um costume impecável dobrar a esquina com uma sobriedade de príncipe. Meu pai abre o portão e me diz:

— Pietra, você não pode ainda sair da cama!







Quarta-feira



Amo tamarindos e os coqueiros à beira-mar em festa, como que saudando esta minh’alma nova de súbita presença envolvida em música que se chama – voz de um estranho.

Tudo ressalta belo diante dos meus olhos neste dia de azul inesquecível: o café com leite quentinho, o pão que estala em minha boca e me faz pensar que a vida é esta amplitude de sonhos. Um olhar que não sei a cor, uma voz que jamais esqueço.

O tornozelo dói. Ainda dói como se meu coração trafegasse em seus ligamentos. Agora a dor não me apavora é como se fosse parte de um ônus. Suporto a dor ante a visão de ontem. Ante a descoberta do príncipe andante.

Perscruto meu pai e quero perguntar quem é. Quem é aquela criatura que estancou diante do pequeno portão branco? Que voz é aquela? Existe, ou imaginei, após o delírio da queda.

Papai lê na varanda, um processo, com atenção absoluta. Como vai descansar se trouxe trabalho para a ilha?

Angélica se conforma em ficar trancada em casa em um dia de esplendoroso sol. Cuida-me com jeitinho materno. Pergunta-me se dói, onde dói, coloca sua boneca de louça na cama e salta ao meu redor.

Seus cachos negros, adornados de fita rosa sacodem na saliência de sua dança e não permite que eu divague na lembrança do ausente cavalheiro que ainda dobra aquela esquina, ainda caminha como um Lord, ainda cobre de mel a calçada com o rastro de sua voz. Até a música soturna do vizinho não mais me chateia, nem as pulsações das dores da queda, nem aquele incômodo mensal que surge na praia, que surge talvez do susto da queda, que surge e me deixa assim plena de dores.

Mas não foi preciso perguntar, nem interrogar quem era. Ele é ilustre. Ilustre – a palavra que papai utilizou.

O ilustre Senhor Giancarlo. Ele diz e uma rocha de gelo se aloja em meu peito.

— O ilustre senhor Giancarlo...

Continua meu pai a enumerar para minha mãe os cargos daquele que tem a voz mais bela que ouvi na minha pouca vida, e a dizer aquilo que faz ancorar uma geleira em minh’alma.

— Sabe, Anita. Giancarlo está vivendo sozinho na ilha. Deixou um advogado amigo encarregado de seus negócios e está recluso, tentando se refazer da tragédia.

— Tragédia?

Perguntou mamãe, enquanto eu ansiava pela resposta mais do que ela própria.

— Sim, a esposa dele se atirou ao mar. Temia uma doença, que segundo os médicos a mataria aos poucos, e acelerou o fim.

As palavras de meu pai projectam diante dos meus olhos a cena que a seguir se dissolve como flecha coagulada...

Circunlóquio do espanto, suspiros, leques aflitos, diademas arfantes em seios suspirantes. A beleza da voz dele: — Boa noite! Entra na cena que meu pai narra. A voz dele arquitectura sonora da beleza.

Recolho-me ao quarto e procuro entre os pontos do bordado e as notas áridas do vizinho Cássius uma explicação para este solar crepitar da alma.




 
 
Quinta-feira

Gosto de divagar em cenas que eu nem sei se serão reais, um dia. Mas, em meu coração e alma, naquele instante elas são nítidas, cristalinas e, portanto existem. Em meu coração existem.

Eu estava vestida de um vestido da cor da areia de Paquetá. Eu tinha os negros cabelos caídos em ondas pelo meu ombro. Eu erguia o meu vestido até os joelhos e caminhava devagar pela dor da queda da semana anterior. Quando abri a porta da sala o tempo parou diante da imagem. Ali, olhando uma escultura de um anjo barroco estava o jovem Giancarlo. Soltei as bordas do vestido e me pus a contemplar o corpo dele dos pés à cabeça. Ele vestia branco. Os cabelos estavam crescidos como se fosse um desleixo. Como se ele não se importasse mais com a aparência. Sem saber que aquele ar descuidado dava a ele uma ternura selvagem.

De relance percebi que ele não fazia a barba há dias e quando ele virou-se a primeira coisa que vi foram suas olheiras profundas. Os olhos eram de um verde violento, um mar revolto, uma tempestade. Fiquei parada diante dele com a pele banhada de sol, os cabelos soltos, o vestido molhado de mar e sem conseguir articular uma palavra.

— Bom dia Senhorita...

— Pietra.

— Senhorita Pietra. Como estás? Sou Giancarlo, amigo de seu pai.

Sorri sem saber o que dizer. Desejando desaparecer dentro dos meus trajes e ressurgir em noite de gala com os cabelos adornados e a pele cuidada e então ele veria. Sim, ele veria que eu era bem mais que uma garotinha correndo em uma praia. Murmurei alguma coisa e saí correndo para a cozinha, esquecida da dor. Odiei aquele primeiro encontro. Queria que o impacto da minha visão fizesse com que ele descobrisse um outro sonho em mim. Uma outra mulher para amar. E ele viu apenas uma garotinha que brinca na praia, de cabelos soltos, mal-cuidado, uma menina com nome de Pedra.

No almoço ele se portou gentil, respeitoso diante de meus pais. Por um segundo pensei sentir o peso de um olhar em mim, enrubesci, mas acho que sou uma menina que constrói sonhos do nada.






Sexta-feira


Minha mãe disse algo ontem sobre esses amores que terminam como o dele. Que nada pode substituir esta perda, pois ele a perdeu no auge do amor e que ninguém poderá convencê-lo de que amar de novo vai valer a pena. Mamãe começou a divagar sobre Shakespeare e sua genialidade em matar tanto Romeu quanto Julieta, eu não sei. Mas, não foi Shakespeare quem matou Romeu ou Julieta, ele apenas escreveu uma lenda. Ele contou uma história. E na verdade não foi Shakespeare quem matou ninguém. Ele era um poeta na alma e ele foi escrevendo o que as pessoas lhe contaram, não criou a história, apenas verteu ao papel.

A sua poesia foi que venceu os séculos. Não seria a mesma coisa se um tolo resolvesse escrever sobre os apaixonados mais famosos do mundo. Ou se outro escrevesse sobre o príncipe da Dinamarca...

Penso que a arte é este mistério onde um homem como Shakespeare é capaz de transformar em inefável beleza as lendas do mundo. As coisas simples. Bem como Michelangelo eternizar o belo com suas mãos sagradas.

Penso em coisas amenas, e penso que não devo dizer nem mesmo a Lygia que meu coração foi arrebatado de amor por um homem mais velho, um príncipe inacessível. Penso que as coisas não são tão simples como em meu mundo imaginário.

Que existe um véu de aço entre o homem belo e as criaturas. Que pode estar certa minha mãe sobre esta dor que está aninhada em seu coração.

Foi com estes acordes profundos, rascantes como a música do meu vizinho Cássius que sai a caminhar pela ilha a me despedir de suas pedras e palmeiras e até mesmo das ondas do mar.

E lá estava eu apreciando a morte do sol. Vendo o fim do dia quando alguém tocou em meu ombro e eu me voltei. Cascatas de sons, noturnos extraviados de sinfonias de amor.

Era Giancarlo, o triste.

— Buonacera, senhorita Pietra...

— Como está o senhor?

— Bebendo a brisa da tarde. Gosto dos crepúsculos. É sempre neste momento que saio para passear. Muito bela sua família, Senhorita Pietra...

— Gracias, senhor Giancarlo.

— Digo isto embriagado de uma nostalgia sem fim...

— Aceite minhas condolências, senhor, meu pai contou-me que perdeu sua esposa...

— Poderíamos ter tido uma família assim como a tua. Mas, Henriqueta não podia ter filhos. Com o tempo percebi que nossa felicidade não seria abalada por isto. Quando começamos a divagar sobre a possibilidade de adotar uma criança, Henriqueta recebeu a noticia de que sua saúde estava muito frágil...

— Sinto muito...

— Ela precipitou-se, menina Pietra...

— Por favor, não me chame de menina.

Ele colocou seus olhos de mar em mim e eu soube que entendeu todo o vendaval. A valsa dos sentimentos rodopiando pela minha pele, meu coração, minh’alma.

— Certamente, senhorita.

— É que já tenho dezessete anos.

— Sim, eu me lembro de quando tinha dezessete.

— Também não gosto de zombarias...

O meu sangue fervia. Estava até mesmo desejando que ele me decepcionasse para que eu pudesse apagar tudo aquilo, quebrar o encanto.

Estava começando a ficar irritada, quando ele pousou, novamente, a mão nos meus ombros e disse de forma carinhosa.

— Não estou zombando de ti. Só estou tentando dizer que não há pressa em crescer, Pietra... O mundo é cruel demais para quem se torna homem, mulher, adulto, enfim... A felicidade mora neste tempo, não deixe de vivê-la. O tempo vai varrer isto de ti, e eu queria que você fosse feliz por mais tempo e não quisesse pular a linha dos anos, é só isso...

Ele pousou delicadamente a mão em meu rosto e me acariciou.

O calor dele ficou impregnado em mim.

Ele sorriu e seguiu em silêncio pela praia.

Fiquei vertida em líquido desejo diante do mar e do dia que morria e dos olhos dele e da palma que valsou em minha pele e de uma saudade que jamais eu deixaria de sentir enquanto fosse Pietra e enquanto vivesse ele estaria ali diante do mar a me sussurrar que a vida é bela aos dezessete, e jamais esqueci.


BÁRBARA LIA
Capítulo: Pietra, 1910 - do livro SOLIDÃO CALCINADA - publicado pela Imprensa Oficial do Paraná

As fotos foram gentilmente autorizadas por Jacques Azicoff
responsável pelo Projeto Pró-Memória da Ilha de Paquetá Acervo Histórico e Iconográfico:


a foto do barco solitário é de André Rocha

Sunday, October 10, 2010

Os donos do poder X A vontade do povo




Nunca leio a Folha de São Paulo. Hoje li no site http://www.viomundo.com.br/ que a ficha falsa de Dilma foi pregada nos postes da periferia. Saber que um jornal de grande porte teve coragem de publicar um material falso, no mínimo, assusta. Tive atritos com pessoas que gosto muito por conta da campanha suja empreendida pelos tucanos. O que me assusta é o terrorismo solto. O que me assusta é a campanha - vamos ganhar a qualquer custo - empreendida pelos donos do poder. No passado recente coloriram um mauricinho de Brasília e ele chegou à presidência - sabemos do que a mídia é capaz. O que fizeram com a Ética é que a gente não sabe. Contra fatos não há argumento. Não ando com saúde para embates políticos, mas, ninguém pode negar a mudança que aconteceu em nosso País. Então, os que estão nesta corda bamba, embarcando em ondas verdes que subitamente se transformam em negras, é hora de pensar. Marina é seguidora de Chico Mendes e não consigo imaginar pessoas com histórico de vida de Chico Mendes votando em propostas de tucanos. Por estas e outras publico uma opinião sobre esta campanha eleitoral. Por ter recebido uma centena de emails mentirosos, por ter me chateado quando abri um ou outro. O que eu penso é o que disse para minha irmã que ficava metralhando a Dilma: Ninguém está questionando o outro lado. As inúmeras mortes de brasileiros e brasileiras. Nenhum membro do Exército Brasileiro foi julgado pelas mortes - nada falsas - daqueles anos. Eu li - As moças de Minas, uma história dos anos sessenta - do escritor Luiz Manfredini. Dos livros que contam o que aconteceu nos anos sessenta foi o que me deixou mais angustiada, com desejo de fechar o livro a cada página. Ele contou o inenarrável, o que fizeram com as militantes da esquerda, o sofrimento que elas passaram. Mas, este é o Pais de dois pesos e duas medidas, e demitir jornalistas por "delito" de opinião como fizeram com Maria Rita Kehl, ou pregar em postes fichas falsas da candidata Dilma não vai alterar esta rota. O projeto do Presidente Lula - o vôo precioso de um metalúrgico que sacudiu as entranhas do Brasil para dar dignidade a um povo.

o adeus em um olhar

CLAUDIO HENRIQUE FRANCO BETTEGA (1971/2010) - Poeta e Ator
O Cláudio no Wonka Bar - ele havia machucado o pé naquele maio, o ano 2008.


No final de setembro eu me despedi do Cláudio. Em um lugar chamado Parangolé, no lançamento do livro do Adriano Smaniotto. O bar estava lotado, tão lotado que não pude atender ao apelo do meu coração visionário - vá dizer oi. A maré humana do vai e vem da entrada não permitiu. Ele me sorriu e eu sorri. Um sorriso que guardo com cuidado precioso. Não sabia que era despedida e adeus. Um sorriso de adeus. Hoje acessei o Twitter e havia esta homenagem no Twitter da Luciana Mallon... li e reli e acessei a página com a poesia/homenagem e o silêncio do domingo de sol é todo estranhamento. Cada qual tem o seu momento e Cláudio acumulou momentos de ternura suficientes pra viver mergulhado nela eternamente.


Adeus a Claúdio Bettega


Cláudio Bettega foi um bom ator...
Com alma letrada de escritor!
Ele, também, foi publicitário...
Com seu jeito extraordinário!

Com os seus cabelos dourados,
Olhares inocentes e devotados...
Ele parecia um anjo barroco,
Um santo real e nada oco!

Seu espírito era veloz e ágil...
Porém seu coração era frágil!
Numa fresca noite de primavera...
Ele foi chamado para a nova era!

Ele recebeu o chamado para o céu...
Para tocar lira e declamar poesias...
Perto de Deus, longe do mundo cruel...
Nas nuvens onde há mil harmonias!

Cláudio apareceu no teatro em várias cenas...
Busca era o nome do seu livro de poemas!
Hoje ele conseguiu a vida eterna...
Numa poesia doce e fraterna!

Suas asas irão me acolher...
Quando eu desencarnar...
Num divino alvorecer...
No brilho leve do luar.



Luciana do Rocio Mallon

Friday, October 08, 2010



“Próximo ao âmbar e a um mínimo céu”



Teus olhos sépia
A sinfonia dos cães
O balé dos beija-flores
O sorriso das hortênsias
O som sem igual das palavras:


Bella Bartok
Railway
Ars Amatoria
Unicórnio
Leonard Cohen


BÁRBARA LIA
pg.19
Antologia Prêmio Ufes de Literatura
Edufes/2010

Thursday, October 07, 2010

Espalhando estrelas



Domingo tomei conhecimento do T-Bone - Açougue Cultural de Brasilia. Um açougue que se transformou em Centro Cultural e que mantém uma Biblioteca. Frei Betto contou deste local especial. As iniciatívas particulares de incentivo à Leitura. Vou enviar livros para o acervo. Vou enviar meu novo livro para as Bibliotecas das Capitais. Não sei quanto tempo demora para cada biblioteca catalogar. Para Brasilia vai para o T-Bone. Nas outras Capitais para a Biblioteca Central. Quero meus livros nas bibliotecas, bem mais que nas livrarias.
Espalhar as estrelas da Constelação de Ossos. 

Wednesday, October 06, 2010

PENÚLTIMA





Como posso agora estar alegre?
era de se esperar que eu desesperasse
talvez mais tarde eu desintegre
entre o penúltimo gole do último porre
e leve ao meu lado os que me seguem

sim,
perdi a razão do que eu achava e do que eu acho,
mas aprendi que o céu é mais embaixo
ainda não sei o quanto dei
a tantas quantas amei
ainda não sei ao certo se eu errei




MARCOS PRADO

Marcos Prado de Oliveira (Curitiba, 15 de Dezembro de 196131 de Dezembro de 1996) foi um poeta, músico, ator, jornalista e agitador cultural brasileiro.

Quase-Crônica do Adeus

Quando tu te fores -
numa quase-manhã
ou num quase-dia -
sei que apagará o nome da flor,
sei que morrerá a poesia.

Sei que todos os olhos
estarão servidos à mesa
igual uma sopa fria

Marcos Antonio de Oliveira
Recife -PE
Menção Honrosa no Concurso de Poesias Helena Kolody / 2010

Tuesday, October 05, 2010

Solidão Calcinada - Bárbara Lia




Bárbara abre o livro ao acaso e começa a ler em voz alta. As cortinas embaladas pelo vento beijam a borda do livro e as mãos de Bárbara. Ela se esquiva um pouco para não olhar a árvore calcinada no canto do quintal. Sempre teve uma sensação sinistra ao olhar a árvore morta de braços abertos como um soldado ferido implorando um socorro que não chega. Pensou se devia ou não devia derrubar a árvore e desconcentrou-se.

Lembrava das recomendações da avó e mantinha a promessa de deixar a árvore calcinada e morta no quintal. Ela destoava de toda a beleza do jardim simples: A grama sempre aparada e as hortênsias ladeando a parte interna do muro. Um canteiro de amores-perfeitos ao centro de cada uma das alas do jardim que era separado por uma calçada branca, conduzindo à casa de beleza simples. Janelas e telhado da cor azul real, paredes brancas, um pórtico pequeno na entrada. Havia harmonia em tudo. Apenas a árvore ali se ressentia negra de desencanto. Ela pensava em como quebrar a promessa que havia feito à avó e que a avó Esperança havia feito à sua mãe Serena - uma menina que morreu aos vinte anos. A mãe que ela nunca conhecera. A mãe havia amado alguém que inscrevera com um canivete afiado um coração na árvore. Um coração rústico que terminava em um desenho em S.

(Mondrian - 1911)
Bárbara pensou em como quem ama se torna bruxo, mago, vidente. Não muito depois do coração inscrito ali Serena sangrou realmente. Rasgou os pulsos em uma cela. Morreu menina, em 1.970. Sempre que Bárbara olhava o coração terminando em S sabia que era um coração sangrando lágrima. Talvez aquela árvore plantada, estagnada, ficasse como uma pista. Ou um desejo de que um dia ela soubesse quem foi o homem que amara sua mãe e a presenteara com um coração. Um coração fendido em um tronco negro.
Solidão Calcinada - SEEC /PR - Imprensa Oficial (2008)

Monday, October 04, 2010

MESTRA

Ontem encontrei Ana Miranda na Bienal do Livro. Ao acaso. Em 2002 eu estava em um debate e sentei na primeira fila. Só tinha comigo a programação do evento, mas, quis um autógrafo da Ana. Ana que iluminou meus dias com seus livros desde que li - Boca do Inferno - ela trouxe Augusto dos Anjos e Gonçalves Dias em outros relatos - A Última Quimera e Dias e Dias. O impacto da narrativa de Boca do Inferno foi imprescindível. Ali estava a Mestra. É assim que quero compor meus  livros. Trazer toda a gente pra caminhar ao meu lado. Sim, eu caminhei. Eu vi Gregório de Matos e o Padre Antonio Vieira caminhando pela minha sala. Esta é a poesia em prosa. Faz muito tempo, desde então eu busco cada nova obra com ansiedade. Ana é suave, transborda calma. Na noite em que me aproximei pela vez primeira eu disse, li seus livros, quero um autógrafo. Ela perguntou meu nome e escreveu com cuidado - Para Bárbara, de olhar tão pristino e tão doce. Guardo com carinho. Ontem não pude ir ao Café Literário onde, ao lado de Márcio Souza, ela ia falar sobre o tema - Quando a vida vira ficção. Enfrentando o frio violento pela segunda vez, depois de embarcar em uma manhã de gelo para votar, embarco novamente nas brumas frias da quase noite para ir ver o Frei Betto que no Espaço Livre vai falar sobre Fé e Liberdade ao lado do Mario Sanches - professor de Teologia da PUC. Ana foi ouvir o amigo e eu a vi. Ela me sorriu e ficamos ali, um belo lugar para estar. Ouvindo Frei Betto e Mario - que eu não conhecia - percebi que existe sempre um lugar. Um lugar diferente para estar, onde os absurdos não ferem os ouvidos. Belo lugar para encerrar estes meses tristes. Um país perdido nas mãos de uma mídia indecente e despudorada  Então eu estava ali, ouvindo duas pessoas tecendo paralelos entre ciência religião e liberdade e respirando belezas e sonhos para voltar ao caminho. Abracei o Betto e me armei de coragem para dizer oi pra ela. A Mestra. Nossa conversa foi rápida e frutífera. Coisas que ela disse para que eu gravasse com cuidado. Uma alegria. Quero ler Yuxin - Alma, seu mais recente livro. Sou indígena e tenho orgulho de ser. Vou gravar na pedra bruta do meu coração cansado as palavras trocadas com Ana Miranda. O cuidado que ela teve em dedicar seu tempo a uma escritora que começa. O cuidado que as pessoas de grande alma (Yuxin) mantém. Eu aprendi a reconhecer um escritor em carne viva. Ele vai ao seu encontro sem medo. Como ela me disse para me colocar inteira no que escrevo. O grande escritor está inteiro em sua obra e não tem medo. Voltei plena de Liberdade e Promessas. Pronta para os desafios.

Adriano Smaniotto


Vísceras à Vista - do poeta Adriano Smaniotto - é mais uma publicação da Secretaria do Estado da Cultura - Governo do Paraná.
Comemorar este livro do Adriano a poesia que tão bem define o Márcio Claudino na contra-capa:

Seu trânsito é feito (e efeito) desse hibrido transe, dicotômico, entre o acadêmico-críptico X boêmio-místico, o real das ruas X o mítico apolíneo da refinada consciência da literariedade do verso que forma o poema, com o requinte da atmosfera dionisíaca que engendra a poesia. Isto equivale dizer que ele está de bem tanto com o singelo, o pungente (via comoção essencial), quanto com a elaboração analítica (via apurada fruição artística), ainda que prime pela irreverência e picardia, algumas de suas marcas registradas.
Márcio Claudino


LIÇÕES DE AREIA E SAL

1. TERAPIA

eu fui ver o mar
pra lembrar do meu tamanho,
bem menor
bem mundano

ele falou gaivotas,
pedras antigas,
conchas ao meio
e de sua esquiva rota
a mesma e não
a cada dia

eu disse
perdão por ser pequeno
e achar que as coisas são
como eu acho que as coisas são

ele continuo dizendo
ondas vagarosas e perfeitas
siris que se escondiam
e que o vento é sábio
porque ensina com o silêncio
e aprende com desvios

acima
o céu não intervinha
ameno
dizia estrelas em nuvens de algodão

então,
eu vi que não sou melhor que os peixes,
eu que penso ser melhor que os homens

eu senti que não serei um milésimo do poente,
eu que já me acho um grande mestre

eu lembrei o valor dos pescadores
e da humilde gente
eu que sou da cidade de plástico

e vi que a vida é perfeita
porque não escolhe
a praia ou o campo,
esta ou aquela areia

ela apenas segue e se desenvolve
em busca de mais vida

e quando convém ao viver
ela morre


2. NIETZCHE HOJE NÃO


mar me ensine:
se eu disser raiva
diga praia mansa

se eu pensar em guerra
leve-me numa vaga
que me lance
dois mil e nove nós no oceano

para que eu me torne
menos que a água
e mais que a terra

humano, sem demasia, humano.


3. TARDE

dois moleques
com suas conchas colhidas
suas bermudas de areia
na praia que termina o sol

estivesse aqui minha sereia
e eu seria deles, um igual.

ADRIANO SMANIOTTO
Vísceras à Vista
SEEC PR/IMPRENSA OFICIAL DO PARANÁ 2010


Adriano Smaniotto - nasceu em Curitiba PR, 1975. Publicou - Vinte vozes de uma mesma veia (1999), Versejar a voz do ser é ser de si algoz (2000), em 2003 integrou a Antologia - Passagens - organizada por Ademir Demarchi. Formado em Letras pela PUC/PR atutalmente mestrando em Estudos Literários pela UFPR. Professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira.
Adriano vê na poesia uma forma de reflexão e revolta diante do mundo. Ama algumas pessoas, além e seus pais, e acredita no ser humano, apesar de nunca ter conhecido um.

Saturday, October 02, 2010

"Até que os serafins acenem com seus chapéus brancos" - Emily Dickinson


Não nasci para resfriar o mundo
Neste lerdo cortejo de omissões
Estas palavras interditas
Suspensas


Não vim quebrar as pernas do sol
Silenciar cada bemol
Não vim para arrebentar o anzol

Do velho de Hemingway


Sou Mar e Trovão no Coração
Nasci para Amar sem lastro
Para dançar no pátio
It is My Way


Bárbara Lia
2010


Friday, October 01, 2010

Arte final da capa - Constelação de Ossos - Ricardo Hegenbart


Constelação Lynx




detalhe da capa
Foto de Ricardo Hegenbart - modelo Larissa Heinzelman



A Constelação que dá nome à personagem do livro inspirou o detalhe da capa - no belo trabalho do Ricardo Hegenbart - este detalhe da tatuagem.
O meu desejo de imprimir um romance neste semestre e o desejo da editora Carmen Silvia Pressoto de publicar minha poesia se encontraram. O outro editor Vidráguas é também Fotógrafo e nasceu esta capa. Profana quase - Humana apenas -
. Estava lendo Trilogia Suja de Havana - Quem atinge o repouso em equilibrio está perto demais de Deus para ser artista - Pedro Juan Gutiérrez - Demorei muito tempo pra visitar Pedro Juan Gutiérrez e ele salvou o tédio de esperas infindáveis em aeroportos como se eu nunca mais fosse voltar para casa. 
Fiquei grifando as palavras do Pedro Juan Gutiérrez:

"Fiquei muitos anos tentando me desprender de tanta merda que se acumulou em cima de mim. Não era fácil. Se você passar os primeiros quarenta anos de sua vida sendo um sujeito dócil, domesticado e acreditando em tudo que lhe dizem, depois vai ser quase impossível aprender a dizer "não", "vão à merda", " me deixem em paz"...
Trilogia Suja de Havana
Pedro Juan Gutiérrez
Alfaguara
pg. 28

Thursday, September 30, 2010

Belo Horizonte - Primavera - Estrelas - Imagens da noite do lançamento - Constelação de Ossos

Café com Letras





Com Sarah Vaz - Café com Letras


O Jornalista e Escritor José Aloise Bahia


Com
Eduardo Rennó e Dayane


Henrique - do Café com Letras - Recepção Maravilhosa - Gracias!


Meu amigo Isaias Faria e a Mõnica - poesia e chuva - encontros -
valeu!


Ao lado do Luciano Pelotti e da Mônica




Belô!!!!!!!
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La nave va...

"Não o convidei ao meu corpo" no Canal Senhora Literatura

  "Não o convidei ao meu corpo" no Canal Senhora Literatura da escritora Francine Cruz. https://www.youtube.com/watch? v=IxpCcdUM7...