Saturday, December 10, 2011

Hoje é dia de Emily!




Emily Dickinson, 10 de dezembro de 1830 - 15 de maio de 1886 - Amherst, Massachusetts -
Emily Dickinson e Clarice Lispector nasceram na mesma data. Uma incrível coincidência, as duas escritoras de enigmáticas personalidades, cujas obras fascinam poetas e  escritores e leitores em todo mundo.



Algo existe num dia de verão
No lento apagar de suas chamas
Que me impele a ser solene

Algo, num meio dia de verão,
Uma fundura – Um azul – Uma fragrância,
Que o êxtase transcende.

Há, também, numa noite de verão,
Algo tão brilhante e arrebatador
Que só para ver aplaudo -

E escondo minha face inquisidora
Receando que um encanto assim tão trêmulo
E sutil de mim se escape.


Emily Dickinson
Tradução de Lúcia Olinto

Hoje é dia de Clarice



Clarice Lispector! 
Jamais chegaremos ao patamar de desnudamento de almas que ela alcançou, como ir camada a camada retirando o véu dos segredos do que é ser humano. Enxergar além, muito além, tocar as magnitudes e o que há de mais reles no ser. De que outra forma ela poderia falar tão dentro, tocar cada fibra dentro da gente, esta dor que a gente esconde de toda a gente, esta pequena vergonha, aquele orgulho engavetado, um amor real naufragado? Tocar o âmago da flor da vida, da aurora de Vênus. Tocar o inalcancável e imperecível.

 ***


Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa todo entendimento. Clarice Lispector

Friday, December 09, 2011

A última chuva - Bárbara Lia






LAYLA


calçadas molhadas
- uma lâmpada grávida
estremecida de sol
pequeno -
a lembrar
que ainda é verde o trigo.
florirá
amanhã
em sol granulado,
farpas de doçura,
sempre.


DESDÊMONA

Olhou-me como nuvem,
a sugar os vapores
da minha alma.
Por que ele é meu deus,
guardei-o em um lago
onde iago
jamais chegará.



OS LOUCOS QUE EU AMO


Os loucos que eu amo
roubam segredos de estrelas
soprando um vento anis
até desfolhá-la inteira
revelando o papiro da alma.

Os loucos que eu amo
esperam, ouvido colado às colméias,
pelo cio das abelhas
e rezam
para que haja mel
daqui 5 milhões de anos.

Os loucos que eu amo
amam
mais que o visível amor
e vestem a invisível pele
de pétalas desfibradas
das rosas desprezadas.



**



Sepultei dois mortos na última primavera.
Cavei minimamente suas covas brancas,
envolvi em lençóis de linho, com óleos almiscarados.
Jamais voltarei aos seus túmulos.
Eles, que não se sabem mortos,
passeiam por paraísos com gueixas
de anis.




ASAS DE NIETZSCHE

A essência da felicidade é não ter medo.
(Nietzsche)




Em urdidura silenciosa
escondem o pássaro
no crânio branco
-arapuca tétrica-
caveira fria.
Asas em valsa
coloridas de raios
que entram pelos olhos vazados,
e aquecem feito o fogo
e as papoulas
da primeira primavera.

Asas de pluma se ferem
no osso-cárcere - sangram;

asas metafísicas
voam céus de antes.



*



A chuva baila cinza na vidraça
que abre a cidade e
as cicatrizes de concreto.
No mundo não há quem leve,
como eu, este solar crepitar na alma.

Bárbara Lia
Poesias do Livro - A última Chuva - Mulheres Emergentes (MG) 2007

Tuesday, December 06, 2011

Conestabocaenestemundo. "Antología antojadiza sobre poéticas de Mujeres de América"



 



Em 2007, o blog Conestabocaenestemundo publicou minha poesia "Camino"

Agora - Tristessa - do livro A Última Chuva, poema que as editoras acharam "bonito e interessante na forma, no ritmo"
Esta poesia é minha leitura do livro de Jack Kerouac - Tristessa.




Para ler Tristessa:

Sunday, December 04, 2011

**





É preciso antes de mais nada levantar a casa
Lígia Bojunga




O silêncio dói muito mais na pele do inimigo que o grito.
Karen Debértolis
- 1º verso da poesia "tratado sobre o silêncio"




****



A estrela da tarde

A estrela da tarde está
madura
e sem nenhum perfume

A estrela da tarde é
infecunda
e altíssima


Depois da estrela da tarde
so há:
o silêncio.

Orides Fontela

Emily Dickinson






Nunca me senti em Casa – Cá em baixo –
E nos Aprazíveis Céus
Não me sentirei em Casa – eu sei –
Eu não gosto do Paraíso–

Porque é Domingo – sempre –
E o Recreio – nunca chega –
E o Éden serão solitárias
Claras Tardes de Quarta feira –

Se, ao menos, Deus fizesse visitas –
Ou Sestas –
E deixasse de nos ver – mas dizem
Que Ele – por um Telescópio

Perpétuo nos olha –
Eu própria fugiria
D’Ele – e do Espírito Santo – e de Todos –
Não fosse o “Juízo Final”!

“Esta é a Minha Carta ao Mundo e Outros Poemas”
(tradução de Cecília Rego Pinheiro)

Saturday, December 03, 2011

Constelação de Ossos









A desistência tem que ser uma escolha. Desistir é a escolha mais sagrada de uma vida. Desistir é o verdadeiro instante humano. E só esta é a glória própria de minha condição.
A desistência é uma revelação.
Clarice Lispector



O ANJO D’ÁGUA





Sonhei com o anjo d’água. Desde a infância ele não vinha a mim. Nunca mais seu abraço azul curativo. Eu pressenti o adeus quando o piso, aos poucos, foi virando lago. Um lago azul que só eu via. Só eu sentia a dupla dor: Perder a mãe e o anjo d’água. Ele nunca antes chorara em minha frente. Naquela noite tive certeza de que o anjo d’água era a alma da mãe. O anjo sempre me acudia e consolava e fazia companhia. Se o anjo d’água era ou não a alma da mãe, diluiu com ela. Chorou a noite toda na capela, esvaziou-se em lágrimas. Minha mão a sentir a última gota do anjo a desprender-se. A febre na manhã do enterro por passar a noite toda na capela. Pés molhados na metafísica lago(a)njo – alma da minha mãe.

Aos nove anos as meninas amam roupas de renda, jóias, adornos.

Eu amava o meu vestido rosa alvíssimo:

Tecido de anarruga, corpete simples, gola redonda, saia rodada. O cinto de veludo de um rosa mais escuro que o vestido. Nunca mais o vesti depois que o despi ao final do enterro. Pus entre as toalhas que minha mãe enfeitava com bicos de crochê. Coloquei-o enovelado, amalgamado à toalha branca. O crochê sem concluir como a fixar a verdade da minha vida: Faltava um pedaço do caminho.

Interrompido.

Um fio solto a bailar sempre no ar. Eternamente entre minhas coisas, ainda molhado de anjo. Muitos anos depois sonhei com o anjo d’água. Tão nítido na nave de uma catedral gótica. Tão vívido e líquido e azulado. Acordei com o vento astuto a sacudir a cortina. A fresta da janela concedia a chuva abrupta em meu corpo. Já não tinha forças para estender a mão e fechar o vidro. Desejei que toda a chuva carimbasse uma nova vida. Uma vida na qual eu me tornasse o anjo d’água. A realidade ressuscitou o gosto do ontem na garganta

– uísque com guaraná –

E a força das mãos de Heleno, que me subjugava na hora do sexo.

Sexo.

Sexo apenas.

Seus olhos verdes ejaculados e lascivos presos em mim

– a boneca de pano entorpecida de álcool –

Sopro de ternura em uma curva trouxe a última gota de dignidade. O sexo dele extraído das entranhas ardendo entre as minhas carnes. Pude ouvir o barulho da descarga do banheiro. Era um rito que me deixava triste. Como se ele me despejasse em jatos. Como se eu fosse flor de cacto.

– última fonte de água em uma terra árida – Mas, ele se livrava de mim após saciar a sede. No silêncio das noites iguais um oco em minha alma. E eu buscava a antiga e enterrada ânsia – Um amor que me vivificasse –

As mãos de Heleno na braguilha a terminar de fechar o zíper. O olhar blasé em minha pele chamuscada de desesperança. Não ouvi minha voz, onda leve morrendo, um sopro em si bemol...

– Deixe a chave sobre a mesa da cozinha. Não volte nunca mais!

– Lyn?...

– Você ouviu. Deixe a chave.

– Esquece isto, Lyn, durma.

– Se sair com minha chave conto tudo para tua mulher.

– Duvido!

– Adeus sua mordomia. Vá, Heleno, e não volte nunca mais.

– Assim? Vá e pronto?

– Vá. Estou cansada demais para velhos refrões. Acabou.

A dor no olhar dele me fez acreditar que ele me amava, afinal.

Lívido, deu meia volta e saiu.

Bem mais simples do que eu pensava. Indolor.

Ânsia infinita de ter dez anos.

Antes da noite da despedida na capela. A dupla orfandade.

Antes, quando era só infância de mel e perfumes. O jardim de seda de Badra, mãe de Layla e Amir. A sagrada inocência entre as flores e o aroma do pão sírio.


Constelação de Ossos / Bárbara Lia / 1º Capítulo

Friday, December 02, 2011

A poesia de Bárbara Lia...




 
A poesia de Bárbara Lia quer sempre atrair o universo do sonhador para o real, para a rua, para a casa, para os amigos e para o que mais lhe pertence intimamente: filhos, amigos, amores: “guardei nas dobras da alma / os que amo e são meus” (A última chuva, p. 17) 149. E por que o real é fato nos McDonald’s da vida e no “fluxo anêmico dos carros (de luxo)” (A última chuva, p. 15), a mística busca dessa poesia é erotizar e sonhar a partir do real, com a espreita ritual da vidente na “água calêndula no ralo” que “revela”:

a forma

exata do rosto estrangeiro

e o sexo formigueiro

de prostituta de Veneza...

Espie pelas frestas do Zeppelin

dos sonhos...

Meu mundo:

Sem Florais de Bach

Feng Shui

Mantras.”

(A última chuva, p. 15).

Revelando formas de rosto e sexo pelo transe e pelos sonhos, o mundo se compõe de ausências, “sem florais de Bach / Feng Shui / Mantras”. Sem esses auxílios místicos para viver.

A realidade avistada com estranhamento significa, em poesia, colocar ao lado de um termo real outro surreal. Porque é preciso revigorar a realidade, virando o disco, tocando outra faixa. Estar atento à faixa que emerge súbita, fora do plano cotidiano é tarefa de quem avista, de repente, coisas ditas como: “andando por calçadas molhadas / -uma lâmpada grávida / estremecida de sol” (A última chuva, p. 11), “o algodoal menstrua / sangue branco / antes da primavera” (Noir, p. 31)150, “meninas nuas em camas de areia / com o pó negro de Kohl / derretendo em prazer / no olhar” (Noir, p. 41), “Como quem olha entre as frinchas de um biombo, / vi tuas mãos – lua de Isfahan” (p. 27).

Os elementos em A última chuva são líquidos e noturnos, nota-se o emprego abundante do vocábulo água, além de outros correlatos como chuva, lágrima, gota, pingos, lago, menstrua, bebe, vinho, chá, abraço líquido, vendaval molhou, enxurrada, enxágua, sede, sangram, óleos, barco. A maioria dos poemas traz essa marca indelével, a considerar a partir do próprio título do livro. A poeta prefere a água à areia, pois, dentro do silêncio quebrado pelo ritmo incômodo dos pingos de “uma torneira vazando / enlouquecendo em azul / a noite”, o tempo é marcado pelo elemento líquido que “cai em ritmo de segundos, / tatua o tempo em estilhaços líquidos”.

Além disso, a água não trai como a areia silenciosa – sub-reptícia -- “Os pingos alertam / o que a areia silencia – enganosa” (A última chuva, p. 27). A água é um símbolo a ser alcançado, na alquimia da palavra, é a fluência, a limpidez, a pureza. A poeta refaz a metáfora do tempo – areia – para água, “Com o pingar aflito do tempo – água –” (A última chuva, p. 27). Mas nesse ritual de passagem, necessita de coragem: “minha alma silenciosa / necessita de coragem / para a inevitável passagem / de grão de areia para pingo d’água.”( A última chuva, p. 27).

O elemento mágico comparece no poema Chá para as borboletas, cheiros e flores num jardim impressionista, onde a infância, recôndito dos primeiros sonhos e desejos, faz essa poesia sonhar, no mais, com a vida numa dimensão mais doce, amena, tragável:

Chá para as borboletas



Janela – espelho meu.

Fragrância de almíscar selvagem

me violenta.

Menino com aura violeta.

Jovem com juba desgrenhada.

Velocidade lenta.

Garganta do poço este túnel

cinza, onde trafego dias.

Penso na infância, sombra

dos eucaliptos, recanto secreto

onde eu servia chá às borboletas”.

(A última chuva, p. 32)





Desse jardim lírico de sonho, a visão salta para outro, tenebroso. A visão da loucura e da morte na metáfora da gaiola absurda do pássaro, um crânio branco, um vôo metafísico, que se apóia na epígrafe Nietzschiana 151, “a essência da felicidade é não ter medo”, a qual se contamina ainda em termos de insânia, quando Nietzsche escreve ou diz no manicômio: “Sejamos alegres! Eu sou deus, e fiz esta caricatura”. 152 Para Bárbara, poesia é ter a loucura bela de um Ícaro, voejar “céus de antes”.

Asas de Nietzsche

a essência da felicidade é não ter medo

(Nietzsche)



Em urdidura silenciosa

escondem o pássaro

no crânio branco

-- arapuca tétrica --

caveira fria.

Asas em valsa colorida de raios

que entram pelos olhos vazados,

e aquecem feito o fogo

as papoulas

da primeira primavera.

Asas de pluma se ferem

No osso-cárcere – sangram;

asas metafísicas

voam céus de antes.

(A última chuva, p. 19)

A metonímia das asas, frágeis, delicadas de plumas são o símbolo maior da liberdade personificada pelo pássaro e a sua quase irrestrita ação de vôo. Seu movimento é preso por algo frio, estático: o crânio-arapuca, o cárcere-gaiola; a imagem é forte: as asas do pássaro em movimento arrastado de “valsa colorida” sendo feridas nas janelas-olhos vazados. A flor símbolo é a papoula, sombria, misteriosa, fúnebre em contraste com a beleza da primavera, a bem dizer como uma recordação do funeral dessa primavera que já passou. Se as asas sangram, esbatendo-se na grade-osso do cárcere, outras asas, metafísicas, ensejam o vôo passado de outros céus.

As evocações de ritos celebratórios, de passagens, de símbolos, da hora feiticeira, do ânimo alterado pela comoção compõem atmosferas para além do real. O poeta projeta em si uma imagem de arauto de si mesmo, premonitório. A alma do poeta a tudo assiste em seu devaneio noturno; encanta-se por sua condição de vidência; celebra essa condição em um rito de passagem, à hora máxima da viragem; recorre à memória, justifica a retomada da vida, seguindo viagem compreendida apenas pelos que fazem o mesmo caminho, os poetas, visionários de sede sem fim.

À meia-noite chorarei



À meia-noite chorarei.

Porque sou poeta,

chorarei.

No sonho verei velhos amores,

pensarei no infinito finito,

e seguirei.

Vez por outra lembrarei

a voz do irmão caçula:

Esta estrela de Davi

Na palma esquerda

Significa – protegida pelos céus.

(...) sou uma maluca elegante

que bebe a vida

(...) E segue sede gritante,

mochila gasta atrelada às costas,

poesia minha bagagem

sendo apenas compreendida

pelos que fazem a mesma viagem.

(A última chuva, p. 24)

A poeta sonha com o acalanto maternal, um tempo onde havia proteção e força e, diante da inconstância dos atuais estados anímicos, preza à poeta descrever-se assim: “um dia sou cinza, / em outros, cata-vento, / e entre eclipses sazonais: / topázio.” (A última chuva, p. 36). A alma rende-se à instabilidade “sem o mel que me cobria” (o mel dos olhos de sua mãe), alternando os estados de ânimo. Antes, de posse ainda do olhar de mel de sua mãe – que a via inteira – ela era “- um cata-vento topázio eclipsando o cinza”. Por oposição ao cinza, cor da tristeza, da morbidez, o amarelo do topázio em forma semovente do cata-vento, motivado pela força natural do vento; assim se quer o sonho do “presente impossível”, ansiado, um otimismo que invalida o que é cinza, num tempo em que já não pode tê-lo mais, pois a mãe já não existe.

Em seu primeiro livro de poemas, O sorriso de Leonardo153, Bárbara Lia aviva estranhamentos quando vibra na sintonia da corda onírica, no entanto, parece haver uma divisão do sujeito lírico entre um onirismo abrupto, que surge em meio às coisas reais, conforme já mencionamos, seguido de um retorno às coisas cotidianas, da vida, dispersando a linha onírica.

Há um constante ir e vir entre o fluxo do sonho e da realidade, os fechos dos poemas são, em geral, retornos dispersivos às coisas comuns. Talvez isto se explique por uma reivindicação ideológica, expressão que quer entremear-se nos poemas, dizer a sua grita; então essa pontuação obedece seu desejo imediato de manifestar-se, em alguns casos, atenuando a força onírica que vinha sendo conferida ao poema, quebrando o melhor do vórtice onírico com sua interrupção.

Veja-se, por exemplo, o poema Mãos de abrir nuvens (O sorriso de Leonardo, pp. 6-7), título por si só sugestivo de ação surreal, onde as imagens e os atributos do visionário, daquele que “rompe o velcro de baunilha”, promovem uma combinação sinestésica visual/olfativa da ação desejante, ao unir a imagem do gesto inaugural, de certo modo violento, com a agradável sensação do aroma que se desprende do interior do que acaba de ser revelado. A surpresa do gesto decidido se revela em “espiar / Dentro a catedral / Dos sonhos / Um rito de encanto / Crianças e lagos / e mapas emaranhados”. Laços oníricos são bem definidos dentro da visão deslumbrada da poeta, pelo encantatório, o rito, um ambiente epifânico onde se descobrem imagens edênicas de “lagos e crianças”, mas o baralhamento do devaneio logo cruza à frente dessas primeiras imagens dóceis para indicar que há “mapas emaranhados”, para em seguida escrever que

A sexta avenida

Deságua no Eufrates

E as barcas cruzam

De Bagdad ao Mojave

As mãos se enlaçam

Negras brancas

Amarelas azuis.

(p. 6)

Dentro do fundamento não-racional do ver, o inusitado pode acontecer. Quando estica a linha onírica através da figuração impossível de um intermédio geográfico, isto não é uma imagem apenas, uma interpolação surreal. É o suporte da idéia social-fraternal da comunhão entre os povos do oriente e do ocidente. A cena é puramente dos sonhos, imagine-se a Sexta avenida americana “desaguando” no Eufrates, o rio bíblico. Ou então, o efeito surreal d barcas que cruzam de Bagdad ao americano deserto de Mojave. A poeta está sonhando, mas é com um território de livres, um interregno de conflitos, com a paz dos povos. A poeta acrisola a vontade social de seu poema com as imagens potentes dos sonhos, e de uma só tacada encontra o duplo sentido da palavra “sonhos”: o devaneio das imagens de algo impossível de realizar-se e o sentido do sonho como desejo, aspiração, algo que pode vir a se concretizar na realidade.

O ápice do poema poderia ser surreal, mas não resiste a entregar-se à ideologia do ecumenismo entre os povos das nações conflitantes: “As mãos se enlaçam / Negras brancas / amarelas azuis”. A mesma mão que toma parte na real ação do enlace, “abre nuvens” e responde à indagação “Quem possui mãos de abrir nuvens?”, pela metáfora na persistência de acreditar nos sonhos, de “regar pedras”, e sonhar na altura de realizar feitos extraordinários: “E pesca pássaros / Em tempestades / E ancora no alto / Da montanha mais alta / Suas caravelas.”

O pecado de não manter a tensão da linha fica patente com o desfecho do poema. O Surrealismo herdou do Romantismo a exaltação à mulher, e esta condição é reivindicada na indisfarçável intenção gênero-social, de todo feminina (feminista?), inserida no contexto social, que não se reprime nos versos finais do poema: “Mãos de mulher livre / A abrir o velcro / Da humanidade encantada”. Análogo a este, outro poema configura o início onírico e final ideológico, suspirante pelas mulheres e suas conquistas:

AVES DE ARREBENTAÇÃO

Pássaros renascentistas

Libertados por Da Vinci.

Invadem minhas pálpebras

Que meditam em silêncio

De monja e

Louvam as aves

Do terceiro milênio.

(...)

Das mulheres que venceram

O jugo secular

E cruzaram as linhas

E abriram os braços

Aves de arrebentação

A flanar entre

As azaléias púrpuras

E o grito ardente

Da libertação.

(O sorriso de Leonardo, p. 8-9)





Mas há também um lugar integral em alguns poemas, demarcado pela linha onírica. Em dois deles, salvam-se imagens aéreas, telúricas e líquidas. No primeiro,

DEUS SORRINDO NA VARANDA

O quintal de Deus é o céu.

Um paraíso em uma ilha.

Alcançaremos quando formos náufragos.

Aguaçal encoberto de dor,

nascituro rompendo em harmonia

a eternidade – Deus sorrindo na varanda.

(O sorriso de Leonardo, p. 20)

há um raciocínio silogístico, sequencial no terceto inicial, porém sua linearidade é quebrada pelo dístico sucedâneo, e a idéia de eternidade é retomada no verso final. Principalmente o dístico medianeiro é de influxo surreal, interpola as outras duas partes do poema que se relacionam diretamente.

Os dois versos abrem outra perspectiva, aparentemente alheia ao resto do poema, saem do escuro da poeta, parecendo exprimir o cerne, o melhor, como se aflorasse subitamente por uma vontade imperativa, sobrepondo-se, chamando atenção para si pela “orfandade” de sua carga vigorosa, enaltecida pelo caráter urgente de sua aparição estranha, como um gato em ninhada de coelhos; as relações que podem se estabelecer são variadas, conforme uma interpretação do inconsciente; “nascituro rompendo em harmonia” é um verso bastante deslocado do resto do corpo do poema, mas isso de um ponto de vista pragmático, objetivo, plástico até; pode-se, por exemplo, tentar relacionar “harmonia” com “paraíso”, “Deus” “eternidade’ ou mesmo com uma “varanda” onde tudo é harmonioso pela presença divina que sorri; “nascituro” pode nos levar a pensar em uma outra vida, para a qual se nasce, no “céu”, no “paraíso”, para “Deus”; também se considerarmos a passagem desta vida para outra, onde se chega no paraíso, o “nascituro” compara-se à trajetória de um “náufrago” em seu alcance desesperado, como se nascesse de novo, como se se salvasse; já “Aguaçal encoberto de dor” retoma diretamente a porção líquida que dialoga com “ilha” e “náufragos”.

No segundo,

BEM-TE-VI



Ramagem arranha a minha janela.

Sonho: Aeroporto fantasma.

Espíritos náufragos do Titanic.

Ku Klux Kan ateando fogo ao enforcado.

Seqüência horripilante:

A mulher sem olhos na cama,

entre lençóis úmidos de chuva.

Acordo com o bem-te-vi

na manhã de sol.

na mesma paisagem.

(O sorriso de Leonardo, p. 21)

existe o sonho declarado, ainda mais seu conteúdo. Um horror maior, digno de um thriller de terror, entre todos os horrores presentificados no sonho, o de se ver “na mesma paisagem”, acordada por um aziago bem-te-vi (como não lembrar aqui do corvo de Poe?). O sonho dentro do sono entrando vida adentro, quando se acorda. As cenas de violência lembram o anti-herói Lautréamoniano, Maldoror, em seus desiderativos criminosos do enforcado e da menina violentada154.

Pequeno Fragmento que fala sobre a minha obra poética na monografia - DUAS TENDÊNCIAS DA NOVÍSSIMA POESIA CURITIBANA NO ALVORECER DO SÉCULO XXI - Márcio Davie Claudino da Cruz – Monografia – Curso de Letras – Português – UFPR – 2007 –– Prof. Orientador - Dr. Edison José da Costa – 12 Poetas curitibanos em duas vertentes: onírica e de expressão vital. Este texto está publicado no site da SEED _ PR.

Lessons in Love’s Season

Cortar ao meio
a gota d’água
com uma adaga.

Cortar meus medos
com teu olhar
-canção de folhas-

Amar quem ama
Orwel e brownie
com igual ternura,

e lê pensamentos
tornando-os vivos:
Cenas no Café Express.

Lessons in love’s season
of a Jewish boy,
who I love.

Bárbara Lia
 
poesia publicada na Revista Beatriz, nº 7

Wednesday, November 30, 2011

76 anos da morte de Fernando Pessoa

Uns dizem que sem esperança a vida é impossível, outros que com esperança é vazia. Para mim, que hoje não espero nem desespero, ela é um simples quadro externo, que me inclui a mim, e a que assisto como um espetáculo sem enredo, feito só para divertir os olhos — bailado sem nexo, mexer de folhas ao vento, nuvens em que a luz do sol muda de cores, arruamentos antigos, ao acaso, em pontos desconformes da cidade.

Livro do Desassossego
BernardoSoares - FernandoPessoa

Falecimento de Fernando Pessoa em 30.11.1935 - Lisboa

Tuesday, November 29, 2011

Flor e Árvore

Existe uma musicalidade que nasce no interior do silêncio e esta musicalidade está presente neste livro que você, leitor tem em mãos.

Penso que nossa consciência se divide em uma parte que observa e outra parte que vive, nos poemas de Bárbara Lia acontece, uma delicada fusão destas duas partes da consciência, temos aqui uma poética que se alimenta desta fusão e com uma elegante concisão ata, costura estas duas metades de um eu lírico, que todos no fundo possuem e poucos sabem fazer cantar e florescer num poema que no fundo é como a flor de uma árvore, que poderíamos sim, chamar de árvore da vida, a poesia seria justamente essa flor, que Bárbara soube tão bem indicar no meio desse misterioso jardim onde cresce a árvore da vida, não é esta flor, uma flor no Ártico como apontou Rimbaud em uma de sua iluminações, é uma flor-árvore que cresce em toda parte, como poderá intuir, quem ler este belo livro.

Marcelo Ariel sobre meu livro em construção - A flor dentro da árvore

Friday, November 25, 2011

Não: não digas nada!

Não: não digas nada!
Supor o que dirá
A tua boca velada
É ouvi-lo já

É ouvi-lo melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das frases e dos dias.

És melhor do que tu.
Não digas nada: sê!
Graça do corpo nu
Que invisível se vê.
Fernando Pessoa

Thursday, November 24, 2011

A FLOR DENTRO DA ÁRVORE - BÁRBARA LIA



- Bárbara Lia                                                                   Emily Dickinson






“Sinal cifrado para enovelar o divino”



Trinta e dois ventos
da rosa dos ventos
Vinte e um gramas
do peso da alma
Oito países
a comandar a Terra
UM Deus louco
pelas ruas bombardeadas


“O pedigree do mel não diz nada a uma abelha”





O rancor dos homens
Contaminou as flores
As abelhas
Morreram de cólera
Adocicada

Último zumbido
Acordou o Sol
Em cadência afinada
Qual canção do Vangelis




“Uma migalha de mim”



Teço
Um ego-vidraça
Para que enxergues
Meu Eu


Teço
Uma nuvem lassa
Cortina que qualquer mão
Atravessa


Teço
Um hímen de fumaça
Sobre a virgem essência
- tudo o que sou Eu





“O gelo da morte na vidraça”



Láudano para as dores reais
estas que bailam
nos olhos ejaculados

Para as dores invisíveis
chá de espectros
na chávena em chamas


Nunca me livrarei
dos vampiros anêmicos
Nunca os expulsarei
da mesa rústica
de sal e conchas

Ao meu redor
a dança alucinada -
reverso do tango:


Ódio amornado em mel
Ódio guardado vaporoso
Ódio consagrado em si bemol

Purpurina enfática cai
Nas feridas frias
Como manto de rainha bastarda -
Azul - de ódio adulterado




“A liberdade de morrer”





As asas que tu me destes
Rotas de Invernos
Ancoradas na ausência

As asas desfraldadas
Em suicídio adiado
No parapeito viscoso
- Décima espiral do Inferno de Dante



“Dame el ocaso en una copa!”


Velhas estradas bifurcadas
Lentas aparições de fantoches
Nas alamedas do nada

 
 
 
“Doce como o massacre de sóis”



Oito canhões na praça de guerra
Apontam para o peixe
Que traz a paz nas guelras


Quatro gaivotas suicidas
Lambem o babado azulado
Do triste mar-flamenco

Lembro um filme de Babenco:


Ana e o vôo
Mariposas no quarto lúgubre
Suas mãos em concha
A esmagar a eternidade insalubre

Bárbara Lia
do livro - A flor dentro da árvore

- Títulos das poesias deste livro são versos de Emily Dickinson
- A foto com roupa negra (qual Emily) é de 1976, nem tenho certeza, é em uma idade mais próxima à idade de Emily Dickinson nesta que é uma de suas poucas imagens...
- Local de venda do livro:

Joaquim Livraria & Sebo
Rua Alfredo Bufren, 51 - Centro
Curitiba (PR)

telefone - +55 41 3078-5990

e-mail info@joaquimlivraria.com.br

(a livraria colocou alguns exemplares na estante virtual)

Wednesday, November 23, 2011

SUBLIMAR

Tu és o Louco da imortal loucura,
o louco da loucura mais suprema.
A terra é sempre a tua negra algema,
prende-te nela a extrema Desventura.

Mas essa mesma algema de amargura,
Mas essa mesma Desventura extrema
faz que tu'alma suplicando gema
e rebente em estrelas de ternura.

Tu és o Poeta, o grande Assinalado
Que povoas o mundo despovoado,
De belezas eternas, pouco a pouco.

Na Natureza prodigiosa e rica
Toda a audácia dos nervos justifica
Os teus espasmos imortais de louco!

O assinalado - Cruz e Sousa


Making Off - A Atriz Maria Ceiça e o Diretor de - O Poeta do Desterro - o Poeta Sylvio Back

Na noite de ontem o Canal Brasil apresentou o filme de Sylvio Back - Cruz e Sousa - O poeta do Desterro. O filme seguido do Making Off.  Uma homenagem a Cruz e Sousa. Lições poéticas.
Os poetas ainda sublimam toda a sua dor, escrevendo. Isto não tem nada a ver com sentimentalismo. O sentir é inerente ao ser o Humano e a função do poeta é revelar Humanidade quando verte uma poesia para o papel. Alguns poemas são apenas catedrais de palavras e é preciso não se apoderar do título de poeta por conta deste agarrar-se aos signos. Não é Poesia se não existir a fagulha humana dentro e não é poesia se existir apenas um relato piegas calcado apenas no sentir, enfim.
O que Cruz e Sousa veio lembrar na noite foi a SUBLIMAÇÃO de sua dor, quanto mais dor mais pureza em versos, mais luz dentro.
O tempo rasgou dentro de minha alma algumas palavras que eu achava essenciais (quiçá eu não tenha sofrido o suficiente para preservá-las)... Mas, diante de tanto sofrimento transformado em Arte,  só resta desengavetar a palavra e vestí-la, com este azul que visto agora. Vestir o sublime e seguir capturando signos. A vida é um mistério tão intenso que não tem explicação.
As coisas vão acontecendo, à revelia. Cremos ter as rédeas dos dias e o mapa e o traçado do caminho. Quanta enganação.
Esta coragem de folha despencada que segue o vento e se entrega à uma liberdade sem rota, é o nirvana. Um tempo eu ousei soltar-me ao vento das estações. Confesso que vivi.
A chave está ali à minha espera: Leveza e Sublimação. Sem elos e sem prisões.
A leveza abre aquele canal para os mistérios.
Não pude coordenar meus horários pra ir de Assaí direto para o Rio de Janeiro no coquetel de abertura da exposição do Rodrigo de Souza Leão - Tudo vai ficar da cor que você quiser. Tentei. Não consegui. Ir até minha cidade natal foi especial. Estava voltando para casa no dia 09 e na minha frente um carro tinha a placa que começava com as letras MAM. Foi um sinal, a lembrança do amigo, a certeza de que - ainda que ausente - o MAM estava ao meu lado naquela noite, a homenagem ao longe. Estas sincronias.
E gravar a fogo tatuagem mensagem recado na parede no céu na lua, estes versos que me incitam à alquimia possível:

(...)
Mas essa mesma algema de amargura,
Mas essa mesma Desventura extrema
faz que tu'alma suplicando gema
e rebente em estrelas de ternura.
(...)




  •  Sinopse de Cruz e Sousa - O poeta do Desterro.
    Reinvenção da vida, obra e morte do poeta catarinense Cruz e Sousa (1861-1898), fundador do Simbolismo no Brasil e considerado o maior poeta negro da língua portuguesa. Através de 34 "estrofes visuais", o filme rastreia desde as arrebatadoras paixões do poeta em Florianópolis até seu emparedamento social, racial, intelectual e trágico no Rio de Janeiro.
  • Tuesday, November 22, 2011

    o quarto das palavras



    FEVEREIRO

    Louveciennes. Voltei para casa para um amante terno e ardente. Carrego comigo cartas ricas e melancólicas de Henry. Avalanches. Preguei na parede de meu escritório duas grandes páginas de palavras de Henry, escolhidas casualmente, e um mapa panorâmico de sua vida, para um romance não escrito. Cobrirei as paredes com palavras. Será la chambre des mots [o quarto das palavras].

    Anaïs Nin
    Henry & June
    L&PM Pocket
    Diários não expurgados de Anaïs Nin (1931 - 1932)

    Saturday, November 12, 2011

    Assaí - Uma tarde em poesia

    Na tarde da chegada, conhecer o colégio - aqui a Inês Furukawa, prof. Rosana Galassi e a Diretora Edná. Na chegada uma das alunas recepcionou-me com o buquê, toda poesia...




    Inês, Maria Zélia e sua filha Nayara, Edná, eu e Rosana diante do painel dos poetas da cidade



    Os alunos do projeto aguardam para conversar comigo


    Muito bom dialogar com os meninos e meninas do projeto - falar mais sobre minha poesia...


    Depois, conversar com os conterrâneos, descontração na hora do café


    Alunos da 5ª série do Colégio Estadual Barão do Rio Branco, Assaí
    Alunos da 8ª série


    mais fotos para o álbum de recordação

    os meninos e eu


    Registrar o momento Valeu, Assaí! Um lugar que leva Poesias aos pequeninos em um tempo tão rude. Exemplo de Beleza. Uma epopeia vibrante e curativa que me levou de volta às ruas da
    cidade, ao ponto zero do meu nascimento e ao encontro de tantas pessoas especiais.  

    Thursday, November 10, 2011

    A Homenagem

    Hoje acordei e vi as fotos do jantar do encerramento do nosso evento em Assaí. Pensei naquela frase que diz que "os profetas não são bem recebidos em suas terras"
    Contrariando o que está escrito, fui muito bem recebida em minha terra natal - Assaí.
    Os poetas são profetas disfarçados, realmente. Nós sabemos, quanta verdade foi rascunhada, lida, anunciada e propalada pelos poetas do mundo, desde sempre... para todo sempre.... A nota abaixo saiu no site Assai Online. A poeta bem recebida em sua terra. Grata Assaí, pelo carinho e pelos muitos abraços, pelos dias belos que me devolveram inteira e renovada e plena desta beleza que é a POESIA. O evento encerrou com música sertaneja, para lembrar o pai, sempre esta figura essencial na minha vida. Com o compositor local Diego Souza e a dupla João Marcio e Fabiano...



    Deu no Assaí Online:

    Vários professores, autoridades e alunos estiveram reunidos nesta terça 8, em virtude do 1º Sarau Poético do Colégio Estadual Barão do Rio Branco, que homenageou alguns poetas assaienses. O evento aconteceu em razão do projeto do PDE (Programa de Desenvolvimento Educacional) das professoras Rosana Gonçalves Torquato Galassi e Maria Zélia Bezerra Lopes, com os temas “Poesia como gênero vivo na escola” e “O texto poético em sala de aula construindo caminho para formação do leitor”, que vem sendo trabalhado por elas desde o mês de agosto. Durante a cerimônia de encerramento os poetas foram homenageados com a leitura de algumas de suas obras pelos alunos e receberam também uma lembrança oferecida pelas autoras do projeto. Alguns alunos também leram poesias feitas por eles mesmos dentro de sala de aula, onde também trabalhavam sobre textos poéticos de músicas interpretadas pela dupla sertaneja João Marcio e Fabiano da cidade de Ibiporã. A Dupla compareceu ao evento e deu “canja “de alguns de seus sucessos como “Casa das Primas” e “Sempre te Amei”. Também com eles estava o jovem compositor Diego Souza que recebeu homenagem dos alunos interpretando uma de suas composições.Destaque para a poetisa assaiense Bárbara Lia que hoje mora na cidade de Curitiba e veio à cidade especialmente para receber a homenagem, e rever alguns parentes como o casal Francisco Soares e Ana Gonsales. Bárbara chegou na cidade na segunda, 7, e na manhã desta terça foi recebida no Colégio Barão para um café da manhã com os professores.



    Com o término do evento, poetas homenageados e convidados foram recebidos em um jantar na chácara da professora Leni.

    Professoras do Colégio Barão do Rio Branco e a Diretora Edná - quarta da direita para a esquerda - no jantar de encerramento.

    Maria Zélia Bezerra Lopes com o marido Cilso, celebrando o encerramento deste belo projeto de Poesia em sala de aula. Uma alegria dialogar com ela por tantos meses, acompanhando à distância toda a evolução dos alunos, que não se interessavam tanto por poesia e ontem ela me segredou, alguns estão lendo Fernando Pessoa. Gravo com cuidado em meu coração suas palavras -

    Agradeço por tudo que fez pelo incentivo à leitura dos nossos alunos. A sua vinda à Assaí foi um marco na educação e cultura do povo assaiense.

    Valeu Maria Zélia, eu que fico feliz por você e pela Rosana Galassi  trilharem esta avenida nada fácil da Poesia para, com seus Projetos, apresentar a magia da PALAVRA aos pequeninos da minha Terra.

     com a Inês Morikawa no jantar delicioso na Chácara da Professora Leni...

    as fotos e o texto no site Assaí Online

    Wednesday, November 09, 2011

    pássara poeta de volta ao ninho





    Uma publicação da SEEC / Imprensa Oficial do Paraná


    ...


    Inês K. K. Morikawa, uma das pesquisadoras desta obra e Vice-Diretora do Colégio Estadual Barão do Rio Branco presenteou-me com este livro quando da minha visita ao Colégio Barão do Rio Branco, onde fui recepcionada na tarde do dia 07 de novembro pelos alunos dos Projetos de Leitura do PDE. Uma emoção enorme ao encontrar os pequeninos da minha terra. Meus conterrâneos à minha espera, com seus olhos brilhantes, suas muitas perguntas, seu entusiasmo, recolhendo a poesia que descobriram através das professoras que até eles levou os poetas que nasceram naquela cidade.
    Muito feliz em ter o registro deste tempo que sempre quis conhecer mais. O livro traz imagens da cidade e dos Trabalhadores do  Ouro Branco. Quando meus pais falavam para mim sobre Assaí, contavam sobre a cultura do algodão, que era a grande riqueza da minha cidade. Encontrei algumas imagens da cidade do tempo em que eu lá vivi. Muito bom ter esta referência territorial. Era assim, era o meu lugar. Meu primo Chico Soares levou-me até o lugar do nascimento. Uma parede de tijolos diante de um terreno baldio. Era antes da casa de tijolos, que já não mais existe, uma casa de madeira onde viviam meus pais, meus irmãos mais velhos no dia do meu nascimento. Encontrei o ponto zero da minha vida e pensei - Foi aqui. Tudo começa em um lugar. Este lugar ao sol. Esta rua calma. Esta parede que esconde o primeiro choro. Este momento em uma cidade de Ouro Branco e Sol Nascente. Esta vontade de encerrar um ciclo e recomeçar. Renascimento... É para isto que vivemos.




    Mariza Avelar, minha prima, Professora do Colégio Estadual Conselheiro Carrão trouxe a peça final. Outra lacuna que preciso preencher. Saber mais sobre estes irmãos da terra do sol nascente. Ainda encontramos muitos japoneses, os que trazem os traços desta mistura de brasileiros e japoneses. Aquelas meninas com olhos negros, calmos, aqueles gestos que só eles sabem. Mariza foi uma das pesquisadoras deste livro. Muita luz nestas capas de ouro claro. Esta alegria de voltar com os livros de Assaí na mala. Deixei por lá alguns livros meus. Estas trocas belas. A vida segue com a poesia e com este banho de memórias, saudades, emoções que fazem a voz calar ao lembrar o pai em um poema. Então é isto, pai, foi pra você este momento. A filha que torna a um lugar onde tudo começou, naquele tempo em que embalavas as noites entre as fraldas e mamadeiras.

    Assaí = Amanhecer / Aurora de Algodão







    Com Rosana e Maria Zélia  -           no palco lendo meus poemas -    no hall de entrada, minha obra exposta


    a diretora Edná  na abertura do sarau                                              ouvindo a leitura da minha poesia





    Os meninos e as meninas coloriram a noite da poesia, com seus poemas...


    1º Sarau Poético do Colégio Estadual Barão do Rio Branco, de Assaí, na noite desta terça-feira, 8.
    O evento prestou homenagens aos poetas assaienses Bárbara Lia, Chrystianne Lopes, Francisco Kuya, Ione Maria Kuya, Luiz Sérgio Piornedo, Mattheus Hermanny, Paulo Kuya, Regina Góes, Terezinha Thomaz, Walerian Wrosz e Wanderley Sueiro. Desembarquei na minha cidade natal, que não visitava há décadas para ler poesia, receber homenagens e matar as saudades. Uma alegria inexplicável...







    Os alunos que participaram destes projetos do PDE 2011 desenvolvidos pelas Professoras Maria Zélia Bezerra Lopes e Rosana Torquato Galassi. Ao final abraçaram a aura poética, transpirando versos e lendo poesias...
    Rosana Torquato Galassi e Maria Zélia Bezerra Lopes

    Uma menina de Assaí



    Um momento poético: Regina Goes, Professora do Colégio e uma das homenageadas contou-me que conheceu meus pais, em uma visita que eles fizeram aos seus pais. Velhos amigos e esta lembrança do que não vivi. As vidas de nossos pais partilhadas há meio século atrás e uma vontade de recolher as cenas do ontem para matar a saudade...
    Meus primos que me acolheram. Francisco Soares Neto, vereador da nossa cidade. Filho do ex-prefeito Lupercio Amaral Soares. Sua esposa Ana Gonsales Soares,  ex-diretora do Colégio Barão do Rio Branco, partilhando esta bela celebração da poesia.



    Fotos - I Sarau Poético/Colégio Barão do Rio Branco no Site Assai Online.




    Uma menina de Assaí, que de lá saiu com quase quatro anos. A única imagem que tenho da minha infância nesta cidade. Uma menina descalça em uma rua de terra, como quem está deixando um lugar. Um lugar para onde voltou poucas vezes. Volta agora. A poesia na alma, a vida nas dobras do vestido. Um momento de paz, aquela aura branca da infância, como os algodoais. Um lugar para apertar a tecla pause, deixar lá fora todo o odor que exala das horas mornas, dos sacrifícios vãos, dos amores mortos, da vida que escorre bruta, de toda a dor que o pequeno Cadu grita em seu poema, no palco. Sim, existe. Existe este terror. É tarde para os homens, ou talvez ainda não seja. Existe o cansaço da vida escorrendo real, quase sangue que alcança os passos. Mas, é hora de apertar a tecla pause, voltar ao ninho branco. Sorrir e repartir, o pão e a poesia e a realização de um momento. O empenho das mestras, o apoio de toda uma Escola. O apoio que se estende à comunidade que abraçou isto e concordou em permitir que o lado material fosse suprido. A grande festa, os alunos com as camisetas espalhando que existe Poesia no ar, no lugar, no lugar onde eu nasci... E de onde eu saí, assim, esta menina de Assaí...

    La nave va...

    Meus livros

      https://www.editoracloe.com/product-page/50-poemas-escolhidos-pela-autora https://editorakazua.net/ https://www.loja.prosanova.com.br/olho...