Saturday, August 08, 2009

choque de estrelas grávidas I

Jerome Liebling (2000 ) - Emily Dickinson - Vestido

Alfonsina Storni: Tu me queres branca


Tu me queres branca,
Me queres de espumas,
Me queres de nácar.
Que eu seja açucena
Sobre todas casta.
De perfume tênue.
Corola cerrada.


Nem raio de lua
Filtrado me haja,
Nem a margarida
Minha irmã se diga;
Tu me queres branca,
Tu me queres nívea,
Tu me queres casta.


Tu, que em mão tiveste
Já todas as taças,
E de méis e frutos
Os lábios morados;
Tu, que no banquete,
Coberto de pâmpanos,
As carnes deixaste,
Festejando a Baco;
Tu que no negrume
Dos jardins do Engano,
Vestido de rubro
Correste ao Estrago;


Tu, que o esqueleto
Conservas intato
Eu não sei ainda
Por que altos milagres,
Me pretendes branca
(Que Deus te perdoe),
Me pretendes casta
(Que Deus te perdoe),
Me pretendes alva.


Foge para os bosques;
Vai para a montanha;
Limpa bem a boca,
Mora nas cabanas;
Com as mãos apalpa
A terra molhada;
Alimenta o corpo
com raiz amarga;
Bebe a água das rochas,
Dorme sobre a escarcha;
Renova tecidos
Com salitre e água;
Conversa com os pássaros,
Desperta com a alva.
E enfim, quando as carnes
Te forem tornadas,
E quando hajas posto
Nelas a tua alma
Que pelas alcovas
Ficou enredada,
Então, ó bom homem,
Pretende-me branca,
Pretende-me nívea,
Pretende-me casta.


Grandes Vozes Líricas Hispano-Americanas
Seleção e Tradução: Aurélio Buarque de Holanda Ferreira
Editora Nova Fronteira – edição 1990


- uma tela - uma poesia - uma frase - uma fotografia - gente que cria - gente que vive pisando astros - descarnados e ainda assim com vestidos eternizados - como o branco vestido de Emily - esta aproximação de estrelas, de estrelas grávidas, gente que alimenta e cria, gestações de horas, dias, minutos, algumas de uma eternidade. Choque de estrelas grávidas. Uma das mais conhecidas poesias de Alfonsina Storni (1892 - 1938). Poeta Argentina que foi viver no fundo do mar, em uma casa de vidro.
Emily Dickinson - A grande reclusa - A bela de Amherst. Este mistério que está corroendo o meu travesseiro, a salada do meu jantar, a água do meu banho. Esta sombra de branco que me inquieta. Este vulto imenso, recolhido, de branco vestido. Emily Dickinson Emily Dickinson (1830 - 1886)