Sunday, October 31, 2010

Minhas Poesias Preferidas III





E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.
(Do Desejo - 1992)




* * *


Que canto há de cantar o que perdura?
A sombra, o sonho, o labirinto, o caos
A vertigem de ser, a asa, o grito.
Que mitos, meu amor, entre os lençóis:
O que tu pensas gozo é tão finito
E o que pensas amor é muito mais.
Como cobrir-te de pássaros e plumas
E ao mesmo tempo te dizer adeus
Porque imperfeito és carne e perecível


E o que eu desejo é luz e imaterial.


Que canto há de cantar o indefinível?
O toque sem tocar, o olhar sem ver
A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis.
Como te amar, sem nunca merecer?
(Da Noite - 1992)



HILDA HILST

Hilda Hilst (1930 — 2004) foi poeta, escritora e dramaturga brasileira.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Hilda_Hilst

Saturday, October 30, 2010

Minhas Poesias Preferidas II

TABACARIA



Não sou nada.
Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres
Com a morte a pôr umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens.
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.


Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.


Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira.
Em que hei de pensar?


Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu ,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo.
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando.
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
0 mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num paço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
0 seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.


(Come chocolates, pequena; Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.


(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.


Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
0 dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho, Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.




Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.


Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra, Sempre uma coisa tão inútil como a outra ,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.




Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.


Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.


(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou á janela.


0 homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(0 Dono da Tabacaria chegou á porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da tabacaria sorriu.
ÁLVARO DE CAMPOS

Fernando António Nogueira Pessoa (Lisboa, 13 de Junho de 1888 — Lisboa, 30 de Novembro de 1935), mais conhecido como Fernando Pessoa, foi um poeta e escritor português.



http://pt.wikipedia.org/wiki/Fernando_Pessoa

Friday, October 29, 2010

Minhas Poesias Preferidas I

Vou publicar os poemas que tocaram profundamente. As palavras que eu gostaria de ter escrito. Uma pequena seleção que eu guardo com cuidado e que vez por outra retorna. Com a certeza que até o fim de mim, devo gravar meu canto, à revelia de tudo e com toda força e encanto.
A tradução desta poesia que mais gosto é mesmo esta do Paulo Henriques Brito.



UMA ARTE


A arte de perder não é nenhum mistério
tantas coisas contém em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.

 
Perca um pouco a cada dia. Aceite austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

 
Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subseqüente
da viagem não feita. Nada disso é sério.

 
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.


Perdi duas cidades lindas. Um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

 
Mesmo perder você (a voz, o ar etéreo, que eu amo)
não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser um mistério
por muito que pareça (escreve) muito sério.



Elizabeth Bishop
tradução de Paulo Henriques Brito






Elizabeth Bishop (Worcester, 8 de fevereiro de 1911 - 6 de outubro de 1979) é uma autora americana, considerada um das mais importantes poetas do século XX a escrever na língua inglesa
http://pt.wikipedia.org/wiki/Elizabeth_Bishop

Thursday, October 28, 2010

Solidão Calcinada




Moema Carneiro Solheid e Tatiana Alves alunas da Oficina de Jornalismo Cultural e Crítica Literária, na FCC, ministrada pelo Prof. Otto Winck, apresentaram dentro do projeto da Oficina o meu livro - Solidão Calcinada. Otto Leopoldo Winck foi vencedor do Prêmio da Academia de Letras da Bahia - Braskem - de 2005, com o romance Jaboc. A apresentação de Solidão Calcinada foi seguida de uma conversa descontraída. A escrita é mistério e a poesia é um mistério maior. Para mim foi um momento bonito. Espero que para os que lá estavam também. Os rumos de Solidão Calcinada pedem uma segunda edição. Considero que a publicação da SEEC foi o sopro primeiro para que minha prosa figurasse em páginas e voasse da minha gaveta de guardados. Um pouco arcaica esta expressão. Hoje em dia nossos inéditos estão em arquivos word ou pendrives.
O tempo me dá a certeza que minha poesia está atrelada à prosa. Escrever em prosa poética os enredos, histórias que nascem, personagens que ganham vida. Frei Betto disse que a saga de Pietra, Esperança, Serena e Bárbara é PROESIA.
Constelação de Ossos é PROESIA.
Atendi ao pedido delas para ir pessoalmente na noite do meu livro e conheci pessoas muito especiais e revi o Otto que está fazendo este belo trabalho. Foi muito bom ter dito SIM.
E, não. Meus romances não contam a minha história.
Minha Biografia devo escrever antes que - novamente - a pressão arterial vá parar na estratosfera. Antes que eu morra de tédio ou de felicidade. Penso que está na hora de contar a minha história. Ser personagem do meu enredo. Sim. Devo fazer isto para provar que sou sublime, como disse Fernando Pessoa.
Enquanto isto cada qual tece sua própria imagem da mulher e da poeta. E a vida sangra incompreensões arquivadas e alegrias novas.
Como o amanhã que vai nascer breve. Como encontros feito aquele de ontem falando do livro e de poesia. A canção emprestei do meu neto Arthur, tem apenas nove meses e já gosta do Renato Russo. Ele começou a dançar no meu colo quando a TV apresentou um comercial.
É certo que o sol chegou com o menino - meu neto que ama música e tem nome de poeta.



MAIS UMA VEZ - RENATO RUSSO


Mas é claro que o sol vai voltar amanhã
Mais uma vez eu sei
Escuridão já vi pior de endoidecer gente sã
Espera que o sol já vem.

Tem gente que está do mesmo lado que você
Mas deveria estar do lado de lá
Tem gente que machuca os outros
Tem gente que não sabe amar
Tem gente enganando a gente
Veja a nossa vida como está
Mas eu sei que um dia a gente aprende
Se você quiser alguém em quem confiar
Confie em si mesmo

Quem acredita sempre alcança!


Mas é claro que o sol vai voltar amanhã
Mais uma vez eu sei
Escuridão já vi pior de endoidecer gente sã
Espera que o sol já vem.

Nunca deixe que lhe digam que não vale a pena
Acreditar no sonho que se tem
Ou que seus planos nunca vão dar certo
Ou que você nunca vai ser alguém
Tem gente que machuca os outros
Tem gente que não sabe amar
Mas eu sei que um dia a gente aprende
Se você quiser alguém em quem confiar
Confie em si mesmo
Quem acredita sempre alcança!



Monday, October 25, 2010

SET


 

Meu nome é Zayin. Um signo, dos mais potentes. Símbolo sagrado para os filhos de Abraão (o imaculado que significa o Zayin) por mim vilipendiado e desonrado. Meu sobrenome – Neves. Zayin Neves. A sétima letra hebraica – Zayin. O Neves invertido – seven

E além do nome duplamente assinalado sinto que tenho a alma horripilante do meu duplo, o deus Set. O horripilante assassino que há dentro de mim ressuscitou na noite em que vi a mulher com o Zayin tatuado no lírio da pele. A ruiva do Bar Sossego.

A tatuagem dela na nuca raspada, abaixo dos cabelos de fogo, o símbolo (zayin).

Acho que nos olhamos por pura identidade. Ruivos. A pele enferrujada, os cabelos vermelhos e os olhos azuis como duas contas de vidro. Na mesa ao lado, quando ela se curvou para ouvir melhor um senhor que tentava falar mais alto que a música, sem conseguir, brilhou a tatuagem diante dos meus olhos. Negro no branco e acima os cabelos curtos eram uma chuva de fogo. Estremeci. Um desejo que rasgou meu plexo solar de forma dolorida. Um desejo.Eu campeão de desejos nunca realizados. Eu, o abandonado. Eu, o órfão, órfão sempre.Eterno órfão no sótão negro.

Um verso de Dante em chispas na memória, tal qual a fagulha elétrica que produz o encontro de dois fios desencapados... Nas chispas da memória entre o azul do atrito de fios desencapados eu, o menino no sótão mal cheiroso. Só, entre as réstias do sol que entra pela janela. Um e outro raio clareando a tessitura prata da aranha que era minha companhia.

Lendo livros que tumultuaram todos os neurônios em uma guerra caótica:

O certo o errado.

Deus e o demônio.

Céu e inferno.

Guerras e amores aflitos.

Uma sucessão de símbolos.

Um menino perdido no sótão com Clarissa, a aranha confidente, ela seguia meus passos rangentes pelo quarto pequeno, que observava meu caminhar, que respirava uníssono para não acordar-me nas noites. Sentia até mesmo a alegria em seu ego aracnídeo massageado cada vez que meu olhar celeste palmilhava cada milímetro da sua teia.

O verso de Dante sacode o mar interior.

Não. Nunca tive um Virgílio a palmilhar o reino da escuridão que se chama viver.

Ela estanca diante da minha mesa. A moça tatuada.

- O senhor já escolheu?

- Uma Bohemia.

Na hora de pagar a conta não consegui me conter.

- Que horas termina teu turno?

- Dez da noite...

- Se importa se eu te esperar? Meu carro é aquela Pajero, cor violeta...

Aponto para a rua. Diante do bar o carro embaixo de uma árvore, no escuro noturno, com sua cor estonteante – violeta - sétima cor do arco-íris.

- Ok!

Ok. Amava o século das condescendências.

Sorriso fast-food.

Tudo à mão na hora que se quer...

Ok, ok ok ok ok ok ok ok ok ok

Fui dizendo ok da minha mesa ao interior do carro, liguei o rádio.

... We are de champions, my friends...

Há quanto tempo não ouvia Queen?

Noite sete de confusão interior.

Quase viro a chave na ignição e esqueço a ruiva tatuada que deve deixar dentro de alguns minutos o trabalho.

O ódio vence.

O casarão nas imediações do Lago Barigui era herança da mulher para quem meu pai me entregou, ela era enfermeira.

Aquela que me alimentava pouco e me trancava no sótão escuro.

Na meia-idade, quase chegando à velhice, cativou um solitário.

Na adolescência a guinada súbita e o estranhamento.

Ficar rico de repente.

Minha mãe postiça era alma gelada.

Sem têmpera.

Sem cor.

Bege.

Nada mais cruel que uma pessoa bege.

São as pessoas beges que criam os monstros, são as pessoas beges que descolorem todas as pinturas do paraíso.

Para que eu pudesse ter uma vida sempre calma, ela disse sim ao senhor embora estivesse brilhando no olhar a ausência do amor e do desejo e do tesão.

Mas já havia fantasmas demais no meu sótão, vômito de harpias, coco de morcegos, mênstruo das serpentes antigas.

Quando a ruiva abriu a porta e me olhou e sorriu como uma ovelhinha que segue o carniceiro.

Meu pensamento voou até meu quarto, onde, por puro acaso estava uma caixa com pequenos envelopes de estricnina.

Minha sala poderia ser a sala de um apartamento do centro de Nova Iorque.

Minha sala se dava ao luxo de ter um quadro de Portinari, um piano branco e uma leveza que fez a menina arregalar os olhos.

- Vinho?

- Nooooosssaaaaa! Que linda a tua casa?

- Olhando esta estrutura de pedra antiga ninguém imagina um mundo moderno aqui, não é?

Por um momento imaginei um instante normal.

Um homem e uma mulher, o vinho, uma trepada cinematográfica, descobrir a temperatura da pele, embora eu pressentisse que ela era uma daquelas pessoas que armazenam gelo na superfície, estas que quando se abraça nada se sente.

Na segunda vez que derramei o vinho, derramei a morte, e esperei que ela morresse silenciosamente no sofá.

O silêncio da noite era quebrado pelo som alto da sinfonia, para que não ouvissem o meu cavar à luz lilás da lua, abaixo do imenso pé de ipê.

No meu banheiro cinco estrelas eu tocava meu corpo, o sexo murcho, sem demonstrar nenhuma reação, desde o instante no bar quando pedi a cerveja até o instante que a última pá de terra a soterrou.

Coloquei uma roupa esportiva e fui correr no Parque Barigui.

Depois do crime, da manhã estranha, do almoço inquieto, do banho e do chá de melissas. Lembrei Flor.

Flor de Lis.

A menina do sobrado ao lado da casa tétrica onde me enfurnavam no sótão - tardes e noites – a casa onde eu vivia como um abandonado.

Mas, aos sábados a madrasta abria as asas e se fazia humana, e eu podia brincar no quintal de Flor, diante do olhar de sua mãe.

Flor de Lis foi o meu refúgio divino naquela infância de pedra.

Acho que o último comboio que levou Deus para sempre do meu mundo foi o mesmo que levou Flor de Lis.

E eu me sentava aos sábados na varanda e montávamos jogos e tomávamos chocolate quente e biscoito.

Nada me faria esquecer Flor.

Ela saltitando na única neve curitibana, seus braços abertos e a neve, seu gorro branco branco branco, suas mãos me chamando para o quintal, e nossas mãos meninas tecendo o boneco eternizado naquela foto que adorna o meu quarto:

- duas crianças, um boneco de neve, uma casa azul ao fundo –

Uma alegria pequena na minha face sempre tão agressiva.

Depois das tardes de Lis, eu me recolhia ao sótão, ao fúnebre ar daquela casa, e me enrolava naquela colcha de retalhos, de tantos retalhos de tantas cores, que eu já decorara cada milímetro e dormia esperando o sábado.

E desenhava a flor que era seu nome, e meu quarto era inundado da flor da real flor da monarquia francesa.

A vida era leve com Flor, e só sobrou mesmo voltar à companhia da aranha, depois do drama, do fim.

Lembro que não chorei, pois estava estático - dentro e fora.

Uma mão de ferro embalsamando cada músculo meu.

Não me lembro de mover um músculo, nem uma lágrima, nada.

Minha infância e suas perdas ininterruptas.

Pai Mãe e Flor.

A ferida mortal no cérebro extirpou-a tão rápido da cena, com raiz e tudo...

Ficou a doçura de histórias e tardes e uma foto que prendeu meu olhar pelo resto de um sábado inteiro.

O que Flor diria a seu amigo louco?

Minha náusea ao lembrar a menina e a vida pura fez com que eu corresse e vertesse minhas golfadas no banheiro.

Vomitar até sentir que eu saíra de mim.

Depois guardar a foto dela entre as toalhas perfumadas.

Nos jornais por meses a pergunta era sobre o desaparecimento.

A cada dia eu acordava com toques de campainhas e toques de celulares, mas, depois era só o bem-te-vi e olhando da janela eu via a árvore e as folhas lilases beijando a terra e o ar calmo das manhãs foi lavando o medo.

Matar, no entanto, é soltar o trenó do alto da montanha de neve.

Eu havia acionado a minha descida ao inferno, sem Virgílio, sem Dante, e pior, minha Beatriz estava mesmo no céu, com nove anos e um vestido azul.

Só lembrava depois de cada morte que sempre era sete, que eram peles de lírio e que eu tinha um rasgo de lucidez, pois apanhava as vítimas sempre onde não havia ninguém, testemunha alguma, sempre na solidão, eu a mulher branca e o ódio antigo.

A gótica chorando sentada no monumento do centro histórico. Largo da Ordem. O cavalo babava silenciosamente. Nunca entendi aquele cavalo que baba, que simbologia estranha, a água não saia de cântaros, nem da boca de peixes. Mas, da boca do cavalo, a escultura era só a cabeça e vertia água pela boca.

Fim de tarde de um dia sete na Estrada Graciosa. A moça parada e o carro quebrado. E o mesmo jeito estranho de segurar os cigarros – como a madrasta - não como todo mundo entre os dois dedos. Ela segurava como a madrasta. Unindo polegar, indicador e anular, e tinha o mesmo jeito de sacudir os ombros. Dizia que Deus me mandara.

Naquela manhã acordei com ressaca e tomei um banho rápido e tomei um suco de laranja. Quando meu corpo caiu no azulejo frio, em um átimo de segundo compreendi. De onde vinha aquele “açúcar”. Na euforia do momento esqueci três pequenos pacotes do veneno no criado mudo. A última mulher, com ela fiz amor. A boca quente dela e suas mãos tateando meu corpo, tudo isto me fez esquecer o resto.

No outro dia estava lá a diarista, Rita. Rita, a mão de vaca. Pude ver Rita confundindo o pacote com aqueles que eu trazia nas viagens. Rita, a econômica. Pude vê-la balançando a cabeça e colocando o pó no açucareiro. Último som que ouço - gargalhadas trazidas pelo vento, flores roxas adornando-me, a porta da cozinha aberta, e o vento depositando riso lilás na porta. Estendi a mão para discar o número de emergência, e no meio do meu torpor, o mundo todo esgazeado, uma ciranda abaixo da árvore.

Uma ciranda de mulheres brancas e aladas.



-BÁRBARA LIA-

Conto premiado no I Concurso Literário 'Contos Grotescos' - Prêmio Edgar Allan Poe


O amor dorme na terra nua, às portas das casas, ou nas ruas profundas por debaixo das estrelas do céu, partilhando sempre a pobreza da sua mãe… No espaço de um dia ora se revela vivo e brilhante, ora à beira da morte.

.



O amor é pobre, magro, mal apresentado, sem sapatos, sem domicílio, sem outra cama que a terra, dormindo sob as estrelas, sem cobertores, junto das portas e nas ruas, irremediavelmente miserável, imitando a sua mãe.



.



No mesmo dia, ao mesmo tempo, o amor é florescente, pleno de vida, e tudo o que é grandioso abunda nele, antes de desaparecer e morrer, antes de reviver de novo.

Platão, O Banquete

Friday, October 22, 2010

como quien contorna un río donde se bañó el amado









No piso las hojas cálidas,
ésta alfombra
aterciopelada
que pulsa
en vida y savia.


Es como pisar el amor
ya tan pisoteado.


Rodeo veredas
de Ipés desmayados
como quien contorna
un río donde se bañó el amado.

Bárbara Lia

Thursday, October 21, 2010


Toulouse-Lautrec




Uma só rosa no meio do inferno é o paraíso.
Eduardo Lourenço escreveu isto, um poeta lusitano.
Uma só rosa!
Rosa sub-rosa extra-rosa proto-rosa magma-rosa ex-rosa.
O furor daquela mulher desabrochou em uma rosa UNA. Os  pelos dela nuvem lassa entre as coxas brancas - nuvem caramelo - pelos perfumados qual o coração. Afundava as narinas entre os pequenos lábios abraçado às suas coxas e cheirava como a um alucinógeno - o céu o céu o céu. Afastava a cortina de fogo  brando e violava sua flor acesa. O coração trôpego querendo alcançar o céu da boca... Estes são os dias em que as aves se debruçam para olhar uma cena e morrem de infarto. Estouram na calçada, pássaros caídos do nada. Mortos após contemplar a orgia amorosa plena.

- Coreografia do Caos
BÁRBARA LIA
21 gramas/2010



Wednesday, October 20, 2010

Tuesday, October 19, 2010

Homenagem - Cláudio Bettega

30 de outubro, às 16h00,  "Pleno x Vazio"
Café Leite Quente e Poesia
Café do Paço
Paço da Liberdade/SESC Paraná


Elisson Silva - Orientador de Atividades do Sesc Pr - Paço da Liberdade convida poetas e amigos do Cláudio Bettega para uma homenagem no dia 30 de outubro. Cláudio estava escalado para,  junto a Luis Carlos Leme Franco, declamar poemas no projeto tratando da temática "Pleno x Vazio". O evento se transforma agora em uma homenagem ao poeta e ator.

Saturday, October 16, 2010

Constelação de Ossos








Na presença da candura materna eu mergulhava as mãos na terra negra e a ajudava enquanto ela plantava sua horta. Na casa de Layla havia o jardim que alimentava o espírito; na minha casa havia a horta que não permitia que a fome viesse e se sentasse na cadeira vaga.

A cadeira vaga era de Manuel. Manuel não viveu mais que um ano, mas, minha mãe nunca o exilou para o reino dos mortos. Meu irmão mais velho que eu não conheci.

Foi na horta, enquanto ela retirava um pé de chicória que eu perguntei pela primeira vez a razão de meu nome.

Eu tinha sete anos e estava um pouco assustada com a reação na escola. Era a primeira vez que aparecia por lá uma aluna que se chamava Lynx. Minha mãe segurou minha mão e me levou para a cozinha. Um pé de chicória na outra mão. Depositou na pia a hortaliça e começou a lavar suas folhas de um verde amargo. Nunca mais comi chicória depois que ela se foi, fiquei com a impressão de que o céu tinha aquele gosto amargo. Chicória com óleo e sal e os pingos de limão-rosa que ela adicionava. Com paciência só dela começou como sempre fazia, dizendo que tudo deveria começar... Do começo.
- Um gosto amargo de céu - pg. 9

Constelação de Ossos
Bárbara Lia
coleção Anáguas - Vidráguas 2010
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