Sunday, April 17, 2005

o cão e a primavera




O CÃO E A PRIMAVERA.

- Bárbara Lia

No inverno de 1.999 eu vivia em uma pequena casa.
Lá tinha uma banheira verde e umas paredes úmidas.
Um belo dia meu ex-marido trouxe a cadela Bilu, não
tinha um lugar para ela, ele estava voltando para o
ap da mãe dele, tinha se separado de uma namorada.
A Bilu não podia ficar grávida, era uma cachorra com
um vírus que passava para os filhotes. Ela não morria
por portar o virus, mas os filhotes sim.
Não consegui impedir que um cão vadio invadisse,
um dia, o quintal e fecundasse a Bilu.
Preparei meu coração para as perdas que sempre me
faziam dispensar os cães e gatos.
O primeiro cão morreu de saudades da Paula, quando
viemos embora para Curitiba e ela só tinha dois anos.
O cão não suportou a falta dela que ficava na janela,
sacudindo os cachinhos e pulando no sofá chamando
o Lobo, de bobo, bobo...
A outra, que era branca como neve, o carro atropelou.
Aí vem a Bilu e tem uma ninhada condenada à morte.
Foi o tempo de espera que cada um contraísse o vírus
e morresse, a veterinária disse que seria assim. O cão
Moreninho - o nome dele era este mesmo pois era todo
negro, sem uma mancha branca - era o primogênito da
ninhada e eu o achava lindo. Rechonchudo, foi o último
a dar sinais da doença. Então ele começou a emagrecer,
a perder as forças.
Em uma noite eu peguei o Moreninho no colo, e fui para
a frente da varanda, tinha um lençol de estrelas, uma
brisa gélida, e tinha uma vontade de que ele não
morresse.
Comecei a falar com ele, de que viver apesar de tudo,
tinha sido bom, ele havia tido a chance de olhar
para o alto e ficar abismado, como eu sempre ficava
quando olhava para o céu, desde menina, e ficava
embriagada de estrelas, e eu sussurrei ao ouvido dele:
- Quando chegar a primavera, esta roseira vai florir
vermelho - rosas - as flores mais estranhamente belas.
Elas possuem espinhos, mas suas pétalas são macias,
elas vão nascer e eu queria muito que você pudesse
conhecer as rosas. Então ele superou o insuperável,
com o olhar estendido nos galhos da roseira, ao lado
da varanda, dia após dia. E eu não conseguia saber
de onde vinha tanta vontade de não morrer.
Então em uma manhã,as rosas floresceram, ele quis
me dizer algo, com seus olhos tristes e cansados.
Quis ensinar alguma coisa para mim, eu sei.
Dois dias depois ele morreu...
Penso que é preciso esperar a primavera.
Existe um livro de John Fante com este nome. Eu e o
Márcio Claudino fizemos muitas peregrinações à
Biblioteca para emprestar o livro de Fante, o livro
nunca estava lá.
Muitos anos passados, da morte do cão Moreninho,
o cão que não quis morrer sem ver a primavera.
Um dia o Márcio tocou a campainha, e estendeu
o livro de Fante, eu apontei para o sofá onde estava
o meu exemplar do livro de Fante.
Havíamos comprado – Espere a primavera Bandini.
Não tivemos paciência de esperar encontrar um dia
o livro na Biblioteca...
Concordamos, eu e o Márcio, que Pergunte ao pó é
bem mais lindo. Concordamos, entretanto, em manter
o refrão – espere a primavera!
Doei o livro para a Biblioteca, ao menos são dois
exemplares, pessoas a menos para esperar na fila.
Quando a esperança é soterrada pelo vírus do cansaço,
eu penso no Moreninho, que soube esperar a primavera
para só depois morrer

Friday, April 15, 2005

imagens do inconsciente



Imagens do Inconsciente
– Museu Oscar Niemeyer.
Até 22 de maio, em Curitiba.

*
A exposição reúne obras dos pacientes da Dra. Nise
da Silveira, psiquiatra que criou o Museu da Imagem
do Inconsciente. Pioneira que usou a arte como
terapia. Doutora Nise acreditava naquilo que Artaud
dizia, classificando a esquizofrenia como – um outro
estado do ser – estes loucos como Artaud e Van Gogh
e tantos. Viver não é apenas este instante de chás à
sombra. Este retorno ao quintal da infância é uma
fuga secreta - eu vivo em um outro estado do ser –
Eu tenho grilhões e chispas solares. Em mim as velas
queimam como vulcões e a brisa invade como furacão.
Isto é bem mais que um coração & alma pode suportar,
muito mais. Então a poesia é o meu ópio, a terapia,
o refúgio, como na infância, era a minha revoada por
quintais, perseguindo borboletas e criando reinos
imaginários.
A vida retalha as costas com seu chicote enquanto eu
canto árias azuis, quem não entende isto, não deve
vir ao chá, não deve ler poemas à meia-luz, não deve
beber um vinho em um túmulo branco e perguntar
à lua – afinal pra que mesmo tudo isto?


Dispense as rosas.
Suas botas tangem
sinfonia em surdina.
Pisam, espinhos teu coração,
despetaladas em tuas mãos,
os rastros são
necrose pura.
Pálpebras da memória
a contemplar
restos que só os abutres amam.
A pútrida máquina de carne
à carne viva.
Só serve ao corvo de Poe.

- Bárbara Lia.

Thursday, April 14, 2005

mãos de abrir nuvens







Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

- Alberto Caeiro
(O guardador de rebanhos)



MÃOS DE ABRIR NUVENS

-Bárbara Lia.


Ter mãos de abrir nuvens
Romper o velcro de baunilha
E espiar
Dentro a catedral
Dos sonhos
Um rito de encanto
Crianças e lagos
E mapas emaranhados
A Sexta Avenida

deságua no Eufrates
E as barcas cruzam
De Bagdad ao Mojave
As mãos se enlaçam
Negras brancas
Amarelas azuis.


Ter mãos de abrir nuvens
Descobrir a alma de neve
E perfumes
Que se fazem
Pássaros
Camelos
Bailarinas.


Quem possui mãos de abrir nuvens?
Quem rega pedras
E pesca pássaros
Em tempestades
E ancora no alto
Da montanha mais alta
Suas caravelas.


Quiçá Penélope,
Sem manto, grilhões, espera.
A abrir nuvens
Além da torre de concreto
Em pleno azul
Entre a brancura espumada.
Mãos de mulher livre
A abrir o velcro
Da humanidade encantada.


- Blog é diário. Mesmo que de forma poética, o chá para

as borboletas é um diário.
Aos poemas eu aceito críticas - desde que assinadas.
É preciso coragem. E só eu sei o preço que se paga por ela.
Então - sejamos corajosos!
Faz bem à saúde e fortalece o coração, traz um ar de liberdade
muito precioso...
Se pensar incomoda como andar na chuva, como diz Fernando
Pessoa, coragem incomoda muito mais.
Ser corajoso é enfrentar o furacão. Mas, sair de mil
furacões ilesa, assinando embaixo, isto é previlégio de
mulheres que tem mãos de abrir nuvens e plantar flores em
pedras.



imagem - cartier-bresson

Sunday, April 10, 2005

Leitura



Lendo – Minha jornada solitária dentro do século – Roger Garaudy,
filósofo francês, publicado no Brasil pela Nova Fronteira.
Duas pérolas do livro:
.
O mundo precisa de poetas e profetas e não de
césares e napoleões.
(Roger Garaudy)
.
A macieira faz maçãs. Apenas o fruto importa não as entranhas
destiladoras da árvore. (Saint-John Perse)

Thursday, April 07, 2005

Porta - Sidnei Schneider






PORTA
(sobre fotografia de F. Majola)

porta,
para onde abres?
o que trazes
por trás do teu perfume?
que vermelho te habita?
que chuvas lamberam
os pés das tuas tábuas?
que mãos amaciaram
tua dura maçaneta?
quem imaginou
tua ríspida simetria?

quem te olha
como auscultando?
quem te fotografa
como pedindo
que te abras?
que setas
te delimitam?
qual verde
te escala?
porta,
és como uma boca:
fala!


23-07-2004
Sidnei Schneider


Sidnei, mais um amigo que veio para o chá -
poeta que traduziu "Versos Singelos" de
José Martí e lançou o livro de poesias
"Plano de Navegação", vive em P. Alegre.

imagem - fotografia de fabiana majola

Wednesday, April 06, 2005




CRONÓPIOS LITERATURA E ARTE NO PLURAL
http://www.cronopios.com.br/content.php?artigo=6243&portal=cronopios

Fragmento do meu romance - Cereja & Blues - finalista do
Prêmio Sesc de Literatura 2.004 - está na nova revista criada
por Edson Cruz e Adrienne Mhyrtes (ambos ex-Capitu).
A revista está muito bem elaborada com novas possibilida-
des como Antonio Junior escrevendo sobre Glauber Rocha,
Pedro Maciel sobre Raduan Nassar e Cláudio Daniel sobre
o mestre do hai kai no Brasil- Nenpuko Sato.
para ler trecho de Cereja & Blues acessar:


imagem - paul klee


Friday, April 01, 2005

THE HAWK IN THE RAIN*





THE HAWK IN THE RAIN*
Somos todos falcões na chuva, impedidos de voar. O amor é uma chuva granítica, congela os ossos, paralisa o sangue e estanca o passo. O amor assusta mais que qualquer maldição ou peste, o amor, esta batalha que faz do homem um falcão molhado, cabisbaixo, sem asas... Amar é estender as asas e alcançar além de infinitas nuvens...
Congelamos quando chega a chuva do amor, e bloqueamos o vôo.

Voar com as asas leva até onde o olhar alcança...
Voar com a alma é um vôo para uma paisagem desconhecida...
Temos tanto medo do desconhecido, quanto da felicidade.
Sempre penso em Camus e em um pequeno trecho do livro
- A peste –

-Em Oran, como no resto do mundo, por falta de tempo e de reflexão. Somos obrigados a amar sem saber.





The Hawk in the rain é o título do primeiro livro de Ted Hughes, o que foi casado com Sylvia Plath – o falcão na chuva -



***


- Recebi o precioso livro de Bernardo Brayner – Exercícios de Morrer-
Contos e mini-contos como este:


-
PEIXECom as ondas no próprio feixe de escamas, o peixe treme o corpo de sol. Na praia Gigalmesh é mordido por uma serpente. Sabre de terra e pedra que o atravessa.


***


Meu conto Sr. New York foi publicado no jornal Rascunho
Edição 59, última edição que apanhei ontem na Biblioteca.
www.rascunho.com.br