Monday, January 30, 2012

A reinvenção de Bárbara Lia: não vim quebrar as pernas do sol - Sidnei Schneider

O poeta Sidnei Schneider publicou em seu blog - Umbigo do Lago -  o prefácio do meu mais recente livro de poesias - A flor dentro da árvore. Link para a leitura:


http://umbigodolago.blogspot.com/


Sidnei Schneider é poeta, tradutor e contista. Autor dos livros de poesia Quichiligangues (Dahmer, 2008), Plano de Navegação (Dahmer, 1999) e tradutor de Versos Singelos/José Martí (SBS, 1997). Participa de Poesia Sempre (Biblioteca Nacional/MinC, 2001), Antologia do Sul (Assembléia Legislativa, 2001), O Melhor da Festa 1 e 2 (Nova Roma, 2009; Casa Verde, 2010) e de outras dez publicações. 1º lugar no Concurso de Contos Caio Fernando Abreu, UFRGS, 2003 e 1º lugar em poesia no Concurso Talentos, UFSM, 1995, de um total de treze premiações. Publicou artigos, poemas, contos e traduções de poesia em jornais e revistas. Participa do projeto ArteSesc e é membro da Associação Gaúcha de Escritores.



Cá estou: O afrodisíaco das almas enferrujadas. Cá estou o amigo dos livres e das mulheres sem cinto de castidade. Cá estou o simples. O simples mais simples. Puro como a gota clara na rosa. Puro como todas as gotas jorradas nos espasmos gloriosos. Cá estou como uma criança inofensiva. Cá estou eu, o desejo. Eros puro caminhando sem sapatos. Eros puro roçando as paredes de todas as casas e sendo enxotado para que o mundo não abrace o simples. O simples desejo...

(...)
E como explicar o desejo?
A flor que se abre – à revelia-
Sôfrega, desvairada, atônita
Tudo se reparte
Em crisálidas mirabolantes
Parindo estrelas adormecidas
Aos borbotões
Até secar o sol
Bárbara Lia

Tuesday, January 24, 2012

Ressurreição

(khepra - escaravelho sagrado, símbolo de ressurreição no antigo Egito)





Khepra ancorou na sala – Negro nó
Com sua escaramuça tecida de filó
Escura escarpa no túmulo de Faraó
- Ressuscita! Ele diz. Largue sem dó
A túnica da Letargia – Mova o Sol!
Longe da maldição da lenda da avó
Triture grão da dor na metafísica Mó
Poderosa Poesia nunca te deixará Só
Ainda que tudo volte – um dia – ao Pó.

BÁRBARA LIA

Monday, January 23, 2012

Zero grau de ternura - Bárbara Lia


a solidão - iberê camargo





Sonhei com chuva de corvos
Estardalhaço acima das cabeças
E todos os seres humanos
Agachados desesperançados
Aniquilados, mortos de fome
Reproduzindo
Bilhões de vezes aquela cena:

Criança meio ao lixo
Um abutre pousa satírico
Esperando a morte iminente
Para devorar sua pele

Zero
Zero Grau
Zero Grau de Ternura

Mundo vasto mundo imundo
Faz esgotar o arsenal de Ternura
E a Esperança – cancerosa –
Debanda no olhar da última rosa
O aço - coração - rangendo
A água da realidade a enferrujar
As alavancas dos sonhos

Tudo escuro - O mundo anda escuro
Ninguém admite
Mas o mundo anda muito escuro

Sair por aí
Andar
Sem parar
Em linha reta
Eternamente

Em algum dia - final de dia
Em um momento de ocaso
Assim quando menos esperar
A Ternura chega, devagar
Misteriosa, ao meu encontro
- A Ternura -
Cantando uma canção em Esperanto
Ou em Mandarim
Ou em Aramaico

A Ternura trôpega
Metralhada
Suada
Alquebrada

Quiçá na última nota da canção
Ela caia em meus braços
E como aqueles espíritos que incorporam
Incorpore em mim e em todo Mundo.

Bárbara Lia / 2010

Thursday, January 19, 2012

Eunice & Berenice


a máscara
às vezes,´
pode ser pessoa-verdade

o grau de loucura
às vezes,
pode ser o grão do amor

Berenice Sica Lamas
pg. 33 - Copo de Violetas (ALF/2011)







O ensaio da psicóloga e escritora Berenice Sica Lamas traz uma reflexão sobre o fenômeno do duplo abordado pelo pensamento de vários autores, tecido com clareza e apresentado em uma linguagem sedutora que estimula a leitura de maneira prazerosa. (Eloá Muniz) - fragmento da orelha do livro

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(...)

São textos voltados para o existencial, com suas precariedades, contrastes e fragilidades da vida, no seu sentido totalizante. Eis porque não se detém em simples exposições de pequenos dramas, que são, inversamente, a veia jugular dos grandes dramas. Fosse só isso e já diria muito.
(...)
Sem perder de vista a realidade vai do mágico, ao fantástico, ao alegórico, em flexibilidade surpreendente, como se tudo viesse e acontecesse - como acente e vem - em personalíssima simplicidade narrativa, dom sensível dos bons ficcionistas e negação da facilidade.

(...)

Fragmentos do texto de apresentação de Caio Porfírio Carneiro, para o  livro de contos de Eunice Arruda - Dias Contados (RG Editores/2009)

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Três livros que acabei de receber das poetas Berenice Sica Lamas e Eunice Arruda. Para conhecer a prosa de ambas,  no ensaio de Berenice - O duplo: busca do si-mesmo e no livro de contos - Dias contados - de Eunice Arruda. Certamente uma leitura rica para acompanhar estas tardes nubladas...







Wednesday, January 18, 2012

dois quartos vazios

Quarto de Virginia Woolf in Pilgrimage (Annie Leibovitz)



Preciso voltar e olhar de novo aqueles dois quartos vazios.
(Ana Cristina Cesar)

PARA COMENZAR TODO DE NUEVO

El verano en que resucitemos tendrá un molino cerca con un chorro blanquísimo sepultado en la vena. (1969)

HÉCTOR VIEL TEMPERLEY (Argentina, 1933-1987)





Wednesday, January 11, 2012

AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA (14)






Rubens Jardim vem publicando em sua página - As mulheres poetas na literatura brasileira.
Nesta etapa alguns poemas meus, ao lado de Alice Spíndola, Teruko Oda e Alice Ruiz...

link para as poesias...

http://www.rubensjardim.com/blog.php?idb=30277




Rubens Jardim - Poeta e Jornalista, autor de três livros de poemas: ULTIMATUM (1966), ESPELHO RISCADO (1978)e CANTARES DA PAIXÃO (2008). Promoveu e organizou o ANO JORGE DE LIMA em 1973, em comemoração aos 80 anos do nascimento do poeta, evento que contou com o apoio de Carlos Drummond de Andrade, Menotti del Pichia, Cassiano Ricardo, Raduan Nassar e outras figuras importantes da literatura do Brasil. Organizou e publicou JORGE, 8O ANOS - uma espécie de iniciação à parte menos conhecida e divulgada da obra do poeta alagoano. Integrou o movimento CATEQUESE POÉTICA, iniciado por Lindolf Bell em 1964, cujo lema era: o lugar do poeta é onde possa inquietar. O lugar do poema são todos os lugares.. Participou da I Bienal Internacional de Poesia de Brasília (2008) com poemas visuais no Museu Nacional e na Biblioteca Nacional. Participou de várias antologias nacionais e internacionais.

Tuesday, January 10, 2012

a gata por um fio



3 poesias do novo livro - A flor dentro da árvore -  No site -  A gata por um fio, da poeta gaúcha - Sandra Santos


Poetas convidados: Ademir Assunção, Alexandre Brito, Armindo Trevisan, Bárbara Lia, Cesar Pereira, Edson Cruz,Eduardo Tornagui,E. M. de Melo e Castro, Floriano Martins, Jurema Barreto de Souza, Lais Chaffe, Lau Siqueira, Leonardo Brasiliense, Luis Serguilha, Marcelo Morais Caetano, Marco Celso Huff... entre outros.


http://www.sandrasantos.com/poesias/Entradas/2012/1/9_Barbara_Lia.html


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Sunday, January 08, 2012

poetas

Ingrid Jonker


O ano de 2011 chegou ao fim com mais duas estrelas no meu céu de poetas: Ingrid Jonker e Antonio José Forte. É pequeno este céu. Os grandes poetas do mundo são em menor número que as estrelas.
Talvez por isto o Céu extasie e a Terra gema entre ogivas e axés.
Ingrid Jonker é uma poeta sul-africana que cantou seu País, que amou e que antecipou seu fim. Não vi ainda o filme Black Butterflies, provavelmente não vai passar por aqui, mas, os poucos poemas que li de Ingrid levaram a colocá-la em destaque nesta galeria iluminada, as estrelas que eu olho, o lugar onde miro, distante, mas, sempre luz...
Antonio José Forte "uma das mais belas, inquietantes e poderosas vozes da poesia portuguesa contemporânea", conheci através do livro - Uma faca entre os dentes - enviado pelo meu amigo de Portugal - Chambel Santos.


Azuliante


Este poema é da Aldina


Este poema
começa com um homem de tronco nu
à sua mesa de trabalho e hiante
a esta hora em que de oriente a ocidente
se acendem lâmpadas trémulas e bárbaras e ferozes
e o mar é o teu nome a esta hora pétala a pétala
em que subirei de avião para ir beijar-te os olhos
e ver no meio do deserto o único
o magnífico devorador de rosas a comer um pão
enquanto do Oceano resta apenas
o silêncio de uma lágrima caindo nos joelhos de uma criança
Espera-me onde um nome há no Ar escrito com saliva azul
com raiva azul
como a urina violenta dos amantes
com a sua flor azul à superfície onde crepita a morte

Choverá muito eu sei choverá muito
e não porei uma pedra branca sobre o assunto digo
sobre o tremor de terra em que tu danças
na tua roda de cigarros cada vez mais depressa
cada vez mais depressa
e lento o peixe de plumas de águia letra a letra
dá a volta ao mundo dos teus olhos
enquanto a dentadura cintilante pronuncia o grande uivo
de oriente a ocidente


Certas palavras muito duras quando a noite cai
não devem ter outra origem sabes tão bem como eu
porque agora a lava das lágrimas ao crepúsculo
são as rosas com que o poeta fala
à multidão em volta do crocodilo o animal repugnante
de costas para a luz contra o grande uivo:
de oriente a ocidente a mesma flor podre o estado
segredos de estado as razões de estado a segurança do estado
o terrorismo de estado os crimes contra o estado
e o equilíbrio do terror
de oriente a ocidente meu amor de oriente a ocidente

Digo não Eu digo não
digo o teu nome que diz não

No entanto às portas da cidade e ao pé de cada árvore
à espera que tu chegues ou passes simplesmente
estão os grandes do império com o chapéu na mão
para cumprimentar-te
Então passas tu com a lua no peito
dividindo distribuindo os alimentos

passas tu devagar atirando as moedas
que os dias não aceitam e gastamos depressa
noite mil e uma noites de quem espera

Meu amor países pátrias têm todos um nome
de letras imundas que não é para escrever
Se ainda podes ouvir o búzio da infância
ouvirás com certeza o sinal de partir

No comboio multicor sobre carris ferozes e azuis
que há mil anos dá a volta ao mundo
sou eu o homem que viaja nu porque eu sou
o arco-íris e a rosa no trapézio
e tu toda a paisagem que atravesso
como se fosse de bicicleta
como se fosse sílaba a sílaba
a primeira frase sobre a terra

tu com as tuas luvas de amianto ao lado do vulcão
com a tua máscara de olhar a aurora boreal
de me olhares para sempre nua eu a tempestade
de coração a coração

Roda sórdida da razão cínica e canto de galos
depenados vivos que cantam nos intervalos da morte
no meu livro de horas deste século
está escrito que o homem livre fará o seu aparecimento
sob a forma de um cometa de cauda fascinante
que arrastará os amorosos até ao centro do mundo
donde partirão na rosa-dos-ventos e este será o sinal

António José Forte (06/02/1931 -15/12/1988)
Uma Faca nos Dentes
Prefácio de Herberto Helder
Parceria A.M. Pereira
Livraria Editora, Lda.

 

The Child is not dead - Ingrid Jonker (19/09/1933 - 19/07/1965)


The child is not dead

The child lifts his fists against his mother
Who shouts Afrika ! shouts the breath
Of freedom and the veld
In the locations of the cordoned heart

The child lifts his fists against his father
in the march of the generations
who shouts Afrika ! shout the breath
of righteousness and blood
in the streets of his embattled pride

The child is not dead not at Langa nor at Nyanga
not at Orlando nor at Sharpeville
nor at the police station at Philippi
where he lies with a bullet through his brain

The child is the dark shadow of the soldiers
on guard with rifles Saracens and batons
the child is present at all assemblies and law-givings
the child peers through the windows of houses and into the hearts of mothers
this child who just wanted to play in the sun at Nyanga is everywhere
the child grown to a man treks through all Africa

the child grown into a giant journeys through the whole world
Without a pass

Sunday, January 01, 2012

A flor dentro da árvore






 



A reinvenção de Bárbara:



não vim quebrar as pernas do sol





Se você está aqui, amigo leitor, devido ao bonito título desse novo livro da poeta e romancista Bárbara Lia, A flor dentro da árvore, saiba que a mim ele atraiu. Uma coisa dentro da outra, de múltiplos sentidos, nesse caso também define a concepção do volume. A partir da leitura da epígrafe da poeta Emily Dickinson (1830-1886), que inaugurou junto com Walt Whitman a moderna poesia norte-americana, o leitor pode desconfiar que os títulos dos poemas, sempre entre aspas, sejam versos, ramos de Emily, e se o faz, acertam em cheio.

O que nos poetas costuma ser um dos rostos do acaso, parir versos a partir de um trecho de leitura, Bárbara sistematiza, poema a poema, e com voz própria. Emily, assim, figura como uma paixão inseminadora. Não que seja a única: poetas, escritores, músicos, artistas plásticos, filósofos, seres míticos e ficcionais são citados, como se de todos a poeta e a obra necessitassem para existir.

Com voz forte e corajosa, Bárbara diz a que veio: “Não nasci para resfriar o mundo/ Neste lento cortejo de omissões/ (...) Não vim quebrar as pernas do sol/ (...) Nasci para amar sem lastro/ Para dançar no pátio/ It’s my way” (“Até que os serafins acenem com seus chapéus brancos”). E pugna pela transparência diante do outro: “Teço/ Um ego-vidraça/ Para que enxergues/ Meu Eu// Teço/ Uma nuvem lassa/ Cortina que qualquer mão/ Atravessa// Teço/ Um hímen de fumaça” (“Uma migalha de mim”).

Bárbara dá a ver como um mero sinal impacta: “Til a til emendados/ Sinuosa corda/ Negra/ Infinita// (...) Til a til retirados/ De cada não/ Que ouvi na vida”. Contudo, a voz lírica não se submete: “De não em não/ Alçar estrelas” (“Rota de Evanescência”).
 
(...)



Sidnei Schneider - Poeta, tradutor e contista. Autor dos livros de poesia Quichiligangues (Dahmer, 2008), Plano de Navegação (Dahmer, 1999) e tradutor de Versos Singelos/José Martí (SBS, 1997).



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Existe uma musicalidade que nasce no interior do silêncio e esta musicalidade está presente neste livro que você, leitor tem em mãos.
Penso que nossa consciência se divide em uma parte que observa e outra parte que vive nos poemas de Bárbara Lia acontece, uma delicada fusão destas duas partes da consciência, temos aqui uma poética que se alimenta desta fusão e com uma elegante concisão ata, costura estas duas metades de um eu lírico, que todos no fundo possuem e poucos sabem fazer cantar e florescer num poema que no fundo é como a flor de uma árvore, que poderíamos sim, chamar de árvore da vida, a poesia seria justamente essa flor, que Bárbara soube tão bem indicar no meio desse misterioso jardim onde cresce a árvore da vida, não é esta flor, uma flor no Ártico como apontou Rimbaud em uma de suas iluminações, é uma flor-árvore que cresce em toda parte, como poderá intuir, quem ler este belo livro.

Marcelo Ariel - Poeta e performer. Autor de TRATADO DOS ANJOS AFOGADOS (LetraSelvagem,2008), O CÉU NO FUNDO DO MAR ( Dulcinéia Catadora,2009) entre outros...







(fragmento do texto de apresentação do poeta Sidnei Schneider)