Esta sou eu, descalça nas enxurradas
Em manhãs esperançadas
Esta sou eu, adolescente
Indo ao colégio, olhos fixos na estrela Vésper
Esta sou eu, lendo à luz da lamparina
Na madrugada,
Olhos percorrendo páginas amareladas
Passeando por poemas barrocos
Na companhia de estrelas foscas
Esta sou eu, espiando por entre balaústres
O sobrinho do professor de Francês
Na varanda da casa da esquinaSeus olhos verdes, sua pele jambo
Esta sou eu, à mesa do café da manhã
Ouvindo a pergunta diária do pai:
— Teve sonhos coloridos ou em preto e branco?
Dez anos, pequenina cidade de Peabiru
Quantas mentiras meus olhinhos beberam
No Cine Vera?
Amor passeando de lambreta
Rasgando ruas de Roma
A beleza exótica de Troy Donahue
A professorinha enamorada na garupa
O amor idealizado "Candelabro italiano"
Esfarrapado e imundo
Dei de cara com ele, enfim
Mendigo extraviado
Que implora pra ser notado.
Eis o amor:
Despejado
Humilhado
Não vive em estrelas
Nem no mar profundo
Nem no limite do mundo
Está sempre no meio do caminho
Pedra
Poema
Estirado
Cão sublime à espera
De um dono franciscano
Que o acolha
Com todas as chagas
E enganos
BÁRBARA LIA