Thursday, April 30, 2015

Blue

Christian Schloe



Uma caminhada até o Supermercado foi o suficiente para perceber, e até invejar, o dia a dia das pessoas distantes dos questionamentos. Um velho de chinelo de couro planeja uma viagem ao litoral para pescar. Ele fala com o amigo, ele é tão velho que nem sei se consegue chegar até a esquina, mas, ele faz planos. Planos de pesca, de rio, de mergulho na natureza. Um moço passa em sua bicicleta, leva um pacote grande de fraldas. O filho deve ser o pensamento. Leva fraldas para o filho. Um dia vai crescer, vai precisar de Escola. O mundo fica parado por alguns segundos. Quem somos na ordem do mundo? Que importância para o mundo? Que importa os poetas? Que importa a segurança dos que educaram nossos filhos, nossos filhos que ainda ontem precisavam de fraldas, eram nosso único pensamento. A vida era uma bolha do paraíso, a criação renovada. Cada filho é uma fatia de céu que se abre, pisamos o começo, acreditamos em Deus... Um homem alto e belíssimo atravessa a rua, será que ele tem consciência de sua força bruta de beleza? Não olha para lado algum, calça jeans surrada, sósia do Tom Selleck quando jovem, aquele ator do seriado Magnun. Um minuto mais de silêncio, o sinal abre, atravesso a rua e na praça de alimentação do supermercado, pessoas conversam, comem, a TV mostra a luta de ontem, nenhuma cabeça se move, súbito uma mulher se move, olha para a tela, volta a falar com o marido... Quem somos nós na ordem do mundo? Os que vivem pelo Ensino, é uma espécie de missão... Isto de ser quem cuida do humano, ensina, apresenta mundos, ergue espaços de possibilidades, escancara o novo. Estes dias meu netinho de cinco anos disse: Eu sei falar uma palavra em inglês: blue. É azul. Ele sabe contar até dez em inglês, mas, a palavra engrandece quando nomina tudo a redor, ele começou a nominar o mundo em outra língua, e nunca a palavra Blue foi tão poética, nunca tão poética como na voz do neto. Azul. O azul. Sempre. Esta cor que é quase um ser vivo... E o céu escancara esta leveza de céu de Curitiba... Eu vi hoje os que não estão retalhados dentro, e invejei a vida simples... Quero a pescaria, o mato, o filho que acabou de nascer, contemplar uma espécie de masculina beleza, e brincar no chão com o meu neto... dragões e carros, batman e homem aranha, estas coisas de menino. Ler uma história, apagar esta imagem que não descola, esta dor que atingiu gente próxima, professores distantes... Esta coisa sem nome, esta falta de beleza, esta ausência de humanidade...

29 de Abril - O dia do Massacre






A palavra é MASSACRE. Não é - confronto - como a mídia oficial está a propalar. O MASSACRE de abril. Mancha e vergonha e dor. Minha pressão arterial subiu, a indignação saltou e tirou o ar do peito. Triste. Uma droga. A falta de respeito que foi instaurada e a humilhação que impuseram aos Mestres. "Estamos aqui tomando água de coco enquanto os professores são bombardeados". Fala do Deputado Tadeu Veneri em um canal que transmitia o que ia dentro da Assembléia, diferente de uma calma que sempre permeia este deputado, havia uma máscara de incredibilidade em seu rosto e fala...Era, na verdade, inacreditável o que se passava lá. E as bombas estão caindo de um helicóptero, ele dizia. Nada mudava a opinião dos que insistiam em votar, desliguei, pois não quis mais assistir o circo dentro. Meu coração estava lá fora. NY Times, Globo, a grande imprensa internacional copiou a mídia oficial brasileira. Uma dor ler a palavra confronto e nem citado o nome de Beto Richa em notícias veiculadas pelo mundo. Revolta. Esta vontade de dizer, então é isto... A nossa propagação nas redes sociais é mais que necessária, para quebrar esta camada de aceitação. É aceitável um governante defender e revidar aos ataques... Só que, aqui, ataque não houve... Aqui, eram pessoas exercendo a cidadania. Quem pode, usando a lei, mover qualquer tipo de ação contra os responsáveis por este massacre, deve fazê-lo... Sim, em um Estado onde a ampla maioria votou neste piá de prédio, fica difícil um movimento de massa para exigir que - tudo seja apurado - é ilusão pensar que todos carregam esta dor... Ou, quem sabe, algo mude nas mentes e, num movimento coletivo, seja possível uma ação drástica contra este governo do Beto Hitler. o Pinochet do Paraná. Respirar fundo, tomar muito suco de maracujá. E seguir com o desejo de que nunca mais em nossa cidade, neste Estado que eu amo e onde eu nasci, aconteça algo tão degradante, tão triste, tão dolorido. Não estou lecionando há algum tempo, mas, ainda sinto que sou um deles, em um campo de guerra, sangrando...




Sunday, April 26, 2015

Cássia Eller

NIGHTINGALE
(Para Cássia Eller)


Deus cismou um rouxinol no céu.
A nota mais doce e pura.
A emoção lilás.
Deus decretou que a lua
irrecuperável da noite triste
brilhasse, mais que antigos luares,
bem mais que as noites claras
dos séculos.
Deus colheu gerânios e rosas
e perfumou a sala.
Enfeitou a mesa com romãs,
cerejas, ameixas, damascos...
Pediu aos anjos que calassem as cítaras
e escutassem
a canção mais bela.
Foi em um dezembro.
Cássia Eller nos disse adeus,
para ser rouxinol de Deus.
Bárbara Lia
dezembro/2004

Thursday, April 23, 2015

Dia Mundial do Livro


Imagem do filme - O Leitor




Dia Mundial do Livro.
Nunca consegui escolher o - meu livro favorito.
Quando escolho um autor, logo em seguida outros chegam, invadem minhas veias, hospedam-se para todo sempre... Algumas vezes meu corpo é um edifício com tantos moradores que acabo por ser expulsa, fica esta gente toda a me habitar sem cerimônia. Alguns chegam e vão embora, demoram a voltar, mudados, uma outra vida, outra história. Escritor é um camaleão atravessando séculos e almas... Hoje vive em Roma, amanhã lá na Patagônia. Há muito tempo eu vivi em Santiago do Chile, embalada pela capa escura de Neruda, flanando ao redor de uma estudante para quem ele escreveu vinte poemas de amor e uma canção desesperada... Atravessei a Rússia em poesia,  um dia materializei-me em um bar esfumaçado e vi Isadora e Iessiênin. Ouvi o som de tantos corações de poetas que quando deito tem sempre um bumbo no meu ouvido. Somos tão loucos que os corações não param, nem mesmo quando morremos, fica esta música atemporal, coração em versos despetalados em muitas memórias, em poemas, sangrando ainda...
Hoje é Dia do Livro... E o livro nasce antes em cada alma, desgovernada e louca ou livre e embalada de ternura... Saudade de uma primavera com os existencialista (lembro que me apaixonei por Camus), nostalgia de um verão inteiro com Borges... Um ano inteiro caminhando pelos clássicos com um amigo... E a Poesia, esta é sempre feminina, esta me ata às poetas que eu adoro... Hoje é o Dia do Livro, e ele está além da materialidade, ele pulsa, e pulsa, e tem este mistério, é mais que papel e tinta, é um Universo...
Bárbara Lia
abril de 2015

Friday, April 17, 2015

sobre poemas de amor...

Luiz César / Bárbara Lia (1981)

Escrevi um poema. Vou guardar e não vou publicar agora, pela incrível coincidência de levar o título de um livro enviado a um concurso. O poema título nasceu depois. Acontece. Não estou naquela fase de derramamento de versos. Eles ficam espaçados. Escondidos durante este processo que me rouba do lírico: Mudança, coisas palpáveis, áridas. Não sou prática, mas muito na minha vida ficou mais brando com estes filhos que colocam o trem nos trilhos. Qualquer dia largo o poema escrito e fico só com a concretude da vida e do poema/dia. As horas poéticas que não sei dizer. Eles (filhos/neto) estão em um patamar sagrado, tão alto que até agora só disse em um poema destes filhos incríveis, e fico sem narrar. Sei que não direi palavras ao - grande amor. Nunca escrevi poemas ao meu ex-marido, ou cartas de amor. Ele reclamou disto, um dia, ao encontrar uma carta (não enviada) em um caderno do tempo da Universidade (todas as cartas de amor são ridículas). Depois da morte dele, eu estava pensando na nossa vida no tempo que dividimos uma história, e na mesma hora minha filha ligou, ela estava na estrada com a família dela e disse: - Mãe tá vendo o eclipse da lua? Sai na sacada pra ver e escrevi um poema ao pai dos meus filhos: Tarde demais para dedicar uma poesia. Ele já havia morrido e nunca soube, mas, eu sou assim... Estes poemas de amor que fazem crer que foram para grandes amores meus... Foram apenas acertos, eu e meu coração, interrogações, desejo de entender. Não há poemas para os amados essenciais... Ou quiçá, um dia, por ora é tudo desejo e reparação...

Monday, April 13, 2015

Poetry

 


Sobre “O sorriso de Leonardo”, o poeta e artista plástico português, Fernando Aguiar, escreveu:


A poesia de Bárbara Lia junta um lirismo muito feminino à realidade que todos os dias bate à porta dos seus olhos. Poética dos homens, da terra, mas também dos sonhos onde “Para quem dorme a chuva tem a magia do canto das sereias

  




Fragmento de um texto do poeta português Luis Serguilha, sobre “Noir”:

BARBARA encandeia com a violência dos seus ecos, com o naufrágio da claridade dos ritmos, com o sal-húmus das gargantas dos cenários.
As imagens ampliadas dos corpos fluem através das mandíbulas líquidas que proliferam sobre os acordes inatacáveis deste livro, porque a Barbara modela-se a si própria entre as unânimes correspondências: aqui a reciprocidade das vibrações forma os cavalos dos limites onde as loucas marchas despertam os halos do pulsar erótico.
A performance da palavra explora o bálsamo perfeito e descodifica a arqueologia dos sentidos. Barbara explora a jubilação da folhagem humana, desenha a efervescência da comunicação para consumar o ciclone paradisíaco ou a loucura da graça do absurdo .
O balanço afrodisíaco e vegetal sopra sobre os espelhos enunciadores da andadura dos signos onde a gigantesca luz do amor é sempre trágica e incompreendida.
O olhar de NOIR abre o ancoradouro solar e tropeça nas árvores cósmicas como um corpo secreto a alimentar as coordenadas criadoras doutro corpo, porque quer abraçar livremente o mundo.
A musicalidade ramifica a navegação da génese das palavras e eleva a Barbara a uma paisagem de fantasia. O sofrimento humano interroga as fugas inextinguíveis como uma constelação de aprendizagens sobre obstáculos permanentes.
NOIR procura profundamente a respiração visual do desejo, relembrando Ramos Rosa ´´ que não pode adiar o amor para outro século ainda que o grito sufoque a garganta´´.






Sobre “O sal das rosas”, o Poeta Márcio Davie Claudino, Escreveu:


A POESIA DO PERTENCIMENTO DE BÁRBARA LIA


   Quando eu disse à poeta Bárbara Lia que percebesse, mediante
circunstâncias singulares, o que realmente fazia sentido e que se traduzia
em um sentimento de pertencimento, minha intenção era que estimasse tal noção partindo de critérios avaliativos subjetivos, ou seja, do que fosse mais verdadeiro e autêntico em sua vida e projeto literário; e não pensei que ela levasse tão a sério aquelas palavras. Qual não foi a minha surpresa quando me deparei com o poema que abre este “O Sal das rosas”, cujo título é “O que me pertence”. Somos assim, e que bom. Movidos algumas vezes pelo verso do outro, por palavras escritas ou proferidas em algum momento, em alguma luz ou treva, e que o atento escriba sabe captar em suas faixas, para irradiar na sintonia de outros canais. Afinal, o que mais nos pertence, além da extensão de nós mesmos e de nossa alma? Algo como os filhos, por exemplo; ou a própria literatura, porque viaja nessa dimensão, do pertencimento mágico ao real, num movimento pendular entre o que temos e somos e o que anelamos e projetamos.
     E, afinal, o que não nos pertence? Algo que nos escapa ou no qual não
nos encaixamos, este sentimento de não-adequação tão comum à própria noção de não-pertencimento. E a quê? A tantas coisas inumeráveis, situações e coisas não-poesia.
  O projeto de Bárbara Lia continua, ainda que na contramão das coisas
não-poesia, das condições não-pertencimento, contrapondo-se justamente pelo viés do autêntico e do verdadeiro, do que mais lhe pertence. E aqui, neste “O Sal das Rosas” ela os apresenta, como se vê, na maioria dos poemas, seja através do “riso dos filhos”, dos amores e dores, ou do seu constante exercício de pensar e reescrever o mundo de suas leituras e diálogos, indissociáveis, de todo modo, de suas identificações ideológicas, passionais e de sua busca constante pelo ideal humanista.



Sobre o livro – A flor dentro da árvore:



Existe uma musicalidade que nasce no interior do silêncio e esta musicalidade está presente neste livro que você, leitor tem em mãos.
Penso que nossa consciência se divide em uma parte que observa e outra parte que vive, nos poemas de Bárbara Lia acontece, uma delicada fusão destas duas partes da consciência, temos aqui uma poética que se alimenta desta fusão e com uma elegante  concisão ata, costura estas duas metades de um eu lírico, que todos no fundo possuem e poucos sabem fazer cantar e florescer num poema que no fundo é como a flor de uma  árvore, que poderíamos sim, chamar de árvore da vida, a poesia seria justamente essa flor, que Bárbara soube tão bem indicar no meio desse misterioso jardim onde cresce a árvore da vida, não é esta flor, uma flor no Ártico como apontou Rimbaud em uma de sua iluminações, é uma flor-árvore que cresce em toda parte, como poderá intuir, quem ler este belo livro.

Marcelo Ariel




Sobre “Respirar”:


A mais alta poesia gira ao redor desse livro, porque orbita ao teu redor com uma naturalidade absurda. Não conheço nenhum outro poeta que alcance as notas tão facilmente e seguramente quanto você. É tanta música e pintura e céu com aquele azul decisivo, que o verso se faz carne e sonho com a mesma desenvoltura.

Fernando Koproski.


Thursday, April 09, 2015

Bárbara / Plath



























Vida muita Vida
Ar raro Ar/Luz
Luz toda Luz -
Amor excesso/
Excelso tempo
As dores toscas
A morte lenta
Tudo escoando
O Ar voltando -
Raio possante
Cavalo do céu
Menos. Eu digo
Menos. Calma
Vida retornada
Ar curativo Blue
Permito sua lerda
Chegada. Sim!
Devagar o Ar
Raro Ar em mim
Para não detonar
O estropiado
Coração


Bárbara Lia


Monday, April 06, 2015

escrever...

foto by winona evelyn




Meu pai é - com certeza - alguém que merece ter sua vida registrada. Chegou o momento de encontrar tempo para mergulhar na trilha que o levou - menino - no lombo de um burro, ao sertão paranaense. É o início, um menino que cresceu ao lado dos índios lá em São Jerônimo da Serra e que viveu com o - poético - atrelado às suas roupas. Quer fosse sua roupa de desbravador e peão, quer fosse aquela capa de chuva da cor cinza, que o tornava uma espécie de Cary Grant, um homem belo. A vida e tudo que sou tem este tom de Grandeza graças ao tom lírico com o qual ele me apontava tudo... 


No mais, vou ficar aqui, nesta sala quieta, com suas falas, memórias, poemas e a certeza de que preciso - agora - antes que meu tempo acabe, falar sobre este homem e é a vida dele que precisa ser narrada, não a minha...
Quando imprimi os contos pueris falando sobre minha vida de menina em Paraísos de Pedra, algumas primas que conviveram com meu pai ficaram tocadas com a lembrança dele, foi como um grande presente sentar-me com aquelas senhoras e ouvir sobre este - reconhecimento - elas diziam, é assim que ele era, como está no teu livro. E sugeriram que eu falasse mais sobre este homem que tinha uma paixão pela Poesia, que lia grandes filósofos e que tinha um pensamento (politico) bem diverso do meu.
Na virada do século quando comentei com Frei Betto que me sentia muito estranha ao me sentir tão à esquerda e admirar pessoas que meu pai detestava, sendo que - ao mesmo tempo - ele era meu amor maior e a grande inspiração do meu caminho... Então, ele sugeriu, por ficar também literariamente mais poético, que eu retirasse o sobrenome. Não estou atada à nenhuma raiz familiar quando escrevo. Sou apenas a menina, cujo nome ele escolheu, longe dos atávicos laços de uma família conservadora, que tende à direita e que não concordaria com quase nenhum dos meus pensamentos. Ainda assim, fomos companheiros em uma jornada incrível. A Vida. A nossa vida, quase quarenta anos de um encontro entre uma menina poeta e seu pai... Preciso escrever isto, antes que seja tarde demais...

Wednesday, April 01, 2015

...uma rosa adulterada



by Tina Modotti





 (uma deusa é uma deusa é uma deusa)





Quem – neste tempo
de futilidades –
encarnaria
uma deusa antiga?







 (um cais é um cais é um cais)


                                                                         
Beijar a quilha
Do velho navio
Que te depositou 
Neste cais





(uma primavera é uma primavera é uma primavera)





Fique em silêncio
como um ramo seco
vem aí
uma primavera
a te florir


  



(um olhar é um olhar é um olhar)





“Apenas se olharam. Olharam-se era a casa de ambos”
(José Saramago)



E fico a olhar teu rosto
O olho esquerdo me ama
O direito rasga-me - navalha fria
Segue pelos flancos a desenhar estrelas
O sangue escorre doce para o chão frio
O sangue se transforma em rio
Meu néctar fluindo mel vermelho
E nele tudo que é vida diz teu nome

Bárbara Lia

Poemas do livro - RESPIRAR (2014)