Thursday, December 29, 2005

perseguião - sylvia plath













SYLVIA PLATH - 1932-1963


PERSEGUIÇÃO


(SYLVIA PLATH)

Há uma pantera que me espreita:
Um dia, dela, terei a minha morte;
Sua cobiça incendiou o bosque,
Ela ronda divinamente como o sol.
Suave, passo que desliza mais suave,
Avançando, sempre, nas costas
Do esquelético arbusto, gralhas coaxam:
A caça começou, acionou a armadilha.
Rasgada por espinhos atravesso pedras,
Fatigada pelo fogo branco do meio-dia.
Ao longo da rede vermelha de suas veias
Onde corre fogo, que desejos desperta?


Insaciável saqueia a terra.
Condenada pela culpa ancestral,
Chorando sangue, deixando o sangue ser derramado;
A carne a inundar a ferida crua de sua boca.
Alegrar os dentes afiados e doces.
A fúria chamuscante da sua pele;
Seus beijos ressecam, cada pata uma roseira brava,
A morte consome o apetite,
Na vigília desse bicho feroz,
Inflamadas como tochas para sua alegria,
Mulheres jazem carbonizadas e em delírio
Tornam-se iscas de seu corpo faminto.


A ameaça está na porta, gerando sombra;
A meia-noite encobre o bosque sufocante.
O saqueador preto, puxado pelo amor;
Em ancas fluentes mantém minha velocidade
Espreita o ágil, numa emboscada dos sonhos.
Brilham as patas que destroem a carne;
E faminta, faminta, patas estendidas
Seu ardor me prende, ilumina as árvores.
A luz irrompe minha pele,
Que pausa, que frescor pode me colocar no colo,
Quando o olhar amarelo queima e incinera?


Eu arremesso meu coração para deter seu passo,
Para extinguir sua sede eu desperdiço sangue;
Ela come, mas sua necessidade busca comida;
Com pele, um sacrifício total.
Voz em tocaia soletra em transe
A floresta destruída vira cinzas;
Horrorizada por um secreto desejo, corro
Tal a agressão do resplendor
Entrando na torre dos meus medos.
Fecho minhas portas naquela culpa escura.
Tranco a porta, cada porta eu tranco.
Sangue acelera, como um gongo toca em meus ouvidos:


Os passos da pantera estão na escada
subindo as escadas.


Tradução de PURSUIT - Maikel Denk e Bárbara Lia

Tuesday, December 27, 2005

à tua espera

...
Á TUA ESPERA


Nem percebi
e era o fim da trilha.

Não me adiantei com fogo
e coberta
e já se fazia noite.

Não enchi o cantil na fonte
e era só deserto.

Segui a estrela e estrela não era,
era o farol da última ilha
antes do inferno.

O jasmim plantado
floresceu em cacto.

Acreditei
na letra da canção
e era falsa a tradução.

Agarrada à pedra esgarçada,
medito homéricas saídas.

Bastava olhar abaixo
no fim do abismo
a rede-manto-verde.

Mil vezes tecida em noites em claro,
despistando amores vadios.

- Sussurro de Penélope a me dizer,
todo engano – até mesmo a pedra –
era pura tessitura à tua espera.
_ Bárbara Lia_

fotografia by jeff sheldon

aniversariante




--
GOSTO DE CHUVA


Para a terra a chuva é doce.
Para a fonte, confidente.

Para a criança, bolinhos com canela,
lareira, histórias.

Para os sapos - uma festa!
Para mim - alma lavada.


Para quem dorme a chuva tem
a magia do canto das sereias.

- Bárbara Lia -
Um poema terno para Tahiana - minha filha -
que hoje está de aniversário.

Monday, December 26, 2005

claudio b. carlos

candido portinari

.

AINDA QUE POBRES


Sim
haveremos de ser felizes
nesse mundo onde uma minoria bem vestida
desfila diante de uma maioria maltrapilha.
Sim
haveremos de ser felizes
de erguer casas, ainda que humildes
constituir família
pôr os filhos em escolas, ainda que públicas
vê-los crescer e serem felizes
ainda que pobres.

Poema de Cláudio B. Carlos (CC).

Friday, December 23, 2005

Fato
























GRUPO FATO
em pé - Gilson Fukushima, Alexandre Nero,
Zé Loureiro Neto e Ulisses Galetto.
sentadas - Priscila Graciano e Grace Torres.

Tuesday, December 20, 2005

um poema





fechar a mão
sensação
de estrela triturada
na palma
espocando surdamente

fechar a mão
rasgar a linha do destino
na seta norte
da estrela triturada

agora não há mais bússola
agora não há mais rota
mulher-gôndola extraviada
no lago-céu

fechar a mão
triturar oráculo
reter na palma
estrela fragmentada


depois soprar
a energia morta
na enxurrada fria
do teu escárnio


BÁRBARA LIA

Saturday, December 17, 2005

aniversariante

















márcio melo


chá em chávena chinesa
lençóis de linho
jardins ingleses
sonatas em pianos tristes
damas trágicas
dispenso o cenário da realeza
a nobreza inteira
se resume em uma criatura
-meu chá, lençol, jardim e sonata
o vento do desejo assola
meus pêlos e alma
secretos caminhos
em chama clamam:
o chá, o jardim e a sonata.
- Bárbara Lia -
.
Levezas de sabores e cores para Paula - minha filha - que hoje está fazendo aniversário - todos os meus filhos nasceram em dezembro, e mesmo o meu conto da coluna semanal é materno...
- Anjo de aço:

Thursday, December 15, 2005

Márcio Claudino

Meu amigo Márcio Davie Claudino da Cruz é o primeiro colocado no
Concurso de Poesia Helena Kolody 2005 - 15ª edição. Da Secretaria
do Estado da Cultura.
Parece que foi ontem que nós conversamos sobre a primavera de Bandini-
Espere a primavera, Bandini...
Parabéns ao Márcio, nesta primavera.
Um poema do Márcio que foi segundo colocado no concurso Leminski
do Cead Lapa em 2.000:
.
NOS DESCAMINHOS DA PALAVRA
*
Nos descaminhos da palavra
Estava escrito que céu é êxtase mirrado de sono azul.
Céu às vezes rubricado por raio de luar
E da estrela da manhã,
De brusquidão e lusco-fusco de navegação tenebrosa.
Nos descaminhos da palavra
Um reiventar o agonizante desfecho da tarde
E os solos de música derreada das charnecas.
Nos descaminhos da palavra,
Desaprender a cada dia o nome das coisas.
Nos descaminhos da palavra a palavra poesia dá sinônimo
À pedra...
Travesseiro onde descansar a cabeça mirrada da górgona...
Envio o meu coração embalsamado na urna memorial que voa.
Mando-te em veludo
A conta das dores dos dias em que te conheci.
Dias em que o descaminho da palavra amor
Nunca tanto significou
Colapso
*
- Márcio Davie Claudino da Cruz -
O resultado do concurso - que teve categoria Nacional e categoria Paraná - recebi a notícia do Márcio, e agora entrei no site e descobri que o Ricardo Corona - deve ser ele com este Miguel que eu não conhecia, mas, o concurso nacional foi vencido pelo editor da Oroboro - o poeta Ricardo Corona, e na categoria Paraná - my best friend - lindo - Márcio - com todo o respeito de suas musas - e do meu menino - que não se arda em ciúme e nunca deixe de assobiar Bach e ler seus poemas ao meu ouvido, nem de me cobrir de mel com sua íris mutante - um dia verde de vidro - no outro - mel silvestre - Primavera!
Os vencedores são:
Os premiados no Concurso Nacional de Poesia “Helena Kolody”, foram:
1º lugar: Inscrição nº 393 - Ricardo Miguel Corona - “Aspa, aspas” (PR)
2º lugar: Inscrição nº 564 - Marcus Vinícius Quiroga - “Estudo para Aleijadinho” (RJ)
3º lugar: Inscrição nº 442 - Carlos Augusto Bonifácio Leite - “Na casa dos Desprovidos” (MG)

Os premiados no Concurso Nacional de Poesia “Helena Kolody” CATEGORIA PARANÁ, foram:
1º lugar: Inscrição nº 356 - Márcio Davie Claudino da Cruz - “Ando com a pulga”.
2º lugar: Inscrição nº 018 - Miriam Adelman - “Memória”
3º lugar: Inscrição nº 391 - Ricardo Miguel Corona - “Um saco de gato, poesia, cão e prosa”
.
- Márcio anda com a pulga - vai que eu desisto de tomar aquela cerveja para comemorar...
Sem pulgas, Márcio. Please! Hoje estou animada, o céu de Curitiba está da cor dos olhos de Helena Kolody - um dia o Hélio Leites me saiu com esta:
Quando o céu está assim azul é quando Helena Kolody acorda mais cedo e lá do céu olha por todos nós, os poetas.
Esta mulher bela, que eu vi uma única vez, talvez no último lançamento dela, eu com o livro dela em minhas mãos, ela me olha e diz:
- Você é poetisa?
- Sou. Respondi. Então ela me explicou por muitos minutos, do seu começo, de quando guardava papéis sulfite até armazenar o suficiente para lançar um livro, que eu nunca desistisse. Como desistir Helena? Diante deste azul, do amor que em mim baila, de meus filhos sorrindo em luz na minha sala, dos meus amigos verdadeiros que nunca vão manchar a minha imagem com as falsas idéias de quem não sabe que a gente pode matar a pessoa - borrar a sua imagem - mas, nunca nunca a sua poesia. Como não esquecer Helena do seu carinho _ à inspirada poetisa - Bárbara Lia.
Ela fazia questão que a chamassem de poetisa, e me deu conselhos, e me deixou este recado, para não desistir nunca.

Wednesday, December 14, 2005

aniversariantes





ao meu grande, único e verdadeiro amor


que meu amor não seja pra ti pesado fardo
antes borboleta em seu ombro delicado
triste um dia parti e eis-me agora intacto
ficam espinhos enquanto caem flores do cacto
venha entregue a mim, meu jugo é suave
você lembra tudo que me fez sentir saudade
meu coração viu estrelas no céu da sua cidade
olhe-as na minha pra ver como sou de verdade
pena que pra tanto amor tão pouca vida
é menos que o meu sentir tudo que eu diga
pudera foras como eras outrora, querida
pluma leve que o tempo leva sem ser ferida

Marcos Prado
1961-1996



VOCÊ

Labirintos de estrelas do mar.
Minérios de rosas,
Não seriam jasmins?


O livro se abre em ninfas
Quebrando suas estruturas
Era sempre mentira!


Não enxergas na polpa do absoluto...

Na sombra do helicóptero a luminosidade

Você desaparece na solidão.


Thomas Gabriel


Dia 15 de dezembro - há dezessete anos nascia meu filho Thomas.
Neste dia, nasceu também Marcos Prado.

Antenas da raça - associei esta definição de Pound, ao quadro acima,
de théberge, antenas da raça, nós os poetas, rosas chamuscadas,
antenas leves, sensíveis, à chuva, ao vento, aos raios, assim,
flor hasteada embebida em vida, recebendo tudo acima da lona
negra, vivendo e morrendo e vertendo tudo nessas palavras.
Este canto de amor meu, a Marcos Prado, que não conheci, ao
Thomas que é tudo em mim.

Monday, December 12, 2005

MÃOS DE ABRIR NUVENS












- Salvador Dali -


MÃOS DE ABRIR NUVENS



Ter mãos de abrir nuvens
Romper o velcro de baunilha
E espiar
Dentro a catedral
Dos sonhos
Um rito de encanto
Crianças e lagos
E mapas emaranhados
A Sexta Avenida
Deságua no Eufrates
E as barcas cruzam
De Bagdad ao Mojave
As mãos se enlaçam
Negras brancas
Amarelas azuis.


Ter mãos de abrir nuvens
Descobrir a alma de neve
E perfume
Que se fazem
Pássaros
Camelos
Bailarinas.


Quem possui mãos de abrir nuvens?
Quem rega pedras
E pesca pássaros
Em tempestades
E ancora no alto
Da montanha mais alta
Suas caravelas.


Quiçá Penélope,
Sem manto, grilhões e espera.
A abrir nuvens
Além da torre de concreto
Em pleno azul
Entre a brancura espumada.
Mãos de mulher livre
A abrir o velcro
Da humanidade encantada.


- BÁRBARA LIA -

(O sorriso de Leonardo - Kafka ed. baratas - 2.004)

Thursday, December 08, 2005

haicais

*

Vovó recita “O corvo”.
Sala na penumbra. Tic
Tac. Arrepios.


*
Velas içadas.
Chegada? Partida?
Tudo é viagem.

*

Meninos na ponte.
Reunindo peixes
Com migalhas de pão.




Estes poemas curtos são de 1.998.
Do fundo do baú.
Iustração - aldeia de pescadores - DiCavalcanti.

Tuesday, December 06, 2005

frida e eu

Quando li a biografia de Frida Kahlo em 1.992, abalos sísmicos dominaram minha alma. Eu me vi em um espelho. Todo o pensamento dela encaixava em mim como luva, e, toda a sua dor eu compreendia como se fosse minha. Tivemos poliomielite - Frida e eu. Passionais, loucas pela maternidade. O que não foi possível para Frida em consequência do acidente que sofreu, eu vivi em plenitude - ser mãe. Ela morreu em 13 de julho de 1.954, eu nasci um ano depois, por muito tempo eu considerava a grande possibilidade de ser mesmo reencarnação de Frida Kahlo, considerando que aquilo que ela mais sonhou naquela vida, aconteceu na minha de forma mágica e de forma tão fecunda que nem faz parte de meus escritos, não conseguiria narrar, é o meu éden precioso - os três filhos  - por que são tão ternos e tão meus, e tão carinho sempre, como se eles fossem um prêmio, como se me devolvessem algo perdido. Certa vez, nesta dor de nunca ter o amor do amor, eu escrevi alguma coisa assim pensando em Frida - que poderiamos amalgamar nossas vidas - Eu lhe daria os filhos que ela não teve - Ela, o amor do meu amor, que eu nunca tive. Mas, tudo isto é piração total de poeta louca. No entanto, ainda sinto medo de olhar no espelho e ver Frida, e espero o meu Diego - menino-amor-ciência-exata... para assobiar Bach e ler as suas frases resgatadas de um mundo que não existe, entornando a poesia na minha coluna cansada, agora que as crianças cresceram e vão voar, com suas próprias asas.

=

Trechos do diário de Frida Kahlo - Pintora Mexicana:



''Diego está na minha urina, na minha boca, no meu coração, na minha loucura, no meu sono, nas paisagens, na comida, no metal, na doença, na imaginação.''
.
''Acho que é melhor nos separarmos e eu ir tocar minha música em outro lugar com todos os meus preconceitos burgueses de fidelidade.''
.
''Toda esta raiva simplesmente me fez compreender melhor que eu o amo mais do que a minha própria pele, e que, embora você não me ame tanto assim, pelo menos me ama um pouquinho - não é? Se isto não for verdade, sempre terei a esperança de que possa ser, e isso me basta...''

(Em referência a Diego)

.

''Para que preciso de pés quando tenho asas para voar?''
.
A última entrada em seu diário:
''Espero a partida com alegria... e espero nunca mais voltar... Frida''


Poema do diário de Frida:


Diego. princípio

Diego. construtor
Diego. meu bebê
Diego. meu noivo
Diego. pintor
Diego. meu amante
Diego. meu marido
Diego. meu amigo
Diego. meu pai
Diego. minha mãe
Diego. meu filho
Diego. eu
Diego. universo
Diversidade na unidade.
Porque é que lhe chamo
Meu Diego?
Ele nunca foi e nem será meu.
Ele pertence a si próprio.

Monday, December 05, 2005

À SOMBRA DOS MURAIS EM FLOR (para Frida Kahlo)


À SOMBRA DOS MURAIS EM FLOR
(para Frida Kahlo)

(Cravos na pele
os seios
a coluna jônica
a pele tolteca
os pregos
os pregos
via-crucis
expiação)


Pinto em palavras
A tua dor.
Sonho teus sonhos.
Vivo os maremotos sutis.
As espinhosas horas
Que nos traz o amor.

Pinto girassóis de aço.
Espumas.
Estrelas.
Vou colorindo
Com vulcânicos
Abraços
A solene tela
(Riso-sol de meu Diego,
À sombra
Dos murais em flor)
-Bárbara Lia-

Saturday, December 03, 2005

giuliano fratin / mosiah schaule



Os pianos derretendo com a Lua
Pediam perdão à música e à forja
Enquanto perdiam suas notas
Por fendas de raras volúpias
No alto de uma sinfonia amena


*

Havia uma casa ofegante
Construida a alguns palmos acima da água,
Por suas janelas que abriam e fechavam
Entrava o denso ar dos solitários,
Dos seus telhados de cana já furados pelo tempo
Saíam cisnes de neve clássica;
Lá morava uma velha com cabelos de lã,
Ela falava que para curar o mal
Daquele povo de cinco almas
Era preciso usar Camono com cravo.


Giuliano Fratin / Mosiah Schaule
CURITIBA - PR(Lúdico Psicodélico Surreal - edição dos autores - 2.003)

Friday, December 02, 2005

elsilencio del poeta




















claude théberge


EL SILENCIO DEL POETA

Tu silencio refrenda el amor. Oírte decir – ¡Te amo! No me sonaría tan claro. Tu silencio que llega en estos rayos negros. Mirada de flechas que trae en olas una sinfonía de Vivaldi.
Es la primavera siempre, aun sin oír - ¡Te amo!
No se movieron sus labios, apenas tu mirada y alma.
Me amas cuando te callas, Y no estás ausente como en el poema de Neruda. Cuando te callas, todo en ti es un grito de sol, pues tienes alma incendiada y tienes dentro del corazón este amor que se quiere callado, pero que emana, en cada mirada, en invierno, otoño Y primavera cálida.
¡Brilla! Siempre como una luz y siempre, siempre, siempre, fue apenas y tan sólo tu alma susurrando – ¡Te amo! – a mi alma.
Bárbara Lia

Thursday, December 01, 2005

à margem do sol






















ardour - claude théberge


À MARGEM DO SOL


Cuido que nosso amor não seja estrela morta.
Rego a lua, aro estrelas, fumaça ao redor.
Camisola de pérolas, pés descalços.
Pergaminhos perfumados
recebem a escrita de anjos invisíveis:

"A poeta ara estrelas, mãos aladas,
rega a lua, jatos de brisa perfumada.
Cuida que a lua seja girassol
estrelas floresçam em rosas azuis.

Colore vulcões extintos - vasos de luz.
Prepara frutos para um banquete à margem do sol.
Nua, solar, à espera da tarde antiga
(dois poetas, poente, rosas azuis)"

Bárbara Lia