Friday, February 28, 2014

Mulheres - Mujeres - Women - Femmes II






PRELÚDIOS-INTENSOS PARA OS DESMEMORIADOS DO AMOR.

I


Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca
Austera. Toma-me AGORA, ANTES
Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes
Da morte, amor, da minha morte, toma-me
Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute
Em cadência minha escura agonia.


Tempo do corpo este tempo, da fome
Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,
Um sol de diamante alimentando o ventre,
O leite da tua carne, a minha
Fugidia.
E sobre nós este tempo futuro urdindo
Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida
A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.


Te descobres vivo sob um jogo novo.
Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,
Antes do muro, antes da terra, devo
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo
Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza.

Hilda Hilst


















Thursday, February 27, 2014

Mulheres - Mujeres - Women - Femmes



Nise da Silveira - Museu da Imagem do Inconsciente




Zilda Arns - Pastoral da Criança



Ana Paula Maciel - Ativista Greenpeace



Yvonne Bezerra de Mello - Projeto Uerê





Debora Noal - Representando mulheres brasileiras que integram (integraram) Médicos Sem Fronteiras





Zeze Motta - Atriz, cantora e militante uma das fundadoras do Centro Brasileiro de Informação e Documentação do Artista Negro (CIDAN), em 1984


Mulher indígena Guarani Kaiowá

Thursday, February 20, 2014

Meu nome...

Declarada sentença de morte, o poeta e inconfidente Alvarenga Peixoto (1743-1792) confessa que foi a mulher quem o impediu de denunciar a Conjuração Mineira, em 1789, quando foi preso.


Mineira de São João del Rei, Bárbara Heliodora também foi poeta. Escreveu Conselhos a Meus Filhos e um soneto dedicado a Maria Ifigênia, primeira dos quatro filhos do casal.



Após a prisão e morte de Peixoto, Bárbara suportou o confisco de metade de seus bens e os filhos declarados infames. Nunca mais escreveu.

Historiadores afirmam que terminou seus dias louca, recitando poemas pelas ruas. Outros, que a demência foi estratégia para escapar às perseguições e ao fisco português. Fantasia ou realidade, sua história faz parte de importante momento político do nosso País.



Musa do marido, foi eternizada em versos escritos no cárcere:

Bárbara bela do norte estrela / que o meu destino sabes guiar / de ti ausente triste somente / as horas passo a suspirar.
(texto do blog alpharrabius)

**

Em homenagem a ela, que meu pai admirava, recebi este nome. Para meu pai eu teria o nome dela: Bárbara Heliodora. Minha mãe relutou a dar este nome a uma das filhas, só consentiu na terceira e não consentiu o nome inteiro, disse que "era um nome grande e estranho demais para uma menina tão bonitinha" e chegaram ao consenso de Bárbara Lia, por ter uma das irmãs com o nome Léa. Isto trouxe a contradição que sou em tudo, pois Bárbara tem em si a fúria dos bárbaros e Lia é um nome bíblico - irmã de Raquel. Lia casou-se com Jacó, pois o pai dela enganou Jacó e entregou Lia em casamento, quando ele queria casar-se com Raquel, e Jacó trabalhou mais sete anos para ter aquela que queria. Na tradução hebraica, Lia é aquela que tem – olhos ternos – e lembro que quando era menina ser escritora se resumia ao desejo de escrever uma biografia cujo titulo seria o meu nome: “Estrangeira de olhos tristes e cansados”. Hoje considero o titulo brega... Um destes dicionários de significados de nomes coloca Lia como “ovelha” e Barbara como “guerreira”...
O – Dia das Mulheres – se aproxima, acho que uma aproximação com meu pai foi este nome, acho que ele entregou-me um nome-tesouro e um nome-vaticínio. Sigo ovelha negra na vida. 
A primeira vez que vi meu pai chorar foi no túmulo de Barbara Heliodora em Ouro Preto. Eu já era adulta e compreendi a admiração genuína que ele sentia por ela. Perguntei a razão, se era apenas por ela ser uma personagem histórica. Ele disse que admirava o fato dela ser fiel, de ter ficado sozinha quando Alvarenga Peixoto seguiu para seu degredo em África.



Wednesday, February 19, 2014

Escrita de Mulheres


       Bruno Aziz, ilustração


Meteram-me a mim e a mais trezentos companheiros de infortúnio e de cativeiro no estreito e infecto porão de um navio. Trinta dias de cruéis tormentos, e de falta absoluta de tudo quanto é mais necessário à vida passamos nessa sepultura até que abordamos as praias brasileiras. Para caber a mercadoria humana no porão fomos amarrados em pé e para que não houvesse receio de revolta, acorrentados como animais ferozes das nossas matas, que se levam para recreio dos potentados da Europa.


do romance "Úrsula" - primeiro romance da literatura afro-brasileira

Maria Firmina dos Reis (1825-1917)


**

Dia 08 de Março - Dia da Mulher. Vou postar textos e noticias sobre mulheres escritoras e de outras áreas.
Abaixo o link para uma dissertação ao sobre o romance de autoria feminina paranaense...


http://www.ple.uem.br/defesas/pdf/alaraujo.pdf

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A atriz Palomaris Mathias encarna Maria Felipa, heroína negra da Independência baiana, e recita um trecho de Navio Negreiro do poeta Castro Alves:



Tuesday, February 18, 2014




E como explicar o desejo?
A flor que se abre à revelia
Sôfrega, desvairada, atônita
Tudo se reparte em crisálidas
Mirabolantes
Parindo estrelas adormecidas
Aos borbotões

Bárbara Lia

foto: Edgar Ramirez/grande ator da Venezuela sempre em papeis que escondem sua beleza como no filme Carlos (o chacal) e no filme Domino vivendo um caçador de recompensas

Wednesday, February 12, 2014

obsessão



A melodia enferrujada atravessa
alma placebo e a mente devassa
corda de sisal no poço de tolice
recolhendo o avesso de Beatrice
oco soco no vórtice da beleza sã

hálito de harpia com febre terçã
expele fumaça inócua de súcubo
logo esfumaça em nada ao cubo

Barbara Lia


Beatrix by Dante Gabriel Rossetti

geraldo azevedo



Monday, February 10, 2014

dos livros perdidos...

Foto - Rosie Hardy




Há alguns anos a minha amiga Loraine Thais convidou amigos para um piquenique no bosque do MUMA para comemorar seu aniversário. Foi um aniversario poético ao lado dos eucaliptos, com direito a fogueira – que o moço da guarda municipal pediu para que apagássemos – dança do índio ao redor da fogueira, enquanto houve tempo e fogueira. Levei para Loraine um exemplar do meu livro de bolso – O sorriso de Leonardo – que era a publicação que eu tinha naquele ano. Algum tempo depois a Loraine apareceu em casa para um café e disse: - perdi teu livro naquela noite no bosque. Fiquei pensando nele atirado entre as folhas de eucalipto, dissolvendo-se com a chuva e o tempo e pensei e acreditei que nasceria uma árvore de pequeninos – Sorrisos de Leonardo. Algum tempo depois a Loraine foi pra Bahia em férias, eu dei a ela outro livro, e quando ela voltou para outro café, ela disse: - Conheci um moço na Bahia que adorou seu livro, deixei o livro com ele. E eu disse: - E agora, Loraine? Não tenho mais nenhum “sorriso” para te dar... Lembrei desta saga da Loraine com os meus livros de bolso quando abri o e-mail pela manha e os Correios comunicaram que vão pagar a misera indenização de 50,00 por quinze livros artesanais. Quer dizer, não cobre nem o material que comprei. E quem não faz o seguro ou qualquer coisa que prevê um pagamento no caso de perda, dança. Dancei. Mas, o dinheiro e abortar uma parceria a gente supera. Complicado é digerir a duvida. Onde estão meus rebentos? Um livro é um filho... Mas, a burocracia não sabe disto... E estes podem estar em uma sala gelada, se ao menos fosse um bosque de eucaliptos...

Sunday, February 09, 2014

Mulheres, Escritoras e... Paranaenses




Não se mede o Tempo na Literatura como normalmente medimos – os anos da nossa vida – por exemplo, nem como deve ser marcado para o inicio meio e fim de uma plantação de uvas, ou de rosas. A Literatura se contrai e se estende e nada pode ser dito e nada pode ser afirmado com tanta certeza. Digo isto depois de passar dias e dias meditando sobre o momento da Literatura Paranaense, ao ler periódicos e acompanhar as noticias sobre escritores e livros. Enclausurada, sigo escritora. Esta estranha ocupação onde é possível ser, sem viver atrelada a nada. Alias, acredito mesmo que para ser escritor é necessário fazer aquilo que Gonçalo Tavares disse e achei deveras interessante: Seus pais não o interrompem quando ele sai de seu local de trabalho, vai até a cozinha para tomar um café e volta para sua ideia. Ninguém diz nada, as coisas urgentes são comunicadas por bilhetes atirados por baixo da porta. Cara de sorte este Gonçalo, vive a plenitude da Escrita, seu momento de criação respeitado de forma ampla, geral e irrestrita. Sobre estes murmúrios de que não existem Escritoras Paranaenses. Sobre os sussurros que gotejam feito torneira estragada sem interromper nunca a água chata a repetir a mesma nota, tentam via alguns jornais editados por vezes por jornalistas jovens e deslumbrados, tentam afirmar que existe apenas uma possibilidade, um único nome, blá blá  blá. Decidi percorrer os caminhos das mulheres que – como eu – escreveram romances. Sim. Existe um nome que sempre brilha quando falam em escritoras paranaenses: Julia da Costa. Começo com ela, e quando digo que – começo com ela – não significa ler em uma semana um livro, dois ou três. Significa ficar um ou dois anos ao redor de Julia da Costa. Conhecer palmo a palmo, nadar dentro de seus textos. Com Sylvia Plath eu deitei e acordei de 2000 a 2001, com Emily Dickinson de 2009 ao ano de 2010. Uma coisa que amo fazer e que não abro mão. Quando digo, quero conhecer este autor, tento ver tudo que existe dele impresso, depois se existir material de áudio, filme, qualquer coisa... Depois disto eu posso dizer, sim eu li Sylvia Plath. Sim, eu li Emily Dickinson. E, me dedico a isto. Em um verão eu li os volumes grossos da obra completa de Borges. Eu li em espanhol. Passei as férias de verão percorrendo páginas, quando terminei eu não conseguia pensar mais no meu idioma. Pensava como Borges, e amava aquilo. Foi naquele verão que escrevi – Deus no orvalho. Decidi ler as obras das mulheres romancistas. Por viverem em um tempo em que a obra destas autoras se resumia a um livro ou dois, talvez eu não necessite dois anos para aproximar-me de Julia da Costa. Quem sabe neste tempo eu possa conhecer também Didi Caillet. Hoje comecei a pesquisar sobre elas e encontrei um vídeo sobre Didi Caillet. Maravilha! Um mergulho delicioso neste domingo imprescindível quando anjos vieram sussurrar: Não se preocupe com nada, apenas em ser fiel ao seu destino e ao que estava programado desde o inicio - Escrever. Viver para deixar uma obra na esquina do mundo. A maçã deixada na curva de um caminho. Foi Gonçalo Tavares que falou sobre esta sua paixão pelos escritores, e  a razão dele dialogar com tantos autores. Ele acredita que deve algo aos que vieram antes e quer deixar algo aos que vierem depois. Lindo isto. Eles vieram antes, para que os futuros autores soubessem seus passos, se a carruagem de seus destinos virou a esquerda ou a direita, cada um deixou uma maçã(o fruto do conhecimento) na curva do caminho. Vou procurar as esquinas do antes, e conhecer as mulheres que escreveram antes de mim, para completar o ciclo e aprender com elas.
Na minha casa eu ouvia sem cessar os poemas de Maria Cândida de Jesus Camargo (irmã da minha bisavó) e Eleonora de Angelis (irmã da minha avó), este manancial de poesia feminina do final do século XIX e inicio do século XX. Minha raiz mais pura.

103 anos de Elisabeth Bishop




O Mapa


Terra entre águas, sombreada de verde.
sombras, talvez rasos, lhe traçam o contorno,
uma linha de recifes, algas como adorno,
riscando o azul singelo com seu verde.
Ou a terra avança sobre o mar e o levanta
e abarca, sem bulir suas águas lentas?
Ao longo das praias pardacentas
será que a terra puxa o mar e o levanta?

A sombra da Terra Nova jaz imóvel.
O Labrador é amarelo, onde o esquimó sonhador
o untou de óleo. Afagamos essas belas baías,
em vitrines, como se fossem florir, ou como se
para servir de aquário a peixes invisíveis.
Os nomes dos portos se espraiam pelo mar,
os nomes das cidades sobem as serras vizinhas
— aqui o impressor experimentou um sentimento semelhante
ao da emoção ultrapassando demais a sua causa.
As penínsulas pegam a água entre polegar e indicador
como mulheres apalpando pano antes de comprar.

As águas mapeadas são mais tranquilas que a terra,
e lhe emprestam sua forma ondulada:
a lebre da Noruega corre para o sul, afobada,
perfis investigam o mar, onde há terra.
É compulsório, ou os países escolhem as suas cores?
— As mais condizentes com a nação ou as águas nacionais.
Topografia é imparcial; norte e oeste são iguais.
Mais sutis que as do historiador são do cartógrafo as cores.

Elisabeth Bishop
traduçao Paulo Henriques Britto



Friday, February 07, 2014

Dez anos depois...





No dia 15 de dezembro de 2004 – dia do nascimento do poetaço Marcos Prado – meu primeiro livro de poesia foi lançado. Para comemorar dez anos de uma pequena odisseia de livros em prosa e verso, em 2014 vou publicar um livro de Poesia. Tenho poemas inéditos em livro para este que será meu sétimo livro de Poesia. Foi a forma que encontrei para comemorar uma década especialmente feliz na minha vida.

Aguardem!

Revista Lasanha Literata

http://www.revistalasanha.com.br/

Maicknuclear voltou a editar a Revista Lasanha. Uma saudade. Bons tempos de volta.
De lamber os textos...
Nesta edição um poema meu do livro Noir (2006)

Bon appetit!








Promoção Penalux


Repassando a promoção da Editora Penalux:

(Meu livro de contos - PARAÍSOS DE PEDRA - custa R$-30,00 + remessa. Quem entrar nesta promoção de fevereiro recebe um livro de brinde).



PROMOÇÃO 
"Bem-vindo, 2014!" A Editora Penalux adora promoções com livros como brinde, pois queremos ver nossas publicações circulando e encontrando leitores. É com este propósito que anunciamos mais uma oportunidade de comprar nossos livros e levar de presente um título-surpresa*. Dessa vez, porém, o leitor poderá escolher o gênero, ficando a critério da editora apenas a escolha do título (assim podemos remanejar nosso estoque e segurar a promoção por mais tempo). A validade desta promoção vai até o dia 28 de fevereiro. Em resumo: comprando qualquer título na nossa loja ou através do nosso e-mail comercial (vendas@editorapenalux.com.br), o leitor levará de brinde um título-surpresa no gênero que escolher: poesia, contos, crônicas, micronarrativas, romance e acadêmico.


* O livro-brinde diz respeito a apenas 1 unidade por comprador. 

poesia - curitiba

tradicional troca de livros no domingo - voltei para casa com o novo livro do Alvaro Posselt: Um lugar chamado instante. E o livro - Gume de Gueixa - de Jandira Zanchi:



O poeta é brando
Trabalha, arma uma batalha
quando está sonhando

Alvaro Posselt 
Um lugar chamado instante
Blanche Ediçoes
p. 15







***



UMBIGO

fumava fumaças
de charutos rútilos
desejava desvios
de prantos e pratas
nádegas de defuntos

esquálida e vibrante
essa face nódoa
amante do umbigo

fertilizadora de silêncios.

www.editorapatua.com.br
Livro: Gume de Gueixa
Autor: Jandira Zanchi




Wednesday, February 05, 2014

Sarau das Meninas que Escrevem em Curitiba - algumas imagens

Alexandra Barcellos e Andreia Carvalho Gavita

Kely Kachimareck

Fran Ferreira

Iriene Borges

Mari Quarentei


Kely Kachimarek e Barbara Lia

Mirian Adelman

Prisca Merizzio

Jandira Zanchi

   Maria Cecilia Coutinho



  1 º Sarau das Meninas que Escrevem em Curitiba. Organizado por Alexandra Barcellos e Andréia Carvalho, algumas imagens. As fotos são de Kely Kachimareck. No momento da leitura da Kely que foi minha parceira de palco, Maria Cecília clicou a imagem. Bela tarde de Poesia no "Dona Doida Restobar" com varal de poesia, performances e um prato especial criado pela chef da casa - Aline Tomaz - uma salada deliciosa que recebeu no cardápio o propicio nome - Inspiração.

Domingo a Fran Ferreira raptou-me para a tarde de Poesia, por conta de livros por concluir que estão parados e necessitando meus cuidados, e por esta dor no meu pé direito que faz com que eu acabe adiando sempre algum passeio ou evento, decidi ficar de fora deste grupo que reúne mulheres que vivem em Curitiba e se dedicam a escrita. Neste primeiro sarau, no entanto, eu acabei entrando de penetra neste novo movimento, grupo, momento revolucionário... 
Uma mulher sozinha já e uma revolução, imagine oitenta. 
Para saber mais sobre o grupo - meninas que escrevem em Curitiba - falar com Andréia Carvalho Gavita, editora do site Mallarmargens ou com Alexandra Barcellos. 

Ricardo Pozzo!




*todas as imagens do video do poeta e fotografo Ricardo Pozzo:

"Galeria de Urbe Fágica"
http://www.flickr.com/photos/38658058...
photo by Ricardo Pozzo (Curitiba - PR)

Tuesday, February 04, 2014

10 anos sem Hilda Hilst



Sempre irreverente. Intensidade e Poesia para narrar tanto o sagrado quanto o profano. Eu gostaria de dizer o que ela me significa, mas, quando algo/alguém me encanta, eu fico muda, contemplativa, em uma especie de felicidade por poder tocar a Beleza. Gracias, Hilda. Tua Poesia arrebatou-me para todo o sempre. 





PRELÚDIOS-INTENSOS PARA OS DESMEMORIADOS DO AMOR.

Hilda Hilst



I

Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca
Austera. Toma-me AGORA, ANTES
Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes
Da morte, amor, da minha morte, toma-me
Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute
Em cadência minha escura agonia.

Tempo do corpo este tempo, da fome
Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,
Um sol de diamante alimentando o ventre,
O leite da tua carne, a minha
Fugidia.
E sobre nós este tempo futuro urdindo
Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida
A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.

Te descobres vivo sob um jogo novo.
Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,
Antes do muro, antes da terra, devo
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo
Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza.



II

Tateio. A fronte. O braço. O ombro.
O fundo sortilégio da omoplata.
Matéria-menina a tua fronte e eu
Madurez, ausência nos teus claros
Guardados.


Ai, ai de mim. Enquanto caminhas
Em lúcida altivez, eu já sou o passado.
Esta fronte que é minha, prodigiosa
De núpcias e caminho
É tão diversa da tua fronte descuidada.

Tateio. E a um só tempo vivo
E vou morrendo. Entre terra e água
Meu existir anfíbio. Passeia
Sobre mim, amor, e colhe o que me resta:
Noturno girassol. Rama secreta.

(...)

[Júbilo memória noviciado da paixão (1974)]