Wednesday, November 30, 2005

marcos prado




Begônias Silvestres


Marcos Prado.


O sumiço de sua silhueta amiga
Fez meu perfil baixar a cabeça
As cores da tarde, cinzas, cinzas
As luzes da noite, negras negras.


Desaparecer não é pra qualquer um
Só você, misto de mistério e dúvida
Pode estar em lugar nenhum
E ainda me tocar, por música.







Foi uma noite linda, a noite do lançamento-homenagem a Marcos Prado - o livro Ultralyrics, organizado por Felipe Hirsch, lançado pela Travessa dos Editores, encerrando com o show do - Beijo AA Força - e quando o vocalista disse que daqui cem anos as pessoas estarão lendo Marcos Prado, eu pensei na menina Chiara - personagem do meu romance finalista do Prêmio Sesc de Literatura - 2.004 vai se apaixonar pela poesia de Marcos Prado daqui a duzentos anos.
Ivan Justen leu Begônias Silvestres, o meu poema preferido, e Tadeu, Roberto Prado, Rettamozo, Solda, e outros fizeram a noite ser como há muito não se via uma noite em Curitiba - noite com sol.

Saturday, November 26, 2005

thomas gabriel



















Meu primeiro blog era - aysha guerreira - aiysha em árabe é vida - eu tenho mesmo uma vida guerreira e um grito de contestação contra os rumos do mundo dentro da alma... quando eu inaugurei o chá, foi em um início de março, eu decidi que não queria mais nada além do poema azul e borboletas, eu despi a guerreira e ressuscitei a menina que tomava chá com borboletas à sombra dos eucaliptos, no tempo que não sabia das guerras, mas, vez por outra eu grito, e invado o azul com a dor do mundo, pois é tudo canção e vida de Bárbara. Na terça-feira quando mandei minha crônica para o site não sabia ainda que ia reencontrar meu amigo Frei Betto. Sincronias! Notícias e desejos, de que o mundo seja mais humano, e a poesia é esta erva que cura o coração rasgado. Por isto no site vejo são josé, eu falo da fome e da notícia - seis milhões de crianças morrem de fome a cada ano. A vida segue e seria sonhar demais que esta notícia se calasse? Que os propósitos se tornassem reais, que as nações, os homens, a natureza, e até as borboletas não tivessem paz enquanto esta notícia se calasse? Os calabouços se quebrem para o mundo ressurgir? Thomas, meu filho, era uma criança quando escreveu este poema - O Amanhã... onde não haja calabouços, que não são só paredes que nos tornam escravos do anátema cruel, estamos presos à isto, eu penso, era dor de saber que seis milhões de crianças morrem de fome a cada ano:


- O anátema cruel:

http://www.vejosaojose.com.br/barbaralia.htm

AMANHÃ


Thomas Gabriel



Ao grito de breve piedade
Ao ver a neblina

Se parte o jarro
Distraído sobre a navalha

Os calabouços se quebram
Para o mundo ressurgir.


Thomas Gabriel

*************



Pássaros azuis piscam
Na noite de postes apagados
Em forma de cristal.

Seu brilho vira vitral
Freiras desaparecem

Do santo funeral

- Thomas Gabriel



***



O xale da velhinha vira
Pó em chaleiras de vapor

Com pitadas rápidas de chuva.


Thomas Gabriel



Thomas Gabriel tem dezesseis anos e gosta de rock e está cursando o ensino médio e quer ser arqueólogo, aos treze escreveu estes poemas. Ele é o filho caçula da Bárbara Lia.

Thursday, November 24, 2005

hilda hilst / bárbara lia
















infinite woman - juan miguel giralt-



Vida da minha alma:
Um dia nossas sombras
Serão lagos, águas
Beirando antiqüíssimos telhados.
De argila e luz
Fosforescentes, magos,
Um tempo no depois
Seremos um só corpo adolescente.
Eu estarei em ti
Transfixiada. Em mim
Teu corpo. Duas almas
Nômades, perenes
Texturadas de mútua sedução.


HILDA HILST

(Cantares de Perda e Predileção - São Paulo: Massao Ohno & M. Lydia Pires e Albuquerque Editores, 1983)


***


acordes rascantes do amor em goles.
chávena com alfabeto fenício - início.
olhar de mel silvestre
e este curvo instante,
brancura do éden erguida
distante da rua de pedra.
vôo primeiro,
asas do flamingo a roçar o ar
em dilúvio de flores.
chuva azul debaixo da mesa.
castanholas, vermelha dança flamenca
acordando a lua.
ar gélido da rua nos desperta,
a noite começa com um sol sem juízo.
chaleira chia,
dança em meus olhos
o teu sorriso.

- Bárbara Lia -

frei betto

a
s
a
s

d
a

i
m
a
g
i
n
a
ç
ã
o.

paradise - birds - juan miguel giralt











Noite passada foi esta pequena estrofe que Frei Betto recitou durante o lançamento de seu livro "Treze contos diabólicos e um angélico" que ficou martelando minha cabecinha.
...

.
Ó Noite que guiaste!,
ó Noite amável mais do que a alvorada!,
ó Noite que juntaste
Amado com amada,
amada nesse Amado transformada!

Ele estava falando sobre os místicos e comparou a paixão com o arrebatamento dos místicos como Santa Tereza D'Ávila e São João da Cruz. E da diferença - que na paixão, o objeto do arrebatamento está fora de nós, embora a gente sinta dentro, e no arrebatamento místico que leva os Santos a um colóquio com Deus, tudo está na mesma criatura. Encontrei o poema que ele citou, e achei muito belo, decidi copiar o poema inteiro.
Das duas vezes que encontrei Frei Betto foi puro acaso, se é que existe acaso. Eu me correspondia com ele, durante quase quatro anos, quando cheguei ao Fórum Social Mundial, em janeiro deste ano. Em meio à marcha de abertura, ao lado dos hare krishnas e de jovens da Venezuela, alguém me entregou um panfleto dizendo que no dia seguinte haveria um seminário com Frei Betto, em um Seminário no centro de Porto Alegre. Não estava na programação oficial. Se eu não apanhasse aquele papel, talvez não tivesse conhecido pessoalmente o Frei Dominicano e Escritor com quem eu me correspondia e que se tornou um amigo que guardo como um presente de Deus. Quando escrevi ao Frei Betto jamais imaginei que ele me responderia, mas, dá para saber se alguém é um escritor já nesta pequena experiência. Um escritor verdadeiro responde a uma carta. Frei Betto respondeu e iniciou a ponte, nem mesmo quando ele foi Assessor do Presidente Lula, ele deixou de encontrar uma brecha para me dizer olá, um dia ele me escreveu do avião entre Frankfurt e São Paulo, pois ele não tinha tempo na correria, nem para escrever seus livros, que foi a principal razão de sua saída do governo. Em Porto Alegre, foi como encontrar um velho amigo, conversar rapidamente com ele antes da palestra e ele me indicar os debates onde estaria, e acabei seguindo a trilha paralela da programação do Fórum Social. Voltei de Porto Alegre e virei a mais relapsa das amigas, nem mesmo um cartão de aniversário enviei ao Frei neste ano. Ele nasceu dia 25 de agosto, um dia depois de mim, quer dizer, onze anos antes, ele é do ano em que Deus estava inspirado – 1944 – ano em que nasceram Henfil, Leminski, Chico Buarque, Frei Betto...
Ontem eu liguei o meu rádio e ouvi – na 97,1 – rádio Educativa - que ele ia lançar seu novo livro no Teatro da Caixa Econômica. Fui lá, sem grana prá comprar o livro, mas, ele me presenteou com seu livro de capa vermelha. Um Frei que narra treze contos diabólicos - e um angélico. Comecei a ler, e estou amando. Maior mico pedir desculpas por nem ter mandado um cartão de aniversário, nem ter dado parabéns a ele pelo segundo lugar no Prêmio Jabuti deste ano com o livro de crônicas Típicos Tipos. Nem mesmo o poema que fiz para Frei Tito Alencar - Lamento do Álamo - que foi a primeira pessoa para quem eu pensei em mandar, e fiquei enrolando e não escrevi a carta, como se agora eu só soubesse usar o mouse, e como ando estranha e tão ligada neste mundo virtual a ponto de ler na embalagem do panetone, que eu adoro, mas, estava escrito lá – Chocottone Mousse- e eu li mouse, e depois reli e pensei que isto é grave, que estou vendo mouse até no supermercado.

Então, expliquei tudo para meu amigo e pensei em como tenho sido cruel com meus amigos, não respondi à carta iluminada que Pedro Carrano enviou de Chiapas, não dialogo mais com as pessoas sobre a luta que a gente acredita, a de um mundo melhor, e a poesia, por mais que eu ame estar mergulhada neste místico estado de amor com o poema, vai me desculpar, que meus amigos de hoje em diante vão ter um pouco mais da minha atenção.
Foi muito delicioso ouvir algumas coisas – que ainda não sabia – sobre como ele compôs alguns livros. Incluindo – Entre todos os homens – que é uma biografia de Jesus baseada nos Evangelhos, onde ele torna Deus realmente humano, um homem de vinte e oito anos que dança na festa de casamento onde ele fez o primeiro milagre, transformando a água em vinho, e, segundo Frei Betto, pela pesquisa minuciosa que realizou sobre todo o século I na Palestina, ele crê que Jesus e Maria Madalena viveram um amor afetuoso, mas, que não –transaram-
Ele crê no celibato de Cristo, diferente de Saramago e alguns cineastas. Penso que é possível que duas pessoas se unam em espírito apenas, por uma afinidade que pode se chamar amor. Foi uma noite especial, rever um amigo e me sentir muito especial com sua dedicatória.
“o diabo não merece a nossa fé, mas você merece a minha amizade”
Ando acreditando em demônios demais, e estão quase me convencendo que sou uma pessoa horrível. É preciso que um amigo distante chancele antigas palavras, que uma passeata por um mundo melhor ecoe, que as minhas dúvidas até mesmo sobre o amor que Frei Betto respondia, em cartões, me consolando, me fazendo acreditar que amar é mesmo uma coisa divina, incluindo este amor – homem/mulher –
como um arrebatamento qual aquele que nos une a Deus – A paixão:


NOITE ESCURA

São João da Cruz


Em uma Noite escura,
com ânsias em amores inflamada,
ó ditosa ventura!,
saí sem ser notada.

estando minha casa sossegada.
A ocultas, e segura,
pela secreta escada, disfarçada,
ó ditosa ventura!,
a ocultas, embuçada,
estando minha casa sossegada.


Em uma Noite ditosa,
tão em segredo que ninguém me via,
nem eu nenhuma cousa,
sem outra luz e guia
senão aquela que em meu seio ardia.
Só ela me guiava,
mais certa do que a luz do meio-dia,
adonde me esperava
quem eu mui bem sabia,
em parte onde ninguém aparecia.


Ó Noite que guiaste!,
ó Noite amável mais do que a alvorada!,
ó Noite que juntaste
Amado com amada,
amada nesse Amado transformada!

No meu peito florido,
que inteiro para ele se guardava,
quedou adormecido
do prazer que eu lhe dava,
e a brisa no alto cedro suspirava.


Da torre a brisa amena,
quando eu a seus cabelos revolvia,
com fina mão serena
a meu colo feria,
e todos meus sentidos suspendia.


Quedei-me e me olvidei,
E o rosto reclinei sobre o do Amado:
tudo cessou, me dei,
deixando meu cuidado
por entre as açucenas olvidado.
(tradução de Jorge de Sena)

Wednesday, November 23, 2005

before night falls














- Para um escritor solar que como eu amava a lua - esta branca pele de lírio que clareia tudo - até os tristes.


" Oh Luna! Siempre estuviste a mi lado, alumbrándome en los momentos más terribles; desde mi infancia fuiste el misterio que velaste por mi terror, fuiste el consuelo en las noches mas desesperadas, fuiste mi propia madre, bañándome en un calor que ella tal vez nunca supo brindarme; en medio del bosque, en los lugares más tenebrosos, en el mar; allí estabas tu acompañándome; eras mi consuelo, siempre fuiste la que me orientaste en los momentos más difíciles. Mi gran diosa, mi verdadera diosa, que me has protegido de tantas calamidades; hacia ti en medio del mar; hacia ti junto a la costa; hacia ti entre las costas de mi isla desolada. Elevaba la mirada y te miraba; siempre la misma; en tu rostro veía una expresión de dolor, de amargura, de compasión hacia mí; tu hijo. Y ahora, súbitamente, luna, estallas en pedazos delante de mi cama. Ya estoy solo. Es de noche. "
.
Fragmento de "Antes que anochezca" - do escritor Cubano - Reinaldo Arenas que nasceu em Cuba - 1.943, morreu em New York em 1.990 - vitima de Aids, dissidente do regime da Ilha de Cuba, foi o único que conseguiu abalar a minha fé no socialismo da Ilha, diante da crueldade de sua prisão. Ler -Antes que Anoiteça- fez despertar a paixão pela Literatura de Arenas, uma escrita visceral que introduz a poesia com uma facilidade de quem pesca pássaros com as mãos e coloca as palavras como uma música ritmada, o próprio Arenas na infância pobre cantava melodias que ele inventava, com letras que já eram poemas seus e levou sua professora a descobrir muito cedo sua veia poética. Em Havana encontrou José Lezama Lima (que inveja do Arenas!) e Virgilio Piñera que o ajudaram com a publicação do primeiro livro. Preso por ser gay ele descortinou o lado negro - que todo governo possui - e me fez viver com ele em um bosque de Havana no tempo em que viveu escondido, durante os dias nas copas da árvore e nas noites vagando no bosque, com apenas papel e caneta que um amigo lhe trazia - e ele dizia - de que mais precisa um escritor?
Os contos dele onde o realismo fantástico permeia, ele seduz. Sempre leio os autores de lingua espanhola, apaixonada pelo idioma, decifrando a musicalidade e a poesia que contém a língua.
E impossível não se revoltar com a dificuldade que viveu Arenas por ser um gay em Cuba:
"E o que foi feito de mim? Depois de ter vivido 37 anos em Cuba, estou agora no exílio, padecendo de todas as desgraças dessa situação e esperando uma morte iminente. Por que tanta fúria contra todos nós que um dia quisemos romper com a tradição trivial e com a monotonia cotidina que têm caracterizado nossa Ilha?" - Reinaldo Arenas em Antes que anoiteça.

Before Night Falls - O filme baseado no livro, estreado por Javier Bardem não deixa de ser tocante, não tanto como a literatura de Arenas, mas, em uma madrugada sem sono, liguei a TV e comecei a reconhecer aquele início de história, um menino pobre em um país que lembrava Cuba, esperei e confirmei - era a vida de Arenas - e a interpretação de Javier Bardem tornou o filme belíssimo, toda a trajetória dele, as lutas, a prisão fétida, um homem no bosque vagando, escondido, sua fuga, sua solidão, e seus amores, tão ternos quanto todos os amores. Antes que anoiteça foi traduzido em tantos idiomas que encontrei a edição em grego para ilustrar esta pequena homenagem, aos escritores, estes verdadeiros que se enfurnam em qualquer lugar e vivem qualquer vida, e mesmo na condição mais estranha e triste atiram essas jóias eternas, os livros onde pulsa o sangue das artérias, o suor e lágrimas fecundas e alerta ao que deve ser mudado, nenhuma fé ou nação tem o direito de interferir na liberdade do ser, quando esta liberdade não ofende a liberdade do outro... é o que penso, em silêncio sempre que penso na escrita iluminada e profunda e forte e inteligente e poética deste cubano.

Monday, November 21, 2005

chá para as borboletas
















la vie en harmonie - marcio melo



CHÁ PARA AS BORBOLETAS
(BÁRBARA LIA)



TRANSPARÊNCIA


No instante do milagre
Segredos descem penhascos,
Espelhos, memórias, casas.


Trechos da vida à beira da ruína
Todos guardam para si.


Ninguém é transparente feito água Ouro Fino.


PULMÃO DE DEUS


Sussurro suave ao redor, nuvem
de seda embalando astros.
Aqui, onde respira a vida



perfume de malva, silêncio de córrego
entre pedras. Ar lúcido de luz.



DIÁFANA


O som do oboé abafa
a melodia da caixa de música.
Cristal filtra o raio lilás
do sol que adormece.


Bicicleta atirada na calçada,
velhinho com olho antigo
no horizonte.


Abraço a vida quando o dia acaba
refrescante e calma.


cerro cortinas diáfanas
beijo tua foto desejando beijar tua alma.



MISANTROPO


Tempestade á vista, vento abissal.
Recolher as roupas do varal.


Penetrar a gruta de cristal
onde a voz de Deus ecoa.


Incenso, cantata de Bach.
Equilíbrio = solidão total.



SEGUNDA MORTE


O pelotão avança, cascata de passos
Em adágio, botas resvalando relva.



Coração acelera. O homem calvo cobre
Meus olhos. Aguardo o fim.


Lembro negro olhar em chamas, encanto.
Fatal certeza... Morrer? Já morri por ti.



LEQUE DE NUVENS PARA O DEUS DAS ONDAS



O leque de nuvens se reflete
na areia de mármore.
Alento de tarde pagã.


Distante, a carranca do deus das ondas
escureceu o mar.


O coqueiro se eriça.
Cais sobre mim


feito neve nos Alpes.
E a tarde abraça o nosso abraço.


(Alguns poemas do livro "Chá para as borboletas"
ainda inédito)



Saturday, November 19, 2005

ala de cuervo





















Passion - Nijinski

- Márcio Melo -


AZZURRO

quando as noites fugirem
e o sol trouxer luz eterna
e os montes se anelarem de névoa argêntea
e as ruas de flores se banharem
e os homens se enlaçarem sem armas ou temores
quando o inverno guardar seu manto frio
e os cálices transbordarem de vinho santo
e as árvores arderem em chama rósea
de tanto sol de tanto sol
fogo de amor, de amor
rosa, vermelho, escarlate e vinho...
o azul vai florir
entre chamas que crepitam
vai bailar - Nijinski entre lírios
rosas, orquídeas, margaridas
o azul vai brilhar - bailarino
no palco de sol em chama
azul-amor - tua alma e minha alma
enlaçadas na dança festiva
amor que vence tudo e se transforma
em flama azul de colore e música.


- Bárbara Lia -

Azzurro foi publicado -em espanhol no site abaixo:
- Ala de Cuervo - editado na Venezuela por Eva Feld y
Teódulo López Meléndez:

http://aladecuervo.net/logogrifo/0507/sem1/cuatro_poetas.htm


A crônica semanal no site - Vejo São José:
- O inverno de 1.969 -
http://www.vejosaojose.com.br/barbaralia.htm

Tuesday, November 15, 2005

deus no orvalho





















Vou pintar os cabelos e comprar uma roupa de sol.
Eu - Tahiana, de rosa- Paula, de azul.
Rosas vermelhas que minha mãe cultivava.
Duas meninas gulosas comendo gelatina.
Rosas segredavam coisas que eu jamais sonharia...

há quem diga que as rosas não falam...




DEUS NO ORVALHO
(para Jorge Luiz Borges)




Jardim perfumado de Istambul.
Sol intolerável beija a rosa azul
no vaso branco, dois cães cor da lua
ao redor.
Teus olhos se perdem na rosa nua.
Olhos da cor do Mar Cáspio na aurora.
Gota de orvalho baila na pétala.
Cristal.
Ponto no espaço – Aleph
descortina o universo.
Sonhos enxertados de sóis, desertos,
aromas, fauna, primavera, borrascas.
Todo universo na gota clara
que cobre a rosa. A lágrima desce solar
ao lábio carmesim, e o peito arde de amor e luz.



Bárbara Lia

Monday, November 14, 2005

pérolas aos porcos





























Fazes falta mãe!
Os provérbios às centenas:
“Não dê pérolas aos porcos!”
Nunca ouvi a sapiência nata e
rude,
cheirando à capim antigo.
Seu rosário de infinidades.
A gota d’água.
A gota d’água.
A gota d’água.
A gota que estoura o dique.
Cessem a chuva de cólera.
Eu só quero me deitar aos pés
do arco-íris.
Beijar seus dedos róseos.
O resto.
O resto não importa.
Nem as pérolas;
Nem os porcos.


Bárbara Lia

Sunday, November 13, 2005

rua das flores n°infinito

















Celso Lobo



RUA DAS FLORES, Nº INFINITO


Rua das Flores, a rua de pedestres no centro de Curitiba. Calçadas de pedra, luminárias que lembram o século XVIII, casarões, canteiros de flores. Gosto dela quando está vazia, e isto só acontece aos domingos, em feriados, e na madrugada. A última vez que atravessei a Rua XV de madrugada, caiu um dilúvio, fiquei molhada até à alma. Eu estava lavando o passado, e estava vendo o novo surgir, e isto exigia um batismo. Tenho uma ligação sublime com a Rua XV...

http://www.cronopios.com.br/site/colunistas.asp?id=744

CAROLINA SAIU DA JANELA

Quando Chico Buarque escreveu esta bela canção – Carolina – ele já estava achando muito estranho, nos anos rebeldes, enquanto algumas mulheres estavam queimando sutiãs na Europa, usando biquínis aqui no Brasil, exibindo belas barrigas grávidas na praia, tomando as rédeas de seus destinos, belas, com suas batas hippies, inaugurando o tempo do girassol nos cabelos e das cores das bandeiras da paz, bem como das revoluções – ainda existia a Carolina, lá estava ela, vendo o tempo passar na janela, com seus olhos tristes, (a)guardando um amor que “já não existe”.
Chico Buarque, intérprete do âmago das almas nossas, não à toa, ícone, ídolo, pois faz poesia com a rotina, colore as notas musicais, as partituras de uma filosofia clara e cálida como quem vai decifrando auras, almas, corações e segredos femininos.
Muitas décadas depois, penso que Carolina saiu da janela.
Não?!
Ainda existe quem se coloque diante de uma janela por um amor que já não existe e fique vendo a vida passar?...
Como sempre há o resquício do tempo, há resquícios ainda da Idade Média, mas, um grande exército saiu da janela. Quase todas, certamente. Não há como viver sem seguir o ritmo do tempo...

Wednesday, November 09, 2005

bem-te-vi




















BEM-TE-VI


Ramagem arranha janela.
Sonho: Aeroporto fantasma.
Espíritos de náufragos do Titanic.
Ku Klux Kan ateando fogo ao enforcado.


Sequência horripilante:
A mulher sem olhos na cama,
entre lençóis úmidos de chuva.


Acordo com o bem-te-vi
na manhã de sol,
na mesma paisagem.

- Bárbara Lia -

Monday, November 07, 2005

michelle horst

















Quero uma frase aguda
De tinta e aço
Tatuada na testa
Um prego
Um palíndromo
Que surgisse no espelho


Uma frase
Uma palavra
Um grito
Um grunhido
Um risco


Pra desmantelar todo conceito construído torto
Desconstruir
Desaprender pra sempre
A pessoa que você não é


Uma oração
Na contramão do verso
Que subvertesse o mandamento
E me fizesse
Desamando, amar


Um vocábulo seco, duro
Que me mandasse
A cada imagem refletida
Amar ao próximo
Muito menos que a mim mesma

Michelle Horst - Curitiba (PR)

Sunday, November 06, 2005

brecht






















PARA LER DE MANHÃ E À NOITE


Aquele que amo
Disse-me
Que precisa de mim.
Por isso
Cuido de mim
Olho meu caminho
E receio ser morta
Por uma só gota de chuva


(Brecht)

Saturday, November 05, 2005

tito e herzog




"É preferivel morrer
do que perder a vida"

- Frei Tito de Alencar.
















Nesta semana, meu texto no site Vejo São José é um tributo a Frei Tito de Alencar Lima e ao jornalista Wladimir Herzog.

Jean-Claude Rolland era um jovem psiquiatra quando conheceu Tito e cuidou dele na França, para compreender melhor o que levou um Frei Dominicano a cometer suicídio, é necessário ler este artigo. Eu compreendi ao ler o livro - Batismo de Sangue - escrito por Frei Betto.
http://www.dominicanos.org.br/tito.htm neste endereço Rolland esclarece como ficou a alma de Tito, um menino do Ceará que foi martirizado, execrado naqueles anos que, parece, já estão esquecidos.
TITO & WLADO:
&
CATADORES DE PÉROLAS:
na coluna mezanino um alerta aos editores - existem pérolas na rede.

Tuesday, November 01, 2005

escravos cardíacos das estrelas





"Escravos cardíacos das estrelas" - Fernando Pessoa.
na coluna mezanino - site abaixo - uma pergunta que
não quer calar...




Sidnei Schneider atualiza o blog dele de
tempos em tempos. Para conferir a mais
recente atualização:
www.umbigodolago.blogspot.com



meia elipse encantada




           Assai, minha cidade natal




MEIA ELIPSE ENCANTADA

Assai = amanhecer.
Aurora de algodão.
Ecos do tiro de Vargas.
Agosto hostil.

Percorro a linha elíptica
Aurora – Poente.
Sonhos & Sons.
Êxtase.
Cimitarras na carne.
Dança em etnas-lençóis.
Olhos plenos de orvalhos.
Agonia.
Paz.

Não temo o poente.
É quando a luz se espalha.
A terra se agasalha.
Aceno lenços-poemas
Na despedida.
Um sorriso-açucena.
Visto o luar.
Entro na noite branca,
Meio ao aplauso das estrelas.

(Bárbara Lia)


ciranda de borboletas






CIRANDA DE BORBOLETAS



A chuva escorre nas peças de barro cravadas de limo... verdes. Toma os espaços entre as folhas frias sujas de fuligem... ainda verdes. Como o desengano no peito, que pulsa e jorra tédio cor verde ao avesso, manchando o corpo como água de nuvem que tateia o chão e levanta o pó adormecido... cinza. Odor de passado revestindo as narinas.
Michelle Horst – Curitiba (PR)


*



A semana toda,
a máquina de escrever
sobre a mesa.
nenhum toque
nenhuma visita
nenhuma carta.
A remota lembrança
de seu aniversário.
A única companhia
foi uma lágrima de rímel
Nem tudo que parece
às vezes tece.

Stella de Resende – Curitiba (PR)

rollo de resende



















de amantes

encantava
a mina incrustada
de diamantes
dos sete anões.

a memória é uma mina

aí foi colocada a tua imagem
(talvez seja onde agora mesmo vivas)
não cravado pelas paredes
mas ainda docemente em
movimento
*
Rollo de Resende
(1.965 - 1.995)
*
a ilustração é um postal confeccionado pelo Rollo, presente de sua
irmã a poeta Stella de Resende.

um filhos de francisco



A semana é dedicada mesmo ao meu pai, no site Vejo São José - www.vejosaojose.com.br -eu escrevi uma crônica sobre ele, e no site Cronópios, novamente. A coluna mezzanino é ocupada a cada mês por uma pessoa que emite opiniões sobre o site e os debates do -café literário- aceitei, no susto, e ontem escrevi um texto sobre a força da mídia, e a necessidade de que a cultura chegue aos - pequeninos da terra - gosto desta expressão. Para que um dia aconteça a revolução cultural, única capaz de fazer com que uma nação se torne soberana, segundo as palavras de Adolfo Pérez Esquivel.
Para ler - Um filho de Francisco - é so acessar o endereço:

http://www.cronopios.com.br/content.php?artigo=6821&portal=cronopios