O CÃO E A PRIMAVERA.
- Bárbara Lia
No inverno de 1.999 eu vivia em uma pequena casa. Lá tinha uma banheira verde e umas paredes úmidas.
Um belo dia meu ex-marido trouxe a cadela Bilu, não tinha um lugar para ela, ele estava voltando para o ap da mãe dele, tinha se separado de uma namorada. A Bilu não podia ficar grávida, era uma cachorra com um vírus que passava para os filhotes. Ela não morria por portar o virus, mas os filhotes sim.
Não consegui impedir que um cão vadio invadisse, um dia, o quintal e fecundasse a Bilu.
Preparei meu coração para as perdas que sempre me faziam dispensar os cães e gatos.
O primeiro cão morreu de saudades da Paula, quando viemos embora para Curitiba e ela só tinha dois anos. O cão não suportou a falta dela que ficava na janela, sacudindo os cachinhos e pulando no sofá chamando o Lobo, de bobo, bobo...
A outra, que era branca como neve, o carro atropelou. Aí vem a Bilu e tem uma ninhada condenada à morte.
Foi o tempo de espera que cada um contraísse o vírus e morresse, a veterinária disse que seria assim. O cão Moreninho - o nome dele era este mesmo pois era todo negro, sem uma mancha branca - era o primogênito da ninhada e eu o achava lindo. Rechonchudo, foi o último a dar sinais da doença. Então ele começou a emagrecer, a perder as forças.
Em uma noite eu peguei o Moreninho no colo, e fui para a frente da varanda, tinha um lençol de estrelas, uma brisa gélida, e tinha uma vontade de que ele não morresse. Comecei a falar com ele, de que viver apesar de tudo, tinha sido bom, ele havia tido a chance de olhar para o alto e ficar abismado, como eu sempre ficava quando olhava para o céu, desde menina, e ficava embriagada de estrelas, e eu sussurrei ao ouvido dele: Quando chegar a primavera, esta roseira vai florir vermelho - rosas - as flores mais estranhamente belas. Elas possuem espinhos, mas suas pétalas são macias. Elas vão nascer e eu queria muito que você pudesse conhecer as rosas. Então ele superou o insuperável, com o olhar estendido nos galhos da roseira, ao lado da varanda, dia após dia. E eu não conseguia saber
de onde vinha tanta vontade de não morrer.
Então em uma manhã,as rosas floresceram, ele quis me dizer algo, com seus olhos tristes e cansados. Quis ensinar alguma coisa para mim, eu sei.
Dois dias depois ele morreu...
Penso que é preciso esperar a primavera.
Existe um livro de John Fante com este nome. Eu e o Márcio Claudino fizemos muitas peregrinações à Biblioteca para emprestar o livro de Fante, o livro nunca estava lá.
O primeiro cão morreu de saudades da Paula, quando viemos embora para Curitiba e ela só tinha dois anos. O cão não suportou a falta dela que ficava na janela, sacudindo os cachinhos e pulando no sofá chamando o Lobo, de bobo, bobo...
A outra, que era branca como neve, o carro atropelou. Aí vem a Bilu e tem uma ninhada condenada à morte.
Foi o tempo de espera que cada um contraísse o vírus e morresse, a veterinária disse que seria assim. O cão Moreninho - o nome dele era este mesmo pois era todo negro, sem uma mancha branca - era o primogênito da ninhada e eu o achava lindo. Rechonchudo, foi o último a dar sinais da doença. Então ele começou a emagrecer, a perder as forças.
Em uma noite eu peguei o Moreninho no colo, e fui para a frente da varanda, tinha um lençol de estrelas, uma brisa gélida, e tinha uma vontade de que ele não morresse. Comecei a falar com ele, de que viver apesar de tudo, tinha sido bom, ele havia tido a chance de olhar para o alto e ficar abismado, como eu sempre ficava quando olhava para o céu, desde menina, e ficava embriagada de estrelas, e eu sussurrei ao ouvido dele: Quando chegar a primavera, esta roseira vai florir vermelho - rosas - as flores mais estranhamente belas. Elas possuem espinhos, mas suas pétalas são macias. Elas vão nascer e eu queria muito que você pudesse conhecer as rosas. Então ele superou o insuperável, com o olhar estendido nos galhos da roseira, ao lado da varanda, dia após dia. E eu não conseguia saber
de onde vinha tanta vontade de não morrer.
Então em uma manhã,as rosas floresceram, ele quis me dizer algo, com seus olhos tristes e cansados. Quis ensinar alguma coisa para mim, eu sei.
Dois dias depois ele morreu...
Penso que é preciso esperar a primavera.
Existe um livro de John Fante com este nome. Eu e o Márcio Claudino fizemos muitas peregrinações à Biblioteca para emprestar o livro de Fante, o livro nunca estava lá.
Muitos anos passados, da morte do cão Moreninho. O cão que não quis morrer sem ver a primavera. Um dia, o Márcio tocou a campainha, e estendeu o livro de Fante, eu apontei para o sofá onde estava o meu exemplar do livro de Fante.
Havíamos comprado – Espere a primavera Bandini. Não tivemos paciência de esperar encontrar um dia o livro na Biblioteca...
Concordamos, eu e o Márcio, que Pergunte ao pó é bem mais lindo. Concordamos, entretanto, em manter o refrão – espere a primavera!
Doei o livro para a Biblioteca, ao menos são dois
exemplares, pessoas a menos para esperar na fila.
Quando a esperança é soterrada pelo vírus do cansaço, eu penso no Moreninho, que soube esperar a primavera para só depois morrer
Concordamos, eu e o Márcio, que Pergunte ao pó é bem mais lindo. Concordamos, entretanto, em manter o refrão – espere a primavera!
Doei o livro para a Biblioteca, ao menos são dois
exemplares, pessoas a menos para esperar na fila.
Quando a esperança é soterrada pelo vírus do cansaço, eu penso no Moreninho, que soube esperar a primavera para só depois morrer




