Thursday, July 31, 2008

A poesia rima pouco e expande mais



Já tentei croché
Já tentei tricô
Já fiz pão e fiz teatro.
Entrei pra esquerda,
cutuquei o partido;
Fiz bolo e artesanato.
Tentei de tudo, tentei de nada.
Fui Zé Ninguém e dona-de-casa.
Já dormi sonhando reis,
Já dormi sonhando putas,
amantes de Sol, amantes de Lua.
Mas não me encaixei em nada
E fui ser coringa no meio da rua.

Amanda Bigonha Salomão

http://www.astexturasdosanjos.blogspot.com/

foto - Amanda - http://www.flickr.com/photos/cirandadepedra/

Dia do Escritor

Márcia Denser

Me disseram que 25 de julho foi Dia do Escritor.
Mas quem decretou, instaurou, determinou arbitrariamente que no mês de julho, dia 25, seria comemorado ou inaugurado ou lembrado ou midiado ou festejado ou reminded the writer? Hein? Bom, ainda é férias ou recesso ou Flip ou Flap – festas literárias que acontecem recessivamente entre paralelepípedos – puta palavra tropeçante trombadora obstaculizante maldita! O que dizer DISSO, cara? E também disto: escritores não merecem efemérides babacas postiças estúpidas que não efemerizam coisa alguma tampouco nada comemoram além deste nada paralisante duma new ausência de tradições reais que sejam profundamente enraizadas em ressonância com a alma do mundo que, afinal de contas, é a nossa, não?
Aquela que ainda não foi vendida.
...
(... continua na coluna de Márcia Denser no site cronópios)

Monday, July 28, 2008

Blog do texto (Cronópios)

A nova ferramenta do Portal de Literatura e Arte Cronópios permitiu que eu ganhasse uns vinte blogs de presente. Cada texto publicado no site ganhou um blog. Gostei demais pois ao acessar um texto o leitor tem ao lado o link para os demais. Pode enviar aos amigos, deixar comentários... Muito lindo! A Arte do Pipol faz a diferença no site Cronópios. Para conhecer o blog do texto, e ler as poesias, os contos etc...

Sunday, July 27, 2008

Balalaica

.
Balalaica
[como um balido abala
a balada do baile
de gala]
[com um balido abala]
abala [com balido]
[a gala do baile]
louca a bala
laica
.
[budto laiem oborvala
scrípki bala
laica]
[s laiem oborvala]
oborvala [s laiem]
[láiki bala]
láicu bala
laica
Vladimir Maiakóvski (1913)
.
Tradução - Augusto de Campos

Friday, July 25, 2008

No caminho com Jiddu Saldanha

Foto Oficial de Jiddu Saldanha - Ernani Bezerra

Roda de estudos com Jiddu Saldanha - foto André Amaral




1.
por mais que o instante

seja breve
a caneta escreve

Jiddu... Recordo que antes de mergulhar nesta trilha louca da poesia eu já sabia que existia Jiddu. Mas, o que eu não sabia é que você nasceu mesmo aqui nesta cidade. O que Curitiba representou para você e para a sua Arte?... E o que te despertou para a poesia e a mímica?


Eu vivi uma paixão profunda por Curitiba, no bairro do Boqueirão, onde nasci e vivi a maior parte da minha infância e adolescência, circulava a pé entre as comunidades só para ver de perto o estilo de vida das pessoas. Sempre achei Curitiba muito curiosa porque a presença do imigrante polonês, italiano, alemão e japonês era muito forte e por onde eu andava fui ficando amigo daquelas pessoas.
Hoje eu vejo que foi uma infância muito estranha porque lá no fundo, as comunidades não me assimilavam bem. Eu era um “ET” e hoje percebo que me divertia sozinho... não sobrou nada daquele passado a não ser o fato de que o colégio polivalente, que tinha um muro mais baixo, permitia que eu ficasse na biblioteca, uma ótima biblioteca por sinal. Li muitos clássicos ali dentro. Um dia, doei para aquela biblioteca toda a minha coleção de “Obras Primas” da abril cultural, lembra? Acho que eu já intuía que não ficaria em Curitiba por muito tempo.


2.
na hora de partir

lembranças de tudo
a vida se reescreve
.
Ir para outro Estado (Rio de Janeiro) era desejo de reescrever a vida?
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Sim, Curitiba não me assimilava muito, talvez porque a cidade meio cinzenta parecia não combinar bem com o meu estilo ensolarado de ver a vida, mas também não é só isso... eu realmente percebi que viver de arte tem de ser em cidade muito grande porque eu precisava combinar um certo estilo meio anti-social com uma profissão que depende do social pra se afirmar, falo do teatro.
Mas eu sou filho de uma carioca que foi morar em Curitiba e meu pai, do Amazonas, viveu muitos anos no Rio de Janeiro, de maneira que, dentro da minha família havia um certo espírito carioca, muito embora, eu seja um curitibano inveterado, daqueles que levantam de madrugada pra tomar um copo de leite!
Mas o Rio de Janeiro foi um acidente, eu queria mesmo era São Paulo, mas percebi que são Paulo era uma Curitiba com 12 milhões de pessoas, cruz credo, saí correndo e vim parar no Rio de Janeiro que dizem, se parece com Cuba...

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3.
Haigin solitário
Passeia pelas cores
Do seu calvário

.
Em setembro de 2.001, te vi no palco do Teatro Londrina. Lembro que fiquei impressionada com a sensibilidade sem par da tua apresentação. Ando desesperadamente em busca da delicadeza e lembro a delicadeza do teu recado mudo. Como você passeia pelas incolores vielas nada poéticas que vez por outra a gente encontra no mundo artístico? Ou será que Curitiba é mesmo um caso à parte?


No começo eu achava que Curitiba tinha muitas culpas, mas quando saí daí, descobri que Curitiba é só mais uma cidade brasileira que tem um povo que cultiva alguma esperança. A cidade foi se ajeitando à sua maneira e eu, precisei amá-la mais para poder, inclusive, compreender as outras cidades onde vivi.
Depois que me re-apaixonei pela minha cidade, percebi que a cidade dá o que pode dar e que a gente tem mesmo é que ir abrindo caminhos nem que seja a dentadas, pra se afirmar como artista.
Quando comecei a fazer mímica, era como se não quisesse mais falar com ninguém e sim escutar mais, ouvir mais, me interessar mais pelo que era diferente. A mímica foi uma terapia social pra mim, no sentido de que, me conferiu cidadania e presença no certame das artes mas sempre fui um artista de pequeno porte sem muita estrutura psicológica pra bancar grandes empreitadas...

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4.
Viajante tranqüilo
Sabe das distâncias
Solo de flauta

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Você viaja para todo lugar e registra tudo com a tua famosa - Mala da fama.
Como surgiu a Mala da Fama? Conte um pouco sobre a tua Mímica? Esta paixão tem algo a ver com Carlitos?

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A Mala da fama foi um foco mágico que acendeu na minha cabeça. Ela surgiu na época em que o Fernandinho Beira-Mar era o bandido mais famoso do Brasil, seu antecessor fora o Leonardo Pareja, lembra? Percebi que a mídia brasileira dava mais importância aos bandidos do que aos artistas, então, por ironia eu criei a MALA DA FAMA, decidi que eu ia conferir um título de famoso a todo aquele que tirasse uma foto com a Mala. Foi uma brincadeira irônica e saudável que já tem quase 10 anos, foram mais de 50 mil pessoas fotografadas até hoje.
Sobre mímica, bom, eu me tornei mímico por via das circunstâncias, foi uma linguagem se adequou naturalmente ao meu corpo e, com a ajuda do Everton Ferre (pra mim o melhor pantomimo do Brasil) eu ingressei nesta arte e já estou a 20 anos por aí! Mas agora estou me dedicando mais a dar aulas. Tenho sentido um certo cansaço de ficar em silêncio por quase 20 anos...


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5.
passou por aqui

uma formiga afoita
cigarras no jardim
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Posso estar errada, mas, tenho a impressão que o teu trabalho acaba por se tornar uma grande festa. Em um dia você é a formiga, e no outro, a cigarra. Mas, o resultado é brilhante sempre. Acho lindo e poético o projeto – Cinema Possível – fale sobre ele.

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Este projeto é a coisa que mais amo na vida. Eu sempre quis fazer cinema, mas desde criança sempre me falaram que cinema era coisa para pessoas com muita grana, gente que ia estudar fora, coisa de gente bonita e tal... eu ia ao cine arlequim e assistia três filmes chineses com apenas um ingresso e as vezes o porteiro me deixava entrar de graça porque dizia que eu ia ser um cineasta um dia...
Mas recentemente, em 2007 a ficha caiu... cinema é pra qualquer um, esse negócio de dizer que cinema é para os eleitos, não dá, essa máscara social caiu. E com as novas tecnologias tudo se tornou possível por isso dei esse nome pro meu projeto que é um projeto bem complexo que envolve produção, realização, oficinas e pesquisa com filmes, sempre com câmera fotográfica digital que é a tecnologia acessível hoje!

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6.
imensos bambuzais

só o vento os entende
ninguém mais


Faltou falar sobre as – Artes Plásticas – em uma seqüência possível de se delinear, o que chegou antes - Mímica, poesia, as tuas telas e agora o cinema possível? Eu sou tão apaixonada por pintura tanto quando pela poesia. Como aconteceu o teu despertar para as artes plásticas? Algum grande pintor o inspirou? Ou muitos?... Quais?


Aconteceu uma coisa esquisita comigo em 1991. Um dia eu estava fazendo um show de mímica na rua e um homem ruivo de quase 2 metros de altura, perguntou se eu não podia ajudá-lo a encontrar um lugar pra ficar em Curitiba. Eu vendo que ele era boa pessoa convidei-o pra ficar na minha casa, eu morava sozinho num apartamento de 2 quartos lá no Pilarzinho. Qual não foi minha surpresa quando descobri que o Homem nada mais era que um Artista Plástico nascido em Barcelona, isso mesmo! Era um Pintor Catalão...
Eu fazia mímica, mas, via ele pintando o dia inteiro e pedi para ele me ensinar algumas técnicas. Ele ficou na minha casa durante três meses, com a esposa dele que se chamava Thereza e, quando foi embora, deixou algumas bricolages que tinha feito com minhas fotos de mímica.
Em 1999, já no Rio de Janeiro, eu me deparei com uma crise profissional muito grande. Percebi que eu me tornara um mímico velho. A técnica que aprendi já não tinha mais valor comercial nenhum. Simplesmente ninguém me chamava pra trabalhar e as escolas de teatro e instituições, passaram a me desprezar. Então eu resolvi pintar. Pensei comigo: Se o Joarez Machado era pintor e ficou conhecido como o mímico do Fantástico então eu vou ser o mímico que vai ser conhecido como pintor rs... e assim iniciei meu trabalho de pintura, e consegui me inserir nesse mundo das artes visuais. O Cinema foi conseqüência disso e, misteriosamente, a partir de 2002, timidamente fui sendo chamado pra fazer mímica e agora, revezo minhas atividades artísticas porque não dá pra viver só de uma atividade. Eu ganho um pouquinho com cada coisa que faço e no final acabo tendo dinheiro pra pagar as contas no final do mês e financiar precariamente as minhas pesquisas no projeto Cinema Possível!
Mas eu acho que a minha verdadeira arte é a poesia. No fundo, sou um poeta no sentido oriental do termo, cultivo a arte sem nenhuma opulência, faço com total desprendimento e isso me confere uma certa leveza pra lidar com a realidade. Eu sinto, inclusive, que a poesia será a religião do futuro!

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7. Jiddu Saldanha por Jiddu Saldanha
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Um artista que precisa de muitas linguagens pra se expressar, mesmo não dominando bem nenhuma delas, sente que tem a vida cheia de possibilidades pra criar e ajudar, contribuir um pouquinho para que o mundo respire aliviado com a possibilidade de que, se o sonho acabou, ainda tem pão de queijo! Kkkkkkkkkkk


links para a Arte de Jiddu Saldanha

cinema possível:
Pronominal:

http://br.youtube.com/watch?v=v5UEGuJ7db4



...
os haicais (prefácios) são todos de Jiddu Saldanha.

Tuesday, July 22, 2008

Azul sobre o azul



Foi no pequeno espaço da antiga “Feira do poeta” que li a primeira poesia dele, em um folheto azul com a foto dele e um poema que começava assim: Passarinhos piem na minha janela / façam uma serenata para mim esta noite / eu preparo as pipocas / e a mesa com frutas /vocês cantam e comem / eu bebo e danço... Marcos Prado! Desde menino escrevendo poesias, tornou-se o poeta/letrista que influenciou toda uma geração, sua poesia está registrada no trabalho do grupo musical “Beijo AA Força”. Marcos escrevia de uma forma cuidadosa. Quem sabe, para sobreviver em uma cidade de clima frio, de pessoas fechadas em si mais que seus agasalhos. Escrevia para contestar, para comemorar a vida talvez. A figura de carisma suave e inteligência sagaz ainda é um mito. Uma lenda para quem escreve e vive e ama nesta cidade fria. Que foi tão narrada por Marcos Prado, como na poesia abaixo, onde Lápis na verdade é o nome de um compositor...
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Curitiba

vou acabar com a vida de um vício por mês
fumo meu último cigarro pela primeira vez
treme minha mão por um copo pela última vez
nunca mais encontrei a canalha da cannabis
acho que ela foi morar na tumba do lápis
.
do pó eu vim, vi e venci
e não retornarei ao pó
.
Curitiba
você é a única droga
que eu vou admitir na minha vida.

(Marcos Prado e Antonio Thadeu Wojciechowski).
.
Só quem é poeta em Curitiba consegue entender a relação de amor-ódio que esta cidade desperta. Talvez tema para muitos ensaios e livros. Este frio de almas e temperatura que nos cerca acaba por fomentar a poesia em excessiva dose, e no calor de um abraço da amada, somado a um copo de vinho, notas de uma música, é assim que nasce por aqui a poesia. Os poetas usam sua incrível vocação para sobreviver a esta cidade. Por isto penso a poesia de Marcos Prado como uma mina que não se esgota, ao mesmo tempo é visceral, altamente confessional, contestatória, mas, atemporal. Marcos Prado conseguirá dizer às gerações futuras o que disse à sua, o que diz a esta que hora trafega à sua sombra como...
...Tristes homens azuis

eles se vestem de branco e de negro
e os outros vêem azul
porque não são brancos nem negros
os tristes homens azuis


ninguém nasce azul
não se põe no mundo
alguém azul
mas quando a noite baixa
se levantam
os tristes homens azuis.
Marcos Prado

Monday, July 21, 2008

Há dias

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Há dias em que julgamos que todo o lixo do mundo nos cai em cima
depois ao chegarmos à varanda
avistamos as crianças correndo no molhe
enquanto cantam não lhes sei o nome
uma ou outra parece-me comigo
quero eu dizer : com o que fui quando cheguei a ser luminosa
presença da graça ou da alegria
um sorriso abre-se então num verão antigo
e dura
dura ainda.
Eugénio de Andrade
de 'Os lugares de Lume'

Wednesday, July 16, 2008

O silêncio de Pitágoras

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para pitágoras
tudo é número
tudo é harmonia
tudo é música
os astros obedecem a uma matemática
essa matemática é uma música
não ouvimos a música das estrelas
porque nossos ouvidos são impuros
a culminância da experiência pitagórica
de purificação
e ascensão do espírito
era ouvir nas noites estreladas
a sinfonia vinda das esferas
o silêncio dos astros
nasce da nossa surdez
-Variações para silêncio e iluminação (fragmento) -
PAULO LEMINSKI
Ensaios e Anseios Crípticos
-Polo Editorial do Paraná.

Noir

(Gabriela Caramuru, estudande de Ciências Sociais, militante do Psol e uma poeta em flor, lendo NOIR)

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POEMAIL

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Aprendi a fazer aquilo

que deve ser como as donas de casa fazem:

esperar um afeto ao final dos dias.

A trancos e barrancos

vivi uma vida

(mais que o tempo que você viveu)

em burocracia asfixiante,

casamento sem sal

ou açúcar e vida moldada,

que me asfixiava.

Me fazia acordar nas noites

a procurar um caminho,

que me levou

a esta pobreza abençoada

chamada solidão

BÁRBARA LIA

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Sunday, July 13, 2008

O deserto de sinais

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estamos voltando para grifolux.
miriápolis não dava mais.
juntamos nossas coisas
.....e atravessaremos o deserto de sinais.
é verdade, aprendemos muitas canções
.....em miriápolis
mas quase esquecemos como lateja
.....o vivificante sol de grifolux.
deixamos convivendo no cercadinho:
.....brutos e mansos de coração,
.....vales e montanhas,
.....relicários e estantes de tábuas e tijolos,
.....claridade e escuridão.
como quando dentro da noite do espírito
.....pingasse uma gota de bem-aventurança.
viver esta sede
.....era o que nos possibilitava ao meio-dia
.....ouvirmos noturnos de chopin,
com alguns amigos escrever
.....o guia do amor descomplicado,
permitir à vida que nos comovesse
.....enquanto assava-se pão para toda a semana.
agora chovesse sobre miriápolis,
.....tamborilando em vasos e latas no quintal
enquanto nos distanciávamos indo para grifolux
.....onde sobretudo sabíamos florescer
o jardim de si.
ROLLO DE RESENDE
(1965-1995)
do livro,
Poemas Fora da Ordem
Concurso Nacional de Poesia
Prêmio Caetano Veloso (1993)

Saturday, July 12, 2008

Por mais terras que eu percorra...

A conquista de Montese - tela A. Martins



Por mais terras que eu percorra,
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá;
Sem que leve por divisa
Esse "V" que simboliza
A vitória que virá:
Nossa vitória final,
Que é a mira do meu fuzil,
A ração do meu bornal,
A água do meu cantil,
As asas do meu ideal,
A glória do meu Brasil.
.(fragmento)
.
(Canção do Expedicionário-
Letra: Guilherme de Almeida
Música: Spartaco Rossi)




Texto da Orelha do livro - Verdades e Vergonhas da Força Expedicionária Brasileira -
Leonercio Soares:


"... Como estou acostumado a receber livros mediante condições (explícitas ou implícitas), este presente não me espantou nem me comoveu.

Seria um caso a mais dentro da rotina da minha vida. Talvez um livro que me encantasse, ou talvez me comovesse. Recebo livros de poesia, de prosa, de técnica, e, em geral folheio todos, cuidadosamente, lendo alguns deles, quando sinto afinidades anímicas com os autores. Porém raros são os livros que começo a ler e atravesso dias, desinteressado das coisas da vida doméstica e apenas grudado às páginas do que estou lendo.

Pois foi este o caso do livro que recebi.

Não é uma maravilha literária; mas é suficientemente bem escrito para prender e é sobretudo um livro que tem calor, que tem patriotismo (real e não fingido) e escrito por pessoa, sem nenhuma dúvida, preocupada em relatar a verdade, mesmo quando essa seja dolorosa para os cidadãos brasileiros e nosso país.

Terminei a leitura dos dezoito capítulos e mais o epílogo desse livro na madrugada do dia 24 de maio, por sinal dia da comemoração da batalha de Tuiuti, durante a guerra do Paraguai, citada pelo Autor, em termos muito honestos de sua parte, ao comparar a guerra de 1865/1870 com a de 1944. Cem anos depois chega ele à conclusão que não avançamos moral e organizacionalmente nada!"

"... pois desde logo afirmarei: É um livro impressionante, verdadeiro (e dentro da relatividade das coisas humanas) extremamente bem intecionado e justo.

Devo dizer (e o Autor também adverte) que o livro exige - ou merece - uma cuidadosa revisão, senão nos cochilos da datilografia e das expressões um pouco apressadas, no emprego das preposições, no que possa ficar definitivamente como um testemunho perene da FEB e uma reação vivíssima de um homem honesto que se libertou de todos os possíveis condicionamentos para dizer a verdade (pura e simplesmente a verdade do que viu, ouviu e viveu nos campos de batalha da Europa) a fim de melhorar a situação de um BRASIL que vive mal e que sempre viveu mal, não por que lhe faltem recursos, mas porque os ladrões e os canalhas pululam ocupando altos cargos que só excepcionalmente caem nas mãos de gente honesta.

O livro começa contando o caso, talvez verdadeiro, de um expedicionário que, para viver, realizava uma degradante criação de larvas de moscas varejeiras. Fá-lo encontrar-se com outros expedicionários, e os joga no seu quadro extremamente bem traçado.

Todavia, do segundo capítulo em diante, o relato é da guerra, desde a chegada a Nápoles até a vitória final em que a FEB tem um papel importante na rotura das linhas alemãs, mas não tem meios de fazer que uma vitória iniciada em ótimas condições chegue ao final, porque o Brasil não tem meios de mostrar-se tal qual se mostram os países desenvolvidos aos quais a guerra interessa e eles podem levar a termo a organização de final de guerra."

"... E das páginas do seu livro fluem visões do que foi para a nossa gente, a guerra na Itália, toda corroída, do começo ao fim, pelas vergonhosas situações que ali são expostas com firmeza e verdade.

Claro que o Autor é brasileiro e no final ele se indigna contra o desprezo dos americanos que nos tratam, não como aliados ou como iguais, senão como inferiores que consentem para o seu país situações que mantém cento e trinta milhões de habitantes em condições de deficiência moral e econômica, graças a governos corruptos e aos costumes displicentes com os quais nos habituamos, que nos vêm apodrecendo e degenerando.

Claro que no Brasil e no Exército há gente boa e honesta, mas ele mostra como e quanto essa gente se apaga e sofre..."
David Carneiro
(Gazeta do Povo- 31.05.84)


Meu tio herói de guerra


Cidade de Montese após cessarem os ataques.
A última vez que falei com meu tio Leonercio foi uma longa conversa por telefone, ele me contava do novo livro que escrevia e que lhe custou muitas viagens ao interior do Paraná. Mais de dez anos antes da nossa última conversa ela havia lançado - Verdades e Vergonhas da Força Expedicionária Brasileira. Nunca li seu último livro - O velho estafeta - pois ele estava vivendo um novo casamento com uma pessoa que se fechou em conchas, mudou-se para muito longe após a morte dele, levou junto o livro, e demonstrou que não tinha interesse em publicá-lo. Fico aqui pensando no direito sagrado de filhos e sobrinhos e netos de terem acesso aos bens intelectuais dos seus. Quando tento falar com meus primos sobre o livro eles vivem o mesmo drama que eu. Um casamento dá poderes demais a terceiros e se não se pode contestar o poder do cônjuge sobre os bens da matéria, devíamos ter direito aos bens intangíveis - afinal, está no livro sagrado que o Espírito sopra onde quer... ou não? Eu ainda não havia publicado uma linha e me via lentamente voltando a escrever versos e histórias, coisa que eu tinha abandonado lá pelos meus vinte anos, quando falei com meu tio, dez anos atrás. Percebi o desejo dele, grande desejo, de lançar seu livro. Chegou a perguntar sobre a Lei Rouanet. Uma pena viver em um País onde um livro que resgata história não pode ser acolhido, publicado, lido. Nâo sei se o furor dele no livro anterior era causa da dificuldade de lançar um novo livro. Sempre penso nas coisas que ele narrou sobre a nova história. Fiquei imaginando homens de chapéu de couro em lombos de burros, com embornais de lona atados ao corpo e aos animais, cruzando trechos íngremes para levar correspondências, documentos. Fiquei imaginando todo o tempo em que ele percorreu lugares para pesquisar sobre os estafetas. Senti desejos de ler o livro que nunca li afinal.
Ontem reencontrei o livro dele que eu imaginava perdido. Lembro que senti falta dele em uma mudança. Levaram meu vestido de noiva, uma centrífuga, muitas roupas e algumas quinquilharias de cozinha que eu havia deixado em uma caixa na casa antiga. Quando voltei para apanhar, percebi o roubo e não me entristeci pelo vestido (do casamento que não deu certo), nem pela centrífuga, muito embora ela lembrasse uma infinidade de sucos de cenoura e tomate e de frutas que eu fiz para meus filhos. O rito terno de mamadeiras e fraldas que eu amava, de um tempo em que eu fui loba serena e feliz. Mas, entristeci por pensar perdido o livro, um pouco menos ao imaginar que algum ladrão se interessava por leitura, afinal... Mas, a caixa com poucos livros foi parar no quarto das minhas filhas, e ficou assim, até agora. Para mudar algumas coisas reviraram o quarto de cabeça para baixo e eu fiquei feliz ao encontrar entre - Ensaios e Anseios Crípticos, do Paulo Leminski e um livro de Mário de Andrade - o livro do tio herói de guerra, em uma caixa de papelão, espremido entre tantos outros.
Encontrei referências a ele na internet, sei que o livro do meu tio sacudiu um pouco o orgulho da Feb. Conheci, através de uma amiga, um senhor bem velhinho que até desconfio que era do Exército, que me contou que o livro do meu tio foi retirado da Livraria. Nao duvidei pois o livro foi lançado em abril de 1.985. Lembro que meu pai veio do interior e se hospedou em minha casa, podia notar o orgulho dele. Vez por outra eu fico imaginando o que meu pai diria diante de um livro meu, recomecei a escrever no ano em que ele morreu. Fomos ao lançamento em uma das lojas da Livrarias Curitiba. Li o livro, e soube um pouco mais da II Guerra, por alguém que esteve lá, que voltou com hábitos modificados. Meu tio jamais dormiu em um colchão macio, preferia dormir no chão, ou em tábuas, acostumou o corpo ao tempo da guerra o que causou transtornos em sua vida diária. Mesmo em seu carro ele colocou uma espécie de tapete de madeira no banco, aqueles com pequeninas bolas de madeira. Na Itália, um incidente no acampamento quase se torna causa de uma cegueira. Ele esteve nos hospitais, no front, em muita parte. Como era sargento, quando seu superior foi ferido, tomou a frente do seu pelotão e comandou a Tomada de Montese. Voltou com duas medalhas de herói de guerra, e um belo dia decidiu escrever um livro, muito tempo depois de sua volta.
Não sei quando começou em meu País a corrupção, talvez tenha começado quando desvirginaram nossas praias com caravelas. Para mim, a ousadia do meu tio não espanta, este lado louco de dizer o que pensa tem um tanto a ver com o meu sangue mesmo... O livro começa com a visita de um ex-pracinha a um amigo dos tempos da guerra. Do susto de encontrar o amigo criando larvas e vivendo em um mísero casebre nas imediações de Brasília, sendo sustentado pela mulher que leciona, já velha e cansada também a mulher do ex-soldado. O livro começa, talvez, com uma visita real do meu tio a algum amigo. Meu tio pertenceu ao S.N.I. quando voltaram da Itália ele tinha juventude e inteligência, um pai deputado, o meu avô. Para ele a vida não foi complexa no campo material, mas, foi complexa no campo psicológico, como foi para uma infinidade de soldados que apelaram para o que meu tio chamava - famigerada pensão de major louco de guerra. Acredito nas narrativas e já vivi o bastante para saber que a verdade fica por vezes escondida e nem sempre é propalada. Vou reler o livro do tio, o livro reencontrado.



...

Entardecia, uma tarde nublada, de horizontes entenebrecidos, quando a frota de pequenas embarcações singrou as águas agitadas do Mar de Tirreno, ao longo da costa italiana. À proporção que o cardume de pequenos barcos avançava, mais violento e agitado mostrava-se o mar. Ondas imensas se erguiam fazendo as barcaças desaparecerem nos buracos abertos; a água espumante varria os convéses de lado a lado. Fora dos porões apertados, tinha-se que se agarrar às cordas e cabos de aço para não ser arrastado pelas ondas que vinham e passavam.

Muitos soldados que resistiram bem a travessia do Atlântico, nos grandes navios, ali, viajando nas barcaças, baquearam.

Enquanto as barcaças avançavam beirando as penedias, sobre elas, nas ilhas e nos pontos mais destacados, as antíquissimas ruínas de castelos iam aparecendo e ficando para trás.

Somente ao amanhecer, chegando no porto de Livorno, é que o mar se fez mais calmo.

No porto de Livorno a tropa passou para os caminhões reforçados de transporte do Exército norte-americano, que a conduziu para a área de acampamento, na Quinta Real de San Rossore.

.

***
.

Um navio carregado de alimentos, atracoou no porto de Nápoles. Navio brasileiro, com comida para o soldado brasileiro.

O Serviço Médico Aliado, examinou a carga:

- e mandou descarregar;
- e mandou espalhar gasolina;
- e mandou pôr fogo.

Achou que não servia:
- feijão carunchado;
- arroz mofado;
- farinha de mandioca embolorada;
- charque podre...

Depois disso nunca mais mandaram navio de comida para o soldado brasileiro. Parece que houve uma ordem do Comando Superior Aliado: - "Não mandem mais estas coisas!"

Isto foi bom para os dois lados: bom para os que estavam roubando o dinheiro que era para comprar comida de primeira e já não precisavam comprar mais nada; e, bom, melhor ainda, para o soldado que estava guerreando na Itália e não teria que comer

- feijão carunchado;
- arroz mofado;
- farinha de mandioca embolorada/
- batatinha brotando;
cebola podre;
charque podre e
fumar
- Fulgor, Yolanda e Liberty, molhados e ardidos.
Só que, com isto, o Brasil fez uma bruta dívida de comida que o americano forneceu para o soldado brasileiro. Mas esta sim era comida de primeira. De primeiríssima.

O chato da história é a gente ter vergonha...


Leonercio Soares (Verdades e Vergonhas da Força Expedicionária Brasileira - edição do autor)

...

Sobre o livro:


Thursday, July 10, 2008

Tábula Rasa

Las puertas
de la ciudad blanca
abiertas de par en par
Mi espíritu, tábula rasa

Antes de la fecha
en el tiempo grabada
para alcanzar
la sacrosanta ciudad
Sigo besando lombrices,
como si fueran jazmines
poesia - Bárbara Lia
dibujo - Alejandra Pizarnik

Tuesday, July 08, 2008

Para Camille, com uma flor de pedra


Niobide blessée

À sombra da noite clara
Latona no meu encalço
Espectros da última primavera

O Rio Loire um duplo do Aqueloou
Meu Monte Sípilo é Ville-Èvrard
Onde endureço carne e alma

Delírios brancos, visões:
Escunas leves com velas de vidro
E tombadilho de pétalas
Estilhaçam na roupa cinza
Ferem-me, beijam-me – qual o amor

Meu ódio espelha o trágico
Anseio que o mundo petrifique
Qual Zeus petrificou Tebas

Sonho com o anjo da restauração
Acordo. Nada se restaura
Tudo igual:

Cama dura de ferro
Urinol fétido, trincado
Três tâmaras secas
Dois gatos no cio a quebrar
O silêncio arredio da madrugada

Os loucos acordam com vislumbres de luz
- Átimo de lucidez.
Acenam lenços de seda à Latona fria
Choram um beija-flor e já no corredor
Vestem o olhar vazio.

Andam autômatos como rios mortos
Deságuam cinzas
No jardim de Ville-Èvrard.

BÁRBARA LIA

http://www.saldaterraluzdomundo.net/literatura_po_b%E1rbara_Lia.htm



Em fevereiro passei alguns dias e noites atada à alma de Camille Claudel, ela enreda os signos e sua vida, neste mergulho na vida de Camille senti a dor dela, tão profunda que me deixou prostrada. Na página da jornalista Ana Lucia Vasconcellos, link acima, algumas poesias destes dias, que eu vesti a pele de Camille. Quando ela foi atirada em um asilo de loucos pela família, quando perdeu o amante Rodin, sofreu um aborto, e naufragou em um tempo dolorido. As esculturas de Camille são poesias que espelham sua dor, enredadas com signos, e nesta troca de experiências, além do tempo, que não existe tempo, tentei dar voz à Camille... Nióbide Blessé, ou Níobe ferida, é uma das esculturas na qual me debrucei para escrever - Para Camille, com uma flor de pedra...



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Níobe, a irmã de Pélops, saiu da Ásia para se casar com outro filho de Zeus, Anfíon, famoso músico que reinava em Tebas. Teve muitos filhos e filhas (a quantidade varia conforme a fonte), e estava tão orgulhosa e feliz com sua prole que cometeu o erro de declarar-se superior à deusa Latona, que tivera somente dois filhos, Apolo e Ártemis.

A deusa se ofendeu e pediu aos filhos que a vingassem. Apolo matou então, com suas flechas, todos os rapazes; Ártemis fez o mesmo a todas as moças. Níobe, cheia de dor, voltou para a Ásia e tanto chorava que os outros deuses se apiedaram dela: transformaram-na numa rocha perto do Monte Sípilo, de onde uma nascente vertia água constantemente.

fonte: http://greciantiga.org/mit/mit07-1.asp

- o rio que nasceu das lágrimas de Níobe é o Aqueloou

Sunday, July 06, 2008

Poesia morta - Céu Fuligem - Sol Negro










SOL NEGRO


Crucificar a alma da rosa
no caos do sangue
de uma geração
que é sombra em si.

No limiar do céu
a rosa mística
abre apenas
para Beatriz.

Liberar o humano
só quando o Verbo
ungir as catedrais
e os estádios
e molhar as aquarelas
e os palcos
e o negro silêncio profundo
dos megabytes.




POESIA MORTA

inocência morta
lírio em chamas
corvos
vermes
lodaçal
cheiro acre
que atravessa o mundo
feito fumaça
anjos desertores

e rosas chamuscadas
choram
a morte da insana poesia
cavam olhares e bombas e notícias
e o rosto do cavaleiro branquelo
do apocalipse -
olhar de horror fragmentado
que desfaz a poesia em cinzas
-brancas cinzas de areia-
pode que floresçam em rosas do avesso
pode que o fantasma da poesia fique
e pague o preço




CÉU FULIGEM


era de aquarius
de cabelos de vidro
máscara azul
sapatilhas de areias
pisa o milênio
sutil e solene
nuvens negras
o oriente geme
Krishna, Allah e os astros
nos deserdaram
estrelas apagadas
em um céu de fuligem
entre os cães e as carnes
de crianças do Iraque
uma lágrima rasga
em cicatriz, o poeta
(na selva-relva
acordes & solidão)
15.05.2005
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BÁRBARA LIA
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Poesias do livro - O sal das rosas - Lumme editor - 2007

Saturday, July 05, 2008

Rimbaud

Rimbaud propiciou belas trocas, tentei postar um vídeo do youtube, não sei configurar este blog depois que meus arquivos foram formatados e não estou conseguindo postar vídeos - então, eu deixo o endereço para quem quiser.
Também coloquei ao lado um link para um site que é uma obra de arte - Arthur Rimbaud (FR) - eu adorei este site!
Rimbaud é uma senha para um mundo de delírios poéticos e encantamento. Rimbaud é um poeta-labirinto.
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- versos finais de - O barco bêbado - (Tradução de Renato Suttana):
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...Magoam-me as auroras.
Todo sol é dolente e amargo todo luar.
O acre amor me fartou de torpores, demoras.
Oh, que meu casco estale! Oh, que eu me lance ao mar!

Se desejo da Europa uma água, é a poça estreita,
negra e fria, onde à luz de uma tarde violeta
um menino agachado, entre tristezas, deita
seu barquinho, a oscilar como uma borboleta.

Imerso em languidez, não posso transcender
o rastro, ó vagas, dos que levam algodões,
nem dos pendões o orgulho e das velas vencer,
nem já nadar sob o olho horrível dos pontões.
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a poesia aqui:
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...
A ESTRELA CHOROU ROSA
A estrela chorou rosa ao céu de tua orelha
O infinito rolou branco, da nuca aos rins
O mar perolou ruivo em tua teta vermelha
E o Homem sangrou negro o altar dos teus quadris
Rimbaud

Thursday, July 03, 2008

Cássio Amaral

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Rimbaud no estilhaço das nuvens
Frank Zappa profetizando
o teatro mágico de rifes psicodélicos
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ENTEN KATSUDATSU
cortar o molde das nuvens Rimbaudianas
cheirar os sóis de Van Gogh
queimados de poemas despojados
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(Enten Katsudatsu quer dizer versátil, livre e desimpedido em japonês)
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YUME
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reflexo no mar de Chagall
nuvens conspiram absinto
na noite engolindo o céu azul
(Yume quer dizer sonho em japonês)
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violetas desaguadas na calçada
pálpebras da cinza do dia
reflexo do choro na aurora de Maiakowski
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Cássio Amaral.
Do livro inédito Sonnen
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Tuesday, July 01, 2008

O rasurado azul de Paris



Cronópios - Literatura e Arte no Plural publicou algumas poesias da série - O rasurado azul de Paris (poesias para Rimbaud):