Monday, May 31, 2010

aos que morreram em águas internacionais

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Quando dormem as estrelas
Ouço o eco dos séculos
chega em perfume de sândalo
rasga-me em cimitarras frias
acende a lua crescente
em meu coração Amrik

Bárbara Lia

Os dentes da delicadeza - Everton Behencke




 


Sunday, May 30, 2010

Canção para Jane e Edith





Só em pensar que existe um jardim inglês
Um lago retangular pleno de flores d’água
Cercado por lanternas vermelhas e névoa

Só em pensar que sob alguma árvore
Três cavalos meditam ao entardecer
Um branco, um negro, um caramelo

Só em pensar nas similaridades ternas
Viver da minha caneta como Jane Austen
Tricotar casacos para o amado como Edith Piaf

Só em olhar tudo e recolher os ossos espalhados
Cerzir a pele rota de paixões pífias - para o amado puro -
Longe das ruas geladas e do assédio dos egos afetados

Bárbara Lia
nov/2009


Foto de Michaël Boulenger


mare chiare

garofano blu

anima di volare

intorno a te

Bárbara Lia

Saturday, May 29, 2010

Mondo Modigliani




Amedeo Modigliani


Paris e um amor
Ode de absinto
E dança
A voz de Piaf acorda
As pedras de um beco:
“C'est lui pour moi
Moi pour lui dans la vie”
Um passo uma dança
O peito tísico abraça:
Pele lunar de Jeanne
- A musa sem olhos -
Os bêbados rasgados
A lua amassada
E o triste passado
Sepultado em Livorno
Bárbara Lia para Modigliani


maio/2010

Wednesday, May 26, 2010

Entrevista

Sal da Terra Luz do Mundo - Revista virtual de arte cultura saúde integral e espiritualidade - editada pela jornalista, tradutora e escritora Ana Lúcia Vasconcelos publicou a entrevista que concedi ao poeta Selmo Vasconcellos para o Momento Lítero Cultural...


Selmo - Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas?
Ser poeta já é um incentivo. Captar a beleza em versos, construir o encanto - ser poeta não é nada mais que isto. Penso sempre em algo que ouvi em uma entrevista de um poeta daqui que morreu jovem – Rollo de Resende: A função do poeta termina quando ele termina de escrever o poema. Este é o êxtase. Esta é a beleza. O que acontece depois é luz oblíqua que vez por outra brilha em páginas e nos deixa sem jeito – para quem é tímida como eu sou – quando alguém entra em delírio diante de um poema. Não há uma contrapartida. Os poetas não tem espaço na grande mídia e não ganham dinheiro com isto. A poesia ainda é o grande segredo que tantos tentam desvendar. O que é poesia? O Edson Cruz fez esta pergunta e cada um de nós – poetas – tinha uma resposta. O que posso dizer a um iniciante (me considero iniciante na arte da escrita) é seguir o fio da sua criação. Ser livre pra encontrar sua voz, não buscar ser uma réplica de ninguém. Ser ele mesmo, ler os bons poetas, dizer a verdade que grita dentro da gente. E ninguém mais ouve a vida em uma voltagem tão alta quanto o poeta
 
clique aqui para ler a entrevista completa  

Tuesday, May 25, 2010

Circular, o filme

Adriano Esturilho, Letícia Sabatella e Diego Florentino


Tem uma moçada muito talentosa aqui em Curitiba fazendo cinema. Este filme tem uma equipe de roteiristas desta nova turma, incluindo Aly Muritiba do premiado curta - Com as próprias mãos. Recebo notícias deles via - Grupo Processo Multiartes e também através do Andrew Knoll.

Roteiristas:
ADRIANO ESTURILHO

ALY MURITIBA

BRUNO DE OLIVEIRA

DIEGO FLORENTINO

FÁBIO ALLON


Sucesso aos novos autores/diretores/

ELENCO



LETÍCIA SABATELLA como Cristina


CESAR TRONCOSO como Carlos


SANTOS CHAGAS como Lourival


MARCEL SZYMANSKI como Samuel


BRUNO RANZANI como Vina


LUIZ BERTAZZO como Cabeça


DÉBORA VECCHI como Débora


GUSTAVO PINHEIRO como Dentinho




Recado do Andrew Knoll:

Making of diário do longa CIRCULAR

Gente, alguns sabem, outros não...estamos rodando o longa metragem CIRCULAR. Serão 5 semanas de filmagens e resolvemos compartilhar o processo de produção de um longa com o publico. Para tanto estamos postando making ofs, fotos e textos diários no blog do filme.

Adamare

Adamare. Dos livros artesanais é o mais lírico. O Projeto 21 gramas prossegue. Ele trouxe a poesia em forma de diálogo com os leitores e outros poetas. Uma alegria.

PRIMAVERA PARA BEETHOVEN

Também os bosques são sinfonias
no silêncio da bela arquitetura
teias de aranhas são partituras
por mais casta que seja a analogia


Em nítida alegria toda tessitura
de um concerto pleno de alegorias
traçando entre o verde, harmonias
asas dos pássaros voam alturas


(entre galhos , o vento ouvem
e um exército de aves se levanta
rasgando em asas o ar fuligem)

Uma paisagem etérea-sacrossanta.
Primavera para o triste Beethoven
que fulge entre o verde e - livre - canta.
Bárbara Lia / Adamare - ed. 21 gramas






Monday, May 24, 2010




...

Do livro da escritora Hilda Hilst - Júbilo, Memória Noviciado da Paixão foram musicados alguns dos cantos de Ariana para Dionísio, pelo compositor/cantor maranhense Zeca Baleiro - neste vídeo temos o canto IX, interpretado por Mônica Salmaso.

Friday, May 21, 2010

Antologia II



Lançamento da Antologia H2Horas - Parceria do Portal Cronópios e Coletivo Dulcinéia Catadora - e o recado do Pipol:

Dia 1º de junho, terça-feira, a partir das 19h30 na Casa das Rosas em São Paulo. No dia haverá exibição dos dois filmes e apresentação dos livros. O H2Horas é um projeto com desdobramentos midiáticos, um projeto artístico muito feliz. Venha participar do lançamento e traga os amigos.

Antologia I


As Antologias começam a chegar. O conto SET -  ficou em quinto lugar no I Concurso Literário - Contos Grotescos - Prêmio Edgar Alan Poe. Meu conto que narra o surgimento de um serial killer. 

- A Antologia com 10 poesias inéditas do Prêmio Ufes de Literatura está estourando por aí e até Julho fica pronta a publicação anual da SEEC - Pr. Meu conto Mulher na Árvore ficou entre os dez do Conc. Nacional de Contos Newton Sampaio.

Thursday, May 20, 2010

Faz frio e eu canto

No mundo real nunca é A Hora da Estrela. É sempre a hora do aço e do confronto e do desencanto. O poeta necessita uma dose imensa de coragem. Driblar cada não. Tornar tudo um sim-jardim. Ser, à revelia de tudo, uma mínima estrela. Tentar digerir o mundo escrevendo versos e pisando espaços inóspitos, saguões de gelo, catedrais de desesperança. Tudo afinal é apenas o desafio que se enfrenta enquanto vive. O poeta escreve isto, com ritmos – Reggae, Tango, Bossa Nova, Ópera-rock...



O enigma decifrado


O que a onda diz
ao cão sentado
babando moluscos
e saudades?
Como rasgar a onda
sem cicatrizar em azul?
Beber a ardência seminal
de amantes afogados
como quem engole
segredos guardados
entre debruns
de ondas
em seu giz rendado.


*

Aléias azuis na cinza manhã
inflam o ar em luz e ardor
envolvem a sombra.



*



Acordes rascantes
do amor em goles.

Chávena com alfabeto fenício
- início.
Olhar de mel silvestre
e este lúdico instante

Brancura do éden erguida
distante da rua de pedra

Chuva azul debaixo da mesa
Castanholas

Vermelha dança flamenca
acordando a lua.

Ar gélido da rua nos desperta.
A noite começa com um sol sem juízo.

Chaleira chia
dança em meus olhos
o teu sorriso.

---Mergulhar em gavetas e arquivos, derramar a poesia sobre a mesa - Faz frio e é tempo de organizar armários, gavetas e de revisar arquivos. Recolher toda a poesia, espelhá-la para ver se não virou fantasma, pra ver se reflete ainda um fragmento daquilo que foi ou é a poeta. Pensamentos, poemas e esta paz congelada na esquina. Faz frio e eu canto...

Sunday, May 16, 2010

Pensando o amor


- em geral , ele é todo desejo do que é bom e de ser feliz - (Platão)


::
O amor é um Deus escondido e não é todo mundo que dá de cara com ele. Para complicar tudo, apelidaram a tal paixão de amor, então vive por aí o amor - mascarado - tripudiado com sua imagem tatuada em um deus pequeno, um deus sem asas e sem força, um deus que queima mais rápido que as tuas lenhas no fogão e tudo se perde. Pode ser bonito como aquele fogo, mas, é só miragem. É o externo tatuado na visão, o interno tatuado é que fica impresso nos olhos da alma que não esfria que não se consome em labaredas - o externo é a paixão e o interno é o amor - seria isto? E quando o externo e o interno vibram na mesma frequência? Então é o Eros revivido. O amor em carne viva...

- Bárbara Lia 
::

Anotação na porta da geladeira:
Reler - O Banquete (Platão)
Para beber palavra a palavra o livro e quiçá escrever poesia:
 
O amor?
Uma libélula
Acima do lodo

EL ALEPH AZUL DE BORGES




Dejaste aquí tu corazón
- Aleph azul
poblado de tigres blancos
y espejismos.

 
Dejaste aquí tu corazón,
que pulsa como esta Milonga Del Ángel,
que oigo en esta primavera desprotegida
- acordes de Piazzola –



Nubes blancas señal de certezas:
tu alma blanca
tu corazón Aleph azul
permanecen, en suave ritmo del sur.

 
Dejaste un Libro de Arenas
- tu alma -
todos nosotros hojeando páginas
de este desierto metafísico - nocturno y trágico -
que lleva a la aurora nítida del reino de la poesía.


Dejaste aquí tu corazón,
Aleph donde transitan signos variados,
y aunque imprimo sueños
en griego, sánscrito o arameo,
desciframos – en alfa –
tus mensajes de estrellas.


Dejaste aquí tu corazón,
vaso vacío de secretos,
pleno de soles & lunas & signos de nobleza,
en una azul sinfonía que tejes
entre tus dedos, mientras señalas:


La eterna agua, el aire eterno,
flaneando en un valle de sombras
y la inscripción brillante con hilos de oro
- no existe el tiempo –


Guardianes de lo imposible
llevamos hacia el cuello la ampolleta
como hombres-bombas
explotando la vida,
sin seguir tus pasos-acordes.



Ciegos, no distinguimos,
la inutilidad de la arena que cae en cuentagotas,
tu corazón quiere gritárnoslo -
Aleph azul que guarda secretos rojos.


Dejaste aquí tu corazón.
Algunos lo hojean en plegaria, como ángeles.
Yo lo hojeo, deslumbrada,
con la misma cálida y reverente ternura
con que miraba abismada la estrella véspero.



Azul como tu Aleph corazón.
Flecha y señal en mi camino:
La estrella véspero,
el Aleph azul de Borges.
Bárbara Lia
tradução - Karina Eskin

- para ler a poesia em português clique aqui

Rap & Beija-Flores



Rap & Beija-flores




Diante do amor ela arrepiou o coração
- não tenho asas para tanto paraíso
(Mia Couto)




Perfeita tarde:
Branca rede
- rodas
de carroças -
Moendo o pó
da paisagem/passado.




De macacão jeans
o jardineiro de estrelas
e pastor de pássaros
que dançam
no verde vazio
da Serra do Mar...
... me aquece.


Ele e os 200 olhos
de Deus
que vazam da parede
transparente.


Luz divina que me beija.
Como beija-flores beijam
a água adocicada
no ritmo do rap
no rádio.




Bárbara Lia

Thursday, May 13, 2010

Enquanto isto lá no Espírito Santo


DIA 20 DE MAIO [QUINTA-FEIRA] - A PARTIR DAS 19:00

ADUFES [UFES - CAMPUS DE GOIABEIRAS, VITÓRIA / ES]

Pensando a Poesia


Pensando a Poesia - no site da editora Vidráguas - acesse aqui

Vidráguas - Bela Página - que me faz recordar Eugénio de Andrade e que traz um poema inédito de Serguilha para Camila Vardarac... Um encontro feliz em Porto Alegre com Carmen Silvia Presotto -  Vidráguas - palavra poética, cristalina, liquida escondendo sementes de poesia. Viva a Poesia!

MINAS GERAIS!

Conversas com Emily Dickinson

A face do fogo

Sunday, May 09, 2010

O que Van Gogh Uniu

carta de Ia Santanché

Ia                                                               Bárbara



- Vez por outra Ia me chamava de Bárbara Plath ou Lia Sylvia





- O QUE VAN GOGH UNIU (Bárbara Lia)

Sou poeta. É pouco para uma apresentação. Não. Não é. Poeta - Tracem o perfil - Crê em coisas belas, garimpeira de palavras sonoras. Esta palavra basta para que caia um míssil nesta página. A poeta coloca o papel na máquina. Máquina de escrever Remington antiga - soa bem mais romântico que computador moderno. A poeta decidiu narrar tudo, pois ela tem saudades de Van Gogh.

Van Gogh não mora mais aqui. Tinha uma ilusão bem tola antes destes eventos. Início do século XXI, afinal, o mundo sobrevivera às mil profecias. A poesia serpenteava meus dias e a alegria ainda brilhava em meus olhos. Devo dizer – Bárbara é poeta e tem saudades de Van Gogh...

Van Gogh não mora mais aqui.

Maio é o mais feliz dos meses. Brilha a essência de Eros sobre as areias do outono, brilha a chuva em cadência nas telhas. Brilha no jornal a notícia – A atriz e bailarina Ia Santanché vai apresentar nesta noite de sábado o espetáculo “O consultório do Dr. Gachet” baseado no livro – Cartas a Théo, do pintor holandês Vincent Van Gogh. Isto brilhou como um chamado. Eu havia lido “Cartas a Théo” e estava enamorada, seduzida pela loucura iluminada de Van Gogh. Extasiada diante de um céu de estrelas que se expandiam em círculos de luz. Um homem holandês no século dezenove que via as estrelas com uma nitidez transfigurada. Pensei em tantas palavras dele que li no livro e que martelavam minha alma de poeta:

“Com tudo prefiro pintar os olhos dos homens, mais que as catedrais, pois nos olhos há algo que nas catedrais não há, mesmo que elas sejam majestosas e se imponham, a alma de um homem, mesmo que seja um pobre mendigo ou uma prostituta, é mais interessante a meus olhos.”

Maio é o mais feliz dos meses e também o mais triste de saudades. Era a semana em que minha mãe faria anos. Há dez anos ela havia morrido. Eu me lembro que pensava nisto naquela noite andando pelo Largo da Ordem em Curitiba, em direção à Livraria Arcádia. A Livraria Arcádia fica na esquina das ruas Mateus Leme e 13 de maio. É uma livraria antiga. Eu estava distraída, nem dei muita atenção à poesia que existe no Largo da Ordem. Bem na frente da Casa Romário Martins - um museu branco e pequeno - existe um bebedouro de cavalos que está lá desde o tempo do Império. As ruas do Largo são de pedra, dos dois lados daquela subida que leva até o Relógio das Flores e às Ruínas de São Francisco existem bares com cadeiras nas calçadas onde os jovens e os artistas se reúnem para tomar cerveja. Aos domingos acontece a Feira de Artesanato, que todos chamam de Feirinha do Largo. Subi as escadas até o interior da Livraria. Não sabia naquela noite que iniciava um caminho até um livro com o nome de Van Gogh.

Sentei-me na primeira fila. Lembro que no palco havia uma cadeira, um rádio, um vaso de flores no canto, os girassóis de Van Gogh, era tudo muito simples. A janela estava aberta e pude ouvir o silêncio na rua de pedra.

Ia Santanché era diáfana. Fui lá pensando que ia ver uma leitura das cartas do artista e vi uma dança. Véus e Vela e Espanto e Candura. Uma demonstração de que a arte se liberta em formas e existem mil maneiras de dizer poesia. Ao final da apresentação ela reuniu todos os signos. O véu com que dançou. A flor que abraçou, o rádio em que alguns sons contribuíram para a peça, incluindo o tiro final. Ela colocou a cadeira, jogou sobre ela o véu e sobre ele os girassóis, a vela, um auto-retrato do artista e então lá estava o símbolo da morte: O túmulo de Van Gogh.

A cena do suicídio foi poética, ela simulou cair e no rádio havia o estampido do tiro, asas de corvos debandando do trigal aflito... Uma mistura de cenas, palavras, sons que fizeram a lágrima cálida cair em minha face, dançando aflita a dura verdade da dor do artista, de quem tem no sangue aquele brilho das estrelas que ele pintava. A canção que tocou no final, eu ouvia vez por outra. A música se chama Vincent (starry, starry night). Foi assim que a apresentação terminou e eu fiquei estática na cadeira, emocionada até a medula.

Decidi falar com Ia, quando já estava com o pé no primeiro degrau para ir embora, voltei e perguntei por ela. A moça da Livraria entrou em uma sala, logo ela surgiu com êxtase no olhar, suada, os cabelos claros e lisos e uma agitação que todo bailarino traz depois de sua dança. Apresentei-me como poeta e fã de Van Gogh e disse que havia escrito um poema para ele, e que queria enviar. Ela me passou seu e-mail e conversou comigo, disse alguma coisa como estar apaixonada pelos textos de Clarice Lispector. Voltei à rua. Vento gélido de outono em Curitiba, em mim uma emoção que fluía em cada poro, como uma descoberta, ou uma certeza de que aquela noite havia sido especialmente bela e que eu compreendia mais Van Gogh e sua loucura, o seu destino náufrago, o tiro, aquelas cenas todas. A música e o vôo de Ia ficaram por alguns dias em mim...
Maio/2001

Apresentação do livro - O que Van Gogh Uniu - Correspondências / Bárbara Lia - Ia Santanché (ed. 21 gramas / 2010)

(O Processo de Criação de um Monólogo ainda não encenado. Um encontro de duas artistas, duas mulheres, duas mães com alma livre. Um diálogo pleno de recortes para brilhar apenas o nosso diálogo de vários anos. Um registro que faço, destas cartas minhas e da Ia, no projeto 21 gramas)


Friday, May 07, 2010

Dulcinéia Catadora + Tv Cronópios



O livro-DVD H2Horas será um marco bacana para este Portal e seus usuários. Todos que participaram do projeto estão de parabéns. O lançamento do H2Horas em livro e DVD será em breve. Provavelmente no dia 1º de junho. Confimaremos a data posteriomente.
Pipol

 
O Coletivo Dulcinéia Catadora e a Tv Cronópios em uma publicação muito especial, a Antologia das poesias do Filme do Pipol - H2horas publicadas - Livro + Dvd.
Mais notícias no Portal Cronópios.
Feliz com a notícia do breve lançamento:
 

Le coup au coeur

Imagem - Rene Magritte




Rosa - flor platônica
gêmea da alma minha
geme acima dos muros
hipnotizando espinhos

Bárbara Lia

Noon/2010

Wednesday, May 05, 2010

Jornal Vaia



- Fernando Ramos é editor do Jornal Vaia e organizador do Festipoa - o n°29 - abril de 2010 - veio na minha bagagem e fiquei muito feliz em retomar José Paulo Paes em um artigo de Marcos Pasche -  A Poesia Íntima da Vida. Sidnei Schneider entrevista Antonio Cícero e o encarte central traz poesias do projeto de Lais Chaffe - Cidade Poema. Marcos Pasche entrevista Márcio André, etc. etc.
O Projeto Gráfico da edição - Fabriano Rocha.


.


Um poema de José Paulo Paes:

Não há nada mais triste
do que um cão em guada
ao cadáver do seu dono.

Eu não tenho cão
Será que ainda estou vivo?
pg. 5
Jornal Vaia n°29


Olhar Estrangeiro: Nova York

- clique para ler -

Olhar Estrangeiro: Nova York - Foreing Look: New York
Lenira Fleck / Liana Timm / Vânia Falcão
Terrítório das Artes - 2007
...
O livro acima - um dos que recebi das mãos de Liana Timm. Um livro escrito por três mulheres - Liana que é Arquiteta, Artista Plástica e Poeta. Lenira Fleck, psicanalista e Vania Falcão especialista em Literatura Comparada, traçaram suas impressões sobre Nova York.


-


Tentativa

um caracol
revoluciona o mundo
na solidão de ouvidos
irrepetível som anfíbio
quer da linguagem
originalidade primitiva
música faca
fundo zumbido
Liana Timm
p. 63 - Água Passante (Território das Artes/2009) -


Sunday, May 02, 2010

O lugar do segredo





O Lugar do Segredo - Bárbara Lia
(Teatro - ed. 21 gramas)

MULHER NA ÁRVORE



Mulher na Árvore*

Minha mãe nunca se masturbou.
Chovia.
A porta aberta.
Segui em direção a quem me é mais íntimo: São Judas Tadeu. A agulha da bússola do meu coração sabe onde é o norte por aqui. Canto direito primeira fila de bancos.
Escrevo no bloco azul, encharcada de chuva. Nem me benzi. Sentei ali como sento nos cafés: Aqui só tem pão e vinho tinto. A ratazana de sacristia me espia. Convocaria a Inquisição caso lesse os rabiscos – cena de masturbação.
Estou pura.
A cena é pura. Nenhuma imagem levanta o dedo em riste para mim, São Judas nem ao menos espia com o canto do olho. Dane-se a cantora de altar. Olhos de juiz pra cima de mim. Dane-se! Nunca mudam os hinos? Nunca mudam. Ainda é o mesmo. Sei-o letra a letra há décadas. Vai ser o mesmo quando eu sentar em outro banco outro lugar outra chuva daqui uma década. Começa a missa e a minha cena se adensa. O Padre diz uma poesia de São João e mexe no mais fundo daquela lagoa de lágrimas, uma salta assim ao final da poesia.



Deus é Amor
Quem permanece no Amor
Permanece em Deus
E Deus nele



Simples assim. Gota a gota absolvo-me.
A cantora ratazana arregala os olhos. Não sou feita de grifes pneus peças de computador porra e crack. Encaro-a. Quer um beijo de batom roxo para deixar seus lábios pura sexta-feira santa? O maior susto do dia dela, a mulher estranha molhada de chuva chora. Chorar – deplorar prantear arrepender-se derramar lágrimas lastimar-se exprimir dor tristeza ETCETERA
Sou o etcetera. Risco de não definição. O espanto coletivo me coloca na árvore gravetos e gravetos o canto das harpias no canto esperando. Alguém por favor, um voluntário é só ir até ali com a tocha, rápido, um voluntário. Harpias? Harpias apenas gralham não tem mãos de acender a chama nem para aniquilar o inimigo. Harpias declamam opus de escarro e odes de amianto, mas ficam estancadas em suas árvores. Covardes. Um voluntário, por favor, antes da chuva antes da chuva.
Chove. Fim de missa. Abraços incenso tremor de pavios amarelos. A cena, a cena e o bloco azul borrado. Lágrimas santas na cena maculada.
“Sempre me interrompe
Sempre
Tem um radar
Sempre me interrompe no ápice
(respira fundo olhos cerrados a dança sob os lençóis dedos ágeis olhos cerrados respiração suspensa goza)”
O céu tem cheiro de rio podre. Tietê ao amanhecer.
Minha mãe nunca se masturbou.
É matemática pura.
Lógica.
Minha mãe nunca se masturbou.
Zero chance.
Zero caloria na tabela do pecado.
A cena está modesta.
Escrevo ao final do bloco:
Reescrever a cena da masturbação
Luz.
Nossa Senhora é magnética.
Nunca olhei para ela ali, a leste do éden. Culpa de São Judas que me abduz. Meu outro eu somos das causas impossíveis.
Aqui está o livro da vida.
Procurem pela palavra – Impossível.
Não tem.
Não vou dizer nunca que escrevi a cena da masturbação no primeiro banco à direita - Catedral em dia de chuva.
Permaneço no amor.
*Menção Honrosa no Concurso Nacional de Contos Newton Sampaio – 2009 da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná.

 * Menção  Honrosa no Concurso Nacional de Contos Newton Sampaio/2009







- O conto - Mulher na Árvore -  virou cena:
 

- Cena #2 da Peça de Teatro "O lugar do Segredo" -  Personagens - duas mulheres (A e D)



SILABAS BÁRBARAS



(Inverno em uma igreja)



D – (mulher em pé diante de um piano em uma igreja, ao lado do altar)
– Minha mãe nunca se masturbou.
A – (mulher entra e senta-se no primeiro banco de uma fila de bancos encostados na parede atrás de um altar pequeno com uma imagem)
- A porta aberta.
Segui em direção a quem me é mais íntimo: São Judas Tadeu. A agulha da bússola do meu coração sabe onde é o norte por aqui. Canto direito primeira fila de bancos.
Escrevo no bloco azul, encharcada de chuva. Nem me benzi. Sentei ali como sento nos cafés, aqui só tem pão e vinho tinto. A ratazana de sacristia me espia. Convocaria a Inquisição caso lesse os rabiscos – cena de masturbação.
D - Estou pura.
A – A cena é pura. Nenhuma imagem levanta o dedo em riste para mim, São Judas nem ao menos espia com o canto do olho. Dane-se a cantora de altar. Olhos de juiz pra cima de mim. Dane-se! Nunca mudam os hinos? Nunca mudam. Ainda é o mesmo. Sei letra a letra há décadas. Vai ser o mesmo quando eu sentar em outro banco outro lugar outra neve daqui uma década. O padre fala, concentro-me na poesia de João apóstolo enquanto minha cena se adensa.
Deus é Amor / Quem permanece no Amor / Permanece em Deus / E Deus nele.
Simples assim. Gota a gota absolvo-me. Seco uma lágrima.
Permaneço no amor. A cantora ratazana arregala os olhos. Não sou feita de grifes pneus peças de computador porra e crack.
(pausa para deglutir o olhar)
Quer um beijo de batom roxo pra deixar seus lábios pura sexta-feira santa?
Sou o etcetera. Risco de não definição. O espanto coletivo me coloca na árvore gravetos e gravetos o canto das harpias no canto, esperando. (pausa)
Fosse a Idade média e eu já estaria queimada na árvore...
D - Alguém, por favor! Um voluntário. É só ir até ali com a tocha, rápido, um voluntário.
A - Harpias? Harpias apenas gralham não tem mãos de acender a chama nem para aniquilar o inimigo. Harpias declamam opus de escarro e odes de amianto, mas ficam estancadas em suas árvores. Covardes.
D - Um voluntário, por favor, antes da chuva antes da chuva.
A - A cena, a cena e o bloco azul borrado. Lágrimas santas na cena maculada.
D “Sempre me interrompe – Sempre - Tem um radar - Sempre me interrompe no ápice”
A (fala enquanto escreve no bloco)
Respira fundo olhos cerrados a dança sob os lençóis dedos ágeis respiração suspensa - goza (pausa)
Zero chance. Zero caloria na tabela do pecado. A cena está modesta. Escrevo no final do bloco:
Reescrever a cena da masturbação.
D - Minha mãe nunca se masturbou. É matemática pura. Lógica.
Minha mãe nunca se masturbou.
A - Luz.
Nossa Senhora é magnética.
Nunca olhei para ela ali, a leste do éden. Culpa de São Judas que me abduz. Meu alter-ego, somos das causas impossíveis.
Não vou dizer nunca que escrevi a cena da masturbação no primeiro banco à direita – Catedral em dia de chuva.







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O Lugar do Segredo - Peça de Teatro  - A cena extraída do conto Mulher na Árvore (Menção honrosa no Conc. Nacional de Contos Newton Sampaio) O subtítulo desta peça pode ser - Quero Ser Emily Dickinson - o enredo é uma via-sacra, via-crucis - as estações não são aquelas bíblicas - são as estações do ano mesmo. Nesta caminhada nada sacra,  a personagem central decide se isolar de tudo e viver como Emily Dickinson. A personagem central não encontra o seu lugar, crê que não existe um lugar. O lugar do segredo é este que a poesia habita. Esta clausura, por isto a cena final é um diálogo com Emily Dickinson. A peça foi escrita durante a oficina com Roberto Alvim.  Passei 2009 neste ciclo de angústia e busca e desejo, para chegar à conclusão que já tenho romances a serem escritos, ideias arquivadas há muito, a poesia e um caminho que não pode bifurcar mais e mais.
Para registro desta passagem - um livro artesanal. A quem interessar possa, esta minha peça de teatro. A imagem da capa é da artista plástica catarinense - Ana Luisa Kaminski.