Thursday, December 31, 2009

I CONCURSO LITERÁRIO “CONTOS GROTESCOS - PRÊMIO EDGAR ALLAN PÖE




Última notícia do ano:

Meu conto "Set" foi premiado no I Concurso Literário "Contos Grotescos" - Prêmio Edgar Allan Pöe".
O resultado do concurso está na página do site - Contos Grotescos:

http://www.contosgrotescos.com.br/principal/

Além da antologia com o conto - Mulher na Árvore - do Concurso Nacional de Contos Newton Sampaio - SEEC (PR) - outra antologia com este conto -
Set - "Antologia - I Concurso Literário 'Contos Grotescos' - Prêmio Edgar Allan Pöe".

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Revirando a gaveta...



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Minha mãe nunca permitiu que eu visse o sangue, antes que eu sangrasse. Nunca me permitiu ir de encontro com a cena, rasgar meus olhos de jabuticaba com o vermelho das amoras mortas. Nunca a menina percorreu o caminho que leva ao poço profundo da dor humana. Onde a vida não é a rosa pele das bonecas que eu trucidava. Eu tinha o aroma do início. Eu queria descobrir o início do movimento dos olhos azuis da boneca, do choro latente dentro, rangendo em agudo uma nota áspera. Tolo choro irritante que arrancava com minhas mãos de artesã de fadas. Eu preferia as fadas – dibujos mios - com seus brincos de gotas de orvalho e asas das borboletas da esquina do encanto. Para que bonecas de olhos azuis de vidro? Eu tinha o reino inteiro das farfalhantes musas e dos centauros brancos. Eu tinha arco-íris metálicos onde eu pendia de meus trapézios brancos e valsava com anjos acenando para National Kid do outro lado do globo. O primeiro sangue era a minha alma fêmea de cor ardente forte, rubro, pingente de vida, vencendo a malha, caindo chuva no áspero cinza.

Então veio o tempo de entregar e receber de volta o coração. Esgarçou o zíper, de tanto abrir e fechar, recauchutar as fibras, lavar os cortes.

Minha mãe não queria que eu visse o sangue. Minha mãe plastificou-me por fora. Dentro, eu continuei tecendo liberdade de sangrar sempre. A revisão periódica do meu coração, abrindo e fechando o zíper - fecho éclair gasto. Rezando solenemente às fadas da infância que o anjo celta não me arranque os olhos e nunca examine o mecanismo que faz arder o meu choro, pois eu preciso de uma trégua, mesmo que seja agora - roto fecho éclair, costelas gastas.

A última vez que se estende o jardim e convoca a orquestra. Quem sabe ele é o grande astro que vai encerrar com chave de ouro a festa?



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Cigarras no apocalipse

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Quando o poema emerge

Estridente

Emudece o verão

Escurece a primavera

Incendeia o outono


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Poetas são cigarras

No apocalipse

Sempiterno som

Canto que incomoda

Sacode as esfinges

As filosofias vãs

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Canto ecoa em muralhas pagãs

Invade corredores

Cola ao som o aroma hortelã

Das festas de antes

Arranca lágrima cinza

No silêncio laranja de Guantánamo

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O som ardido trinca o sol

Escorre gema zelosa

Nas chagas das crianças

Da África inteira

Canta a primavera afogada

Da vida ceifada.

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A cigarra segue

No apocalipse sem volta

Anoitece areias de Fallujah

Todas as ruas da Faixa de Gaza

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Cigarras no apocalipse

São poetas em desalinho

Gestados no ventre escuro

Ninfas subterrâneas

Emergem em canto e vôo

Ao som da trombeta

De um anjo sem olhos.

Bárbara Lia

Tuesday, December 29, 2009

O ano de Emily Dickinson

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Passei o ano de 2009 deslumbrada com Emily Dickinson.
Esta poeta estupenda e enigmática.
Foi um ano complexo.
Há pouco escrevi um texto criptografado.
Deletei.
Desde o início deste blog tento mantê-lo apenas como um portal para minhas poesias.
Vez por outra extrapolo.
Preciso separar a mulher Bárbara da escritora Bárbara.
Sei que este é o tempo da exposição total.
De dizer tudo para todo mundo ler.
Nunca pensei usar o blog como diário.
Eu prefiro mostrar apenas o que filtro como matéria artística.
Poesia. Prosa. Um romance. Uma crônica.
Eu sou apenas uma mulher que viveu meio século e que escreve.
O blog nasceu com esta finalidade. Postar meus poemas.
Então chega 2009 - o ano pesado e longo e cheio de coisas positivas e negativas e questionamentos.
2009 - o ano do estranhamento.
Li uma complexa e estranha poeta, fiz parte de um complexo e estranho projeto, escrevi uma novela complexa e estranha e o ano também termina estranho e complexo.
O melhor a fazer é dar um tempo.

Desejar a todos que seguem e lêem o Chapar as Borboletas toda a paz no ano que desponta.
E deixar uma poesia da dama refinada e complexa que me convida a fechar as portas por um tempo, recolher-me na paz da poesia e recuperar o êxtase.
Eu que sempre vivi extasiada.
Para voltar a crer que a vida é um milagre.

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Algo existe num dia de verão,
No lento apagar de suas chamas,
Que me impele a ser solene.

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Algo, num meio-dia de verão,
Uma fundura - um azul - uma fragrância,
Que o êxtase transcende.

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Há, também, numa noite de verão,
Algo tão brilhante e arrebatador
Que só para ver aplaudo -

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E escondo minha face inquisidora
Receando que um encanto assim tão trêmulo
E sutil, de mim se escape.

Emily Dickinson

Tradução de Lúcia Olinto

Camelot!




Sean Connery e eu

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Sean dança comigo

Na casa suspensa

De janelas andantes

Cercada de sóis

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Sean sorri girassóis

Liberta todos os bemóis

Da orquestra das estrelas

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Gestos dele – Iluminura –

Rei Arthur em sua armadura

Cavalga o silêncio

Atravessa pontes de aço

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Sean Connery depois da batalha

Esquenta seus pés gelados nos meus

E me cobre com estrelas e nuvens

Enquanto me rasga dentro a mostrar

O quanto dói - em delícia – amar!

E amar Sean Connery dói bem mais.

Bárbara Lia

Sunday, December 27, 2009

o Alentejo lá fora - foto de Ana Mestre


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Quem faz um poema abre uma janela.

Respira, tu que estás numa cela abafada,

esse ar que entra por ela.

Por isso é que os poemas têm ritmo

- para que possas profundamente respirar.

Quem faz um poema salva um afogado.

Mário Quintana

Thursday, December 24, 2009

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Presépio, 1931

Cândido Portinari

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Fio d’água na calha
Faz girar a roda dos sonhos
Água que move a engrenagem
Opera o milagre de dezembro:
Presépio na minha aldeia
Nunca soube o que Maria e o Menino
Tinham a ver com o monjolo triste
Mas, evocava vida

- Esta cena em mim persiste

Bàrbara Lia

Monday, December 21, 2009

no portal cronópios...

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Para ler o meu conto - Mulher na Árvore - Menção Honrosa no Concurso Nacional de Contos Newton Sampaio - 2009. clique aqui.
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Tangência de ferros nos trilhos rasga em uma ternura que ofende de tão bela. Existirá paisagem de dor mais fecunda que trens rasgando trilhos?

Zelda Fitzgerald
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"...Olho para os trilhos e vejo você chegando - emergindo da névoa e bruma, suas queridas calças amarrotadas correm com pressa para mim - Sem você, muito querido, queridíssimo, não enxergaria nem ouviria nem sentiria nem pensaria..."

Amante, Amante, Querido

Sua esposa

Trecho da carta de Zelda Fitzgerald a Francis Scott Fitzgerald.
fonte - http://literatus.blogspot.com

Sunday, December 20, 2009

Terapia Cult


Acordar em uma manhã de domingo e ver no Telecine Cult o filme - Idolo de Cristal (Beloved Infidel) -
Débora Kerr que Gregory Peck.
Débora é Sheila, uma colunista social que conhece o escritor F. Scott Fitzgerald em um jantar entre amigos e realmente quer que ele peque (impossível não lembrar a canção de Rita Lee) a garota britânica acaba por se tornar a amante de Fitzgerald. Ele tenta escrever roteiros em Hollywood e não emplaca. O produtor diz - Scott, você é um grande escritor. Vá escrever romances...
O escritor precisa ganhar muito dinheiro para pagar a clínica psiquiátrica onde está internada sua esposa Zelda, bem como o colégio interno da filha. Com a ajuda da amante ele vai viver em Malibu para fazer o que sabe - escrever um romance. Morre de ataque cardíaco antes de concluir - O último magnata. O livro foi publicado em 1.941. Terapia Cult qualquer filme sobre escritor. As agruras são sempre as mesmas e os descaminhos, idem. Você pensa - quem sou eu pra reclamar se o Fitzgerald passou por isto.
"O Grande Gatsby" e "O Curioso Caso de Benjamin Button" baseado em um conto dele que foi publicado no livro - Tales of the Jazz Age- grandes sucessos à altura do nome de Fitzgerald para marcar sua passagem pelo cinema.
Quero ler - Esta valsa é minha - o livro da Zelda.


Thursday, December 17, 2009

hermanas

Bia
Ane Fiúza - artista plástica que ilustrou o livro Noir
Lu Grasso - nos conhecemos aos dezoito anos
Simone Rezende - minha amiga de fé irmã camarada


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Um ano termina e outro começa e as mesmas figuras maravilhosas estão lá. Muito tempo pode passar, décadas e uma vida. Por isto eu quero dividir com quem lê este blog alguns rostos e nomes de quem ajuda a tornar mais terna esta minha vida. Há uma ausência da ternura no mundo. Falava sobre isto com minha irmã Fátima lá em Sampa. Quando contei sobre o Bortolotto e o assalto e quando falei quanto ele era íntegro (no sentido épico mesmo) ela emendou - Este é o processo, daqui pra frente. As pessoas boas vão ser aniquiladas e vai ficar mesmo só os que abraçam este tipo de vida. A matéria acima de tudo, o sucesso acima de tudo. Senti um frio na espinha. O jeito é ir em frente e acreditar que ainda há espaço pra ternura, poesia, gente que encanta. Tem muita gente mais que eu gosto de encontrar. E ternura maior não há que ouvir a Edith Camargo cantar. Fui com a Ilse Bastos (falta a foto dela e de outras pessoas queridas) ver Sing Song semana passada. Paz. Luz. Flanar dentro de uma canção francesa e pensar - é isto. Tudo no mundo é uma questão de escolha. Cantar uma canção diferente, ainda que não seja aquela que canta toda a gente. Quero fazer isto com minha poesia, - que ela seja uma canção tão terna e tão pura quanto a voz da edith, um piano, uma harpa... E a gente atravessando a vida, com os amigos eternos e a força que ainda nos resta...

Milhões de eternidade cabem num suspiro - Emily Dickinson


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Carnaval no Clube 10 - Campo Mourão
Com o sobrinho Dudu em uma rua de Curitiba
Casa de uma amiga em Londrina
Tocando flauta na praia - Aracaju

- hoje abri o álbum antigo de fotografias - cenas de Bárbara Lia.