Thursday, December 29, 2005

perseguião - sylvia plath













SYLVIA PLATH - 1932-1963


PERSEGUIÇÃO


(SYLVIA PLATH)

Há uma pantera que me espreita:
Um dia, dela, terei a minha morte;
Sua cobiça incendiou o bosque,
Ela ronda divinamente como o sol.
Suave, passo que desliza mais suave,
Avançando, sempre, nas costas
Do esquelético arbusto, gralhas coaxam:
A caça começou, acionou a armadilha.
Rasgada por espinhos atravesso pedras,
Fatigada pelo fogo branco do meio-dia.
Ao longo da rede vermelha de suas veias
Onde corre fogo, que desejos desperta?


Insaciável saqueia a terra.
Condenada pela culpa ancestral,
Chorando sangue, deixando o sangue ser derramado;
A carne a inundar a ferida crua de sua boca.
Alegrar os dentes afiados e doces.
A fúria chamuscante da sua pele;
Seus beijos ressecam, cada pata uma roseira brava,
A morte consome o apetite,
Na vigília desse bicho feroz,
Inflamadas como tochas para sua alegria,
Mulheres jazem carbonizadas e em delírio
Tornam-se iscas de seu corpo faminto.


A ameaça está na porta, gerando sombra;
A meia-noite encobre o bosque sufocante.
O saqueador preto, puxado pelo amor;
Em ancas fluentes mantém minha velocidade
Espreita o ágil, numa emboscada dos sonhos.
Brilham as patas que destroem a carne;
E faminta, faminta, patas estendidas
Seu ardor me prende, ilumina as árvores.
A luz irrompe minha pele,
Que pausa, que frescor pode me colocar no colo,
Quando o olhar amarelo queima e incinera?


Eu arremesso meu coração para deter seu passo,
Para extinguir sua sede eu desperdiço sangue;
Ela come, mas sua necessidade busca comida;
Com pele, um sacrifício total.
Voz em tocaia soletra em transe
A floresta destruída vira cinzas;
Horrorizada por um secreto desejo, corro
Tal a agressão do resplendor
Entrando na torre dos meus medos.
Fecho minhas portas naquela culpa escura.
Tranco a porta, cada porta eu tranco.
Sangue acelera, como um gongo toca em meus ouvidos:


Os passos da pantera estão na escada
subindo as escadas.


Tradução de PURSUIT - Maikel Denk e Bárbara Lia

Tuesday, December 27, 2005

à tua espera

...
Á TUA ESPERA


Nem percebi
e era o fim da trilha.

Não me adiantei com fogo
e coberta
e já se fazia noite.

Não enchi o cantil na fonte
e era só deserto.

Segui a estrela e estrela não era,
era o farol da última ilha
antes do inferno.

O jasmim plantado
floresceu em cacto.

Acreditei
na letra da canção
e era falsa a tradução.

Agarrada à pedra esgarçada,
medito homéricas saídas.

Bastava olhar abaixo
no fim do abismo
a rede-manto-verde.

Mil vezes tecida em noites em claro,
despistando amores vadios.

- Sussurro de Penélope a me dizer,
todo engano – até mesmo a pedra –
era pura tessitura à tua espera.
_ Bárbara Lia_

fotografia by jeff sheldon

aniversariante




--
GOSTO DE CHUVA


Para a terra a chuva é doce.
Para a fonte, confidente.

Para a criança, bolinhos com canela,
lareira, histórias.

Para os sapos - uma festa!
Para mim - alma lavada.


Para quem dorme a chuva tem
a magia do canto das sereias.

- Bárbara Lia -
Um poema terno para Tahiana - minha filha -
que hoje está de aniversário.

Monday, December 26, 2005

claudio b. carlos

candido portinari

.

AINDA QUE POBRES


Sim
haveremos de ser felizes
nesse mundo onde uma minoria bem vestida
desfila diante de uma maioria maltrapilha.
Sim
haveremos de ser felizes
de erguer casas, ainda que humildes
constituir família
pôr os filhos em escolas, ainda que públicas
vê-los crescer e serem felizes
ainda que pobres.

Poema de Cláudio B. Carlos (CC).

Friday, December 23, 2005

Fato
























GRUPO FATO
em pé - Gilson Fukushima, Alexandre Nero,
Zé Loureiro Neto e Ulisses Galetto.
sentadas - Priscila Graciano e Grace Torres.

Tuesday, December 20, 2005

um poema





fechar a mão
sensação
de estrela triturada
na palma
espocando surdamente

fechar a mão
rasgar a linha do destino
na seta norte
da estrela triturada

agora não há mais bússola
agora não há mais rota
mulher-gôndola extraviada
no lago-céu

fechar a mão
triturar oráculo
reter na palma
estrela fragmentada


depois soprar
a energia morta
na enxurrada fria
do teu escárnio


BÁRBARA LIA

Saturday, December 17, 2005

aniversariante

















márcio melo


chá em chávena chinesa
lençóis de linho
jardins ingleses
sonatas em pianos tristes
damas trágicas
dispenso o cenário da realeza
a nobreza inteira
se resume em uma criatura
-meu chá, lençol, jardim e sonata
o vento do desejo assola
meus pêlos e alma
secretos caminhos
em chama clamam:
o chá, o jardim e a sonata.
- Bárbara Lia -
.
Levezas de sabores e cores para Paula - minha filha - que hoje está fazendo aniversário - todos os meus filhos nasceram em dezembro, e mesmo o meu conto da coluna semanal é materno...
- Anjo de aço:

Thursday, December 15, 2005

Márcio Claudino

Meu amigo Márcio Davie Claudino da Cruz é o primeiro colocado no
Concurso de Poesia Helena Kolody 2005 - 15ª edição. Da Secretaria
do Estado da Cultura.
Parece que foi ontem que nós conversamos sobre a primavera de Bandini-
Espere a primavera, Bandini...
Parabéns ao Márcio, nesta primavera.
Um poema do Márcio que foi segundo colocado no concurso Leminski
do Cead Lapa em 2.000:
.
NOS DESCAMINHOS DA PALAVRA
*
Nos descaminhos da palavra
Estava escrito que céu é êxtase mirrado de sono azul.
Céu às vezes rubricado por raio de luar
E da estrela da manhã,
De brusquidão e lusco-fusco de navegação tenebrosa.
Nos descaminhos da palavra
Um reiventar o agonizante desfecho da tarde
E os solos de música derreada das charnecas.
Nos descaminhos da palavra,
Desaprender a cada dia o nome das coisas.
Nos descaminhos da palavra a palavra poesia dá sinônimo
À pedra...
Travesseiro onde descansar a cabeça mirrada da górgona...
Envio o meu coração embalsamado na urna memorial que voa.
Mando-te em veludo
A conta das dores dos dias em que te conheci.
Dias em que o descaminho da palavra amor
Nunca tanto significou
Colapso
*
- Márcio Davie Claudino da Cruz -
O resultado do concurso - que teve categoria Nacional e categoria Paraná - recebi a notícia do Márcio, e agora entrei no site e descobri que o Ricardo Corona - deve ser ele com este Miguel que eu não conhecia, mas, o concurso nacional foi vencido pelo editor da Oroboro - o poeta Ricardo Corona, e na categoria Paraná - my best friend - lindo - Márcio - com todo o respeito de suas musas - e do meu menino - que não se arda em ciúme e nunca deixe de assobiar Bach e ler seus poemas ao meu ouvido, nem de me cobrir de mel com sua íris mutante - um dia verde de vidro - no outro - mel silvestre - Primavera!
Os vencedores são:
Os premiados no Concurso Nacional de Poesia “Helena Kolody”, foram:
1º lugar: Inscrição nº 393 - Ricardo Miguel Corona - “Aspa, aspas” (PR)
2º lugar: Inscrição nº 564 - Marcus Vinícius Quiroga - “Estudo para Aleijadinho” (RJ)
3º lugar: Inscrição nº 442 - Carlos Augusto Bonifácio Leite - “Na casa dos Desprovidos” (MG)

Os premiados no Concurso Nacional de Poesia “Helena Kolody” CATEGORIA PARANÁ, foram:
1º lugar: Inscrição nº 356 - Márcio Davie Claudino da Cruz - “Ando com a pulga”.
2º lugar: Inscrição nº 018 - Miriam Adelman - “Memória”
3º lugar: Inscrição nº 391 - Ricardo Miguel Corona - “Um saco de gato, poesia, cão e prosa”
.
- Márcio anda com a pulga - vai que eu desisto de tomar aquela cerveja para comemorar...
Sem pulgas, Márcio. Please! Hoje estou animada, o céu de Curitiba está da cor dos olhos de Helena Kolody - um dia o Hélio Leites me saiu com esta:
Quando o céu está assim azul é quando Helena Kolody acorda mais cedo e lá do céu olha por todos nós, os poetas.
Esta mulher bela, que eu vi uma única vez, talvez no último lançamento dela, eu com o livro dela em minhas mãos, ela me olha e diz:
- Você é poetisa?
- Sou. Respondi. Então ela me explicou por muitos minutos, do seu começo, de quando guardava papéis sulfite até armazenar o suficiente para lançar um livro, que eu nunca desistisse. Como desistir Helena? Diante deste azul, do amor que em mim baila, de meus filhos sorrindo em luz na minha sala, dos meus amigos verdadeiros que nunca vão manchar a minha imagem com as falsas idéias de quem não sabe que a gente pode matar a pessoa - borrar a sua imagem - mas, nunca nunca a sua poesia. Como não esquecer Helena do seu carinho _ à inspirada poetisa - Bárbara Lia.
Ela fazia questão que a chamassem de poetisa, e me deu conselhos, e me deixou este recado, para não desistir nunca.

Wednesday, December 14, 2005

aniversariantes





ao meu grande, único e verdadeiro amor


que meu amor não seja pra ti pesado fardo
antes borboleta em seu ombro delicado
triste um dia parti e eis-me agora intacto
ficam espinhos enquanto caem flores do cacto
venha entregue a mim, meu jugo é suave
você lembra tudo que me fez sentir saudade
meu coração viu estrelas no céu da sua cidade
olhe-as na minha pra ver como sou de verdade
pena que pra tanto amor tão pouca vida
é menos que o meu sentir tudo que eu diga
pudera foras como eras outrora, querida
pluma leve que o tempo leva sem ser ferida

Marcos Prado
1961-1996



VOCÊ

Labirintos de estrelas do mar.
Minérios de rosas,
Não seriam jasmins?


O livro se abre em ninfas
Quebrando suas estruturas
Era sempre mentira!


Não enxergas na polpa do absoluto...

Na sombra do helicóptero a luminosidade

Você desaparece na solidão.


Thomas Gabriel


Dia 15 de dezembro - há dezessete anos nascia meu filho Thomas.
Neste dia, nasceu também Marcos Prado.

Antenas da raça - associei esta definição de Pound, ao quadro acima,
de théberge, antenas da raça, nós os poetas, rosas chamuscadas,
antenas leves, sensíveis, à chuva, ao vento, aos raios, assim,
flor hasteada embebida em vida, recebendo tudo acima da lona
negra, vivendo e morrendo e vertendo tudo nessas palavras.
Este canto de amor meu, a Marcos Prado, que não conheci, ao
Thomas que é tudo em mim.

Monday, December 12, 2005

MÃOS DE ABRIR NUVENS












- Salvador Dali -


MÃOS DE ABRIR NUVENS



Ter mãos de abrir nuvens
Romper o velcro de baunilha
E espiar
Dentro a catedral
Dos sonhos
Um rito de encanto
Crianças e lagos
E mapas emaranhados
A Sexta Avenida
Deságua no Eufrates
E as barcas cruzam
De Bagdad ao Mojave
As mãos se enlaçam
Negras brancas
Amarelas azuis.


Ter mãos de abrir nuvens
Descobrir a alma de neve
E perfume
Que se fazem
Pássaros
Camelos
Bailarinas.


Quem possui mãos de abrir nuvens?
Quem rega pedras
E pesca pássaros
Em tempestades
E ancora no alto
Da montanha mais alta
Suas caravelas.


Quiçá Penélope,
Sem manto, grilhões e espera.
A abrir nuvens
Além da torre de concreto
Em pleno azul
Entre a brancura espumada.
Mãos de mulher livre
A abrir o velcro
Da humanidade encantada.


- BÁRBARA LIA -

(O sorriso de Leonardo - Kafka ed. baratas - 2.004)

Thursday, December 08, 2005

haicais

*

Vovó recita “O corvo”.
Sala na penumbra. Tic
Tac. Arrepios.


*
Velas içadas.
Chegada? Partida?
Tudo é viagem.

*

Meninos na ponte.
Reunindo peixes
Com migalhas de pão.




Estes poemas curtos são de 1.998.
Do fundo do baú.
Iustração - aldeia de pescadores - DiCavalcanti.

Tuesday, December 06, 2005

frida e eu

Quando li a biografia de Frida Kahlo em 1.992, abalos sísmicos dominaram minha alma. Eu me vi em um espelho. Todo o pensamento dela encaixava em mim como luva, e, toda a sua dor eu compreendia como se fosse minha. Tivemos poliomielite - Frida e eu. Passionais, loucas pela maternidade. O que não foi possível para Frida em consequência do acidente que sofreu, eu vivi em plenitude - ser mãe. Ela morreu em 13 de julho de 1.954, eu nasci um ano depois, por muito tempo eu considerava a grande possibilidade de ser mesmo reencarnação de Frida Kahlo, considerando que aquilo que ela mais sonhou naquela vida, aconteceu na minha de forma mágica e de forma tão fecunda que nem faz parte de meus escritos, não conseguiria narrar, é o meu éden precioso - os três filhos  - por que são tão ternos e tão meus, e tão carinho sempre, como se eles fossem um prêmio, como se me devolvessem algo perdido. Certa vez, nesta dor de nunca ter o amor do amor, eu escrevi alguma coisa assim pensando em Frida - que poderiamos amalgamar nossas vidas - Eu lhe daria os filhos que ela não teve - Ela, o amor do meu amor, que eu nunca tive. Mas, tudo isto é piração total de poeta louca. No entanto, ainda sinto medo de olhar no espelho e ver Frida, e espero o meu Diego - menino-amor-ciência-exata... para assobiar Bach e ler as suas frases resgatadas de um mundo que não existe, entornando a poesia na minha coluna cansada, agora que as crianças cresceram e vão voar, com suas próprias asas.

=

Trechos do diário de Frida Kahlo - Pintora Mexicana:



''Diego está na minha urina, na minha boca, no meu coração, na minha loucura, no meu sono, nas paisagens, na comida, no metal, na doença, na imaginação.''
.
''Acho que é melhor nos separarmos e eu ir tocar minha música em outro lugar com todos os meus preconceitos burgueses de fidelidade.''
.
''Toda esta raiva simplesmente me fez compreender melhor que eu o amo mais do que a minha própria pele, e que, embora você não me ame tanto assim, pelo menos me ama um pouquinho - não é? Se isto não for verdade, sempre terei a esperança de que possa ser, e isso me basta...''

(Em referência a Diego)

.

''Para que preciso de pés quando tenho asas para voar?''
.
A última entrada em seu diário:
''Espero a partida com alegria... e espero nunca mais voltar... Frida''


Poema do diário de Frida:


Diego. princípio

Diego. construtor
Diego. meu bebê
Diego. meu noivo
Diego. pintor
Diego. meu amante
Diego. meu marido
Diego. meu amigo
Diego. meu pai
Diego. minha mãe
Diego. meu filho
Diego. eu
Diego. universo
Diversidade na unidade.
Porque é que lhe chamo
Meu Diego?
Ele nunca foi e nem será meu.
Ele pertence a si próprio.

Monday, December 05, 2005

À SOMBRA DOS MURAIS EM FLOR (para Frida Kahlo)


À SOMBRA DOS MURAIS EM FLOR
(para Frida Kahlo)

(Cravos na pele
os seios
a coluna jônica
a pele tolteca
os pregos
os pregos
via-crucis
expiação)


Pinto em palavras
A tua dor.
Sonho teus sonhos.
Vivo os maremotos sutis.
As espinhosas horas
Que nos traz o amor.

Pinto girassóis de aço.
Espumas.
Estrelas.
Vou colorindo
Com vulcânicos
Abraços
A solene tela
(Riso-sol de meu Diego,
À sombra
Dos murais em flor)
-Bárbara Lia-

Saturday, December 03, 2005

giuliano fratin / mosiah schaule



Os pianos derretendo com a Lua
Pediam perdão à música e à forja
Enquanto perdiam suas notas
Por fendas de raras volúpias
No alto de uma sinfonia amena


*

Havia uma casa ofegante
Construida a alguns palmos acima da água,
Por suas janelas que abriam e fechavam
Entrava o denso ar dos solitários,
Dos seus telhados de cana já furados pelo tempo
Saíam cisnes de neve clássica;
Lá morava uma velha com cabelos de lã,
Ela falava que para curar o mal
Daquele povo de cinco almas
Era preciso usar Camono com cravo.


Giuliano Fratin / Mosiah Schaule
CURITIBA - PR(Lúdico Psicodélico Surreal - edição dos autores - 2.003)

Friday, December 02, 2005

elsilencio del poeta




















claude théberge


EL SILENCIO DEL POETA

Tu silencio refrenda el amor. Oírte decir – ¡Te amo! No me sonaría tan claro. Tu silencio que llega en estos rayos negros. Mirada de flechas que trae en olas una sinfonía de Vivaldi.
Es la primavera siempre, aun sin oír - ¡Te amo!
No se movieron sus labios, apenas tu mirada y alma.
Me amas cuando te callas, Y no estás ausente como en el poema de Neruda. Cuando te callas, todo en ti es un grito de sol, pues tienes alma incendiada y tienes dentro del corazón este amor que se quiere callado, pero que emana, en cada mirada, en invierno, otoño Y primavera cálida.
¡Brilla! Siempre como una luz y siempre, siempre, siempre, fue apenas y tan sólo tu alma susurrando – ¡Te amo! – a mi alma.
Bárbara Lia

Thursday, December 01, 2005

à margem do sol






















ardour - claude théberge


À MARGEM DO SOL


Cuido que nosso amor não seja estrela morta.
Rego a lua, aro estrelas, fumaça ao redor.
Camisola de pérolas, pés descalços.
Pergaminhos perfumados
recebem a escrita de anjos invisíveis:

"A poeta ara estrelas, mãos aladas,
rega a lua, jatos de brisa perfumada.
Cuida que a lua seja girassol
estrelas floresçam em rosas azuis.

Colore vulcões extintos - vasos de luz.
Prepara frutos para um banquete à margem do sol.
Nua, solar, à espera da tarde antiga
(dois poetas, poente, rosas azuis)"

Bárbara Lia

Wednesday, November 30, 2005

marcos prado




Begônias Silvestres


Marcos Prado.


O sumiço de sua silhueta amiga
Fez meu perfil baixar a cabeça
As cores da tarde, cinzas, cinzas
As luzes da noite, negras negras.


Desaparecer não é pra qualquer um
Só você, misto de mistério e dúvida
Pode estar em lugar nenhum
E ainda me tocar, por música.







Foi uma noite linda, a noite do lançamento-homenagem a Marcos Prado - o livro Ultralyrics, organizado por Felipe Hirsch, lançado pela Travessa dos Editores, encerrando com o show do - Beijo AA Força - e quando o vocalista disse que daqui cem anos as pessoas estarão lendo Marcos Prado, eu pensei na menina Chiara - personagem do meu romance finalista do Prêmio Sesc de Literatura - 2.004 vai se apaixonar pela poesia de Marcos Prado daqui a duzentos anos.
Ivan Justen leu Begônias Silvestres, o meu poema preferido, e Tadeu, Roberto Prado, Rettamozo, Solda, e outros fizeram a noite ser como há muito não se via uma noite em Curitiba - noite com sol.

Saturday, November 26, 2005

thomas gabriel



















Meu primeiro blog era - aysha guerreira - aiysha em árabe é vida - eu tenho mesmo uma vida guerreira e um grito de contestação contra os rumos do mundo dentro da alma... quando eu inaugurei o chá, foi em um início de março, eu decidi que não queria mais nada além do poema azul e borboletas, eu despi a guerreira e ressuscitei a menina que tomava chá com borboletas à sombra dos eucaliptos, no tempo que não sabia das guerras, mas, vez por outra eu grito, e invado o azul com a dor do mundo, pois é tudo canção e vida de Bárbara. Na terça-feira quando mandei minha crônica para o site não sabia ainda que ia reencontrar meu amigo Frei Betto. Sincronias! Notícias e desejos, de que o mundo seja mais humano, e a poesia é esta erva que cura o coração rasgado. Por isto no site vejo são josé, eu falo da fome e da notícia - seis milhões de crianças morrem de fome a cada ano. A vida segue e seria sonhar demais que esta notícia se calasse? Que os propósitos se tornassem reais, que as nações, os homens, a natureza, e até as borboletas não tivessem paz enquanto esta notícia se calasse? Os calabouços se quebrem para o mundo ressurgir? Thomas, meu filho, era uma criança quando escreveu este poema - O Amanhã... onde não haja calabouços, que não são só paredes que nos tornam escravos do anátema cruel, estamos presos à isto, eu penso, era dor de saber que seis milhões de crianças morrem de fome a cada ano:


- O anátema cruel:

http://www.vejosaojose.com.br/barbaralia.htm

AMANHÃ


Thomas Gabriel



Ao grito de breve piedade
Ao ver a neblina

Se parte o jarro
Distraído sobre a navalha

Os calabouços se quebram
Para o mundo ressurgir.


Thomas Gabriel

*************



Pássaros azuis piscam
Na noite de postes apagados
Em forma de cristal.

Seu brilho vira vitral
Freiras desaparecem

Do santo funeral

- Thomas Gabriel



***



O xale da velhinha vira
Pó em chaleiras de vapor

Com pitadas rápidas de chuva.


Thomas Gabriel



Thomas Gabriel tem dezesseis anos e gosta de rock e está cursando o ensino médio e quer ser arqueólogo, aos treze escreveu estes poemas. Ele é o filho caçula da Bárbara Lia.

Thursday, November 24, 2005

hilda hilst / bárbara lia
















infinite woman - juan miguel giralt-



Vida da minha alma:
Um dia nossas sombras
Serão lagos, águas
Beirando antiqüíssimos telhados.
De argila e luz
Fosforescentes, magos,
Um tempo no depois
Seremos um só corpo adolescente.
Eu estarei em ti
Transfixiada. Em mim
Teu corpo. Duas almas
Nômades, perenes
Texturadas de mútua sedução.


HILDA HILST

(Cantares de Perda e Predileção - São Paulo: Massao Ohno & M. Lydia Pires e Albuquerque Editores, 1983)


***


acordes rascantes do amor em goles.
chávena com alfabeto fenício - início.
olhar de mel silvestre
e este curvo instante,
brancura do éden erguida
distante da rua de pedra.
vôo primeiro,
asas do flamingo a roçar o ar
em dilúvio de flores.
chuva azul debaixo da mesa.
castanholas, vermelha dança flamenca
acordando a lua.
ar gélido da rua nos desperta,
a noite começa com um sol sem juízo.
chaleira chia,
dança em meus olhos
o teu sorriso.

- Bárbara Lia -

frei betto

a
s
a
s

d
a

i
m
a
g
i
n
a
ç
ã
o.

paradise - birds - juan miguel giralt











Noite passada foi esta pequena estrofe que Frei Betto recitou durante o lançamento de seu livro "Treze contos diabólicos e um angélico" que ficou martelando minha cabecinha.
...

.
Ó Noite que guiaste!,
ó Noite amável mais do que a alvorada!,
ó Noite que juntaste
Amado com amada,
amada nesse Amado transformada!

Ele estava falando sobre os místicos e comparou a paixão com o arrebatamento dos místicos como Santa Tereza D'Ávila e São João da Cruz. E da diferença - que na paixão, o objeto do arrebatamento está fora de nós, embora a gente sinta dentro, e no arrebatamento místico que leva os Santos a um colóquio com Deus, tudo está na mesma criatura. Encontrei o poema que ele citou, e achei muito belo, decidi copiar o poema inteiro.
Das duas vezes que encontrei Frei Betto foi puro acaso, se é que existe acaso. Eu me correspondia com ele, durante quase quatro anos, quando cheguei ao Fórum Social Mundial, em janeiro deste ano. Em meio à marcha de abertura, ao lado dos hare krishnas e de jovens da Venezuela, alguém me entregou um panfleto dizendo que no dia seguinte haveria um seminário com Frei Betto, em um Seminário no centro de Porto Alegre. Não estava na programação oficial. Se eu não apanhasse aquele papel, talvez não tivesse conhecido pessoalmente o Frei Dominicano e Escritor com quem eu me correspondia e que se tornou um amigo que guardo como um presente de Deus. Quando escrevi ao Frei Betto jamais imaginei que ele me responderia, mas, dá para saber se alguém é um escritor já nesta pequena experiência. Um escritor verdadeiro responde a uma carta. Frei Betto respondeu e iniciou a ponte, nem mesmo quando ele foi Assessor do Presidente Lula, ele deixou de encontrar uma brecha para me dizer olá, um dia ele me escreveu do avião entre Frankfurt e São Paulo, pois ele não tinha tempo na correria, nem para escrever seus livros, que foi a principal razão de sua saída do governo. Em Porto Alegre, foi como encontrar um velho amigo, conversar rapidamente com ele antes da palestra e ele me indicar os debates onde estaria, e acabei seguindo a trilha paralela da programação do Fórum Social. Voltei de Porto Alegre e virei a mais relapsa das amigas, nem mesmo um cartão de aniversário enviei ao Frei neste ano. Ele nasceu dia 25 de agosto, um dia depois de mim, quer dizer, onze anos antes, ele é do ano em que Deus estava inspirado – 1944 – ano em que nasceram Henfil, Leminski, Chico Buarque, Frei Betto...
Ontem eu liguei o meu rádio e ouvi – na 97,1 – rádio Educativa - que ele ia lançar seu novo livro no Teatro da Caixa Econômica. Fui lá, sem grana prá comprar o livro, mas, ele me presenteou com seu livro de capa vermelha. Um Frei que narra treze contos diabólicos - e um angélico. Comecei a ler, e estou amando. Maior mico pedir desculpas por nem ter mandado um cartão de aniversário, nem ter dado parabéns a ele pelo segundo lugar no Prêmio Jabuti deste ano com o livro de crônicas Típicos Tipos. Nem mesmo o poema que fiz para Frei Tito Alencar - Lamento do Álamo - que foi a primeira pessoa para quem eu pensei em mandar, e fiquei enrolando e não escrevi a carta, como se agora eu só soubesse usar o mouse, e como ando estranha e tão ligada neste mundo virtual a ponto de ler na embalagem do panetone, que eu adoro, mas, estava escrito lá – Chocottone Mousse- e eu li mouse, e depois reli e pensei que isto é grave, que estou vendo mouse até no supermercado.

Então, expliquei tudo para meu amigo e pensei em como tenho sido cruel com meus amigos, não respondi à carta iluminada que Pedro Carrano enviou de Chiapas, não dialogo mais com as pessoas sobre a luta que a gente acredita, a de um mundo melhor, e a poesia, por mais que eu ame estar mergulhada neste místico estado de amor com o poema, vai me desculpar, que meus amigos de hoje em diante vão ter um pouco mais da minha atenção.
Foi muito delicioso ouvir algumas coisas – que ainda não sabia – sobre como ele compôs alguns livros. Incluindo – Entre todos os homens – que é uma biografia de Jesus baseada nos Evangelhos, onde ele torna Deus realmente humano, um homem de vinte e oito anos que dança na festa de casamento onde ele fez o primeiro milagre, transformando a água em vinho, e, segundo Frei Betto, pela pesquisa minuciosa que realizou sobre todo o século I na Palestina, ele crê que Jesus e Maria Madalena viveram um amor afetuoso, mas, que não –transaram-
Ele crê no celibato de Cristo, diferente de Saramago e alguns cineastas. Penso que é possível que duas pessoas se unam em espírito apenas, por uma afinidade que pode se chamar amor. Foi uma noite especial, rever um amigo e me sentir muito especial com sua dedicatória.
“o diabo não merece a nossa fé, mas você merece a minha amizade”
Ando acreditando em demônios demais, e estão quase me convencendo que sou uma pessoa horrível. É preciso que um amigo distante chancele antigas palavras, que uma passeata por um mundo melhor ecoe, que as minhas dúvidas até mesmo sobre o amor que Frei Betto respondia, em cartões, me consolando, me fazendo acreditar que amar é mesmo uma coisa divina, incluindo este amor – homem/mulher –
como um arrebatamento qual aquele que nos une a Deus – A paixão:


NOITE ESCURA

São João da Cruz


Em uma Noite escura,
com ânsias em amores inflamada,
ó ditosa ventura!,
saí sem ser notada.

estando minha casa sossegada.
A ocultas, e segura,
pela secreta escada, disfarçada,
ó ditosa ventura!,
a ocultas, embuçada,
estando minha casa sossegada.


Em uma Noite ditosa,
tão em segredo que ninguém me via,
nem eu nenhuma cousa,
sem outra luz e guia
senão aquela que em meu seio ardia.
Só ela me guiava,
mais certa do que a luz do meio-dia,
adonde me esperava
quem eu mui bem sabia,
em parte onde ninguém aparecia.


Ó Noite que guiaste!,
ó Noite amável mais do que a alvorada!,
ó Noite que juntaste
Amado com amada,
amada nesse Amado transformada!

No meu peito florido,
que inteiro para ele se guardava,
quedou adormecido
do prazer que eu lhe dava,
e a brisa no alto cedro suspirava.


Da torre a brisa amena,
quando eu a seus cabelos revolvia,
com fina mão serena
a meu colo feria,
e todos meus sentidos suspendia.


Quedei-me e me olvidei,
E o rosto reclinei sobre o do Amado:
tudo cessou, me dei,
deixando meu cuidado
por entre as açucenas olvidado.
(tradução de Jorge de Sena)

Wednesday, November 23, 2005

before night falls














- Para um escritor solar que como eu amava a lua - esta branca pele de lírio que clareia tudo - até os tristes.


" Oh Luna! Siempre estuviste a mi lado, alumbrándome en los momentos más terribles; desde mi infancia fuiste el misterio que velaste por mi terror, fuiste el consuelo en las noches mas desesperadas, fuiste mi propia madre, bañándome en un calor que ella tal vez nunca supo brindarme; en medio del bosque, en los lugares más tenebrosos, en el mar; allí estabas tu acompañándome; eras mi consuelo, siempre fuiste la que me orientaste en los momentos más difíciles. Mi gran diosa, mi verdadera diosa, que me has protegido de tantas calamidades; hacia ti en medio del mar; hacia ti junto a la costa; hacia ti entre las costas de mi isla desolada. Elevaba la mirada y te miraba; siempre la misma; en tu rostro veía una expresión de dolor, de amargura, de compasión hacia mí; tu hijo. Y ahora, súbitamente, luna, estallas en pedazos delante de mi cama. Ya estoy solo. Es de noche. "
.
Fragmento de "Antes que anochezca" - do escritor Cubano - Reinaldo Arenas que nasceu em Cuba - 1.943, morreu em New York em 1.990 - vitima de Aids, dissidente do regime da Ilha de Cuba, foi o único que conseguiu abalar a minha fé no socialismo da Ilha, diante da crueldade de sua prisão. Ler -Antes que Anoiteça- fez despertar a paixão pela Literatura de Arenas, uma escrita visceral que introduz a poesia com uma facilidade de quem pesca pássaros com as mãos e coloca as palavras como uma música ritmada, o próprio Arenas na infância pobre cantava melodias que ele inventava, com letras que já eram poemas seus e levou sua professora a descobrir muito cedo sua veia poética. Em Havana encontrou José Lezama Lima (que inveja do Arenas!) e Virgilio Piñera que o ajudaram com a publicação do primeiro livro. Preso por ser gay ele descortinou o lado negro - que todo governo possui - e me fez viver com ele em um bosque de Havana no tempo em que viveu escondido, durante os dias nas copas da árvore e nas noites vagando no bosque, com apenas papel e caneta que um amigo lhe trazia - e ele dizia - de que mais precisa um escritor?
Os contos dele onde o realismo fantástico permeia, ele seduz. Sempre leio os autores de lingua espanhola, apaixonada pelo idioma, decifrando a musicalidade e a poesia que contém a língua.
E impossível não se revoltar com a dificuldade que viveu Arenas por ser um gay em Cuba:
"E o que foi feito de mim? Depois de ter vivido 37 anos em Cuba, estou agora no exílio, padecendo de todas as desgraças dessa situação e esperando uma morte iminente. Por que tanta fúria contra todos nós que um dia quisemos romper com a tradição trivial e com a monotonia cotidina que têm caracterizado nossa Ilha?" - Reinaldo Arenas em Antes que anoiteça.

Before Night Falls - O filme baseado no livro, estreado por Javier Bardem não deixa de ser tocante, não tanto como a literatura de Arenas, mas, em uma madrugada sem sono, liguei a TV e comecei a reconhecer aquele início de história, um menino pobre em um país que lembrava Cuba, esperei e confirmei - era a vida de Arenas - e a interpretação de Javier Bardem tornou o filme belíssimo, toda a trajetória dele, as lutas, a prisão fétida, um homem no bosque vagando, escondido, sua fuga, sua solidão, e seus amores, tão ternos quanto todos os amores. Antes que anoiteça foi traduzido em tantos idiomas que encontrei a edição em grego para ilustrar esta pequena homenagem, aos escritores, estes verdadeiros que se enfurnam em qualquer lugar e vivem qualquer vida, e mesmo na condição mais estranha e triste atiram essas jóias eternas, os livros onde pulsa o sangue das artérias, o suor e lágrimas fecundas e alerta ao que deve ser mudado, nenhuma fé ou nação tem o direito de interferir na liberdade do ser, quando esta liberdade não ofende a liberdade do outro... é o que penso, em silêncio sempre que penso na escrita iluminada e profunda e forte e inteligente e poética deste cubano.

Monday, November 21, 2005

chá para as borboletas
















la vie en harmonie - marcio melo



CHÁ PARA AS BORBOLETAS
(BÁRBARA LIA)



TRANSPARÊNCIA


No instante do milagre
Segredos descem penhascos,
Espelhos, memórias, casas.


Trechos da vida à beira da ruína
Todos guardam para si.


Ninguém é transparente feito água Ouro Fino.


PULMÃO DE DEUS


Sussurro suave ao redor, nuvem
de seda embalando astros.
Aqui, onde respira a vida



perfume de malva, silêncio de córrego
entre pedras. Ar lúcido de luz.



DIÁFANA


O som do oboé abafa
a melodia da caixa de música.
Cristal filtra o raio lilás
do sol que adormece.


Bicicleta atirada na calçada,
velhinho com olho antigo
no horizonte.


Abraço a vida quando o dia acaba
refrescante e calma.


cerro cortinas diáfanas
beijo tua foto desejando beijar tua alma.



MISANTROPO


Tempestade á vista, vento abissal.
Recolher as roupas do varal.


Penetrar a gruta de cristal
onde a voz de Deus ecoa.


Incenso, cantata de Bach.
Equilíbrio = solidão total.



SEGUNDA MORTE


O pelotão avança, cascata de passos
Em adágio, botas resvalando relva.



Coração acelera. O homem calvo cobre
Meus olhos. Aguardo o fim.


Lembro negro olhar em chamas, encanto.
Fatal certeza... Morrer? Já morri por ti.



LEQUE DE NUVENS PARA O DEUS DAS ONDAS



O leque de nuvens se reflete
na areia de mármore.
Alento de tarde pagã.


Distante, a carranca do deus das ondas
escureceu o mar.


O coqueiro se eriça.
Cais sobre mim


feito neve nos Alpes.
E a tarde abraça o nosso abraço.


(Alguns poemas do livro "Chá para as borboletas"
ainda inédito)



Saturday, November 19, 2005

ala de cuervo





















Passion - Nijinski

- Márcio Melo -


AZZURRO

quando as noites fugirem
e o sol trouxer luz eterna
e os montes se anelarem de névoa argêntea
e as ruas de flores se banharem
e os homens se enlaçarem sem armas ou temores
quando o inverno guardar seu manto frio
e os cálices transbordarem de vinho santo
e as árvores arderem em chama rósea
de tanto sol de tanto sol
fogo de amor, de amor
rosa, vermelho, escarlate e vinho...
o azul vai florir
entre chamas que crepitam
vai bailar - Nijinski entre lírios
rosas, orquídeas, margaridas
o azul vai brilhar - bailarino
no palco de sol em chama
azul-amor - tua alma e minha alma
enlaçadas na dança festiva
amor que vence tudo e se transforma
em flama azul de colore e música.


- Bárbara Lia -

Azzurro foi publicado -em espanhol no site abaixo:
- Ala de Cuervo - editado na Venezuela por Eva Feld y
Teódulo López Meléndez:

http://aladecuervo.net/logogrifo/0507/sem1/cuatro_poetas.htm


A crônica semanal no site - Vejo São José:
- O inverno de 1.969 -
http://www.vejosaojose.com.br/barbaralia.htm

Tuesday, November 15, 2005

deus no orvalho





















Vou pintar os cabelos e comprar uma roupa de sol.
Eu - Tahiana, de rosa- Paula, de azul.
Rosas vermelhas que minha mãe cultivava.
Duas meninas gulosas comendo gelatina.
Rosas segredavam coisas que eu jamais sonharia...

há quem diga que as rosas não falam...




DEUS NO ORVALHO
(para Jorge Luiz Borges)




Jardim perfumado de Istambul.
Sol intolerável beija a rosa azul
no vaso branco, dois cães cor da lua
ao redor.
Teus olhos se perdem na rosa nua.
Olhos da cor do Mar Cáspio na aurora.
Gota de orvalho baila na pétala.
Cristal.
Ponto no espaço – Aleph
descortina o universo.
Sonhos enxertados de sóis, desertos,
aromas, fauna, primavera, borrascas.
Todo universo na gota clara
que cobre a rosa. A lágrima desce solar
ao lábio carmesim, e o peito arde de amor e luz.



Bárbara Lia