Tuesday, March 30, 2010

Dos frutos



Deus semeia seres
Como minha mãe
Semeava hortaliças

Deus derrama gelo na alma
Como as antigas geadas
Nas gramas brancas

Lá estava a mãe
A espalhar água nas folhas
Com seu regador de latão

(Degelar folhas no inverno
Molhar a terra revirada no verão)

As folhas a tudo suportavam
Um belo dia floriam
Um belo dia frutificavam 
- súbito - assim - do nada - 
Nas manhãs areadas.


Bárbara Lia

Friday, March 26, 2010

Festipoa



A terceira edição do evento já tem data marcada
Vai rolar de 20 a 25 de abril.
Alguns dos escritores com presença já confirmada: Alexandre Rodrigues, Altair Martins, Amilcar Bettega, Antonio Xerxenesky, Cardoso, Cíntia Moscovich, Laís Chaffe, Lima Trindade, Marcelo Spalding, Monique Revillion, Ronald Augusto, Xico Sá, Wladimir Cazé. O homenageado deste ano será o ficcionista e tradutor Sérgio Faraco. 

Vou participar da Festa Literária de Porto Alegre - lançando meu livro -  A última chuva.
Vou pra Porto Alegre, tchau!
Breve sai a programação e coloco aqui no meu espaço azul.
Meu projeto novo - dos livros artesanais - tenho desejos de sair por aí lançando meus livretos, mas, é livro sob encomenda. Isto não impede um encontro poético em Porto Alegre e que eu leve algum livro para quem desejar -  abro esta possibilidade para todos. O meu projeto pode ser conhecido aqui.
Penso levar até Sampa quando do lançamento da Antologia H2Horas, em maio - ir viajando com eles e apresentando estas novas - crias -Ouro & Céu - toda poesia que saltou da minha pele poros vísceras olhos alma sexo cicatriz pulmões braços pernas espanto encanto mágoa e delírio amor e amor e mais amor, que nunca me falta, vivo encharcada de amor até os ossos.

Thursday, March 25, 2010





Lá vai o trem com o menino
Lá vai a vida a rodar
Lá vai ciranda e destino
cidade e noite a girar
Lá vai o trem sem destino
pro dia novo encontrar
(Ferreira Gullar/Villa-Lobos)


Pensamos - Viagem!
Ele abre o baú de partituras
e delineia em minhas costas
ou ventre

ou coxas
canções sinfonias
fados tangos.
A que mais amei?
- o trem -
de Villa-Lobos
o trenzinho caipira - corta
minhas ondulações

matas
declives.
Sente o vento?
O perfume da serra?
rasca de nuvens
vão de carona
nos lábios dele
pelas notas
pelos trilhos
pelos pelos
pela pele
e tudo termina
em suor do amor evaporado
borra minha virilha
rasura o Lá extraviado.
A vida palpita
aquém além da cortina
da cabine perfumada

- fim da viagem!


Bárbara Lia
-ed. 21gramas

Sunday, March 21, 2010

Dia de Lorca

José do Carmo Francisco (Portugal)  enviou-me hoje - Dia Internacional da Poesia -  uma bela poesia para Garcia Lorca, que publico logo abaixo. Sincronias. Hoje eu estava embasbacada lendo um pequeno fragmento de uma poesia de Lorca - no livro - Bodas de Sangue - Um belo prefácio que finaliza falando da conferência que Lorca proferiu em Havana em 1930...
...
"Segundo o poeta "duende" é um tipo de poder oculto capaz de falar através  de todas as formas de arte, inclusive da arte da personalidade. "É força e luta; não se trata de idéias ou temas; ou o temos dentro de nós, ou não o temos, o 'duende" vem de dentro, desde a sola dos pés." "Duende" seria carisma, magnetismo, encanto, graça e, ainda "não sendo anjo nem musa, é descendente daquele melancólico demônio de Descartes e do daimon socrático benigno, palpitante, o alterego, em suma"; é aquilo que Goethe dizia ser "um poder misterioso que todos sentem e nenhum filósofo explica". "Solo se sabe que quema la sangre como um tópico de vidrios, que agora, que rechaza toda la dulce geometria aprendida, que rompe los estilos. (...)"
Ao discorrer sobre o conceito em Havana fica clara a consciência do próprio gênio , que Lorca, aliás, já sintetizara em outros versos:

Por que nasci entre espelhos?
O dia dá voltas ao meu redor
E a noite me copia
Em todas as suas estrelas.

Presente na sua obra e na sua personalidade de forma avassaladora esse "duende", como atestam as palavras de Luis Buñuel, decorridos trinta anos da morte do poeta:

- De todos os seres humanos que já conheci, Federico foi o mais impressionante. A beleza fluía dos seus lábios. Ele era a paixão, a juventude, o amor. Era como uma chama.
Bodas de Sangue - ed. Peixoto Neto Prefácio de Ilka Marinho de Andrade Zanotto
...

Sobre o livro - O que é Poesia? Um comentário do José do Carmo Francisco - aqui.




...



Lorca no caminho do Montijo


Era pelo Inverno de cinquenta e sete.
No Porto Alto um homem de capuz e oleado
segurava uma lanterna com dois vidros pintados
e fazia alto com a outra mão.
A ponte sobre o Sorraia era de madeira
e só passava uma camioneta de cada vez.
Não havia ao tempo muitas Mercedes Benz
de cor verde e com a chapa do Estado.
Meu pai saudava o homem entre a chuva
e desejava-lhe uma boa noite impossível. 

Se recordo estes passos e rituais
dos caminhos desse tempo
é porque aquele lugar marcava para mim
o principiar da circulação de uma temperatura
que me fazia lembrar Lorca.
Eu tinha aprendido a ler nos jornais.
Meu pai trazia-os à noite para casa.
Terá sido num «Diário Popular»
que li um texto sobre o poeta assassinado.
Mesmo sem conhecer os seus poemas
comecei a sentir naquele espaço
a respiração do verde e do vermelho,
a relva sem fim e o sangue dos touros,
o pó levantado pelos cavalos breves,
os gritos dos campinos sempre longe
e a noite sempre negra e sempre longa.

Mais à frente, a caminho do Montijo,
respirava o sal de Alcochete,
o sabor conservado de uma angústia serena,
a ideia imaginada de que estes campos verdes,
estas oliveiras e este som da alegria
rente à raiz de tudo
poderiam ter sido caminho
do poeta Federico Garcia Lorca.

Ainda hoje não sei porque cavaram
tão depressa os cabouqueiros da morte.
Sei que entre o Porto Alto e o Montijo
algures entre verde e verde
uma sombra esguia faz sinal aos deuses
e os deuses param.
Lorca poderia ter morrido aqui
à porta desta taberna, a caminho do Montijo.
José do Carmo Francisco

http://www.triplov.com/poesia/carmo_francisco/index.htm




Lorca en mi corazón (Bárbara Lia)

Gazal de espumas
treze constelações rimadas
clave de Fá escondida
na estrela mais clara

Touro triste dança
ao manto de mariposas
vomita rosas, chora arraias

Lua desfia-se
incinera seus raios
em luto andaluz

Corcéis golpeiam
o vento perfumado
que acariciou o poeta
em noites lendárias:

Cinzas levitam
acima do fogo eterno:

Lorca en mi corazón

Saturday, March 20, 2010

Réquiem






Abstrata


O caminho abstrato
leva
às verdadeiras
paisagens

Há quem vá a Roma,
sem ver Roma
Há quem vá ao amor
sem enxergar o amor

Há quem venha a mim
sem ver a mulher inteira
e codificam os gestos
e atiram ao vento meu nome

Nunca me viram no real
espelho
além da carne dos olhos

E eu não tenho a chave
que abre as portas
da minha alma.

Bárbara Lia

-reunindo poesias para a próxima coleção - Ônix & Cereja. edições 21 gramas - capa -foto do poeta Isaias de Faria - Réquiem - vai reunir poesias de dor e mágoa incluindo o longo poema - Réquiem - publicado na Revista - Ontem Choveu no Futuro - n° nada, editada pelo poeta Douglas Diegues e pela jornalista Cristina Livramento.

Alto Madeira

clique para ler

Tuesday, March 16, 2010

das perdas

Chorei a semana inteira estas perdas precoces. Meu primo Zé estava de aniversário, o primeiro depois de sua morte. Minha amiga Ângela morreu, lá em Recife. Quase uma década sem sentar com ela e falar das coisas que mães batalhadoras falam. Um nó na garganta. Não dou conta da minha vida, de tudo que acontece assim, tsunamis - uma hora pétalas; em outras punhais e dores. Saudade.
Saudade do Digão, como o Cássio Amaral dizia. Pra mim foi sempre Rodrigo. Um amigo. Um site-homenagem foi criado e fiquei feliz em saber que vamos agora rastrear os passos  do menino que tinha um cachorro azul e um amigo chamado Rimbaud. Passei a semana a sós entre estas paredes brancas lembrando as tardes com minha amiga Ângela, quando ela dividia sua casa e seus filhos comigo, naqueles domingos onde os  meus filhos pequenos iam visitar o pai. Natais onde eles não estavam comigo e ela dizia - venha pra cá comigo e os meninos. Lembro do meu encanto quando vieram de Recife e os filhos a chamavam de mãinha... um mundo diferente, ela foi casada com o poeta Carlos Barros, ela morreu cedo demais. O Rodrigo morreu cedo demais, meu primo Zé Tadeu, tanta gente vive como um cometa, rasga a saudade quando vai, mas, fica assim esta evocação silenciosa, esta vontade de dizer da falta e o desejo de que estejam em paz em outra esfera. 


PRÊMIO UFES DE LITERATURA 2009/2010

 
 
Recebi um email com o resultado do Prêmio UFES de Literatura, mandei algumas poesias com a esperança de ganhar livros (Livros da ed. UFES - Universidade Federal do Espírito Santo) estou entre os selecionados, dez poesias inéditas vão para as páginas da antologia que vai ser lançada em abril.



Por ordem de classificação, abaixo relacionamos, a título de conhecimento:

Lino Machado
Maria Amélia Dalvi
Bárbara Lia Soares
Márcio-André de Souza
Sonia Maria Martins Cezaro
Rubens Cavalcanti da Silva
Isabel Florinda Furini
Cezario Caldeira Saiter
Carlos Alberto Pessoa Rosa
Nelson Martinelli Filho

Ilha do medo


-

Começou quando vi Leonardo Di Caprio interpretando Rimbaud. Apagou a imagem adolescente-perfeito do Titanic. Começou com uma sequência de papéis que ele agarrava e interpretava apagando lentamente aquela saga adolescente e navio e enamorados flanando acima do mar verde.
O novo filme de Scorcese vem consolidar - pra mim - esta força da interpretação de Di Caprio. O filme fantástico dá de dez a zero nos oscarizados e imprime do primeiro ao último minuto o pavor dentro da gente, transporta-nos a alas de psicóticos e dentro de uma ilha com o clima de filme horror e medo. A potência de um cineasta que te insere na trama, você mergulha - à revelia - no enredo e por mais que seja denso, no final tudo evapora em  uma cena quando a paz brilha - sentimento vivo. Como se também saíssemos de um labirinto escuro pra um dia qualquer, sentados em uma escada ampla e esperando que os fantasmas do tempo nunca voltem.
O elenco é fenomenal e foi uma espécie de redenção pra quem anda meio desanimada com os filmes em geral.


A última chuva





 
À MEIA-NOITE CHORAREI


À meia-noite chorarei.
Por que sou poeta,
chorarei.
No sonho verei velhos amores,
pensarei no infinito finito,
e seguirei.
Vez por outra lembrarei
a voz do irmão caçula:
Esta estrela de Davi
na palma esquerda
significa - protegida pelos céus.
Eu não sou mesmo
uma folha perdida,
nem fera ferida,
nem livro esquecido na estante.
Sou uma maluca elegante
que bebe a vida
bebe a vida.
E segue - sede gritante -
mochila gasta atrelada às costas,
poesia minha bagagem,
sendo apenas compreendida
pelos que fazem a mesma viagem.


- A última chuva - Mulheres Emergente/2007

Sunday, March 14, 2010

O sal das rosas






O QUE ME PERTENCE


O que é maior que eu
faz parte de mim.
A chuva cabe no mar,
a areia no deserto.
Sempre foi assim.


O que é maior que eu
abraço feito fosse Deus.
As coisas pequenas vazam.
Choro por elas, uma noite talvez.


No outro dia
sol clareia a alma.
Descubro o que é meu


para sempre. Os sonhos, as lembranças.
Nossos passos calmos na areia.
O riso dos meus filhos, isto me pertence.

Bárbara Lia
 
(acordei pensando nesta poesia)

Friday, March 12, 2010

O rasurado azul de Paris - Poesias para Rimbaud

Catedral de Rouen - Monet
.
.

.

quando ele corria

pelos telhados de ardósia

as pombas arrulhavam

em ventania

seu casaco - vela sacudida

estremecia

a maré da monotonia

.

Bárbara Lia