Thursday, December 27, 2007

A ÚLTIMA CHUVA DE 2007

ilustração - Ane Fiuza


Não vivo o ritmo dos calendários.  
Novos tempos nascem como as crianças e a gente se aquece com o deslumbramento, mas, o novo também precisa ser cuidado, necessita o acalanto - desde a hora de limpar o líquido placentário até o instante do aconchego e do aleitamento. Devo amamentar, cuidar, zelar por um novo tempo... Eu o chamo: tempo da delicadeza.

Mas, o tempo que corresponde oficialmente a 2007 foi especial, com direito à publicação de - O sal das rosas - e - A última chuva - muitos recitais, muita troca... A notícia boa da publicação do meu romance -Solidão Calcinada - no primeiro semestre de 2.008. Andar pela XV com aquela sensação gostosa *minha vida sempre passa pela XV* mais uma vez eu atravessei a rua das flores com um transbordamento de felicidade...

A pintura é da Ane Fiuza - minha amiga artista plástica - ela leu - A última chuva - e desenhou a Bárbara ali.

NO CAMINHO COM MÁRCIO CLAUDINO






1. O poeta nasce poeta?


Essa é uma questão de duas faces, simples e complexa ao mesmo tempo. Eu gosto de pensá-la a partir de uma dicotomia entre a essência e a linguagem... nesse sentido eu acredito que existem poetas que nascem poetas e poetas que se fazem poetas, tendo essa essência latente ou não.
Por essência entendo algo que nasce com o poeta, uma qualidade nata do espírito, no poeta (é como o ponto de partida, o que alguns chamam de “talento” ou “dom”).
Por linguagem entendo aquilo que é adquirido ao longo do tempo, os recursos técnico-formais. As ferramentas concernentes ao uso da língua e a aquisição desses recursos fazem parte do aprimoramento do poeta; é a leitura, o estudo, a experiência da arte, a aplicação de um conhecimento de tudo o que envolve a experiência poética, desde as formas tradicionais até as formas de seu tempo. Assim, o poeta descobre os usos da língua e desenvolve habilidades de artesania pela utilização correta e variada das formas.
Mas a aplicação dessas técnicas é vazia se não existir em sua base o espírito essencial. Afinal, da essência brota a sensibilidade; a essência é o coração do poema e a linguagem é a sua consciência; a essência humaniza o poema, a linguagem o participa; há poetas que “se fazem”, “se tornam” poetas através da linguagem, porém só os nascidos com esse “dom”, esse signo, esse vírus, nascem poetas.
O poeta da essência é o “ser” a condição de poeta; o poeta da linguagem “está” na condição de poeta; mas se alguém pode “se condicionar” como poeta pelo uso refinado da linguagem e da forma, e disso resultar uma poesia pretensiosa e vazia, também o poeta que fica apenas na essência e não se aprimora na aquisição de linguagem, estaciona; como pretender transmitir de maneira bela por meio de lugares-comuns, imagens desgastadas, palavras literais? Por mais que a condição nata de poeta lhe seja peculiar ele esbarrará na falta de recursos que permitem que a sua criatividade seja ampliada. É a velha máxima de que “não é o que se diz, é como se diz”. Nesse sentido, “A POESIA É A FORMALIZAÇÃO DE UM SENTIMENTO; A QUESTÃO É FORMULAR ESSE SENTIMENTO DA MELHOR MANEIRA POSSÍVEL, A MAIS BELA”.
Qual é a resposta, qual é o melhor caminho a seguir então? A consonância das duas frentes. Juntar as partes, deixar que corram paralelas. Não deixar a essência morrer, renová-la com o processo da linguagem, do estudo; a essência abre o caminho para a linguagem, pois ela está ali, desde sempre, ainda que a poesia, às vezes pelo caminho inverso, seja “descoberta” através da linguagem, do estudo (o que considero mais raro); acredito que o poema se realiza plenamente quando é fruto do encontro da essência com a linguagem, quando no poeta se harmonizam o espírito apolíneo, o artífice, com o princípio da ess~encia, do gênio, o visionário, aquele do melhor devaneio, das zonas turbulentas do ser, do sonho e da vida.
Ou, dizendo isto de modo mais simples: quando se percebe na composição de um poema o trabalho lapidar que o poeta fez, o domínio da técnica aliada a um dizer intenso, vibrante, que toca o leitor na mente e no coração. A ausência de linguagem em um poeta de essência implica que o poeta possa VER as imagens autênticas, mas não saiba compô-las e expressá-las, projetando-as no papel; por outro lado, a ausência de essência num poeta mais inclinado à linguagem implica que o poeta seja menos privilegiado da visão de imagens originais e belas, mas consiga compor algo similar, artificial, que resultará, muitas vezes, em algo hermético ou em uma poesia “do acaso”, isto é, errática, que de repente acerta em um ou outro sentido por mera combinação de palavras, sem origem, sem um coração ou motor primário.
O risco para a poesia é que este poeta da linguagem ao servir-se desses recursos obstaculize o acesso à própria essência da poesia, á sua verdade, recobrindo em camadas de linguagem o núcleo essencial, fazendo com que a poesia perca a sua força vitalizadora, pelo mero encanto com sons, ritmos, experimentações lingüísticas e formais que configuram um produto tão hermeticamente construído pelo intelecto que esconde o que a poesia deve ter de regenerador.



2. Descobrindo seus pares (influências, feira do poeta, início...)


A poesia sempre me viveu como um conteúdo latente e isso eu descubro quando me remeto às impressões da infância, aos cantos escuros em que eu costumava me esconder para brincar, para cantar ou para chorar; então ela sempre existiu nas canções, nos filmes, nas pessoas, nos seres, na natureza, nos fatos e nas coisas. Quando eu era criança fazia versos de improviso para as tias em reuniões familiares de domingo. Essas primeiras manifestações poéticas pueris desapareceram completamente na adolescência, um período muito estranho da minha vida em que me sentia inapto para tudo, deslocado de tudo, sem saber como ser ou estar; isso fez com que eu me afastasse de tudo e de todos, me isolando; parei de estudar e me fechei completamente, morei em uma chácara; fazia pequenos serviços rurais como canteiros de hortaliças; conversava e convivia com pessoas muito simples, colonos da região; pescava e caçava; perto do lugar onde costumava pescar tem uma pequena igreja no alto de uma colina onde quando não estava a fim de nada eu ficava meditando; depois a poesia voltou com muita força a partir dos meus 20 anos, na década de 90; daí as primeira formas, os primeiros ensaios, as primeiras imitações do que eu achava que era poesia; surgiram os primeiros contatos com a cena local da poesia, as primeiras impressões do que é considerado cânone e a tradição e o frescor da poesia produzida nas últimas décadas, principalmente anos 70 e 80. Em 93 comecei a freqüentar a Feira do Poeta de Curitiba, da FCC, onde participei de algumas oficinas literárias e conheci o Adriano Smaniotto. Formamos um grupo de poetas, o Intervenção, do qual participavam minha irmã Patrícia “Pagu” Claudino, o Fernando Koproski, a Alessandra Kalko, o Diogo “corpo” Marques, a Tatiana Robaina e mais tarde o David Nadalini. Nos organizávamos por ali na feira, em torno do Marcos Sabóia e do Palito. O Marcos foi uma figura muito importante para nós na época, tipo assim um guru. O palito fez os primeiros livros do Adriano, do Fernando e do David. Poesia é da ordem xamânica. Conheci o poeta Rollo de Resende e apesar de nossos contatos rápidos ele foi um poeta que me influenciou pela carga vital de seus poemas e de sua própria condição de “ser” poeta nos gestos e atitudes. Também nessa época comecei a me corresponder intensamente com uma escritora e maga poderosa de São José dos Campos, a Josefina Neves Mello, que significou muito para mim, humana e literariamente. Uma coisa que eu prezo muito são as referências, a autenticidade das coisas. Eu não esqueço. Borges disse em sua última entrevista que os escritores são embusteiros (no sentido do fingir, da fabricação). Acredito que o fingimento é montado em cima de algo muito caro, muito autêntico ao escritor/poeta, o que lhe confere dignidade e verdade. Com o tempo você acaba vendo o que é verdadeiro, que o que vale mesmo “é isso que a gente é”, como costuma dizer o Adriano. Para mim, alguns escritores autênticos são Guimarães Rosa e Manoel de Barros, Henry Miller, Fante, Bukowsky, Hermann Hesse... porque promovem associações entre vida e arte; a gente vive a poesia. Algumas influências marcam para sempre. Seja pelo momento em que se deram, ou pelo impacto que causou o seu apêgo, fazem você sentir mais, ruminar a literatura, sonhar, manter-se vivo um pouco mais. O jogo entre vida e arte é um processo de atração e repulsão, as duas frentes são associáveis porém independentes também. Dos anos 90 para cá o meu percurso é o percurso de alguém que anda sem pressa e se distrai sempre no meio do caminho, o que causa algumas perdas e ganhos que resultam, é claro, em poesia. Foi assim que a poesia me levou a lugares que eu não poderia imaginar que realmente iria estar; alguns, de puro desolo moral, emocional; outros, gratificantes, abundantes;, ricos e inesquecíveis; não caberia aqui falar sobre isso; é o que chamo de experiência vital e que os beats tinham e que a meu modo eu tive; posso dizer que houve um trânsito pela marginalidade, sim, pelos baixos mundos e também por um circuito que podemos provisoriamente chamar de “pequeno burguês”, com suas cortesias, seu lado bon vivant, seus prazeres e suas angústias; por essa época experimentei o amor conjugal. E foi um aprendizado, um plano diferente, bom e doloroso ao mesmo tempo. Depois, aos 33 como Miller e Rimbaud eu vivi a minha “crucificação encarnada”, a via dolorosa da paixão; desse relacionamento de seis anos brotou uma fonte muito profícua de temas para poesia e ficção; hoje, quatro anos depois, sinto que isto tudo ainda está se desenvolvendo, o processo é sempre a posteriori. Para mim essa foi a experiência amorosa e vital mais importante. É a primeira vez que falo abertamente disso, mas essa experiência está no que escrevo, embutido, ainda que retrabalhado no plano lírico, onírico.

3. Fante, Bukowski, Miller, quem mais o terremotou?


Fante é singelo, terno, divertido. Miller é vital, apaixonante, profundamente humano, não te esconde nada do que é mais vil, baixo. Bukowski é a malandragem, a marginalia, rispidez, dureza. Para mim Miller veio primeiro, indicado pela Josie, depois fante e Buk quase simultaneamente, daqueles encontros que não são por acaso que a gente se defronta em uma livraria. Pergunte ao Pó, do Fante apareceu num momento crucial da minha vida em que muito se decidia. Li na praia, nesse momento de transição, no verão de 2003.
Mas acho que Miller é um escritor mais completo que Fante e Bukowski, multifacetado; ele transita por universos literários aparentemente mais complexos, estonteantes; seu narrador não é só o marginal como em Buk. Há uma preocupação maior com alinguagem. Li primeiro Trópico de Câncer, depois a trilogia Sexus, Plexus, Nexus – A Crucificação Encarnada. Bukowski é mais “fácil” de ler, acessível a qualquer um, alcança até o bebum mais celerado. É mais torrencial, flui melhor e mais diretamente, é mais rasgado. Miller e Fante pedem mais vagar em sua leitura, mas são igualmente transbordantes, não se quer parar de lê-los.

4. as musas e as medusas

Ambas são encantadoras e perigosas, mas podem ser papéis que se invertem, em pessoas e situações, dependendo do momento. Ambas são divinas e humanas demasiadamente. Já tive muitas medusas, hoje acho que diminuíram bastante. Ou aprendi a lidar com elas. Procuro mesmo é pelas musas. Mas não se escreve só com musas. Às vezes é até mais necessário que existam as medusas. O próprio mito (de Perseu) só é possível e tão propalado graças à existência do monstro como oponente. Minhas musas antigas tinham 13 a 17 anos. As medusas antigas mirraram suas cabeças com o tempo e aquelas musas
envelheceram. As musas são para serem encontradas e amadas, as medusas são para serem encontradas e ultrapassadas, vencidas. Algumas musas (que também são medusas) são famosas, da antigüidade à modernidade como a Lésbia, de Catulo; Cíntia, de Propércio; June, de Henry Miller; Camilla Lopez, do personagem Arturo Bandini, do Fante; e a Capitu, de Bentinho/Machado. Nesse sentido, a menina Fabiana é a minha musa mais recente e que me emociona muito ainda, ela que já causou a maior comoção da minha vida. Ela vive na minha memória, nos meus sonhos, no que escrevo. Às vezes ainda me pego rindo alto ou chorando silenciosamente pela lembrança de alguma coisa muito íntima, muito pungente. Às vezes me surpreendo por pensar nela me comover tanto, pela sua existência tão poética me abalar tanto. Ela ainda vive em uma zona de turbulência, me provoca e impele a criar. Mas virou um mito. Eu a sinto como uma presença real, mas não é a pessoa que ela é agora, de carne e osso. É quem ela foi ou eu pensei que foi, para mim. Ela pertence agora a esse mundo da ficção, eu a prefiro assim., nesse plano diáfano, de ternura e doçura, junto com os anjos, os santos e os demônios do afeto, do carinho, do ódio e do amor. Acho que normalmente as coisas são assim: as impressões são colhidas no plano do sujeito real e transpostas para o plano lírico. Eu considero esse plano lírico uma verdade do escritor/poeta, na medida em que pode causar tanto impacto. E ela também escrevia e dizia coisas tão ternas que são pura poesia sem que saiba disso. Então ela é uma fonte, uma verdade, uma essência. Imagino que vai durar muito, talvez para sempre e vai render muitos livros. Imagino que vai demorar para que a literatura venha a suprir essa ausência, essa ruptura que é uma ausência e uma ruptura comigo mesmo quanto a tudo o que foi vivido e acelerou esse processo criativo.


5. Os concursos, sua importância na vida do poeta


Penso que os concursos, programas de seleção e publicação como bolsas e prêmios de literatura são formas válidas de o poeta publicar e obter algum espaço e reconhecimento pelo seu trabalho. Nos concursos em que se participa incógnito, há o elemento surpresa, é uma forma mais democrática de se premiar, muito embora tenha muita importância a perspectiva de quem julga, o que torna o âmbito dos concursos um espaço limitado também, pois as preferências são inevitáveis e a atitude da banca no momento em que se discute a relevância dos trabalhos também é decisiva. É até possível um reconhecimento do trabalho premiado pelo estilo, o que predispõe a uma seleção prévia por afinidades eletivas. Não que haja um demérito nisso, mas fica cada vez mais evidente que os concursos dizem mais sobre quem julga do que sobre quem se submete ao seu crivo. Hoje existe uma profusão de concursos e bolsas e isto é muito bom e producente, já se pode ver nomes consagrados ao lado de novos talentos e existem muitos escritores e poetas bons despontando. Por outro lado, sinto que há uma preponderância acadêmica ou especializada (no bom e no mau sentido) na orientação de quem elege e contempla a literatura hoje. Aqui no Paraná e mais localizadamente em Curitiba, os concursos revelaram muita gente boa. Acredito que isso seja sintoma de uma produção bastante diversificada e significante. A poesia curitibana é sui generis, na minha opinião. Tem uma pegada e jeito próprios e é bem interessante investigar o que predispõe esta poesia, se há um perfil tipológico, psicológico, fenomenológico, histórico, social, climático, etc. são muitos os enfoques e abordagens possíveis. Tivemos por aqui, no início do século a passagem do movimento simbolista representado por poetas como Dario Velozo e Emiliano perneta; a cidade produziu (e foi produzida) por um Paulo Leminski, acha pouco? E tivemos e temos ainda muitos outros nomes, Dalton, Kolody, Cristóvão tezza, Rollo de Resende que pouca gente conheceu... alguns desses autores passaram pelo crivo de concursos. É o caso do Dalton, no Prêmio Paraná de contos e do Rollo no Helena Kolody de poesia, ambos da SEC. Para mim a experiência dos concursos foi muito importante. Eu pensava a composição de poemas em termos “antológicos” e isso me fez experimentar as formas e exigir mais da formulação de um poema, não sendo apenas o que se escreve num dado momento de inspiração. Fiz desde poemas epigramáticos, hai-cais, tankas até aos sonetos e poemas mais discursivos. Experimentei um estilo “sátiro” de fazer poesia e um estilo melancólico; um estilo solto e um estilo rebuscado; um estilo erótico e um estilo elevado; tudo isso para buscar uma voz, uma unidade. Um livro precisa de uma unidade e é diferente o que você vai sentir ao pegar um poema integrado dentro de um livro do autor, que pode ser mais fruto de uma experiência poética de expressão pessoal e humana, do que você vai sentir quando pegar um poema para julgar num concurso, quando a análise se baseia em critérios e não somente em gosto pessoal ou no poema ter tocado você. Nesse momento de avaliação o que se procura é um certo “padrão de qualidade”, olhado em uma perspectiva especial. Num outro momento, você descobre a leitura de um poema encantador, que você de repente não colocaria em uma antologia ou não premiaria, e é capaz de lhe tocar profundamente, mas a sua forma ou a sua “qualidade” na situação do concurso não o levaria ao primeiro lugar. Fora dali você o veria com outros olhos. Talvez por isso mesmo grandes autores que não participam de concursos não ganhariam esses mesmos prêmios se participassem. Por exemplo, um poema do Arnaldo Antunes, na imensa maioria dos concursos, dependeria de uma comissão julgadora afinada com a sua perspectiva poética, o que na maioria das vezes não acontece. Guimarães Rosa e Fernando Pessoa já foram segundos-lugares em concursos e de seus vencedores não se ouve falar. Um dia, na Feira do Poeta, folheava uma antologia com vários felizes zés e joões nos primeiros lugares e menções honrosas e lá estava, para minha surpresa, o Leminski, entre dezenas de classificados. Talvez, para ganhar, aquele poema dele não fosse da perspectiva “antológica” que se quer nos concursos. Então o concurso é um formato, também digno e importante em uma determinada perspectiva e contexto, mas dependente, parcial.



6. O sátiro se retirou para um canto escuro e chorou

O sátiro se retirou para um canto escuro e chorou é meu primeiro livro, depois de muitas participações em antologias. Reúne poemas escritos entre 1993 e 2007, passando por vários formatos até ficar com a cara que ficou. O impulso final para que fosse publicado assim se deve muito à última fase da minha vida, de rupturas e mudanças bruscas. Um período muito difícil pra se falar ainda agora, e no livro isso fica bem marcado pela passagem da noite, principalmente nas duas primeiras partes do livro. Na terceira e última há claridade, esperanças, otimismo, construções e expressões mais distanciadas do eu lírico. Há anjos, abelhas e jardins, elementos diurnos. Há pores-de-sol, como a dizer que a noite foi embora, que ela sempre deve ir, até a última vez. Mas a dor e o veneno foram libados no seu todo. A poesia ali é o antídoto. O poema é o espelho que se mostra à medusa e a imobiliza. A poesia é um caminho pelo qual se busca, se cresce e se alcança. Acender estrelas no escuro. O título pressupõe leituras, é paradoxal. Quem é o sátiro? Um cínico, um personagem dionisíaco ou um ser inadequado, retirante, arisco, um selvagem, condenado ao auto-exílio nas florestas humanas, deformado pelos pés de besta-fera, mas de coração nobre que só sabe andar por veredas, oculto da maldade dos homens... Porque ele mergulha na melancolia? O que faz um sátiro, quando personagem dionisíaco, das farras e da alegria, um ator histriônico num palco iluminado onde se representa o que a vida tem de absurdo e ridículo, um ator que ri dos costumes hipócritas da humanidade, um cínico, um agitador, um crítico arrogante talvez, se esconder para chorar? Para chorar pelo quê ou por quem? Se ele sabe rir também com jovialidade e elegância, porque então tem de se retirar inexplicavelmente para um ostracismo, um anonimato, um exílio? São perguntas que os poemas contidos no livro tentam responder... e depois do sátiro vai vir “O saltimbanco se despede e ri”, que é para vingar tanta tristeza mostrando essas situações e personagens tristes com um fundo de otimismo e um auto de fé.


7. Márcio Claudino por Márcio Claudino


alguém nel mezzo del cammin, que vive a poesia entre musas e medusas. Um homem que já teve das tristezas o tanto que é bom, mas teve também alegrias. Conheceu o amor e a queda. Um homem que hoje tenta a segunda metade do caminho...

MÁRCIO DAVIE CLAUDINO – Nasceu em Curitiba em 15 de agosto de 1.970. Venceu alguns dos mais importantes prêmos literários brasileiros. Formado em Letras pela UFPR. Lançou - O sátiro de retirou para um canto escuro e chorou (Imprensa Oficial do Pr, 2.007)

O SÁTIRO SE RETIROU PARA UM CANTO ESCURO E CHOROU

.
O prodígio, a festa

Havia rosas na chuva
sob o portão da nossa casa.
Cascas de arroz pelo chão,
calendários, sermões, letras mortas;
Editais pregados nas paredes,
recuerdos, datas e aniversários.

Agora a letra viva
aclama e canta em festa o dia da volta

pródiga, agradece

(Um lobo arisco se afasta
arrastando na boca um pedaço de crepúsculo;
contra o albedo da lua vidra o olho
refletido em cacos de vitrais).



EROS HÓRUS

Teu desejo em mim
beija-flor na axila

sol negro de públis revolto
seios amados nas auroras do sonho

e quanto éramos febre
na usura de amar

olhos abertos na cama
ficando cinzas ficando

às vezes albatroz
outras, revoadas de colibris

teu desejo em mim
úmida flor de enseada

e dorso sabendo
à pêra e trigo

dorso que só a sombro do meu tronco
soube cobrir de sol



AUSÊNCIA

Calcei os teus chinelos
tomei o teu banho
cantei a mesma canção
chorei à janela do alpendre
como choravas
regando as plantas
com o meu pranto
pela última vez.

Agora conto da penumbra
na vigília impotente
venho arrastando-me
pelo teu cheiro
de lavanda nos móveis
e por teus olhos em toda parte

(Ontem colhi violetas
e outras flores sem importância
tingir o meu dia, tanger um sentido
na célula branca da inconstância)


O SEGREDO DO SILÊNCIO

"Jogavam-se nas tumbas sementes de painço e papoula
para nutrir os mortos que chegavam voando - - pássaros".
(Czeslaw Milosz)

Não pises assim a minha relva.
Não a manches com os cabelos
nem sais amargos dos teus olhos.
Só pés de brisa enluarada
poderiam supor pisá-la.
Seja leve, delicado
e até breve.
Não ores, não estou ali.

Alguém tocou o sepulcro e lhe deu este nome?
Canteiro.


Alguém tocou o meu corpo e lhe deu outro nome?
Semente.

Plantado à cabeceira do canteiro com cruzes,
sou árvore.

Árvore!

Depois,
pássaros me disseram que serei pássaro.
Depois vento, depois nuvem
então anjo, o teu arcanjo.

(Arcanjo
te abençoarei
sim,
saberei quase todos os segredos)


MÁRCIO DAVIE CLAUDINO
Curitiba - PR

Friday, December 21, 2007

NO CAMINHO COM ROLLO DE RESENDE














.
Cartão postal - Rollo de Resende
.
Rollo de Resende era o moço alto de aura leve que eu via passar pela Rua XV e, vez por outra, na Feira do Poeta. Talvez por ser alguém em quem pousei o olhar eu o sinto mais próximo de mim que Leminski e Marcos Prado. Vejo Leminski através de um véu. Vejo Marcos Prado através de um véu. Rollo de Resende eu toco em poesia pela imagem que bebi, e pela fala de amor da Stella, sua irmã poeta e minha amiga há quase dez anos, Stella retira os véus. Stella compartilha, conta como foram os dias de poesia ao lado do irmão. Stella uma poeta que se recolhe, que ainda não se aproxima do verso, pois ao lado dele está a ausência. Rollo era artista plástico, artesão, poeta, zen nos gestos e na fala. A voz calma é o carimbo da alma. Os quadros que ele deixou, os cartões onde pássaros pousavam em fios elétricos. Minímos pássaros, e para compor seus corpos ele utilizava as pétalas minúsculas das sempre-vivas. Trago sempre gravado em fogo o seu conselho aos poetas de gaveta. Quando ouvi a primeira vez este áudio guardei como conselho de mestre. Ler a poesia límpida e visceral de Rollo é olhar com reverência a poesia, como ele que se colocava inteiro dentro deste "maravilhamento" que é ser poeta, No caminho com Rollo de Resende foi possível graças à generosa partilha da Stella. Gracias! Gracias Stelita estrela - Namastê.
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1. A PRIMEIRA LEMBRANÇA

Agora me ocorreu que a lembrança mais remota que eu tenho da minha vida é quando eu aguardava meu pai fazendo o programa da Ave-Maria numa estação de rádio em Cambará - Interior do Paraná.



2. AS PRIMEIRAS POESIAS

...Eu devia ter mais ou menos quinze. Comecei a escrever da forma mais inesperada - por pura inveja. Um colega de sala escrevia poesia na cola dos simbolistas e fazia sucesso junto à professora e alunos. Percebi que eu também podia plagiar. A gente estava impressionado com as escolas. Quando a gente estudava o simbolismo toda a sala escrevia como os simbolistas, e etc...



3. A CRIAÇÃO

...Ela se aproxima de mim em forma de melodia. Eu fico mastigando aquele verso, aquela melodia durante muito tempo. Depois, eu consigo escrever em algum papel. Então, a poesia fica de molho.


Aí vem o poeta que cose, apara... é um trabalho de ourives...

4. A POESIA


Não importa muito o que sucederá, o que a gente não pode perder - o dom do maravilhamento.

*


A poesia é sobretudo oralidade. É a tradição da poesia, desde os gregos, a oralidade. Hoje em dia ela perdeu um pouco isto. Hoje em dia a poesia está muito ligada à música.


*
A poesia vai nos revelar coisas que estão claras no cotidiano e precisa do papel do poeta para revelar. Como no poema - a xícara:

a xícara sem asa
fica para os da casa


*


5. POEMAS FORA DA ORDEM
(Em 1992, para comemorar os cinquenta anos de Caetano Veloso, foi lançado o Concurso Nacional de Poesia - Prêmio Caetano Veloso - Aqui, no Estado do Paraná, apenas Rollo de Resende e sua irmã Stella de Resende foram escolhidos entre os vinte poetas que figuram na Antologia - POEMAS FORA DA ORDEM)
"O Caetano é de quem sei mais canções. É como se a trilha sonora da minha vida fosse tocando Caetano ao fundo"

6. AOS POETAS DE GAVETA


Poesia é uma coisa muito sagrada. Ela nos remete a um outro momento da vida... Ela nos revela coisas mágicas, inesperadas.

... A poesia nunca deveria ser usada simplesmente para que você fosse conhecido e adquirisse fama. A mim a grande lição que a poesia trouxe - coisas mínimas. A questão da humildade. É maravilhoso quando você escreve. Você não sabe a quem agradecer quando a poesia se aproxima de você...

... O poeta foi tocado. Houve a anunciação, o que acontecer a partir daí é consequência.


7. ROLLO DE RESENDE POR ROLLO DE RESENDE*
Nasci roxinho em Cambará, norte do Paraná, em 15 de agosto de 1965. Leão no solar, ascendente em gêmeos e lua cruel em peixes. Artista plástico e cantor de blues. Quando criança, leitor de uma revista de recortes, chamada "Recreio" e de catecismos.
Na adolescência, a descoberta de Augusto dos Anjos, O Conde de Monte Cristo, O Menino do Dedo Verde. Éramos uma turma de catorze alunos e vivíamos na cola das escolas literárias e de seus representantes. Por dois anos não passei nos vestibulares porque na hora da redação escrevia poesias. Já em Curitiba, a descoberta de Helena Kolody, Hélio Leites, Adélia Prado.
Algumas antologias que contém poemas meus: as do Concurso "Helena Kolody", "Grifos" de São José dos Pinhais, a antologia "Poemas Fora da Ordem", prêmio Caetano Veloso, nos seus cinquenta anos e outras.
Em 1988, através da Feira do Poeta, publiquei "Racho de romã" - 21 poemas que está em sua segunda edição.
Em 1990, alguns poemas intitulados "A sublime deriva" foram publicados em página dupla no jornal "Nicolau".
Sou integrante do grupo "Baú de Signos", oficinas de poesias e afins. Com Jane Sprenger Bodnar e Fernando Zanella, elaboramos o projeto "Homeopoética", poesias em cápsulas.
Eu e minha irmã Stella de Resende integramos o elenco de poetas escolhidos para o Disque-poesias - fone 200.2021.
Escritores preferidos. Walt Whitmann, Elizabeth Bishop, Clarice Lispector, Cecília Meirelles, Guimarães Rosa, Rabindranath Tagore, Mário Quintana e outros...
* Rollo apresentou esta biografia em 1.995 - quando do lançamento do seu livro "Água Mineral".
Posteriormente sua poesia figurou no livro publicado pela Imprensa Oficial do Paraná - Passagens - Antologia de Poetas Contemporâneos do Paraná, organizada por Ademir Demarchi. Sua poesia "penso obstinadamente" foi musicada por Marcelo Brum Lemos e integra o cd "Res". Em 2.005 Rollo foi homenageado com exposição de seus trabalhos no Espaço Lilituc, anexo ao TUC (Galeria Julio Moreira). E com um Chá Poético na Fundação Sidónio Muralha, evento patrocinado pela Fundação Cultural e Curitiba, com a participação do artista plástico Hélio Leites e integrantes das oficinas do Baú de Signos.
REGINALDO ROLLO POSSETTI DE RESENDE (1965 - 1995)

POESIAS - ROLLO DE RESENDE















Pela madrugada
o vento levantando
papéis carbono

Pela madrugada
alguém enfiando
uma argola em seu mamilo.

Eu penso no poema de um lírico
que morreu num hospital
anônimo como indigente:

Ir no seu barco
para o fundo
ou para a leveza


De madrugada tomamos o expresso
e vimos uns outros tantos
entornando vômito.

Choveu.
O ar está úmido e fresco
e ainda assim engolimos a seco.

Ilustres anônimos
a madrugada é nossa.
Podemos ir cantando alto.



***



Da sua viagem
ao Himalaia traga-me
um floco de neve.


***


rosa
não usa
ziper

rosa
usa
botão

***


quando éramos crianças
usávamos azul-marinho
na escola

eu ainda não conhecia
o mar.



***


peixes de aquário
não sabem
do mar


***


peixes de aquário
podem vir a saber
do mar
através de sustos, cismas,
miasmas
ou ainda símbolos
primitivíssimos que ascendem
no tempo
registrado em suas
pequeninas células
ictioplasmáticas.


***


Stella me quer andarilho.
diz que
com lenço de batik na cabeça
............pareço um andarilho.
um que ela conheceu
................no trem para corumbá
e que come goiabas com ela
na plataforma,
..............segundo uma fotografia.

.................................claro,
..........................um andarilho.


por mais que permaneça aqui,
estarei sempre
..............só de passagem

enquanto
a luz do sol ah! tingir-me


**


companheira de viagem

fomos à ilha, a minas

ao pantanal

mas precisávamos terminar

o roteiro

ao redor de nós mesmos

companheira de viagem


vem ser

companheira de vigílias.



***




por enquanto não sou o homem das lonjuras.
então, rendo graças a esses objetos
que agora me deixam:
a colher de pau quebrada ao meio;
a panela de barro rachada, vazando sobre
o fogo;
a mochila que devolvo ao tião, esgarçada.
tudo isto
transforma-se
no livro
que não é.

me livro.




*****************


um segredo meu
é um segredo do mundo
enumerando coisas independentes?
:a componente sádica dos dentistas
:pivetes mostrando seus pintinhos
quando passamos de carro na avenida
:ser a versão longínqua de meu pai
segundo jane
:o acorde apocalíptico das cigarras
no fim da tarde

qualquer revelação mínima
é uma revelação do mundo


***


estou nas últimas reservas
.........................das sementes.
caminhando ao largo desta rota:
"...meu amor, pasqualone, ri..."
eu adquiri uma alma
....................violácea neste cansaço
logo à frente,
..............dou meia volta vamos ver
...............................e refaço os gestos
de algumas cenas perdidas.

o que quer que se repercuta?

eu já estou
na palha das sementes


ROLLO DE RESENDE
(1.965-1995)

Thursday, December 20, 2007

NOITES BRANCAS



1.


Luar - manto prata
Líquida névoa
no roseiral
Noites brancas
A rede branca
O branco leite
A branca gargalhada
de meu pai
Branca vida
Envolvida

em laço de cores:

- O arco-íris que desmaiava
na encruzilhada -



2.


“Vaga-lume,
tem-tem.
Teu pai tá aqui.
Tua mãe também.”

Senha-canção
que trazia
a luz faiscante
entre as árvores
perfumadas.
Chuva de flores
na calçada.
Mãos pequeninas
a colher
entre arbustos
lanternas de luzes,
pirilampos
na noite aveludada.
Guardar na redoma
das lembranças belas:
A noite dos vaga-lumes
e das fadas.


3.

Fio d’água na calha.
Pequena fonte que faz girar
a roda dos sonhos.
Água que move a engrenagem,
opera o milagre de dezembro:
- Presépio na minha aldeia -
Nunca soube o que Maria e o Menino
tinham a ver com o monjolo triste...
Mas, evocava a vida.
E esta cena, em mim persiste.


BÁRBARA LIA

Wednesday, December 19, 2007

ÁGUA VIVA

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Como traduzir o silêncio
do encontro real entre nós dois?

Dificílimo contar:
olhei para você fixamente por uns instantes.

Tais momentos são o meu segredo.
(Clarice Lispector)

Tuesday, December 18, 2007

RÛMI



"Vem, te direi em segredo
aonde leva esta dança.

Vê como as partículas do ar
E os grãos da areia do deserto
Giram desnorteados.

Cada átomo
Feliz ou miserável
Gira apaixonado
Em torno do Sol

Ninguém fala para si mesmo em voz alta
Já que todos somos um
Falemos de outro modo

Os pés e as mãos conhecem o desejo da alma
Fechemos pois a boca e conversemos através da alma
Só a alma conhece o destino de tudo passo a passo
Vem, se te interessas, posso mostrar-te

Na verdade, somos uma só alma, tu e eu,
Nos mostramos e nos escondemos tu em mim, eu em ti,
Eis aqui o sentido profundo da minha relação contigo
Porque não existe, entre tu e eu, nem eu, nem tu..."
Jalal ud-Din Rumi (1207-1273),




Rumi, o místico do amor
Leonardo Boff *
Adital -
Neste ano se celebram 800 anos de nascimento de Jalal ud-Din Rumi (1207-1273), o maior dos místicos islâmicos e extraordinário poeta do amor. Nasceu no Afeganistão, passou pelo Irã e viveu e morreu em Konia na Turquia.
- texto completo de Leonardo Boff:

Sunday, December 16, 2007

OS MENINOS E EU


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ilustração - Ane Fiuza


Os meninos empinavam pipas;
eu, pássaros.

Os meninos folheavam revistas
de garotas nuas;
eu, assistia ao namoro dos sapos.

Os meninos iam ao cine;
eu, atravessava a pé
o igarapé.

Os meninos desenhavam piratas
tesouros, navios;
eu, a escafandrista solitária.

Agora
solidão nos devora
em negros prédios
meio à elite ignara

Os meninos vestem
negro/desencanto
seguem com cifras
nas pupilas vítreas


Tão tristes os meninos,
reclusos, bebendo
o índice Dow Jones
junto com café.

Trocando de amantes
a cada inverno.
A alma pesada os faz andar
em cadência de elefante.

Eu,
desenho gravuras
em tons rosa chá
teço minhas roupas
danço minhas músicas
escrevo meus poemas.

Não atravesso
o vidro frio do templo
moderno
- shopping center –

Não atravesso
a porta de cedro
do antigo templo

(enquanto o Vaticano
não doar aos pobres
todo o ouro seu)

Vivo nas esferas
desço ao chão
para pisar águas
dos igarapés.

Adormeço
no berço-arraia
que me embalazul
no “mar/
belo mar selvagem...”



BÁRBARA LIA


- OS MENINOS E EU - recebeu Menção honrosa no Concurso Nacional Helena Kolody - 2.007 - Secretaria da Cultura do Estado do Paraná.

*
Foi lançado o - Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura - para quem não mora em Minas Gerais tem a chance de concorrer nas categorias Ficção e Poesia. Para quem é mineiro tem outra categoria - jovem escritor.

http://www.cultura.mg.gov.br/?task=interna&sec=1&cat=39&con=1206


Saturday, December 15, 2007

PIAF PIAF PIAF PIAF PIAF PIAF PIAF PIAF

Edith Piaf diante do mar a tricotar. Uma menina cantando o hino de sua pátria. Uma mulher amando como só as mulheres livres sabem amar. Uma menina insubmissa e um poeta que a obriga a encontrar a postura no palco. Uma mulher que adoece quando morre o amado... Antes, La vie en rose - dois amantes perdidos em New York encontrando-se na luz difusa rosa que traz o amor.
.
O filme de 2.007.
A canção que se canta agora com o coração, não mais com os lábios apenas, inteira, sem as certezas de placebo. Não me arrependo de nada.

MARION COTILLARD / La môme Piaf

cenas do filme - Grande chance de Oscar para a atriz que interpretou Edith

Friday, December 14, 2007

Cassia Eller - Je ne regrette rien

Não, de jeito nenhum
Não, eu não me arrependo de nada
Nem o bem que me fizeram, nem o mal
Tudo me parece igual

Não, de jeito nenhum
Não, eu não me arrependo de nada
Está pago, varrido, esquecido
Eu estou farta do passado

Com minhas lembranças,
eu alimentei o fogo
Eu não preciso mais delas

Varri meus amores
Junto a seus aborrecimentos
Varri para sempre
Eu volto ao zero

Não, de jeito nenhum
Não, eu não me arrependo de nada
Nem o bem que me fizeram, nem o mal
Tudo me parece igual

Não, de jeito nenhum
Não, eu não me arrependo de nada Minha vida
Minhas alegrias
Hoje
Começam com você
.
(M. Vacaurie)

Wednesday, December 12, 2007

OS MELHORES - APCA - 2007



Categoria Literatura
Ficção: O Filho Eterno/
Cristóvão Tezza
Não-Ficção: O Príncipe Maldito/Mary del Priore
Contos: A Copista de Kafka/Wilson Bueno
Memórias: Conspiração de Nuvens/Lygia Fagundes Telles
Reportagem: O Chão de Graciliano/Audálio Dantas e Tiago Santana
Poesia: Belvedere/Chacal
Votaram: Dirce Lorimier Fernandes, Marcelo Pen, Ricardo Nicola, Ubiratan Brasil e Luiz Costa Pereira Jr.


Parabéns aos escritores Wilson Bueno e Cristóvão Tezza. Paraná premiado na figura destes escritores que já nos premiaram com obras tão marcantes com oTrappo(Tezza) e Mar Paraguayo(Bueno).


- MEU BLOG ENLOUQUECEU - ESTA NOTÍCIA LI HOJE - 16/12 - (Não é do dia 12 esta postagem)

GÉNEROS EM VOLTA


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..
Encontrei a poesia - Águas de Alexandria - em um sítio de Portugal. Na página Géneros em volta.
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- Transportei um comentário aqui do blog sobre a poesia, do Marco que vive no Pará -
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MARCO GEMAQUE:
A despeito de "Águas de Alexandria"
"Numa analise Histórico-literário, é uma dedução poeticamente cinética. Assim tu transformas um fato histórico em enjambement simbolista que parece tragédia, mas percebo que uma tragédia fabricada somente na base do hiperbolismo verbal não é tragédia, é farsa. Ao contrario, nas águas de Alexandria, é verdade poética. Nenhuma água é tão pura. “Ut pictura poesis”, dizia o poeta Horácio: a poesia como pintura. Isso significa aderir ao rigor da pureza, sem relativismo, ainda que concreta: a escolha do vocábulo certo, cujo sentido vai-se desdobrando onda após onda, com o rio fazendo a opção certa do mar, da turbidez, do brilho, do pescador. Nada é gratuito, pois os fios das rimas e as profundezas das assonâncias revelam o sentido numa forma uno: Αλεξάνδρεια (Bibliotheca Alexandrina) Obrigado Bárbara Lia!"
...
Cronópios:
...
Edit on Web - Géneros em torno:

IN COLD BLOOD


















"Um dia, comecei a escrever, sem saber que me acorrentara por toda vida a um senhor nobre porém implacável. Quando Deus lhe dá um dom, ele também lhe dá um chicote; e o chicote se destina apenas à auto-flagelação… Estou aqui sozinho na escuridão de minha loucura, sozinho com meu baralho - e, é claro, o chicote que Deus me deu". Truman Capote.


.*.

Comecei a ler A SANGUE FRIO - Truman Capote - trad. de Ivan Lessa.
Amei o filme. Philip Seymour Hoffman é um dos casos de proximidade máxima intérprete-personagem. Capote tinha o poder de seduzir, levou ao seu lado a amiga de infância, a escritora Harper Lee, em sua viagem, mas, o mergulho na vida e mente dos assassinos ficou mesmo por conta de Capote. Uma abdução fatal foi o que Perry Smith produziu em Capote, e de certa forma isto iluminou o seu "romance sem ficção".
Tenho um pé nas páginas policiais pela total falta de censura na infância. Uma menina que aprende ler aos cinco anos e pode caminhar ao lado do FBI em casos tão tétricos quanto os de Holcomb com sete ou oito anos.
Das histórias que tenho escrito (novelas, romances), por duas vezes pendi ao tema e inclui a densa cena - crime.
(Sim, meu bem, vou reler Edgar Allan Poe)
Sem fechar as portas à poesia cintilou uma vontade fluorescente de adentrar as páginas policiais, descrever o suspense, o medo, a investigação. Não é tão simplista como alguém me disse - assista CSI. Qual o quê! É preciso voltar ao ambiente de formol e entranhas abertas das minhas aulas do curso de Psicologia, é preciso conhecer o corpo humano morto, a alma arrependida. Literatura e Ciência. Desmancha-se no ar o enredo como fumaça de marijuana, se não se tornar verossímel. Talvez minha prosa siga lerda como as nuvens diante da minha janela.
A poesia é pura brota dentro. A poesia sou eu, viva e inteira. Vida dentro dos signos. Uma imensidão de metáforas, minha roupa de festa, estas metáforas. A prosa exige.


Ontem, no Teatro Paiol, Marçal Aquino falou sobre seu trabalho e é mais um adendo. Mas, ele teve o trabalho de campo quando trabalhava com reportagens policiais. Oh! desejo imenso de ter este laboratório... Ainda assim é preciso sair de frente desta tela abrir o livro já com as mãos frias da neve de Holcomb. A sangue frio beber cada palavra de Capote, que me encanta, assim como me encantou aquele moço que ganhou o Oscar - Philip - baita encargo que ele tirou de letra.

DI CAVALCANTI






















Casario e barcos - Di Cavalcanti (1921-1964)
.
Eles (os artistas) não amam a vida. Amam a arte como a um mito. E eu amo sobretudo a vida, esta vida que vem como os calores sexuais de baixo para cima.
DI CAVALCANTI
(Carta a Mário de Andrade - 1923)

Wednesday, December 05, 2007

A ARTE DE SEMEAR ESTRELAS

Frei Betto enviou-me o novo livro dele que saiu pela Rocco - A arte de semear estrelas.
(Cantos - Encantos - Recantos)
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Dentro destes pequenos cadernos fisguei nesta tarde poesia pura. Mais do que zonza com a dedicatória - para Bárbara que domina a arte de semear estrelas - Feliz Natal! Frei Betto.
Em um Natal nem lembro de que ano eu entrei em uma loja e fiquei pensando - o que a gente compra para o Natal de um Frei? E no final trocamos livros e livros e poesia, e a vida continua e eu vou continuar aqui, recolhento estrelas:
"Segue o conselho de Ulisses e foge dos que mastigam lótus em busca da amnésia que produz ilusão de felicidade"
(pg. 55)
"Só então compreendi por que René Descartes foi encontrado morto na Biblioteca Nacional, em Buenos Aires. Uma fina espátula prateada atravessava-lhe o coração. Suspeita-se que o assassino chama-se Jorge Luis Borges, mais conhecido pelo alcunha de "El Brujo".
(pg. 25)
"A arte jamais alcança a plenitude de corpos celebrando a fusão de almas"
(pg.109)

UM TANGO COM DEUS


publicado no site www.lalupe.com

SANGRANDO


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Alva manhã. Aragem marinha.
O pássaro abre o bico em dardos:
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Bem-te-vi! Bem-te-vi! Antífona
que me acaricia. Canto sagrado.
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Seria felicidade não fosse o som antigo
do violão a lacrimar lembranças.
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Lápis-lázuli no coração, sangrando
tua melodia que anuncia trovão e raio.
BÁRBARA LIA
O sal das rosas (2.007 - Lumme)

BÁRBARA
























Cristal de fogo este sol de abril.
Felicidade ardida em oposição
à esta mágoa fendida.

Cerro negras cortinas,
na penumbra
rasgo fotos do passado.

Em rotação errada
nas paredes da memória
a mesma antiga declaração
dos homens sem imaginação...

"Bárbara, Bárbara.
Nunca é tarde
Nunca é demais”

Há que alguém me amar
sem desafinar letra e canção?
Como um barco sobre o Tejo,
como rosas se abrindo no chão.
Asas de colibri,
fogos de São João.


Uma canção
que não seja tarde,
nem demais.
Que seja abril
nada mais.
Bárbara Lia

A última chuva - ME. ed. alternativas (MG) - 2.007 -

Para ter - A última chuva - R$15,00
e-mails para barbaralia@gmail.com

Monday, December 03, 2007

ES LARGA LA TARDE





















tela: Ninfa Azul - Ana Luisa Kaminski
.
*

Es larga la tarde
como el camino curvo hasta tu casa
por donde regreso arrastrando los pies
hasta mi cama sola
a dormir con tu olor engarzado en mi piel,
a dormir con tu sombra.
.
Es larga la tarde
y el amor redondo como el gatillo de una pistola
me rodea de frente, de lado, de perfil.
El sueño pesa sobre mis hombros
y me acerca de nuevo a vos
al huequito de tu brazo,
a tu respiración,
a una continuación infinita de la batalla
de sábanas y almohadas que empezamos
y que pone risa
y energía
a nuestro cansacio.

GIOCONDA BELLI
Nicarágua

Saturday, December 01, 2007

MONJOLO DA INFÂNCIA




















http://www.conexaomaringa.com/novo/index.php

No site - Conexão Maringá - Revista de Literatura e Arte - uma poesia inédita de infância e presépio com um monjolo pequenino. Isto até parece que foi em outra vida.

A Comissão Julgadora do Concurso Nacional de Poesia - Helena Kolody, formada pelos poetas Affonso Romano de Sant’Anna, Geraldo Mattos e José Castello escolheram os três primeiros colocados da edição 2.007 - Primeiro Lugar - Douglas Kim (SP) Poesia: A língua. Segundo lugar: Paulo Silva Sampaio (SP) Poesia - Traição à estante e Terceiro lugar Luis Pimentel (RJ) Poesia: Partilha.
Minha poesia - OS MENINOS E EU - ficou com menção honrosa entre as dez outras que vão estar na antologia do concurso. Segundo a secretaria 2.015 poesias concorreram na edição deste ano.

Friday, November 30, 2007

SONHO DE OUTONO
















De 30 de Novembro a 16 de Dezembro
De Sexta a Domingo às 20h
Ingresso: 1 lata de leite em pó
Teatro Cleon Jacques
(Centro de Criatividade do Parque São Lourenço)
Rua Mateus Leme, 4700 –
Tel. (41) 3313-7190 / 3213-7525
Texto – Jon Fosse.
Direção – Marcos Damaceno.
Elenco – Richard Rebelo, Ludmila Nascarella, Rosana Stavis, Luiz Carlos Pazello e Laura Haddad.



Tuesday, November 27, 2007

PORÃO LOQUAX













27/11 - terça-feira

Porão Loquax apresenta Poemas em Prosa (de Baudelaire ao Século XXI)
Baudelaire iniciou o gênero poema em prosa em 1869 como forma literária capaz de captar a intensidade da vida moderna. Gênero que foge dos gêneros, classificado pelo que ele não é, ou tenta não ser, nem prosa, nem poesia em verso.

Serão lidos autores de várias procedências, como Rimbaud, Ponge, Haroldo de Campos, Manoel de Barros, Nuno Júdice etc.¨

ORGANIZAÇÃO: Ricardo Pedrosa Alves (vencedor do Prêmio Helena Kolody- 2006, autor de ¨Desencantos Mínimos¨ - ed. Iluminuras, SP)

PARTICIPAÇÃO: Ulisses Galeto, Keila Kern, Rodolfo Jaruga, Jussara Salazar, Paulo Bearzoti, Rodolfo Schneider, Ricardo Carvalho, Graziella Rollemberg, Ricardo Pedrosa Alves


Wonka Bar : Trajano Reis, 326
fones 3026 6272 : 9142 0810