Friday, June 27, 2008

Hoje: cem anos do nascimento de Guimarães Rosa







Relembro Diadorim. Minha mulher que não me ouça. Moço: toda saudade é uma espécie de velhice.
pg 34
João Guimarães Rosa - Grande Sertão: veredas



Fotos que tirei no Museu da Lingua Portuguesa na exposição - Grande Sertão Veredas.

Thursday, June 26, 2008

Dans l'air



Tínhamos a mesma idade
Quando vimos o mar
Este mistério de impaciência
Tínhamos a mesma impaciência
– Rimbaud e eu –

Por isto
Pisamos telhados
Ao invés do chão

Por isto
Machucamos nossos amores
Com nossas próprias mãos

Por isto
As velas acabam na madrugada
Antes que o poema acabe

- Por isto, tão pouca a vida para tanta voracidade.


- Bárbara Lia
(O rasurado azul de Paris -
poemas para Arthur Rimbaud)

Tuesday, June 24, 2008

O encontro perfeito

Sean Connery - Rob Brown



Alguns encontros são perfeitos. Na arte e na vida.

Encontrando Forrester (2.000). Um filme de Gus Van Sant, com Sean Connery e Rob Brown. O ator Rob Brown estreou neste filme, mas, fica difícil acreditar. O menino quase rouba a cena de Sean Connery, mas, como ninguém rouba a cena de Sean Connery a dupla torna o filme belo. Belíssimo. Um garoto negro do Bronx que joga basquete muito bem e que escreve em surdina, guardando cadernos e cadernos de textos sem mostrar a ninguém e um escritor recluso que escreveu um único livro, premiado com o Pulitzer. William Forrester, o escritor; Jamal Wallace, o garoto, dão uma lição de parceria.

Eu te dou de volta o sopro da esperança e tu me dás o grão maduro da vivência. Eu te ensino a andar de novo de bicicleta para beber a primeira brisa da manhã e tu me ensinas o silêncio. Eu te dou o meu silêncio prá proteger teus medos. Eu te dou de volta a coragem de um novo exílio para criar o verão, mesmo que seja o último sopro de tinta nas páginas... Na solidão de Forrester está escondido um espanto que quem escreve vive. De olharem para ti como se tu fosses a tua obra. E no escritor isto é mais complexo do que em todas as artes. Pois não estás em um palco e nem atirastes de forma concreta tua Arte em uma tela. Os teus leitores sempre te olham como se tu fosses o livro, o poema. Te escondes das palavras que te ungem, depois de tê-las buscado - às palavras da tua obra - como o pescador ao peixe mais arisco. Te escondes das setas que atiram em ti e não sabes explicar que não és aquilo que escreves, ou que podes até conter belezas, mas, em ti também está contido o banal e que és igual a todos. Decididamente não vives em um jardim cercado de borboletas... Nem és o personagem desgraçado que passeia pelas páginas de seus livros. Mas, explicar, como? Em uma cena Forrester deixa transparecer isto... Mas, em todas as cenas é apenas o delírio, este que apenas quem escreve sabe - a busca pelo caminho que vai criar o texto mais bonito, o livro único que impacta por quatro décadas, o romance do século... Quem não ambiciona isto?
O espanto do professor obtuso diante dos escritos do garoto. Esta falta de sensibilidade que por vezes impera - como pode um menino do Bronx escrever tanto? E ele desafia o professor e ele mostra que a Literatura é um tesouro aberto, em bibliotecas pelo mundo todo, toda a água pura, o ar do éden, toda a magia e a loucura, todo o espanto e toda filosofia e toda poesia... Este menino aprendeu como aprendem alguns - bebendo da fonte pura. É assim, na solidão dos dias e das noites, alguns se atiram com avidez na fonte pura, e encontram um Forrester, como o menino encontrou; como eu encontrei. Estes encontros perfeitos que vão tirando dos olhos da gente a venda, que vão ampliando e mostrando um caminho nada banal, um encontro mágico. Estes encontros mágicos vão soprando o barco dos nossos sonhos e nossas esperanças para o alto, para longe, para muito longe, a ponto de tocar a aresta de algum astro, ou de muitos...
Em uma fusão perfeita, o encontro de Forrester com o menino coloca nos trilhos duas vidas e libera o oxigênio e acende a chama.

Quero luz!

Fragmentos do livro – O homem medíocre:

- A hipocrisia é a arte de amordaçar a dignidade.
- O homem que pensa com a própria cabeça e a sombra que reflete pensamentos alheios parecem pertencer a mundos distintos. Homens e sombra: diferem como o cristal e a argila.
- As sombras não crêem.
- Quem marcha em direção de uma luz não pode ver o que ocorre na sombra.
- A mediocridade teme o digno e adora o lacaio.
- Poucos sonhadores encontram um clima e uma ocasião que lhes exalte a genialidade. A maioria é vista como exótica e inoportuna...
José Ingenieros (Giuseppe Ingegneri )
Palermo, 24 de abril de 1877Buenos Aires, 31 de outubro de 1925
.
(...)
Luz, quero luz
Sei que além das cortinas
são palcos azuis
E infinitas cortinas
com palcos atrás
Arranca, vida
Estufa, veia
E pulsa, pulsa, pulsa,
Pulsa, pulsa mais
Mais, quero mais
Nem que todos os barcos
recolham ao cais
Que os faróis da costeira
me lancem sinais
Arranca, vida
Estufa, vela
Me leva, leva longe,
Longe, leva mais
Chico Buarque – Vida

Para quem viaja ao encontro do sol
É sempre madrugada
Helena Kolody


Lendo – O homem medíocre – José Ingenieros (Livraria do Chain Editora) neste inverno rigoroso é mais ou menos como tomar um chá de uma erva rara. Um vento de fogo no frio, estas horas santas em que um livro te sacode e te dá forças para mais um tanto de caminho. Longo caminho este, serpenteado de sustos. Mas, buscando sempre, cavando sempre a rocha escura. Lembrei a canção do Chico, a poesia de Helena Kolody: Quero luz!

Monday, June 23, 2008

Bem-te-vi



Ramagem arranha janela.
Sonho:Aeroporto fantasma.
Espíritos de náufragos do Titanic.
Ku Klux Kan ateando fogo ao enforcado.

Seqüência horripilante:

A mulher sem olhos na cama,
entre lençóis úmidos de chuva.

Acordo com o bem-te-vi
na manhã de sol
na mesma paisagem.


BÁRBARA LIA

(O sorriso de Leonardo - Kafka ed baratas - 2004)

Sunday, June 22, 2008

La Furia Roja

Emilio Butragueno - copa do mundo 1986
.
Hoje quando a Espanha venceu a Itália voltei a pensar em Butragueno. O jogador espanhol que me encantou em 1986. Emilio Butragueno tinha um ar de menino frágil e um futebol potente. Lembro que via os jogos da Espanha só para ver o Butragueno, e me apaixonei pelo craque, há 22 anos. Hoje quando o goleiro Casillas agarrou aquelas duas bolas decisivas, pensei na fúria espanhola. É... futebol faz mesmo a minha cabeça. Mas, meus ídolos eu os pesco assim, pela euforia ou pela timidez. Lembro que minha mãe me apresentou o Santos Futebol Clube. Ela nasceu no interior de São Paulo e acabou me contagiando com um time que era moleza se contagiar nos anos 60. Quando eu era menina, meu time conseguiu a proeza de ser duas vezes campeão do mundo, e depois, antes da copa de 70 ainda tinha uma máquina de futebol com carlos alberto, edu e clodoaldo. Pelé? Bem, eu penso que o Pelé tem a sua história, mas, meus jogadores preferidos são outros. Clodoaldo era meu ídolo em 1.969, depois na copa de 70. Depois de um tempo infinito de ostracismo, eu me vi de novo criança, torçendo por Diego e Robinho. Já fui mesmo uma torcedora ferrenha, já não sou.
Ainda acho linda uma partida de futebol.
Quando Butragueno me encantou meu filho Thomas ainda não era nascido. Agora é ele que me contamina com a Eurocopa.
De resto, cada time do Brasil que disputa um campeonato, acaba sendo o meu time. Por isto eu torço para o Fluminense na quarta, e espero que ele ganhe a Libertadores... Na Eurocopa eu vou torcer assim como quem descobre a leveza da pluralidade, esta que me permite ficar feliz ao final de cada partida, sem estar sendo falsa ao pensar - que vença o melhor!

Friday, June 20, 2008

Sakountala




Cinzel de prata esculpindo pés
Cada fagulha vermelha
um fio de cabelo do amado

Cinzel de prata treme
acende astros
de um azul escuro
em meu olhar algodão

Rodin!
Rodin!

Tantos pés teci
em mármore angustiado
-trilha de pés moldados-

esquerdo / direito
esquerdo / direito
esquerdo / direito

Tantos pés
emprestei-te
para ter-te assim
ajoelhado
enlaçado
abismado
abandonado

Augusto espectro
de fogo
onde queima
a aurora

Sei!
Tudo isto
é mármore!

Mas, antes
foi carne
vermelho abandono
amor petrificado

Antes do fim
às margens
do Rio Loire
nossa carne carmim
foi mármore.

BÁRBARA LIA

(do livro - Para Camille, com uma flor de pedra - Inédito)


Sakountala - a escultura de Camille Claudel, concluida em 1888, foi inspirada em um conto do poeta Calidassa (Índia)


Well, well.
I had my way.
I trusted a king
And put myself in his hands.
He had a honey face and a heart stone
(She covers her face with her dress and weeps)
- Calidassa

Tuesday, June 17, 2008

Dios en el rocio

(para Jorge Luis Borges)

Jardín perfumado de Istambul.
Sol intolerable besa la rosa azul
en el florero blanco. Dos perros de
color de la luna
alrededor.
Tus ojos se pierden en la rosa desnuda.
Ojos del color del Mar Caspio en la aurora.
Gota del rocío baila en el pétalo.
Cristal.
Punto en el espacio – Aleph
descortina el universo.
Sueños enjertados de sol, desiertos,
aromas, fauna, primaveras, tormenta.
Todo el universo en gota clara
que cubre la rosa. Las lágrimas
bajan solar al labio carmesí
y el pecho arde de amor y luz.

BÁRBARA LIA

Sunday, June 15, 2008

Tratado dos anjos afogados

ARIEL, Marcelo. Tratado dos Anjos Afogados,
Caraguatatuba, Sp: LetraSelvagem, 2008.




Tuesday, February 21, 2006

PAPO-RELÂMPAGO.. (publicado em fevereiro/2006 no blog do Marcelo Ariel)

.
Conversa sobre poesia e literatura com minha amiga a escritora Bárbara Lia no msn :

Marcelo diz:
Olá meu anjo...
Bárbara Lia diz:
oi, tudo bem contigo?
Marcelo diz:
Estou no meio de um romance..chamado TRATADO DOS ANJOS AFOGADOS e você..escrevivendo muito?
Bárbara Lia diz:
Eu estou dodói, escrevendo um romance e algumas poesias...
Bárbara Lia diz:
Como é que a gente afoga anjos?

Bárbara Lia diz:
Ou como a gente desafoga anjos?
Marcelo diz:
É sobre cantores de blues e sambistas que nunca gravaram discos e outras figuras meio parecidas comigo e contigo...artistas em estado puro e bruto..flores selvagens do Ártico
Bárbara Lia diz:

Gostei disto, de ser uma flor selvagem, acho até que vou escrever uma poesia, acho que
Bárbara Lia diz:
Sou mesmo uma flor selvagem,
Bárbara Lia diz:
Eu gosto de blues, e de música sempre, de boa música,
Marcelo diz:
Vou te enviar uma cópia...
Marcelo diz:
Também amo o blues.
há uma corrente secreta ligando o blues e o samba da velha guarda...
Bárbara Lia diz:

Gostaria sim, de ler,
Marcelo diz:
Você está escrevendo um romance? sobre o que?
Bárbara Lia diz:É policial, e infanto-juvenil...
Bárbara Lia diz:
...


Marcelo diz:

hum..policial..oba! adoro Simenon..e Chesterton

...

Bárbara Lia diz:
Falta muito prá concluir,
Bárbara Lia diz:
Eu sou muito tímida prá falar sobre o que escrevo e não sou tão
Bárbara Lia diz:
Erudita...
Bárbara Lia diz:
Minha poesia é mais rica que a prosa, é o que penso...
Marcelo diz:
Talvez não exista a prosa..e tudo seja a poesia sob diversas formas..está será apenas uma questão formal num futuro breve.daqui há cinco minutos...
Bárbara Lia diz:
Na verdade eu acabo sempre misturando e minha prosa é muito poética, e minhapoesia acaba sempre contando alguma história, não é abstrata...
Marcelo diz:
O Lobo Antunes chama os romances dele de poemas..e a vocação da poesia sempre foi essa de desmistificar o real
Bárbara Lia diz:
Ou produzir uma nova realidade, é o que eu tento...
Bárbara Lia diz:
Mas, não sou muito teórica,
Bárbara Lia diz:
Eu sou a bruta flor, quer dizer, selvagem ainda, eu só sei sugar da rocha, a seiva, e não tenho nenhuma teoria... tenho uma ligação com ALGO, que me nutre, eu não sou minha poesia, sou só a condutora
Bárbara Lia diz:
Mas, não sou muito teórica,
Marcelo diz:
O Guimarães Rosa dizia a mesma coisa...
Será que há algum mistério no 'Ato em si' da escritura.
de um poema ou romance?
Bárbara Lia diz:
Há mistério em tudo...
Bárbara Lia diz:
Não tem nada a ver com mediunidade, mas, de uma aspecto mais sublime, como se fossemos mesmo antenas da raça, como dizia Pound...
Marcelo diz:
Vou colocar esse nosso papo no meu blog...posso?
Bárbara Lia diz:
Que responsabilidade!

*

Marcelo Ariel lançou Tratado dos anjos afogados. Também lançou, depois deste nosso bate-papo: Me enterrem com minha AR-15 (Dulcinéia Catadora). Escrevemos juntos a poesia A esfinge na névoa:
.

A ESFINGE NA NÉVOA

Quando a alma
fala
já não fala a alma.
Se o corpo é sua escada
a língua é por onde
ela escapa?

Jamais sairemos
desse labirinto
de falsos silêncios;
Então, por que não cantamos
enquanto afundamos?

Ou por que não nos calamos,
até o fim da névoa
do labirinto
e do silêncio torpe?...

Se a canção da Ursa Maior
não nos alcança,
afundar no canto ausente
das sereias de antes,

e apesar da vitória
deste abismo em nós
de nossa secreta Ítaca
não estamos tão distantes.

Ítaca dentro de nós:
A torre, a amada a fiar o manto,
o cão cego e fiel,
a mesa, o vinho...

Ítaca – a felicidade-
escondida no mar de abismos
e nos labirintos de sal
- nossa casa-alma:
Esfinge na névoa
que sempre encontramos
no final.
BÁRBARA LIA / MARCELO ARIEL

Thursday, June 12, 2008

Poesia na sala de aula


minha flor, com direito a borboleta


A professora Silvia de Almeida Vicentin da Escola Guilherme Butler - da rede municipal de ensino - convidou-me para falar de poesia para seus alunos, dentro de um projeto que ela desenvolve. As turmas? 4ª série. Fiquei feliz com o convite e nesta quarta - dia 11 - passei meu dia entre as crianças. A Silvia fêz uma dupla surpresa - Ela não contou aos seus aluninhos que eu iria. Ela também não me contou que as crianças estavam preparando um recital com minhas poesias. Foi um dia lindo. Algumas alunas fizeram uma espécie de jogral com algumas poesias que elas escolheram, outras optaram por falar sozinhas o poema, e na turma da tarde algumas fizeram poesias para mim. Teve bate-papo, entrevista e troca de poesia. Levei o livro - A última chuva - prá eles. A diretora Maria Inês declamou Mar Português. A escola fica ao lado do Farol do Saber Fernando Pessoa. A Silvia, a Lucimar (a outra professora das turmas de 4ª série) e a diretora Maria Inês presentearam-me com lembranças do colégio e uma linda flor rosa, com uma borboleta voejante. Quando me enviarem as fotos vou publicar aqui. Meu dia ficou MUITO rico e pelos olhinhos brilhantes da meninada sei que o dia delas também.
.
.
os jograis de ontem (lindos!):
FLORA
.
“Grão, o amor da gente é como um grão”
Gilberto Gil
.
grão
grão
grão
a cantar
as horas
.
gota
gota
gota
a cantar
a chuva
.
folha
folha
folha
a cantar
o outono
.
bem-te-vi
bem-te-vi
bem-te-vi
a cantar
novo dia
.
lâmina
lâmina
lâmina
a cantar
o amor
.
(Amar é ferir-se
emlâminas
sollasidoremifa)
***

VIOLETAS BRANCAS
.
Sigo teus passos, feito asteca, sonhando
a terra eterna e rica – tua pele.
Pele dos diários, onde leio a lua.
A maré suave que me enlaça nua,
.
écharpe de brisa e aurora, corais gris.
Adeus soledade de pedra. Paloma triste
em vôo riste, ao longe.
O deus-do-sol-do-meio-dia, colibri azul
.
da era atômica, é um sopro de luz e sons.
Sonhos delineados na tela fria.
O mundo sangra e transforma a garça
.
em íbis rubro. Leio um salmo antigo,
acordo em manhãs violetas. Tenho por companhia
um pequeno vaso de violetas brancas.
.
***
***
CLARICE
Dois corações selvagens
na selva do impossível
tão perto que o respirar
deles é transfusão de sangue.
Depois da noite nuclear -
amantes
rompendo o ventre
da laranja mecânica -
a mostrar viva as entranhas
do céu,
nego-me a escrever versos
para amores lúgubres
plenos de tédio
de flacidez no olhar e no abraço
no passo e no sorriso
Depois de Deus...
quem me levará ao paraíso?
Prefiro o inferno na selva.
Dois corações selvagens
Perto...
Perto...
Perto...
***
Flora e Clarice estão no livro A última chuva (ME ed alternativas) - Violetas Brancas em O sal das rosas (Lumme editor)

Saturday, June 07, 2008

a Rodin

Sakountala - Camille Claudel


(...) Como seria gentil se me comprasse uma roupa de banho azul escura com galões brancos, em duas peças, blusa e calça (tamanho médio), no Louvre ou no Bon Marché (de sarja) ou em Tours!
Durmo nua todas as noites na ilusão de que está a meu lado,mas quando acordo já não é mais a mesma coisa.
Um beijo
Camille
.

Sobretudo, não volte a me enganar.

(Camille Claudel 1891)
.

- Sakountala, que Camille concluiu em 1.888, foi a escultura/poema do tempo de felicidade, ainda. Após romper com Rodin ela seguiu com esculturas/poemas que delatavam a dor da perda e uma angústia em pedra - L'âge mur, La implorante, Hamadryade, Le dieu envolé e outras...
Junho tem muitos corações bregas na tv e em toda parte, esta ilusão fóssil de que todos os amores são leves voejantes e cor-de-rosa. O de Camille por Rodin retrata a impotência de uma mulher brigando com furor pela sua arte, e sendo descartada, assim, atirada ao asilo de loucos por trinta anos. O que aconteceu à Camille foi um dos grandes ultrajes à alma feminina, um abandono, como é o subtítulo da escultura - Sakountala - o abandono. Para qualquer um, ainda neste milênio, o espanto se instaura quando uma mulher toma as rédeas de seu querer, proclama seu desejo, desnuda-se em poesia, esculturas, ou de qualquer forma. Rodins ainda existem. E isto é uma pena. Camille pagou um preço alto demais por esta liberdade furiosa. Em uma carta Rodin a chamava - Minha furiosa amiga.

Friday, June 06, 2008

a Diego Rivera

"9 de novembro de 1951
Menino-amor. Ciência exata.
vontade de resistir vivendo
alegria saudável. gratidão infinita
Olhos nas mãos e
tato no olhar. Limpeza
e maciez de fruta. Enorme
coluna vertebral que é
base para toda a estrutura
humana. Um dia veremos, um dia
aprenderemos. Há sempre coisas
novas. Sempre ligadas à
antiga existência.
Alado - Meu Diego meu
amor de milhares de anos.
Sadga. Yrenáica
Frida.
DIEGO"

- FRIDA KAHLO -

Thursday, June 05, 2008

Henry & June

a Henry Miller

“..Ontem à noite não consegui dormir. Imaginei que estava no apartamento de Natasha novamente com Henry. Quis reviver o momento em que ele penetrou em mim enquanto estávamos de pé…- Anaïs, eu a sinto, seu calor até os dedos dos pés – Nele também é como um relâmpago. Ele sempre fica assombrado com minha umidade e meu calor. Freqüentemente, porém, a passividade do papel da mulher me pesa, me sufoca. Em vez de esperar pelo prazer dele, eu gostaria de tomá-lo, de enlouquecer. Será que é isso que me empurra para o lesbianismo? Isto me aterroriza. As mulheres agem assim? Será que June vai até Henry quando o quer? Ela trepa sobre ele? Espera por ele? Ele conduz minhas mãos inexperientes. É como um incêndio numa floresta, estar com ele. Novas partes do meu corpo ficam estimuladas e acesas. Ele é incendiário. Eu o deixo numa febre insaciável…”
Anais Nïn

Tuesday, June 03, 2008

a Lúcio Cardoso

Donna bionda di spalle, 1930 (Giorgio de Chirico)


“Lúcio, me escreva e conte coisas. Ou então não escreva, que posso eu fazer? Um dia desses fui ver a lava do Vesúvio. Tenho um pedaço feio de lava para você. Depois de um ano ainda estava quente; é uma extensão enorme, negra, de vinte a trinta metros de altura; a gente anda sobre casas, igrejas, farmácias soterradas. A erupção foi em março de 1944 e quando chove sai fumaça ainda.”
(Clarice Lispector)
.

Sunday, June 01, 2008

a Rainer Maria Rilke

Amantes - Nicoletta Thomas


Rainer, quiero encontrarme contigo,
quiero dormir junto a ti, adormecerme y dormir.
Simplemente dormir. Y nada más.
No, algo más: hundir la cabeza en tu hombro izquierdo
y abandonar mi mano sobre tu hombro izquierdo, y nada más.
No, algo más: aún en el sueño más profundo, saber que eres tú.
Y más aún: oír el sonido de tu corazón. Y besarlo.
Marina Tsvatáieva (1892-1941)
Versión de Severo Sarduy (de la traducción de Lola Díaz)


poesia extraída do site: