Monday, February 28, 2011

Lendo António Botto

Passei o Dia Ouvindo o que o Mar Dizia



Eu hontem passei o dia
Ouvindo o que o mar dizia.

Chorámos, rimos, cantámos.

Fallou-me do seu destino,
Do seu fado...

Depois, para se alegrar,
Ergueu-se, e bailando, e rindo,
Poz-se a cantar
Um canto molhádo e lindo.

O seu halito perfuma,
E o seu perfume faz mal!

Deserto de aguas sem fim.

Ó sepultura da minha raça
Quando me guardas a mim?...

Elle afastou-se calado;
Eu afastei-me mais triste,
Mais doente, mais cansado...

Ao longe o Sol na agonia
De rôxo as aguas tingia.


«Voz do mar, mysteriosa;
Voz do amôr e da verdade!
- Ó voz moribunda e dôce
Da minha grande Saudade!
Voz amarga de quem fica,
Trémula voz de quem parte...»
. . . . . . . . . . . . . . . .

E os poetas a cantar
São echos da voz do mar!

António Botto, in 'Canções'

Portugal
[1897-1959]

Wednesday, February 23, 2011

Antologia

De cada livro extraí uma poesia - Antologia Pessoal:


BEM-TE-VI

Ramagem arranha janela.
Sonho:Aeroporto fantasma.
Espíritos de náufragos do Titanic.
Ku Klux Kan ateando fogo ao enforcado.

Seqüência horripilante:
A mulher sem olhos na cama,
entre lençóis úmidos de chuva.

Acordo com o bem-te-vi
na manhã de sol
na mesma paisagem.

O SORRISO DE LEONARDO / 2004

 
 
 
KAMIKASES

Doze kamikazes
arrastam a delicada açucena.

Doze kamikazes.
As lágrimas descem
feito fontes.

Nenhuma música
de anjos sonoros,
nenhuma.

Nas nuvens que passeiam,
exausto de tédio, atira longe
o grão da maldade – o dragão da guerra.

O SAL DAS ROSAS / 2007
Lumme Editor (SP)

 
 
 
 
 
LAYLA

calçadas molhadas
- uma lâmpada grávida
estremecida de sol
pequeno -
a lembrar
que ainda é verde o trigo.
florirá
amanhã
em sol granulado,
farpas de doçura,
sempre.

A ÚLTIMA CHUVA / 2007
Mulheres Emergentes (MG)

 
 


COLEÇÃO 21 GRAMAS (artesanal)
 
 
 
 
PRIMAVERA PARA BEETHOVEN
 
 
Também os bosques são sinfonias
no silêncio da bela arquitetura
teias de aranhas são partituras
por mais casta que seja a analogia

Em nítida alegria toda tessitura
de um concerto pleno de alegorias
traçando entre o verde, harmonias
asas dos pássaros voam alturas

(entre galhos , o vento ouvem
e um exército de aves se levanta
rasgando em asas o ar fuligem)

Uma paisagem etérea-sacrossanta.
Primavera para o triste Beethoven
que fulge entre o verde e - livre - canta.

ADAMARE / 2010
 
 
 
CHÁ PARA AS BORBOLETAS



Janela - espelho meu.
Fragrância de almíscar selvagem
me violenta.

Menino com aura violeta.
Jovem com juba desgrenhada.
Velocidade lenta.

Garganta do poço este túnel
cinza, onde trafego dias.

Penso na infância, sombra
dos eucaliptos, recanto secreto

onde eu servia chá às borboletas.

CHÁ PARA AS BORBOLETAS / 2010
capa - Ane Fiúza

 
 


 
O POETA MORRERÁ!




O poeta morrerá
Às dezoito horas
De um dia fora do tempo

-sem aviso-

O poeta morrerá
Em cada manhã de caos
De pão saturado de suor
De ruas saturadas de rancor

O poeta morrerá
Meio ao comercial
Da loja de colchões

O poeta morrerá -
Uma Pietá a amparar
Suas asas quebradas -
Na penumbra dos umbrais

O poeta morreu
   Poe    Orpheu
(e corvos tão iguais
nos beirais)

CIGARRAS NO APOCALIPSE / 2010
 
capa - Rogério Teruz


 
 
Uma só rosa no meio do inferno é o paraíso. Eduardo Lourenço escreveu isto, um poeta lusitano. Uma só rosa! Rosa sub-rosa extra-rosa proto-rosa magma-rosa ex-rosa. O furor daquela mulher desabrochou em uma rosa UNA. Os pelos dela nuvem lassa entre as coxas brancas - nuvem caramelo - pelos perfumados qual o coração. Afundava as narinas entre os pequenos lábios abraçado às suas coxas e cheirava como a um alucinógeno - o céu o céu o céu. Afastava a cortina de fogo brando e violava sua flor acesa. O coração trôpego querendo alcançar o céu da boca... Estes são os dias em que as aves se debruçam para olhar uma cena e morrem de infarto. Estouram na calçada, pássaros caídos do nada. Mortos após contemplar a orgia amorosa e plena.


COREOGRAFIA DO CAOS / 2010 (publicado no site Germina)





NEBULOSAS NO QUINTAL



Cá estamos os dois
a lavar os panos de dentro
como as antigas lavadeiras.

Cá estamos os dois
a clarear a alma
para sanar os corpos.

Cá estamos os dois
com as almas à relva
a quarar toda mágoa.

A vasilha preparada:
bacia de alumínio
e água de anil.

E lá vem Deus
a nos espremer
entre os dedos Seus.

A torcer-nos retirando
as lembranças tortas
as tentativas mortas.

Duas almas claras
lavadas no anil
sem manchas
sem memória.

Deus nos assenta
com cuidado
no cesto de vime.

Deus nos acomoda
como duas nebulosas
no quintal de sua casa.

NEBULOSAS NO QUINTAL / 2010






Lopes Chaves, 546



Uma luz apagou

Na ribalta do mundo

Quando cerrou as portas

Da vida daquele

Que Anita amava

Nunca mais se ouviu

Outra vez

O piano parisiense

- Henri Herz –

Mário a dedilhar

Teclas e palavras

No n° 546


Da Lopes Chaves


NOON / 2010

capa - foto de Mel Bandeira - Zakhintos ( Grécia )


**




Passei a vida inteira comendo sonhos.

Comendo sonhos como os homens das cavernas comiam carne crua.

Passei a vida inteira comendo possibilidades abortadas.

Recolhi a flor no ventre escuro do caule.

Acendi estrelas com incenso em brasa.

Passei uma vida de encantar o tolo e encantar-me pelo nada...

Só tua carne me alimenta.

Só tua possibilidade é o parto de uma nebulosa de gerânios...

Eu, a parteira, recebendo mil flores entre os dedos...

Só tu acendes estrelas com teus dedos de carne.

NYX NUA / 2010











DANS L'AIR

Tínhamos a mesma idade
Quando vimos o mar
Este mistério de impaciência
Tínhamos a mesma impaciência
– Rimbaud e eu –

Por isto
Pisamos telhados
Ao invés do chão

Por isto
Machucamos nossos amores
Com nossas próprias mãos

Por isto
As velas acabam na madrugada
Antes que o poema acabe

- Por isto, tão pouca a vida para tanta voracidade.

O RASURADO AZUL DE PARIS/2010







foto de Kátia Torres





NIÓBIDE BLÉSSE





À sombra da noite clara
Latona no meu encalço
Espectros da última primavera




O Rio Loire, um duplo do Aqueloou
Meu Monte Sípilo é Ville-Èvrard
Onde endureço carne e alma




Delírios brancos, visões:
Escunas leves com velas de vidro
E tombadilho de pétalas

Estilhaçam na roupa cinza
Ferem-me, beijam-me – qual o amor




Meu ódio espelha o trágico
Anseio que o mundo petrifique
Qual Zeus petrificou Tebas




Sonho com o anjo da restauração
Acordo. Nada se restaura
Tudo igual:




Cama dura de ferro
Urinol fétido, trincado
Três tâmaras secas
Dois gatos no cio a quebrar
O silêncio arredio da madrugada




Os loucos acordam com vislumbres de luz
- Átimo de lucidez.
Acenam lenços de seda à Latona fria
Choram um beija-flor e já no corredor
Vestem o olhar vazio.




Andam autômatos como rios mortos
Deságuam cinzas
No jardim de Ville-Èvrard.

PARA CAMILLE, COM UMA FLOR DE PEDRA / 2010









***
Primeira percepção:


A noite é perfumada






A menina Magnólia vivia como se fosse alma.
Hoje a realidade a prega no chão bruto, piso marrom manchado de vinho, janela com cortina bege e vista para o bairro.
Vista para a cidade cinza.
Magnólia sempre foi alma.
Sempre usou o corpo como um títere.
Manejava acima o enredo seu: escolhia a música e a poesia.
O corpo era instrumento amorfo.
Vivia com a alma.
Percepções.
A primeira percepção da menina – A noite é perfumada.
Respirava a noite.
Calçada estreita de cimento cinza e lateral de tijolos díspares como dentes encavalados.
A fila de tijolos ocres cercando a calçada cinza quase branca e acima dela mais brancas ainda as pequeninas flores e mais acima e mais brancas quiçá, as estrelas.
O perfume era imã para a felicidade.
De dentro da casa a luz não era irritante como as deste século.
Ligeiramente avermelhada como o brilho das sementes de romãs.
No rádio uma música de seresta, ou uma viola sertaneja.
A noite é perfumada;
Nunca soube se de mínimas flores ou de estrelas aquele perfume.
Mas guardou a imagem intacta na tela:
A menina magrela com vestido de babados de tecido anarruga branco.
Cabelos curtos, uma franja bonita na testa sábia.
Saltitando entre uma chuva de pequenas pétalas em uma estreita calçada.


PERCEPÇÕES
Prosa Poética








ABSTRATA





O caminho abstrato
leva
às verdadeiras
paisagens

Há quem vá à Roma,
sem ver Roma
Há quem vá ao amor
sem enxergar o amor

Há quem venha a mim
sem ver a mulher inteira
e codificam os gestos
e atiram ao vento meu nome

Nunca me viram no real
espelho
além da carne dos olhos


Eu não tenho a chave
que abre
as portas da minha alma.


RÉQUIEM / 2010
capa - fotografia de Isaias Faria











 
 
 


 
ROSA CHÁ AZUL ANIL
 
 
Alma rosa chá.
Vestida de rosa chá.
Na casa rosa areia.
 
Leva - enquanto passeia -
um oceano de espantos
nas mãos:
 
Cinzas de rosas
no ar do quarto do avô
morto.

Mistério ácido na boca
- sabor do fruto vítreo -
de figueira desconhecida.

Açúcar cristal brilha
- mínimas estrelas -
nas mãos.

Céu rosáceo de Dali
desce ao chão e incendeia
o futuro lilás:

rosa chá + azul anil

Linhas do destino
emaranhadas
- já no ventre
de nossas mães.

E apenas agora
o homem sagrado
envolto em acordes
de estrelas no cio.

- meu azul demorado!

À SOMBRA DE UM RIO / 2010

capa - desenho de Felipe Stefani





Monday, February 21, 2011

A poesia segue...


Nascida em Assaí, Bárbara Lia faz sucesso com literatura -

Título de matéria no site - Revelia -  que traz notícias da região de Assaí
Assaí - vivi lá apenas até os 3 anos e por lá tenho primos, mas, raramento visito a cidade onde nasci. Embora esta notícia tenha sido um vento de carinho. É preciso proximidade para guardar memórias. A proximidade permite a lembrança, o perfume de tudo, o tatear de toda a matéria ao redor. Lembro Peabiru por ser o lugar onde descobri o mundo e a Poesia. Assaí é oficialmente a cidade onde nasci. O lugar em que despontei para esta vida - louca vida - e quiçá deva voltar e subir os degraus que dá para uma igreja e andar pela avenida principal e visitar meus primos e dizer - olá - para a cidade onde nasci: Assaí.

Assaí - Parque Ikeda - imagem retirada do flick

Imagem retirada daqui




MEIA ELIPSE ENCANTADA




Assai = amanhecer.
Aurora de algodão.
Ecos do tiro de Vargas.
Agosto hostil.

Percorro a linha elíptica
Aurora – Poente.
Sonhos & Sons.
Êxtase.
Cimitarras na carne.
Dança em etnas-lençóis.
Olhos plenos de orvalhos.
Agonia.
Paz.

Não temo o poente.
É quando a luz se espalha.
A terra se agasalha.
Aceno lenços-poemas
Na despedida.
Um sorriso-açucena.
Visto o luar.
Entro na noite branca
Meio ao aplauso das estrelas.

BÁRBARA LIA
(O sal das rosas
Lumme editor - 2007)

Sunday, February 20, 2011

Lost Zweig



"Nada sobre a terra traz mais pressão ao espírito humano que o vácuo."
do filme Lost Zweig

Li hoje na Gazeta do Povo que a TV Educativa vai implantar a sua nova grade de programas. Finalmente - Provocações - de volta. Roda Viva e outros programas retransmitidos pela TV Cultura - São Paulo. Paulo Vitola o diretor-presidente diz na reportagem - “O estigma persiste embora tenhamos tirado da programação qualquer conteúdo de natureza política. O foco principal é valorizar o bom produto cultural do Paraná”.  
Ontem a TV Educativa e a TV Brasil transmitiram o filme Lost Zweig do diretor Sylvio Back. Vi o filme - novamente - gosto da trilha sonora deste filme (Raul de Souza e Guilherme Vergueiro)  gosto da canção desta cena This world of ours - Marlene Dietrich

 



Lost Zweig narra os últimos dias do escritor austríaco Stefan Zweig (60 anos), autor do famoso livro, “Brasil - País do Futuro”, e sua jovem esposa, Lotte (33). Baseado no livro - Morte no Paraíso - de Albert Dines, roteiro de Sylvio Back e Nicholas O"Neill.

O tema central do filme é a "morte voluntária" presente na trama através  da leitura de Zweig naqueles dias - Montaigne - em livros que sua primeira mulher Friederik enviava. No filme ele vive com Lotte, pobre Lotte, o amor dele segue em memórias e cartas que ele troca com a primeira mulher. Que não é aquela que vai morrer por ele e com ele. Lotte empreende esta viagem. Com a coragem de quem ama ela salta para o abismo eterno, ao lado daquele "que ama mais que a própria vida" conforme confessa em um determinado momento. Assusta meu coração saber que minha infância viveu à sombra de um homem que não admiro - Getúlio Vargas - naquele quadro que meu pai colocou na parede - a carta-testamento - ao ódio respondo com o perdão. O peso de um aniversário que coincide com a data do tiro que ecoava na minha data natalícia. Ter nascido um ano após o suicídio de Vargas. O impasse do escritor austríaco com o governo brasileiro que se nega a agilizar o seu pedido, conceder vistos para judeus que estão em risco na Europa. O mesmo governo que anos antes entregara Olga Benário grávida à Gestapo. A paixão de Zweig pelo paraíso (Brasil) e o encontro que o cineasta Sylvio Back colocou no filme. O improvável encontro entre Orson Welles e o escritor que ele admirava. Liberdade poética do roteiro. Por estarem os dois - coincidentemente - à mesma época no Rio de Janeiro. O suicídio de Zweig é tratado como um gesto poético no filme, por ser um gesto poético. Um ato voluntário de protesto. Muitos protestam entregando a vida, é o suicídio lírico. O mesmo de Bakun. O mesmo de tantos que se incendeiam em praças públicas. Chega um momento em que é preciso interromper a morte lenta.
"Por que somente aquele que é feito em pedaços anseia a perfeição" diz Stefan em um determinado momento.
Gosto imensamente deste filme.



Prêmios de Lost Zweig:

36º FESTIVAL DE BRASÍLIA/2003

“Melhor Atriz” (Ruth Rieser)
“Melhor Roteiro” (Sylvio Back e Nicholas O’Neill)
“Melhor Direção de Arte” (Bárbara Quadros)

7ª MOSTRA DE CINEMA DE TIRADENTES - Seleção Oficial

XXII FESTIVAL CINEMATOGRAFICO INTERNACIONAL DEL URUGUAY/2004 - Seleção Oficial

11º FESTIVAL DE CINEMA DE CUIABÁ/2004

“Melhor Fotografia” (Antonio Luiz Mendes)


14º. CINE-CEARÁ/2004
“Melhor Filme”
“Melhor Diretor” (Sylvio Back)
“Melhor Fotografia” (Antonio Luiz Mendes)
“Melhor Trilha Sonora” (Raul de Souza e Guilherme Vergueiro)



FESTIVAL INTERNACIONAL DO RIO 2004 - Seleção oficial

28ª MOSTRA INTERNACIONAL DE SÃO PAULO/2004 - Seleção oficial

8º FESTIVAL DE CINEMA DE CURITIBA/2004 - Filme convidado para encerramento


14º FESTIVAL DE CINEMA DE NATAL/2004

“Melhor Diretor” (Sylvio Back)


O diretor Sylvio Back fala sobre o filme:

Friday, February 18, 2011

No idioma de Borges...

*


Planto jardines en pantanos, gándaras.
Despido nubes cenizas, negras, densas.
Azuleo el cielo en el más profundo éxtasis.
Recompongo islas perdidas en archipiélagos
Como viejas primas que se reencuentran.
Del río antiguo recojo escombros
Hasta visualizar el alma de los peces
Fosforados, róseos.
No alcancé el tesoro-mor.
Tu alma enclaustrada en el océano-mirada.
Recojo arpones
            poemas-redes
            ilusiones.
Al fracasado corazón.


*


TÁBULA RASA


Las puertas de la ciudad blanca
Abiertas de par en par.
Mi espíritu, tábula rasa

Antes de la fecha en el tiempo grabada
Para alcanzar la sacrosanta ciudad
Sigo besando lombrices,
Como si fueran jazmines.


*


DOLOR MARINO

La brisa violenta erizaba algas
En el profundo océano – final del amor.

El cielo jamás se hará antes.
Silencio de serpientes lo que quedó.

Antes, ángeles tañían laúd
Y yo usaba el anillo de topacio que me diste.

Lo arrojé al mar.
Caballo de agua entre olas – adiós.



*



CANTATA FUGACE


La cantata aviva el recuerdo.
El mar feroz, la barca.
Velamen afligido, clepsidra inaugurando el final.
Adiós a los besos en tu piel de nácar.

Nostalgia, soledad de hielo.
La cantata prosigue, Eolo lancinante.
Veo la ira impregnada en la mirada
Reluciente, la frente pálida.

Pasos huyendo, tilapia
Aflicta de vuelta a las aguas.
Mi mundo arenal

Encubierto de brasa.
El perfume del sándalo me eleva
Y la cantata aviva las lágrimas – anochece.

 
BÁRBARA LIA

Thursday, February 17, 2011

L'amant

"O amante" de Marguerite Duras, li duas ou três vezes o livro, vi três vezes o filme. Ontem comentava com minha amiga Luciane sobre este livro de Marguerite Duras. Há vinte anos me senti próxima da menina que encontra o amante. Lembro que nesta época em que eu pensava recuperar o sonho de menina e escrever meus próprios livros, foi este livro que me deixou sem ar. E a Biografia de Frida Kahlo. E a poesia, sim. Sempre a poesia.
Fragmentos do livro "O amante" de Marguerite Duras:
"Muito cedo na minha vida ficou tarde demais. Quando eu tinha dezoito anos já era tarde demais. Entre dezoito e vinte e cinco meu rosto tomou uma direção imprevista. Aos dezoito anos envelheci. Não sei se é assim com todos, nunca perguntei. Creio que alguém já me falou dessa investida do tempo que nos acomete às vezes na primeira juventude, nos anos mais festejados da vida. Esse envelhecimento foi brutal."
**
"A história da minha vida não existe. Ela não existe. Jamais tem um centro. Nem caminho, nem trilha. Há vastos espaços onde se diria haver alguém, mas não é verdade, não havia ninguém. A história de uma pequena parte da minha juventude, já a escrevi mais ou menos, quero dizer, já contei alguma coisa sobre ela, falo aqui daquela mesma parte, a parte da travessia do rio. O que faço agora é diferente, e parecido. Antes, falei dos períodos claros, dos que estavam esclarecidos. Aqui falo dos períodos secretos dessa mesma juventude, das coisas que ocultei sobre certos fatos, certos sentimentos, certos acontecimentos. Comecei a escrever num ambiente que me obrigava ao pudor."
**
"Deixe-me contar de novo, tenho quinze anos e meio. Uma balsa cruza o Mekong."

**

"Vejo agora que muito jovem ainda, com dezoito anos, com quinze anos, eu tinha este rosto, premonitório daquele que adquiri em seguida com o álcool na meia-idade da minha vida. O álcool desempenhou a função que Deus não exerceu, também a função de me matar, de matar. Este rosto de álcool, eu o adquiri antes do álcool. O álcool apenas o confirmou. Tinha em mim esse lugar reservado, eu o percebi como todos os outros, mas, curiosamente, antes da hora. Assim como tinha em mim o lugar para o desejo. Aos quinze anos tinha o rosto do prazer e não conhecia o prazer. Os traços do prazer eram muito acentuados. Até minha mãe devia vê-los. Meus irmãos os viam. Tudo começou assim em minha vida, com esse rosto visionário, extenuado, as olheiras antecipando-se ao tempo, à experiência."



Tuesday, February 15, 2011

Haicai e seus afluentes - Edu Hoffmann

(Recebi este e-mail do Edu Hoffman. Os meus haicais que estão neste texto são fragmentos de poesias do livro Noir. O Edu raptou alguns versos e transformou em haicais)



Haicai e seus afluentes




Haicai é um poema de origem japonesa, que chegou ao Brasil no início do século 20 e hoje conta com muitos praticantes e estudiosos brasileiros. No Japão, e na maioria dos países do mundo, é conhecido como haiku.
Segundo Harold G .Henderson, em Haiku in English, o haikai clássico japonês obedece a quarto regras:
- Consiste em 17 sílabas japonesas, divididas em três versos de 5, 7 e 5 sílabas.
- Contém alguma referência à natureza (diferente da natureza humana).
- Refere-se a um evento particular (ou seja, não é uma generalização).
- Apresenta tal evento como “ocorrendo agora”, e não no passado.
O grande mestre desta arte é Matsuo bashô (1644-1694). Ex-samurai, monge praticante do Zen e estudioso das escritas clássicas chinesas e japonesas, dedicou sua vida ao seu aperfeiçoamento espiritual e à escrita. Observações da natureza, impessoalidade, rapidez, síntese e transcendência deram um toque zen a esta forma de poesia..
No Brasil foram feitas algumas traduções de Bashô; no entanto, como o idioma japonês é feito de ideograma, a tradução literal torna-se impossível. Mas a beleza permanece:


“Velha lagoa
o sapo salta
o som da água”

*


“Primavera não nos deixe
pássaros choram lágrimas
no olho do peixe”
(Tradução de Paulo Leminski – Ed.Brasiliense - Matsuo Bashô – A Lágrima do Peixe – 1983 – Coleção Encantos Radicais )


“A nuvem atenua
o cansaço das pessoas
olharem a lua”

*


“Em cima da neve
o corvo esta manhã
pousou bem de leve”

(Tradução de Millôr Fernandes – Ed.L&PM Pocket – Kai-Kais – 1997)


Quando o haicai começou a ser feito no Brasil, ele tropicalizou-se. A primeira mudança visível foi a rima, não praticada originalmente. Isso já deu um jeitinho mais brasileiro ao poema. E também deixou de existir a necessidade do haikai tratar de observações da natureza e da impessoalidade.



O cartunista Solda cometeu esse haicai que considero genial:



Faltou assunto
fiquei a sós
com o defunto


Millôr Fernandes saiu com esse:


O que me adiantaria
comer Maria
se ninguém saberia ?



No meu livro “Bambus”, bashô o santo em mim:



Blues morcego blues
diabo botando letra
na melodia de Deus

O Baianárabe Waly Salomão criou:


saudade
é uma palavra
o sol da idade
e o sal das lágrimas


Gostei tanto da brincadeira de rebuscar os haicais, que tive a curiosidade de verificar o que tenho em casa de livros de poetas “haikaistas” brasileiros. Verifiquei que, ao tropicalizarmos o zen, brotaram uns haikais bastardinhos bem zenvergonhas, porém deliciosos! Dos livros que tenho, peguei dois poemas de cada. Mergulhe !


Ricardo Silvestrin:


Oswald
pôs o pau
Brasil pra fora


*

Porta de escola
eu sentado
dentro de mim



Jaques Brand


Muro caiado
Ah meu amor de olvido!
Muro caído
Ah meu amor de enfado!


*
um tigre
dois cisnes
três signos




Edu Hoffmann



memória rã
meu micro
sóft!
na lagoa


*

poeta nua
no moon
da lua



Alice Ruiz



o ai
quando o filho
  c
      a
          i


*


que viagem
ficar aqui
parada


Paulo Leminski



isso aqui
acaso
é lugar
para jogar sombras?


*


coração
pra cima
escrito em baixo
frágil!



Mario Flecha



pela manhã
o quarto desarrumado
ainda o sonho das filhas


*


inverno

naquela manhã
eu e vovô
enterramos meu cachorro



João Ângelo Salvadori



tudo parece pouco
mal o dia amanhece
quero outro


*


olhos cheios de mar
me estico na cama
e fico boiando





Mário Prata


a lua no cio
os elefantes caminham
na beira do rio

*


lençol vermelho
lua branca
no travesseiro



Helena Kolody


persigo um pássaro
e alcanço apenas no muro
a sombra de um vôo


*

de grinalda branca
toda vestida de luar
a pereira sonha


Solda


Bashô, Busson e Issa
o resto
é pra encher lingüiça


*


Bashô, meu pai
conceda-me
apenas um haikai



Thadeu Wojciechowski

pra pai
até que levo jeito
pra mãe
não tive peito


*


a canção que soa
tem o coração do vento
que me sopra à toa




Sérgio Rubens Sosséla


uma andorinha
s o l
faz verão !


*


a esperança
de você viver comigo
dourou um dia inteiro



Jack Kerouac
eu, meu fumo
minhas pernas dobradas
pra lá de Buda


*


tem nada lá
só porquê
eu não quero


Valnei Andrade


o sol na rua se movimenta
o menino sentado olha
o velho em câmera lenta

*


traço de nanquim
bashô pinta só
plantas no xaxim



João Ângelo Salvadori


rigor do ofício
tudo que não seja haicai
é um desperdício


*

lua errada
revirei toda a noite
e nada



mais alguns avulsos:



Paulo Franchetti


ao virar a esquina
saindo detrás do prédio
a lua cheia



Yosa Buson



frescor
a voz do sino
quando deixa o sino !





Teruko Oda


noite de verão
na janela envidraçada
cabe a lua cheia



Paulo Leminski


tarde de vento
até as árvores
querem vir para dentro



Thadeu Wojciechowski



conversa de passarinho
por ninharia me sinto
um estranho no ninho



Issa Kobayashi


caracol,
docemente, docemente
escala o Fuji



Yosa Buson


halo de lua:
não é o aroma da ameixeira florida
nascendo no céu ?


Solda


primavera
ainda esta semana
cometo um ikebana


Edu Hoffmann


vem de longe
d i v a g a r
se vai ao monge



Bárbara Lia



No galho alto
Pássaro bicou a paina
Repercutiu neve


*


Não dá para respirar
Lambendo meu coração
O ar agora arranha




Lisa Carducci (Québec)


durante teu sono
brinco com as nuvens
e nem percebes




André Duhaine (Québec)


nos vidros
marcas de dedos e narizes
observam a chuva



Jeanne Emrich


seu jardim
meu jardim
a cerca no meio





Edu Hoffmann, natural de Jacarezinho-PR. Poeta e jornalista,  em Curitiba desde 1974. Autor dos livros Trens, Rasantes, Sete Quedas da Paixão e Bambus.    

Carinho do Cássio




O sol nasce
como uma criança
de sorriso na face

Cássio Amaral




na cidade feliz
a criança
é um aprendiz

Cássio Amaral





A borboleta
balança o oceano
nas asas

Cássio Amaral




Arco-Íris
Cássio Amaral
Edições Imprevisto/2010


- Arthur - meu neto - nas fotos acima, recebeu este lindo presente do Cássio Amaral. O meu desejo de escrever um livro para o Arthur permanece. O Arco-Íris é puro carinho. Arthur ama sapos e já está quase dizendo sapo, ele diz - papo. Diz Bababa pra dizer meu nome. Diz - Vovó! Que é mais fácil que Bárbara... Vovó coruja...

Menino sapeca
Vai no córrego
e vê sapo e perereca.
Cássio Amaral

Sunday, February 13, 2011

um sonho estranho

Sonhei que em um lugar desconhecido alguém desconhecido diz com uma desconhecida voz que vou viver apenas mais dois anos. Acordo e o dia está claro e ensolarado. À noite a chuva virá, ela sempre vem. Sacudir o calor da casa e me deixar feliz, por amar a chuva, eu fico feliz. O dia todo a imagem do sonho, um lugar parecido com ambulatório de seriado americano e a pessoa a me lembrar que só restam dois anos. Um sonho estranho este que ficou grudado em mim. A vida esfuma tão rápido, e ainda estou tocada pela inusitada partida do homem que foi meu - O pai dos meus filhos. Morte fulminante a dele, sem aviso, sem adeus. O mundo se abrindo diante dos pés das "crianças"... Nossas crianças... Banzo sonhos abortados Fred Mercury no último volume no som do carro - Love of my life- fui o amor da vida dele e ando recolhendo imagens, escaneando todas as suas fotos, a pedido de sua irmã. Um dia inteiro, uma manhã, mais uma tarde. Copiando todas as suas fotografias, para um álbum de eternidade. A gente só se torna eterno depois que morre...

foto de Luiz Cesar Hladu (1961-2010)

A sereia da casa do escultor.
Eu vivia no interior quando conheci meu ex-marido. Parece que ele foi viver aquele tempo na minha cidade só para me conhecer. Sua família não viveu nem dois anos por lá, e ele que sempre viveu entre Curitiba e Paranaguá acabou regressando e me roubando para bem longe do território da minha infância e juventude. Ele era fotógrafo e quando nos separamos ele deixou algumas fotos, entre elas a primeira obra de arte que vi na vida. Quem passou a infância em Peabiru recorda a casa do escultor José Moser. Onde uma sereia impávida contemplava a rua, fixa ali na varanda. Há alguns anos quando visitei a cidade da minha infância descobri que a sereia foi retirada da casa, e a rua diante da casa tem agora o nome do escultor. Mesmo antes da morte do Luiz eu tocava a magia que era ele ter fotografado um pedaço da minha alegria de menina, que era estancar diante da casa e ficar contemplando a sereia.


Friday, February 11, 2011

Carlito Azevedo

Não é uma resenha, análise literária acadêmica. Os poetas merecem o apuro de um olhar sobre estes livros, todo cuidado para tocar um tesouro. Um livro de poesias de um poeta verdadeiro é um tesouro... então, a tarde que passo em volta dos livros na Biblioteca Pública engendra este tipo de diálogo, e escrevo no bloco artesanal ao ritmo das leituras...


Em 2002 o amarelo gritante da capa de - As banhistas - abduziu esta poeta. Li o livro em uma tarde de verão - Pasmada! Pisei mares e areias ao lado dele e pensei - UM POETA! Nem todos os livros que tem poemas impressos são livros de poesias escritos por poetas. As banhistas era.
Ao encontrar Monodrama na estante eu me agarro ao negror da lombada da capa e ao sentar para ler em um recanto sossegado neste começo de 2011 eu penso - MAIS QUE POETA!
Os poemas são longos. Belos, sugam-nos para um lugar. Não conheço muito bem o Rio de Janeiro. Os passeios sempre às pressas. Lembro a poesia da Enseada de Botafogo quando esperava o ônibus para o Aeroporto, ali perto da casa da Clauky Saba, onde ela vivia quando fui ao Rio lançar - A última chuva. Fiquei olhando e pensando em como o Rio me entotece.
E a luz que colho quando piso as ruas do Rio. Até então eu só me hospedara em Copacabana. Agora, piso ruas do Bairro Botafogo e percebo que aquela luz está em toda parte do Rio...
E é de luz que Carlito fala em um poema lindo e longo...


(...)

Quem diz luz
diz algas diz cianobactérias

quem diz luz
diz impressão de espaço

diz: logo à noite
cintilando para ninguém

de um só lance meu olhar
abraça os olhos da alpinista triste

e diagnostica
pânico de chek-in


(...)


é preciso ler monodrama, para trilhar poemas assim...

(...)

"Suba na minha asa esquerda
e eu lhe mostrarei
(vamos voar!)
os mais ocultos recantos
dessa potência comercial"

(...)

Thursday, February 10, 2011

As Bárbaras dos Poetas II

Poder Crer em Santa Bárbara




Esta tarde a trovoada caiu
Pelas encostas do céu abaixo
Como um pedregulho enorme...
Como alguém que duma janela alta
Sacode uma toalha de mesa,
E as migalhas, por caírem todas juntas,
Fazem algum barulho ao cair,
A chuva chovia do céu
E enegreceu os caminhos ...

Quando os relâmpagos sacudiam o ar
E abanavam o espaço
Como uma grande cabeça que diz que não,
Não sei porquê — eu não tinha medo —
pus-me a rezar a Santa Bárbara
Como se eu fosse a velha tia de alguém...

Ah! é que rezando a Santa Bárbara
Eu sentia-me ainda mais simples
Do que julgo que sou...
Sentia-me familiar e caseiro
E tendo passado a vida
Tranqüilamente, como o muro do quintal;
Tendo idéias e sentimentos por os ter
Como uma flor tem perfume e cor...

Sentia-me alguém que nossa acreditar em Santa
Bárbara...
Ah, poder crer em Santa Bárbara!

(Quem crê que há Santa Bárbara,
Julgará que ela é gente e visível
Ou que julgará dela?)

(Que artifício! Que sabem
As flores, as árvores, os rebanhos,
De Santa Bárbara?... Um ramo de árvore,

Se pensasse, nunca podia
Construir santos nem anjos...
Poderia julgar que o sol
É Deus, e que a trovoada
É uma quantidade de gente
Zangada por cima de nós ...
Ali, como os mais simples dos homens
São doentes e confusos e estúpidos
Ao pé da clara simplicidade
E saúde em existir
Das árvores e das plantas!)

E eu, pensando em tudo isto,
Fiquei outra vez menos feliz...
Fiquei sombrio e adoecido e soturno
Como um dia em que todo o dia a trovoada ameaça
E nem sequer de noite chega.

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema IV"

 
ler esta poesia trouxe à memória a mãe queimando ramos bentos e clamando por Santa Bárbara em dias de tempestades...

Wednesday, February 09, 2011

GIL BRANDÃO

Esses dias,
eu já não me espanto
com a forma como o mundo me envolve
cada vez que saio para a montanha
e com a melodia infantil, meio mágica,
que o vento me assobia ao andar pela estrada
ao amanhecer.

As coisas hoje são assim.
E quase toda noite, eu conto as estrelas
e sempre encontro o mesmo número delas;
e quando as estrelas não aparecem para serem contadas,
eu conto os buracos onde elas deveriam estar.

E vou concluindo que não vale a pena
passar o tempo lembrando daquilo que dói.
Pensamentos assim são como aqueles velhos boleros
onde acontece uma porção de coisas
mas o refrão vai se repetindo sempre,
mesmo onde ele não combina.
GIL  BRANDÃO
http://meuparedro.wordpress.com/

As Bárbaras dos Poetas

Endechas a Bárbara escrava


Aquela cativa
Que me tem cativo,
Porque nela vivo
Já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
Em suaves molhos,
Que pera meus olhos
Fosse mais fermosa.

Nem no campo flores,
Nem no céu estrelas
Me parecem belas
Como os meus amores.
Rosto singular,
Olhos sossegados,
Pretos e cansados,
Mas não de matar.

U~a graça viva,
Que neles lhe mora,
Pera ser senhora
De quem é cativa.
Pretos os cabelos,
Onde o povo vão
Perde opinião
Que os louros são belos.

Pretidão de Amor,
Tão doce a figura,
Que a neve lhe jura
Que trocara a cor.
Leda mansidão,
Que o siso acompanha;
Bem parece estranha,
Mas bárbara não.

Presença serena
Que a tormenta amansa;
Nela, enfim, descansa
Toda a minha pena.
Esta é a cativa
Que me tem cativo;
E. pois nela vivo,
É força que viva.

Luís de Camões

(vou publicando, conforme encontro, poesias de grandes poetas para alguma Bárbara - até Camões cantou Bárbaras)

Tuesday, February 08, 2011

erótica



NUNCA DIREI: - TE AMO!






Nunca direi – Te amo! Posto que é desejo santo

E traz teu rosto – Miragem que pousa na retina -

Basta!! A primavera garante que elas acabaram

: É o fim das lágrimas. Líquidos apenas outros -

Nosso Gozo. Ainda que embaçado pelas folhas

Do outono que vivemos – É vermelha a flor que

Rola pela alameda e é vermelho o telefone que

Traz este mar sonoro – Alma ancorada em voz

E quando suplicas que eu te consagre em rito

Eu me banho incensada em orquídeas, jasmins

E quando amanhece e meu ser desperta – Eis:

A primeira miragem – teu rosto dentro de mim

Tu que estás dentro de mim, tu que estás aqui

Dentro de mim. Teu sopro corpo palavra e pau

Dentro de mim. Teu olhar – vidro que parte as

Paredes e me invade. Logo ali a garota sonha -

Tolices ancestrais: Amor eterno casar ser feliz

A pássara que rega com sua aura o raio da lua

Morre de pena da garota que crê – Amor esta

Utopia Mor. O teu grito é o eco do meu – Nós

Cremos sim é no desejo insano inaugurando o

Sol ardente de Eros e a Lua escandalosa dela –

Poderosa Afrodite – Neste intercâmbio voraz:

Tua sutileza que abre minha vulva sem tocar;

Minha loucura: A endurecer teu pau e eriçar

Pelos – Nós nos buscamos na manhã – Neste

Tudo de amar. E quando despes meu vestido

Nada acima da pele. Nada no ar. A não ser a

Canção. Nada a passear no chão – E o mundo

Não sabe que ali – naquela janela – É o Éden

A coberta da cama agora é nuvem. Soro vivo

– teu sêmen que me lava poro a poro. - Sim!

A consagração da vida em coito puro a curar

Todo o cansaço, agonia, dores, temores gris

:: O desejo saciado é o céu que nos visita ::

:: O desejo saciado é o amor envelhecido ::

O desejo é um velho sábio, que sacode o ar

E segue sua trilha morto de pena do amor -

Este impostor – Que há séculos e séculos e

Séculos amém nubla esconde a dádiva mor

- Eu te desejo – Tu me desejas

Utopia não nos sacia. Só o desejo -

Só o desejo que chegou sem aviso

Registro, AR – telegrama onírico à

Nossa frente – A nos gritar para não adiar

Teu desejo – Meu desejo – Murmuramos:

Eros nos Proteja! Nos Proteja! AMÉM

Bárbara Lia

Nature

Henri Manguin




“A lentidão das palavras do arcanjo ao acordá-la”


O sagrado despe as ilusões
e abraça as árvores mortas
Suas folhas azul esmaecido
qual manto da Virgem de Cambrai

Os ossos das árvores adoeceram
e elas morreram – azuis -
Antes que tornassem brancos
os seus cabelos




“Sinal cifrado para enovelar o divino”

Trinta e dois ventos
      da rosa dos ventos
Vinte e um gramas
     do peso da alma
Oito países
     a comandar a Terra
UM Deus louco
     pelas ruas bombardeadas


(2 Poesias acima -  Prêmio Ufes - Literatura/2009)




CIGARRAS NO APOCALIPSE


Quando o poema emerge
Estridente
Emudece o verão
Escurece a primavera
Incendeia o outono

Poetas são cigarras
No apocalipse
Sempiterno som
Canto que incomoda

Sacode as esfinges
As filosofias vãs
Canto ecoa
Em muralhas pagãs
Invade corredores
Cola ao som a hortelã
Das festas de antes
Arranca lágrima cinza
No silêncio laranja
De Guantánamo

O som ardido trinca o sol
Escorre gema zelosa
Na chaga das crianças
Da África inteira
Canta a primavera afogada
Da vida ceifada.

A cigarra segue
No apocalipse sem volta
Anoitece areias de Fallujah
Todas as ruas da Faixa de Gaza

Cigarras no apocalipse
São poetas em desalinho
Gestados no ventre escuro
Ninfas subterrâneas
Emergem em canto e vôo
Ao som da trombeta
De um anjo sem olhos.







CALHANDRA NA TELHA


(Para José María Arguedas)




Musicar uma poesia
Em louvor ao Andes
Até o pássaro condor
Pousar no meu indicador
 
A dor do som da flauta
A descortinar abismos
O vento a sacudir
A manta da menina quéchua
De olhos cor de selva
Banhada de chuva
 
No beiral de uma cabana ocre
De janelas negras
E jardim de cactus
Pousará a calhandra


A mesma que guiava o menino
Pelas ruas de Cuzco
Pelas pontes incaicas
Pela sombra do pai





Decreto:

Proibido derrubar
qualquer árvore


(exceto para
construir
berços
e violinos)



 
 
Sempreviva
aos
Sempremortos:

Rasguem as encíclicas
as leis e as ordens

Mudem o cardápio da alma

A cada manhã
Meio copo de poesia
Panquecas de sol molhadas
Na clave de Fá
Salpicadas do orvalho
De Shangrilá


BÁRBARA LIA (meu canto à Natureza)
 
 

imagem retirada daqui



A vida não gosta de quem tem medo dela
Eu já pisei no ar esperando que Deus colocasse embaixo o fio de aço
- Ele sempre colocou...
É bom a gente desafiar os céus, as normas, as estatísticas
Tudo o que norteia este mundo tosco
É bom a gente inventar um canto novo
Um novo alfabeto
Uma nova rota
Ir abrindo flores ao redor
É tão bom poder ir e vir no tempo
Ir rasgando a pele, rasgando a planta do pé, o coração
- Cada vez mais luminosa
A alma que vaza das rupturas -

Bárbara Lia

Sunday, February 06, 2011

Poesias da série premiada no Prêmio UFES

*


“Dentro da minha flor me escondo”



Baile das harpias
Em árvores carbonizadas
Rindo do fim
Fumaça sangra
Nosso jardim
A alma do éden
Adoentada.





“O pedigree do mel não diz nada a uma abelha”



O rancor dos homens
Contaminou as flores
As abelhas
Morreram de cólera
Adocicada


Último zumbido
Acordou o Sol
Em cadência afinada
Qual canção do Vangelis



“Toda coberta de insidioso musgo”

Sol magenta de maio
Alma dos ancestrais
No corredor
As goiabeiras
O relógio cuco
O mundo tinha musgo
No chão
Nas paredes
No vão das cercas
Nos alfarrábios
O mundo inabitado - Esquecido
Que se fecha sem ruído
Em saudade - Evapora
Azul de signos
Molhado de lágrimas


Bárbara Lia



Friday, February 04, 2011

Black Swan - psychological thriller



A semana termina com o recado do filme - Cisne Negro
- Depois de alcançar a perfeição, só resta a morte.
Vamos então burilar os dias. O tempo esticou nesta tarde, voltando do cinema, caminhando e pensando - sim, estou longe do lugar onde apenas o salto para o fim aguarda. Imperfeita das imperfeitas, eu a poeta embrulhada em brisa de tarde e sol de verão. O dia claro que sempre abraça quem sai do escuro do cinema. Um cisne negro a clarear o momento. Bela Natalie Portman. Bela. Bela. O teu sangue gotejou esperanças na alma da poeta. The woman is perfect. Escreveu Sylvia Plath - derradeira abertura de último poema. The woman is perfect. Nada mais se espera para o além da perfeição. Esta que elas buscaram em uma alucinada dança que envolve drama loucura e amor. Eu estou incompleta, imperfeita e aparando arestas.

Wednesday, February 02, 2011

Caderno G


Constelação de Ossos
Barbara Lia.
Vidráguas, 80 págs.
R$ 25.
Romance.

"A escritora paranaense Bárbara Lia, mais conhecida por escrever e publicar textos poéticos, surpreende com uma longa narrativa em prosa, fluente e lírica. Constelação de Ossos é uma trama narrada por uma personagem chamada Lynz, para quem as experiências dolorosas do passado parecem ser uma âncora que a impedem de seguir em frente. Metáforas e sonoridades inesperadas conduzem o leitor da primeira a última palavra, em um fluxo contínuo."


Dia 30 de janeiro na seção - Lançamentos - da Gazeta do Povo - o meu romance - Constelação de Ossos . O livro está à venda- aqui em Curitiba - apenas na Livraria do Paço. Na Internet pode ser adquirido na Livraria Cultura.

Chopin, segundo meu amigo Wilson

Chopin mergulhava no Inferno para encontrar o Paraíso;
Na Vertigem executava a Alma, a libertando através da Música.
N`Ele concentrava-se o Cristo recrucificado da Europa
a perdoar os flagelos polimorfos dos grandes Impérios.
O gênio incontido no cristal de sua existência
era embalado por Sand em meio a todas as cortes e silêncios.
Carregava correntes de luz que não o impedia de voar.
Voava até o Sol e cego balbuciava seus pesadelos
entre os tesouros produzidos por seus dedos.
A Polônia dilacerada e eterna vivia N`Ele.
Apesar dos doutores Caruncho e Fernandez o apontarem como mero
doente epilético.
Wilson Roberto Nogueira
raptado do site Poeteias


...



... 
Chopin foi minha trilha sonora em 2010, enquanto escrevia um livro, que espero lançar breve...

ADAMARE




Eu sem ti: Catedral de argila.
Campo ceifado. Esperança
de brisa. Anjo desnorteado.
Nua de luz e vida.

Adamare! Adamare!
Mantra de medievais baladas.
Adamare! Adamare!
Balcão de flores, mãos aladas.

Véu na sacada
Cristais de lágrimas, acenos.
És o pastor andante que seguirei calada.

Pássaro invisível - Pégasus.
Adamare!
Rio que deságua no adeus.

Bárbara Lia
Adamare
21 gramas/2010
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
foto - Kátia Torres
Adamare - título de um dos livros
da coleção 21 gramas

Tuesday, February 01, 2011

COHEN / LORCA




Federico García Lorca: Pequeño Vals Vienés




En Viena hay diez muchachas,
un hombro donde solloza la muerte
y un bosque de palomas disecadas.
Hay un fragmento de la mañana
en el museo de la escarcha.
Hay un salón con mil ventanas.

Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals con la boca cerrada.

Este vals, este vals, este vals, este vals,
de sí, de muerte y de coñac
que moja su cola en el mar.

Te quiero, te quiero, te quiero,
con la butaca y el libro muerto,
por el melancólico pasillo,
en el oscuro desván del lirio,
en nuestra cama de la luna
y en la danza que sueña la tortuga.

¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals de quebrada cintura.

En Viena hay cuatro espejos
donde juegan tu boca y los ecos.
Hay una muerte para piano
que pinta de azul a los muchachos.
Hay mendigos por los tejados,
hay frescas guirnaldas de llanto.

¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals que se muere en mis brazos.

Porque te quiero, te quiero, amor mío,
en el desván donde juegan los niños,
soñando viejas luces de Hungría
por los rumores de la tarde tibia,
viendo ovejas y lirios de nieve
por el silencio oscuro de tu frente.

¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals, este vals del "Te quiero siempre".
En Viena bailaré contigo
con un disfraz que tenga
cabeza de río.
¡Mira qué orillas tengo de jacintos!
Dejaré mi boca entre tus piernas,
mi alma en fotografías y azucenas,
y en las ondas oscuras de tu andar
quiero, amor mío, amor mío, dejar,
violín y sepulcro, las cintas del vals.