Saturday, January 31, 2015

Na floresta de poemas...

Minha produção é alucinante e isto leva a um acúmulo de poemas e livros e pela lentidão das publicações, fica aquele arsenal de títulos formando uma floresta de poemas. Em  Há alguns anos comecei a tecer livros artesanais. Alguns são inéditos em publicação tradicional. Se eu morrer, devo deixar metade da produção sem entrar nos livros tradicionais, que foram publicados por editoras ou em edição independente... E, nesta espécie de roda-viva, separo poemas por temas, e vou tecendo pequenos livros para tentar organizar o caos.. A parte feliz é que amo tecer com fios e palavras... 


 
Primavera em Pasárgada - Poemas Curtos
Por não ser um livro comercial, apenas uma espécie
de arquivo pessoal, a imagem ainda não é domínio
público, apenas uma ilustração do exemplar para arquivo:
Marc Chagall



Deus poèts - Poemas apresentados no recital
homenagem ao centenário de Vinícius de Moraes.
Elas leem Vinícius ao lado de Marilda Confortin -
Fiz um livro único, um exemplar para mim, 
com poemas do evento.
Imagem da capa - Rosana Bossu




Jardim Nonsense é um livro eclético.
Todos os poemas que escrevi pós-filmes
Registro e impressão poética do que vi na tela
a capa é um desenho de Federico Garcia Lorca

Saturday, January 24, 2015

A última chuva






Pensando seriamente em preparar uma edição revisada e ampliada do livro - A última chuva.
Dos meus livros não cogito uma reedição de - O sorriso de Leonardo - e - Noir. Por esta razão publiquei no site ISSUU uma seleção dos poemas destes livros. Os livros de Poesia publicados a partir de 2007, cada livro de Poesia , provavelmente terá uma nova edição... 


ASAS DE NIETZSCHE

A essência da felicidade é não ter medo.
(Nietzsche)


Em urdidura silenciosa
escondem o pássaro
no crânio branco
-arapuca tétrica-
caveira fria.
Asas em valsa
coloridas de raios
que entram pelos olhos vazados,
e aquecem feito o fogo
e as papoulas
da primeira primavera.
Asas de pluma se ferem
no osso-cárcere, sangram;
asas metafísicas
voam céus de antes.
BÁRBARA LIA
A Última Chuva
Mulheres Emergentes Edições Alternativas
MG (2007)
Página 19



Tuesday, January 20, 2015

NOIR

Edição revisada, com alguns poemas do livro de 2006, no site ISSUU





Thursday, January 15, 2015

as belas que são feras

Nunca fico muito empolgada com o Oscar. Por alguma razão de afinidade com estas atrizes, por não pertencerem ao nicho das mais badaladas, por gostar mesmo delas nos filmes e séries que vi, vou torcer por elas, como melhor atriz e melhor atriz coadjuvante, por "Garota Exemplar" e "Boyhood".






















foto de Rosamund Pike de Nadav Kander

"Não sei bem o que dizer, mas tenho de dizer qualquer coisa."





"Não sei bem o que dizer, mas tenho de dizer qualquer coisa."
Mesa-redonda aberta sobre o ataque ao Charlie Hedbo: o poder dos cartoons editoriais, liberdade de imprensa e expressão, limites sociais, contextos históricos da imprensa ilustrada.
Sara Figueiredo Costa, Nuno Saraiva, Osvaldo Macedo de Sousa e Eduardo Salavisa, com moderação de Pedro Moura.

Terça-feira, 20 de Janeiro, às 18h30, no Museu Arqueológico do Carmo.
Entrada livre.

O crime perpetrado contra o jornal satírico francês Charlie Hedbo colocou na ordem do dia junto ao grande público uma discussão que tem tido lugar em círculos especializados. Qual o papel do cartoon editorial nas democracias modernas, cujas leis de liberdade de expressão permitem um qualquer grau de negociação entre o que se entenderá por "aceitável" e "pertinente", por um lado, e "exagerado" e "ofensivo", por outro. Se se acreditar numa tal categorização, porém, há que compreender que ambas pertencem a uma longa tradição de trabalhos, e com particular presença na cultura francesa. A questão desta liberdade vai embater noutras questões, como os posicionamentos ideológicos, os ditos limites da imprensa, a censura prévia e as decisões judiciais, assim como a conjuntura actual a nível mundial cujas fricções são vistas por alguns como um "choque de civilizações". Não é difícil começar uma discussão sem tropeçar em controvérsias ou mesmo afirmações elas mesmas insustentadas, já que tudo isto implica emoções, limites ao nosso conhecimento, posicionamentos extremados, etc. 
A comunidade de artistas de banda desenhada, ilustração e cartoon editorial, assim como investigadores e críticos da área têm multiplicado a sua expressão de solidariedade, assombro e até mesmo incompreensão nos mais variados canais de comunicação. Alguns dos seus membros não sabem bem como começar a articular o que pensam e sentem, mas sentem também a urgência em fazer algo mais. Esta é uma oportunidade, entre outras, de dialogar.

Tuesday, January 13, 2015

em tempos negros...


imagem: Bernard Pras







No caminho havia uma parede. No desvio havia o muro do não. Na montanha uma pedra sagrada intocável que algum profeta deixou há quatro milênios ou mais. No rio uma barragem de desaba no inferno. Na pista de dança os vidros pontiagudos no chão. Na piscina alguém polvilhou antraz. No poço do Paraíso um balde de arsênio. Na única árvore do deserto os frutos queimam o interior de quem os devora e corroem e deixam cada um como uma boneca inflada, de pele humana e oca. No jardim noturno as corujas são carnívoras. Na pradaria a grama cheira formol e a terra é o cadáver apodrecido que exala o odor virulento de nossas almas amaldiçoadas. Os beija-flores não querem o néctar das flores do último jardim querem as jugulares e voam eletrizados aos pescoços distraídos com o bico agulha e a sede de mil vampiros. As borboletas cantam e enlouquecem, pois é o desesperado canto de profundezas negras. Não nascem mais crianças e o último violino rebentou suas cordas e está atirado em um sótão sombrio. Apagaram as letras de todos os livros de Poesia e a mente de quem as decorou e não há mais o encanto da palavra para oxigenar o humano. Os livros contam apenas as carnificinas da humanidade e são tantos livros de todas as tragédias que duplicaram o número de bibliotecas. As bibliotecas tem uma aura densa, pois agora elas guardam os atos cruéis, libidinosos, satânicos, escritos por robôs alimentados pela própria História. Uma noite um homem com dons de recuperar memórias sonhou com um poema de Dylan Thomas “Rage, rage against the dying of the light” e enlouqueceu com a beleza do ritmo e das palavras e pela certeza de saber que já caminhava pela noite escura e não dava mais para dar um passo atrás e não penetrar as trevas dos séculos e sentiu raiva dos que entraram – delicadamente – na noite escura... O louco que conseguiu vislumbrar um verso, perfurou os olhos e comeu soda cáustica com batatas fritas e brindou com uma água bege que sobrou do envenenamento das nascentes e, ao vislumbrar um lugar possível, de lírios e alfazemas, perfume de manhãs, cascatas,  cerrou os olhos docemente como um pássaro que bate, pela primeira vez, as asas.

Bárbara Lia
Janeiro/2015

Friday, January 09, 2015

Romãs adocicando auroras




















Naquele tempo eu colhia o sol mesmo nos dias tristes
Bastava abrir a tampa negra da bússola seguir a trilha
Agora inverno é cortina que nubla toda luz que sobra
Breve nem mundo ou bússola, soterrados pelo caos

Naquele tempo o aroma de canela nas tardes
Bolinhos de chuva em dias de sol ou temporal
Uma seresta patinando nas ondas do radio
E o estrondar das gargalhadas do pai                               
Retirando da coxia do universo
Uma dúzia de estrelas preguiçosas


Agora mapearam todas as galáxias
E não encontraram o coração de Deus...
Aquele que eu sepultei ao pé da romãzeira
Que trazia dentro dos frutos castos
Uma ninhada de estrelinhas vermelhas

Bárbara Lia
Chá para as borboletas
o livro da infância 
21 gramas

Desenho: Ane Fiúza

Thursday, January 01, 2015

2015, o ano da fúria







das coisas que perdi pelo caminho
uma preciso recuperar – agora!
voltar à curva onde deixei a fúria
erguer o chão, suscitar terremotos,
entornar rios, arrancar árvores pela raiz
qualquer coisa para retomar a fúria
seu vestido escarlate, seu vinho líquido
ardente – sangue embriagado e rude -
das coisas que abandonei pelo caminho
eu a necessito, não quero mais esperas
ou glória alguma, como última quimera
nem anseio esclarecer embates, posar de anjo
- visto a roupa apertada tecida pelas harpias
coloco este coração desencapado
onde tatuaram a palavra – horrível –
recolho as flechas que não entraram em mim
e com elas ergo uma escultura diante do mar
uma onda escarpada marrom diante do azul
nadei em riste entre flechas, calei a voz
deixei que traduzissem meu  idioma
aquele que me ensinaram borboletas, romãs,
roldanas, mariposas,  flor do maracujá
o cruzeiro do sul, cada amor azul
preciso apenas da fúria
é ela que um guerreiro leva
quando a sede mata e o passo estanca
é ela que o guerreiro veste na última batalha
é dela a chama permanente no altar das musas
ninguém vive sem a fúria
sem ela é tudo rosa pálido
sorrisos de hortelã de almas sonsas
a fúria sempre correu no sangue dos bardos  eternizados
na alma de enlouquecidos quixotes
a fúria que explodiu em um nome, um rosto, uma flor
em palavra, poema, liturgia, grito
deixo tudo que perdi pelo caminho
resgato a fúria, abraço a fúria, dou a ela o sopro final
a luz rosicler do meu coração, sempre amanhecendo...

Bárbara Lia

Imagem - Christian Schloe