Wednesday, January 31, 2007

BÁRBARA SOCRÁTICA

















desenho - anne fiúza.
Socraticamente - vou dar uma volta
pelos jardins da vida - um dia, eu
volto...

Tuesday, January 30, 2007

NOIR


NOIR
poesia
BÁRBARA LIA
(ed. do autor - 52 p. - 2.006)

Wednesday, January 24, 2007

Monday, January 22, 2007

LA LOCA DE LA CASA - ROSA MONTERO

"La imaginación es la loca de la casa"

Santa Teresa de Jesus


"Cuando una mujer escribe una novela protagonizada por una mujer,
todo el mundo considera que esta hablando sobre mujeres; mientras
que cuando um hombre escribe una novela protagonizada por un
hombre, todo el mundo considera que está hablando del género humano."
Rosa Montero (La loca de la casa)

POETAS DE MOÇAMBIQUE













Mia Couto


Horário do fim

morre-se nada
quando chega a vez

é só um solavanco
na estrada por onde já não vamos

morre-se tudo
quando não é o justo momento

e não é nunca
esse momento

Fevereiro 1984

MIA COUTO
Raiz de Orvalho e Outros Poemas
(Ed. Caminho - 3ª ed.)


Aforismo

Havia uma formiga
compartilhando comigo o isolamento
e comendo juntos.

Estávamos iguais
com duas diferenças:

Não era interrogada
e por descuido podiam pisá-la.

Mas aos dois intencionalmente
podiam pôr-nos de rastos
mas não podiam
ajoelhar-nos.
JOSÉ CRAVEIRINHA


Presença

Sou dos que ainda estão presentes
e bebem do amor a única ausência.
Quantos pedaços de mentiras
retenho na viscosidade do meu cuspo?
Quantas verdades apaixonadas
reclamam ansiosas o esperma das palavras?
Nenhumas, talvez, nenhumas...
escravizo o silêncio
e faço dele o meu mensageiro.
Estou presente em tudo ou mais
e aí onde me procurarem
será a minha próxima ausência.
HÉLDER MUTEIA

Saturday, January 20, 2007

ORGASMOS DE IRIS



Cátia Mourão


















Teus olhos enlaçavam os meus
em orgasmos de íris.
Inflorescência de estrelas.

Sempre acordo antes do sol.
Agora, que comecei a te amar,
amanheço antes que o dia.

Espanto as Bacantes gélidas,
que seguem o perfume da tua pele-
lírio do recomeço.

Pedras destilam a bílis
e a mágoa vai vazar em áridas notas
de um blues sem juízo.

As sapatilhas – talismã – azuis
seguem- te em paralela senda.
A dez centímetros e um véu.

O mar recua ante teu passo,
estátuas vertem suor ao teu lado,
dentro o sol, não te permite sombra...

... E teus olhos enlaçavam
meus olhos
em orgasmos de íris...


BÁRBARA LIA
(NOIR - ed. do autor, 2.006)

Monday, January 15, 2007

TRAPO


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Na pedra da praia mansa,
gotas de espumas em minhas coxas.
Narf tropical,
bebo as notas musicais marinhas,
levo o olhar entre as partituras
- um peixe azul!
Balé sublime entre ondas verdes.
Tiro os óculos da sacola e descubro
- é só um trapo triste.
Felizes os loucos!
Felizes os loucos
que não colocam
óculos de granito,
que não vêem a realidade explícita.
Tão lindo o peixe azul entre ondas.
Pena colocar os óculos
e enxergar o trapo azul
tão triste...
BÁRBARA LIA
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O site - Sonetos Curitibanos - publicou meu soneto "Primavera para Beethoven"
(link ao lado)
O site é organizado pelo poeta Rodolfo Brandão.

Sunday, January 14, 2007

FERNANDO PESSOA


















"Ah, todo o cais
é uma saudade
de pedra"

"O meu cansaço é
um barco velho, que
apodrece na praia deserta"

"Sou um doido que estranha sua própria alma"



Quando fui outro
Fernando Pessoa
Ed. Objetiva
Organização - Luiz Ruffato

Saturday, January 13, 2007

NOITE (LAYLA)



Ponte Romana - Salamanca


calçadas molhadas
- uma lâmpada grávida
estremecida de sol
pequeno -
a lembrar
que ainda é verde o trigo.
florirá
amanhã
em sol granulado,
farpas de doçura,
sempre.

BÁRBARA LIA

Thursday, January 11, 2007

DOMINGOS GUIMARAENS



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Ponte Hercílio Luz - SC


SE UM GIGANTE, SE UM OCEANO

na poça cor de água
cor de céu
cinza
cor de nuvem
e vento
as ondas das micro marés
na poça cor de água
e sol
não sol nosso sol
distante alfa do centauro
e belatrix, beteugeuse, intrometida
na poça cor de água
cor de ar
vapor subindo
a poça indo
na tarde cor de poça
na poça manhã de ontem
cor dos caminhos de hoje
reflexo de amanhã
DOMINGOS GUIMARAENS
(A gema do sol - 7 Letras)

Wednesday, January 10, 2007

POETAS DE PORTUGAL



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Ponte Romana - Sertã
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A ponte de hoje é de Portugal. A internet permite esta ponte, os meus poemas trouxeram a amizade de uma menina que escreve - Ana Mestre - http://www.dflyworld.blogspot.com/ ... e os livros de Luís Serguílha que chegam. E as palavras de João Videira Santos, sobre os poemas do livro Noir. Helena Sut, escritora que conheci há tão pouco tempo esteve em Santar, ela escreve uma história que tem no roteiro esta localidade, e voltou com notícias de Portugal. Meu amigo Fernando Aguiar, que vive em Lisboa... Amo Portugal, e os poetas todos, incluindo os poetas e escritores das ex-colônias. É claro que Mia Couto é a paixão maior...

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Somos os favos cegos dos tecelões surdindo num íman castigado pelas
novenas entre o baú descampado e as crianças enleadas de puros
fluentes por apenas serem
Oh rostos empobrecidos das criaturas que florescem num largo
inquebrantável aspirando a surpresa no trovão límpido do jardim.
Luís Serguilha
Lorosa'e - Boca de Sândalo - Campo das Letras Editores S. A., 2.001


O sorriso

Creio que foi o sorriso,
sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia entrar nele, tirar a roupa,
ficar nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.
Eugénio de Andrade

Monday, January 08, 2007

PUENTE DE LA MUJER





















Puente de La Mujer
Porto Madero
Buenos Aires
design do arquiteto espanhol
Santiago Calatrava


A Ponte (fragmento)

Lenine

A ponte não é de concreto, não é de ferro
Não é de cimento
A ponte é até onde vai o meu pensamento
A ponte não é para ir nem pra voltar
A ponte é somente pra atravessar

Friday, January 05, 2007

BRISA

BRISA

Entardecer lilás
brisa de raro fôlego


do deus das nuvens.
Pés descalços

liberdade de estar amando
na era dos mísseis.


Bárbara Lia

(O sorriso de Leonardo-
Kafka ed. 2004)


Wednesday, January 03, 2007

DIANTE DA JANELA, O ROSEIRAL

















Salvador Dali



Testamento enterrado
à sombra do roseiral:
Deixo meu violão
para a balconista da padaria.
A erva benta
para a velha do sobrado.
A chaleira
que chia Villa-Lobos
para Frei Gustavo,
que costura almas
nas manhãs de quarta.
O livro de poesia
de Augusto dos Anjos,
para o cobrador do expresso 022.


Assinado:
A menina dos olhos tristes.
Chico me chamava de Carolina,
mas era só um disfarce.
Sou eu a menina
que viu o tempo passar na janela,
sem ver.

BÁRBARA LIA
(O sal das rosas - Lumme Editor)

Tuesday, January 02, 2007

RAFAEL ALBERTI






















Paz - desenho do poeta espanhol
Rafael Alberti


Balada para los poetas andaluces de hoy

Rafael Alberti

¿Qué cantan los poetas andaluces de ahora?
¿Qué miran los poetas andaluces de ahora?
¿Qué sienten los poetas andaluces de ahora?

Cantan con voz de hombre, ¿pero donde están los hombres?
con ojos de hombre miran, ¿pero donde los hombres?
con pecho de hombre sienten, ¿pero donde los hombres?

Cantan, y cuando cantan parece que están solos.
Miran, y cuando miran parece que están solos.
Sienten, y cuando sienten parecen que están solos.

¿Es que ya Andalucia se ha quedado sin nadie?
¿Es que acaso en los montes andaluces no hay nadie?
¿Qué en los mares y campos andaluces no hay nadie?

¿No habrá ya quien responda a la voz del poeta?
¿Quién mire al corazón sin muros del poeta?
¿Tantas cosas han muerto que no hay más que el poeta?

Cantad alto. Oireis que oyen otros oidos.
Mirad alto. Veréis que miran otros ojos.
Latid alto. Sabreis que palpita otra sangre.

No es más hondo el poeta en su oscuro subsuelo.
encerrado. su canto asciende a más profundocuando,
abierto en el aire, ya es de todos los hombres.

*

página oficial de Rafael Alberti:
http://www.rafaelalberti.es/

Monday, January 01, 2007

MOURID BARGHOUTI



















MOURID BARGHOUTI NO PROGRAMA RODA-VIVA

A TV Cultura reprisou nesta primeira noite de 2.007 o programa de 15 de agosto. O escritor e poeta palestino Mourid Barghouti sendo entrevistado.
Você liga a TV e ouve a palavra - poesia - em seguida - Palestina - em seguida esquece o filme que alugou para ver, os filhos que não telefonam para dizer a que horas vão chegar em casa, escala o túnel do seu umbigo, poço de lágrimas respingadas de 2.006 - o ano da desolação... Senta-se e ouve, e retorna ao seu antigo amor - a cultura árabe. Allah é mais próximo de mim que Deus, mesmo que sejam UM, Allah traz um povo que está ainda agarrado às barbas de Deus, que por Ele esquecem casa, mulheres, filhos, como pede a Escritura. E toda a poesia da busca pelo conhecimento do mundo árabe retorna em ondas sonoras de um tempo que não é meu, de países que não visitei... Já fui criticada por falar de paises que nunca vi, e Neruda dizia que ao poeta é permitido falar de oceanos que não conhece, tenho para mim que o poeta tem dentro de si o ponto universal que estava no porão de Carlos Viterbo, sim, temos nosso Aleph pessoal, que nos mostra todas as dores/amores/glórias/derrotas... Traduzir o cenário do mundo...
Entre os que estavam no programa Roda-viva - Safa Jubran, da USP, fez duas perguntas muito inteligentes. Se não me engano de nome e pessoa, ela traduziu ao árabe - Lavoura Arcaica - e era a voz dela no video que Michel Sleiman trouxe para nossa noite árabe...
Ela perguntou a Mourid...
Como é morar no tempo e não em um lugar?
Pelo que explicou Safa, Mourid viveu em trinta casas durante trinta anos, em seu exílio antes de retornar a Ramallah, trinta anos depois. Ele escreveu - Eu vi Ramallah. Esteve na Festa Literária de Paraty, e o programa foi em agosto, ele estava aqui para participar do evento em Paraty, esteve com Ferreira Gullar em uma mesa de debates, mediada por Alberto Mussa, o poeta que traduziu - Poemas suspensos...
Mourid respondeu que viver no tempo significa que o lugar mudou e se tornou memória, mas, uma memória que não é tua, que é contada por outros, no seu retorno... Há uma geração que é uma idéia da Palestina. Pessoas que, segundo ele, nunca viu nas ruas, nas lojas, nas festas... que ele não viu crescer, é uma experiência verbal, passada de geração à geração.
Safa falou sobre o livro dele, onde mostra o cidadão comum palestino. Pois o mundo só conhece o mártir e o terrorista. Então, entra o momento verdade, de Mourid dizer que a cabeça de Rumsfeld não é o dicionário da humanidade, e que a CNN não é dona da verdade. Que para a mídia, o povo palestino é um problema, e ele frisou que diante da cultura árabe a CNN é recém-nascida, e isto é verdade... Então ele falou que há amantes palestinos, escritores, avós, pais, pessoas fiéis, pessoas infiéis, poetas, e toda espécie de gente, como em todos os países... Segundo Mourid, assassinaram o caráter palestino na mídia...
Gostei de uma colocação sobre a poesia de resistência... Em mim ferve um rio azul de esperança, e meu primeiro blog tentou ser um blog de resistência e voz política, então, eu lembrei Clarice Lispector - a função do escritor - que se parece com o que foi falado por ele com poucas palavras. A função do poeta e escritor é produzir boa literatura. Clarice sabia disto. Quando não levantam bandeiras, são criticados, mas, a atitude é de resistência, não é necessário que o trabalho espelhe isto, penso que foi isto que ele quis traduzir...
"Poesia não é uma expressão geográfica, é uma expressão universal, tem a ver com humanidade"
"Um intelectual que não se coloca contra as injustiças sociais não pode ser chamado de intelecual"
"Podemos cometer erros em nossa resistência, mas, o erro original foi a ocupação"
"A raiz ( do conflito Israel-Palestina) é uma terra que foi ocupada à força"
"Me recuso a incluir a poesia em outra batalha que não seja a poesia"
"Se os poemas pudessem libertar uma aldeia, teríamos libertado cinco continentes."
Toda a origem está na desigualdade... Mourid frisou a desigualdade entre as forças militares de Israel e os Palestinos. Não é uma guerra, configura um massacre.
Dá para pensar na desigualdade que existe aqui, e na preocupação com este estado de guerra que se configura. No país onde a desigualdade social é a maior do planeta. Onde há mais elasticidade entre a maior e a menor renda... O centro do Brasil começa a entrar em convulsão... E o poeta, onde pode chegar com sua humanidade, para que sua voz soe? Ou o poeta é descartável em tempos de globalização? Ferreira Gullar ergueu sua voz nos anos sessenta... Escrevia contra a repressão... O que escreveremos contra a opressão do mundo sob as asas da águia, submisso e conformado? Até que estourem nosso coração em uma explosão sobre quatro rodas... talvez haja tempo de fazer como as crianças palestinas, agarrar umas pedras pelo caminho, atirar contra o inimigo, que pode ser a podridão da máquina administrativa, o abuso contra os direitos humanos, a interferência internacional, ou até um patrão explorador... qualquer coisa que tire a dignidade, a humanidade, e a poesia do nosso chão...


Exceção

Todos chegam
rio e trem
som e navio
luz e cartas
telegramas de consolação
convidados para jantar
o malote diplomático
o navio do espaço
todos chegam / todos exceto meu passo em direção ao meu próprio país.

Translated by Lena Jayyusi and W.S. Merwin /

Bárbara Lia (p/português)
-


INTERPRETAÇÂO


Um poeta escreve num Café
A velha pensou que escrevia uma carta para a mãe.
A adolescente, que escrevia para a namorada.
O menino, que desenhava.
O comerciante, que planejava um negócio.
O turista, que endereçava um cartão postal.
O contador, que calculava suas dívidas.
O homem da policia secreta caminhava lentamente em sua direção.

Mourid Barghouti
Translated From Arabic by Safa Jubran
http://mouridbarghouti.net/Mouridweb/index.htm

GIZ RENDADO





















O que a onda diz
ao cão sentado
babando moluscos
e saudades?
Como rasgar a onda
sem cicatrizar em azul?
Beber a ardência seminal
de amantes afogados
como quem engole
segredos guardados
entre debruns
de ondas
em seu giz rendado.
BÁRBARA LIA