Monday, January 19, 2009

estante #3





Interiores

A vida é substancialmente o que não se vê. Planta raízes no mais profundo de nós mesmos, no labirinto que, pelos meandros do espírito nos conduz ao jardim mais secreto.

Em 14 de junho de 2.006 fez 20 anos que Jorge Luis Borges, arquiteto de interiores, reencantou-se, anjo barroco que sempre foi. Resta-nos o inestimável legado literário, tecido em contos fantásticos, inquietações metafísicas, um saber repleto de sabor.

A literatura sobrevive a seus autores quando feita de interiores. A perenidade do teatro grego e também de Guimarães Rosa, Dante, Cervantes, Shakespeare, Púchkin, Dostoiévski, Eliot, Camus ou Machado de Assis reside no talento capaz de fazer da pena o estilete a penetrar interiores e pinçar, lá do fundo, os fantasmas que habitam os porões da alma humana.

Somos interiores exilados nessa sociedade do óbvio, onde tudo flutua à superfície, dejetos numa poça d'água infecta. O entretenimento, disfarçado de cultura pós-moderna, analfabeto em matéria de espiritualidade, objetiva e reifica-nos o ser, vulnerável ao estupro do que há em nós de mais essencial. As linhas do novo carro são tão sensuais quanto as da modelo exposta no sofisticado açougue do voyeurismo. Artistas transformam-se em meros acessórios de produtos, o político vale pelo visual, rompe-se o limite entre o necessário e o supérfluo.

Agora, tudo é produzido: O sorriso do empresário, o gesto do atleta, a postura da deputada. Devassados em nosso interior, deambulamos como ébrios pelas veredas da vida, cegos pelo excesso de luz. Há tantos ruídos que nossos ouvidos já não distinguem sons. Onde o murmurar do riacho, o gemido das pedras lavadas pela cachoeira, o rumor inconsolável da maré retornando suas ondas no limite da praia, o farfalhar das árvores escovadas pelo vento?

Perdemos a memória de nossos sabores ancestrais: O cheiro da calda açucarada, do pão quente e do assado gordurosamente temperado. Condenados ao fast-food, qual filme de Chaplin somos rápidos em tudo. Amamos sôfregos, trabalhamos ansiosos, conversamos gagos de preocupações, vivemos aprisionados pelo ritmo alucinado dessa sociedade que se vangloria estupidamente de ser competitiva. No horizonte oco sobressai o medo de que a doença nos atinja, os filhos sejam proscritos do futuro, o dinheiro escasseie, a violência nos vitime. Medos, no lugar de esperanças.

Quem edificou esta Torre de Babel? Borges, que na falta dos olhos para enxergar tanto aguçou o espírito, diria: nossa cegueira pontilhada de ilusões consumistas, de sonhos inatingíveis, de ambições ególatras. Aos 78 anos de idade, numa conferência na Universidade de Belgrano sobre "A imortalidade", ele acentuava que "se o tempo é infinito, em qualquer momento estamos no centro do tempo".

Saber disso é uma coisa. Vivê-lo é realizar a proposta de Teillard de Chardin: centrar-se em si mesmo para descentrar-se nos outros e, assim, concentrar-se em Deus.

A arte de semear estrelas

Frei Betto

Ed. Rocco 2007

estante #2


Maiakovski
que era todo coração foi embora
num dia de mil novecentos e trinta
Teriam sido estas
as últimas palavras do poeta?
"Senhores
deixo-vos um punhado de metáforas
e outras figuras de linguagem
'Nete é um navio
mas já foi um camarada raro
Lilia Brik era uma mulher como poucas
hoje é apenas memória ferida
som que espanca
Com alguma dor
posso tirar música de minhas vértebras
solo de quase flauta
Eu sou uma nuvem de calças
e quero o impossível
o vôo de asa quebrada'
Povo da Rússia
deixo-vos meu coração
metástase insuportável de mim mesmo
Lembrai-vos Senhores
Qualquer homem
em qualquer lugar
e em qualquer tempo alimenta-se
sobretudo
de pão e metafísica"
dois Santos dos Santos
A cidade noturna
coleção Petit Poa
Pref. de Porto Alegre -1997

estante #1

O que é aquilo no cabelo de Marga?
Aquele hebreu vivia num bonde. Plantava cactos no bonde. E abraçava as pessoas quando entravam, taciturnas, as pernas excessivamente cruzadas.
Aquele hebreu vivia e pintava o bonde de laranja, de pêssego, de melancia.
Seus desejos eram simples. Exemplo: fazia gestos movendo dedos. Fazia dedos movendo gestos. Como não conseguia mais morrer, foi à esquina comprar cigarros Gauloises e no maço escreveu que há linhas na cidade, invisíveis.
Quem tocar, morre.
Por isto os homens andam pé ante pé: olhos tensos, pele, cenário, frutas, lâminas, e só não é tensa a flor no cabelo de Marga - seus limites por fora iluminando meus confins por dentro.
FERNANDO JOSÉ KARL
Caderno de Mistérios
Editora Letra D'água 2002

La nave va...

Um dedo de prosa

  Um Dedo de Prosa é um híbrido entre encontro de ideias, palestra e debate com o escritor, quer seja realizado em salas de aula, biblioteca...