Thursday, March 29, 2012

O céu do Ceará

Lua e estrela, tentativa de registrar a poesia da imagem com a câmera digital... Fortaleza, Segunda-Feira (26/03)

Wednesday, March 28, 2012

Chuva & Macaxeira

As águas de março fechando o verão.
Vida em família.
Amparo.
Minha mana me levou ao show do Chico Buarque.
Minha filha Tahiana cumpriu a velha promessa de me mostrar Fortaleza, a praia do Futuro. A cidade molhada, o céu do nordeste bordado de chuva. Peixe, pirão e promessas: Cuidar melhor de mim. Quero a vida e estes amores. O sorriso do neto, passear com a filha por uma calçada plena de mar e sol. Um poeta pode despir tudo, não levar seus livros, nem anotações, nem memória de que é poeta. Pode pensar - preciso um tempo. Pode tentar ficar a sós com os seus, e sem mais nem menos, assim, olhando o horizonte em algum lugar, sem querer e quando menos espera brota um poema -

"Ela foi encontrada!
Quem? A eternidade.
É o mar misturado
Ao sol"

Impossível separar a poesia do poeta. Rimbaud já está dentro do sangue, como ele dezenas de poetas... Versos bailando na Avenida Beira Mar...
Fortaleza... Muita chuva, macaxeira e cerveja.
Peixe, Pirão, Poesia.
Trégua.
As velas do Mucuripe...
Os barcos atirados ao mar...


Sunday, March 25, 2012

Chá com as borboletas - Série Diálogos Poéticos (XII)


Jan Saudek



"Só quando não procuro encontro. Versos, chaves de gavetas fechadas, namorados, botões, Deus. Batalho arduamente em vão e depois, sem esforço, sem fazer nada por isso, quando já não batalho, ganho, vejo que ganhei. Foi assim com o primeiro poema que escrevi, o da Faruk. Com a postura do candelabro do yoga, que não havia meio de conseguir atingir. Com o primeiro beijo dado por um rapaz. Com Deus. Tento tento e falho. Mas por tentativa e erro, a subir e a cair, a fazer e a desfazer, tenho conseguido tudo o que quero. Vejo que passei a vida a escalar uma montanha com uma pedra às costas e que agora cheguei ao alto e fiz um pic-nic de burguesas."

Adília Lopes
(Crónicas do meu moinho)

Adília Lopes, pseudônimo literário de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira, (Lisboa, 20 de Abril de 1960) é uma poeta, cronista e tradutora portuguesa.



***

Amei uma mulher com cheiro de céu na altura do coração. No silêncio dos dias, longe dela, eu a lembrava e chorava. Chorava repentinamente em qualquer lugar. Bastava lembrar o perfume suave da sua alma e a luz que dela emanava. Era o silencioso Dharma a nos enlaçar. Era outra história. Era uma fragrância de outra esfera. Sutil, quase inodora. O céu não tem cheiro de nada. Inodoro. Cheiro de Luz Branca. Branco. Branco. O inferno exala no ar Chanel n° 5. Forte como farfalhar de sedas vermelhas. Chanel n° 5 - o cheiro do inferno.

Bárbara Lia
(Coreografia do Caos - Books on line Germina/2011)
http://www.germinaliteratura.com.br/booksonline_barbaralia/booksonline_barbaralia.htm

Friday, March 23, 2012

Chá com as borboletas - Série Diálogos Poéticos (XI)

Magritte



Ar


É da liberdade destes ventos
que me faço.

Pássaro-meu corpo
(máquina de viver),
bebe o mel feroz do ar
nunca o sossego.

Olga Savary  (1933)

http://pt.wikipedia.org/wiki/Olga_Savary




Pulmão de Deus

Sussurro suave ao redor, nuvem
de seda embalando astros.
Aqui, onde respira a vida,

perfume de malva, silêncio de córrego
entre pedras. Ar lúcido de luz.

Bárbara Lia
O sal das rosas (Lumme editor/2007)

Thursday, March 22, 2012

Chá com as borboletas - Série Diálogos Poéticos (X)


from The Window

you are my bread
and the hairline noise
of my bones
you are almost
the sea
Diane di Prima
 

 
(...)
 
Hedged about with primroses
with promises
The magic words we said when we were praying
Have formed a mist about us...
Diane di Prima
Ode to Keats, 2, The Dream (Versos finais)

***

“I think the poet is the last person who is still speaking the truth when no one else dares to. I think the poet is the first person to begin the shaping and visioning of the new forms and the new consciousness when no one else has begun to sense it; I think these are two of the most essential human functions” - Diane di Prima

 
***

Diane di Prima nasceu em 1934 no bairro do Brooklyn, em Nova Iorque. Seu primeiro livro chama-se This Kind of Bird Flies Backward, publicado originalmente em 1958. Tornando-se um elo entre os poetas da Costa Leste e Oeste norte-americanas, Diane di Prima conhece e envolve-se no fim dos anos 50 e início dos 60 com os Beats de Nova Iorque e San Francisco, vivendo por alguns anos entre as duas cidades. A poeta fundou o Teatro dos Poetas de Nova Iorque (New York Poets Theatre), e ainda a Editora dos Poetas (Poets Press), que publicou alguns de seus companheiros. Com LeRoi Jones (mais tarde conhecido como Amiri Baraka), editou a revista The Floating Bear (1961 – 1969). Diane di Prima passou a estudar o budismo após conhecer Suzuki Roshi, e se ligaria ainda à comunidade de Timothy Leary em Millbrook.
A poeta nova-iorquina publicou alguns de seus livros mais importantes na década de 70, como Revolutionary Letters (1971) e Loba (1978). As "Cartas revolucionárias" estão ligadas a seu ativismo político com o grupo conhecido como "The Diggers", fundado por Emmett Grogan (1943–1978) – a quem Bob Dylan dedicou seu álbum Street-Legal (1978).
fonte: modo de usar & co.
http://revistamododeusar.blogspot.com.br/2008/02/diane-di-prima.html



***


O que a onda diz ao cão sentado babando moluscos e saudades?
Como rasgar a onda sem cicatrizar em azul?
Beber a ardência seminal de amantes afogados
Como quem engole segredos guardados entre debruns de ondas
Em seu giz rendado.
Bárbara Lia
- Tem um pássaro cantando dentro de mim/2011


***


Os grandes poetas do mundo são em número bem menor que as estrelas. Talvez por isto o Céu extasie e a Terra gema entre ogivas e axés.
Bárbara Lia

***


"Escanear os céus com um ar suspeito”


Não olhes o sol
A olho nu
Isto se chama
Violentar Deus
Irado, Ele abrirá
Escaras em tua retina
Abrirá o portal
Do abismo
Para cegar teu olhar
Que ousa afrontar
A Luz!


Bárbara Lia
A flor dentro da árvore / 2011                                                                                               Salvador Dali
                                                                                                          

Monday, March 19, 2012

AC / DC

Antes do Chico / Depois do Chico

Sampa 18 de março

O carro entra pelo portão de acesso ao espaço HSBC e eu vejo: O homem magro, de camiseta grafite e sorriso no rosto, apressado, iluminado. 45 segundos foi o tempo em que, em minha vida, convivi com o mito. Aquele mesmo cantor que abriu os olhos da menina do interior com as letras a imprimir um tempo. A adolescência ouvindo Roda-Viva e Apesar de Você. Enquanto naquela cidade pequena os garotos subiam ao palco do Cine Vera no programa de calouros para cantar as canções da Jovem Guarda, as canções de Wanderley Cardoso, Jerry Adriani e outros. Eu esticava o olhar para as páginas das revistas e aumentava o volume do rádio quando ouvia outros nomes,  outros caras. Era Luz maior. Luz! Quero Luz! Os nossos ícones despontavam e eu era a menina estranha e diferente que se alimentava de Bob Dylan, ecos de Woodstock, Chico Buarque e Caetano Veloso. Não tinha com quem dividir os meus ídolos, somente quando passei no vestibular e fui viver em outra cidade, encontrei outras pessoas, outras cabeças, outros meninos ávidos como eu.  Lembro o refrão naquele dia de luz diferente, cantando Gilberto Gil - No Woman Cry...

Bem que eu me lembro
Da gente sentado ali
Na grama do aterro, sob o sol
Ob-observando hipócritas
Disfarçados, rondando ao redor...

Amigos presos
Amigos sumindo assim
Prá nunca mais
Tais recordações
Retratos do mal em si
Melhor é deixar prá trás...

Não, não chore mais
Não, não chore mais
Oh! Oh!
Não, não chore mais
Oh! Oh! Oh! Oh! Oh!
Não, não chore mais

No tempo em que o ziper da tirania foi apodrecendo e as almas saíram do calabouço, aquelas que traziam a carne colada ao corpo ainda, as asas dos que não morreram se abrindo, suturadas (ou não) e a Anistia (ainda que tardia) comemorada, por nós, em um churrasco à beira de um lago, com violão e as canções.
Ah! As canções.
Então, sei que o poeta-mor entendeu as palavras tortas, múrmurio do avesso, de alguém que tenta dizer em trinta segundos - Obrigada! Como explicar em uma frase a importância de sua obra em minha vida. Guardar a fotografia como quem guarda um momento íntimo. Ele que é avesso a estas coisas todas. Não vou mostrá-lo fora do palco. Valeu, pela brevidade e pelo encanto. Pelo canto e pelo sorriso. Pela partilha da beleza na noite deste março... e uma poeta volta a ser menina.
Minha irmã caçula esteve aqui no Natal e disse - Teu presente é só em março.
O presente era um ingresso para o mergulho na Poesia, era para estar em um Show de Chico Buarque.
A Fá, minha irmã, disse que aprendeu a gostar de MPB por minha causa, e ela se sente muito feliz com isto. Por ter convivido com alguém em um recanto de um País que expande a alma para descobrir a beleza que tem um nome no topo: Chico.  Um compositor. Um cantor. Um escritor. Um Poeta (sempre). Um homem. Nosso expoente maior. Unanimidade sempre.
A platéia tem meninos com seus pais, universitários, os velhinhos e seus cabelos brancos. Não, eu não vou chamar esses caras de idosos. Somos velhos, eu estou ficando velha. E amo esta palavra - Velho.
Os músicos que acompanham Chico Buarque são sensacionais, a iluminação perfeita e no palco os painéis davam o toque final, uma alegoria brasileira, deste brasileiro que a gente aprendeu a amar para sempre...
Uma delícia Chico e Wilson das Neves cantando -- Tereza da praia. Bia Paes Leme em - Se eu soubesse. E a surpresa maior, ouvir aquelas canções. Aquelas que embalaram a minha vida. Todo Sentimento e Choro Bandido entre tantas. As inumeráveis noites, o desabrochar da vida, ter alguém que sabe cantar a real essência de uma mulher. E pra terminar, aquele vôo para bem longe com os acordes belíssimos de Futuros Amantes...



Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar

E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos

Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização


Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você







painel de Cândido Portinari


Chico Buarque e Wilson das Neves - Maravilha!



Chico Buarque de Hollanda



(não tirei muitas fotografias, pra não distrair minha alma, melhor nadar neste som - Valeu, Chico!)

Tuesday, March 13, 2012

Chá com as borboletas - Série Diálogos Poéticos IX

Salvador Dali



O Avental




No centro da casa,
uma vertente.
No centro do movimento,
o avental de minha mãe.
As toalhas jamais
sabiam secar-me.
Ali acalmava as mãos
interrompidas de voar.
Ali as lágrimas
e toda a trégua.


Maria Carpi
(Nos Gerais da Dor)

Maria Carpi, natural de Guaporé - RS (1939).
BIBLIOGRAFIA:
- NOS GERAIS DA DOR, 1990. Ed. Movimento.
- DESIDERIUM DESIDERAVI, 1991. Ed. Movimento.
- VIDÊNCIA E ACASO, 1992. Ed. Movimento.
- OS CANTARES DA SEMENTE, 1996. Ed. Movimento.
- A MIGALHA E A FOME, 2000. Ed. Vozes.
- A FORÇA DE NÃO TER FORÇA, 2003. Ed. Escrituras.




++++++++++++++++++++++++++



se eu pudesse ter o presente impossível
pediria os olhos mel de minha mãe
eles me viam inteira
- um cata-vento topázio eclipsando o cinza
sem o mel
que me cobria
em alguns dias sou cinza;
em outros - cata-vento
e entre eclipses sazonais:
topázio.

Bárbara Lia
A última chuva
(Mulheres Emergentes/2007)

---

Monday, March 12, 2012

3 Sonetos no Jornal Rascunho




No ano passado escrevi alguns sonetos, com liberdade poética emprestei a voz de alguns personagens dos poemas de Fernando Pessoa. Os poemas são todos de despedida - Neera se despede de Ricardo Reis, a Chuva se despede de Bernardo Soares e eu me despeço de Fernando Pessoa, no soneto - Ausência de Fernando. Os poemas estão na edição de março do Jornal Rascunho, no link abaixo, com belas ilustrações de Rafa Camargo:




*


Sunday, March 11, 2012

Musa Rara

O poeta Edson Cruz edita o Site Musa Rara - Literatura e Adjacências. Uma bela vitrine da Literatura Contemporânea. Algumas Poesias do meu novo livro "A flor dentro da árvore" e o texto de apresentação do poeta Sidnei Schneider  no Site Musa Rara. Para ler acessar o link:







...

Chá com as borboletas - Série Diálogos Poéticos (VII)





















Um dia Deus
pedirá aos
poetas

Que levantem
E andem

A dar notícias
como jornais
a espalhar palavras
                            pão

Eles
sairão do poço
- fundo cavado-

Mas
se afastarão

Inventaram
a própria ressurreição


Eunice Arruda pertence a geração 60 de São Paulo, ao lado de poetas de proa como Álvaro Alves de Faria e Rubens Jardim e a inteligente teia de Orides Fontela, um grande exemplo de superação nas adversidades impostas pela vida.

http://poetaeunicearruda.blogspot.com/



EM CARNE VIVA

Um poeta em carne viva
abriga a terrível pulsação
de um coração-estrela
e um silêncio
encravado nas entranhas
como filho bastardo
que nasce
à revelia do seu canto

Um poeta em carne viva
pisa as pedras
imaginando-as
seda da China


Um poeta em carne viva
é um louco no tribunal
das almas de chumbo:
culpado sempre

Culpado de ser humano da fala ao falo

Bárbara Lia
Tem um pássaro cantando dentro de mim / 2011

Como tornar-se invisível em Curitiba - Jamil Snege




Você pode começar treinando numa dessas manhãs de muita neblina, à margem de um lago ou num bairro bem afastado do centro da cidade. Pode optar por uma rua deserta, no começo da noite ou numa véspera de feriado. Pode vestir um uniforme camuflado ou levar o seu "personal trainer" a tiracolo, pouco importa.

Esteja você com a síndrome do pânico ou com o coração amargurado, existe um método muito mais eficiente para tornar-se invisível em Curitiba do que essas deambulações (sic) pelos ermos da cidade. Embora não esteja ao alcance de todos, convém conhecê-lo, já que é absolutamente infalível e seus resultados surpreendentes.

Primeira condição: você precisa ter talento genuíno. Estudar bastante também ajuda, mas não substitui aquele toque de gênio inconfundível que marca e distingue certas pessoas desde o berço. Pois bem. De posse desse talento que Deus lhe deu – e contra a falta de estímulo da família, do meio e particularmente da própria cidade – você deve se atirar de corpo e alma na consecução de seu destino. Guiado unicamente pelo seu daimon, pelo seu anjo tutelar, você dará início à construção de sua lenda pessoal e dos projetos que dela advirão. Você estará, finalmente, a caminho de tornar-se invisível.

Cada conquista, cada livro publicado, cada poema, escultura ou canção, cada tela, espetáculo, disco, filme ou fotografia, cada intervenção bem sucedida no esporte, no direito ou na medicina, cada vez que alguém, lá fora, reconhecer com isenção de ânimo que você está produzindo obra ou feito significativo – o seu grau de invisibilidade aumenta em Curitiba. E é muito fácil perceber isso.

Primeiro, não faltarão pessoas tentando dissuadi-lo de seu próprio talento. Tudo farão para reconduzi-lo de volta à mediania, ou melhor, à mediocracia, que é o sistema vigente nesse estrato a que denominamos cultura. Se você resistir, tentarão cooptá-lo com promessas de nomeações ou ofertas de emprego em atividades sucedâneas. Se você é um belo projeto de escritor, alguém tentará convencê-lo de que é melhor, mais lucrativo, ser um redator de propaganda.

Se você é jovem e promissor cirurgião plástico, com projetos de especialização no exterior, não faltará quem o convide para sócio de uma dessas empresinhas de medicina privada lá onde o diabo perdeu as botas. Se mesmo assim você se mantiver fiel ao seu daimon, à sua lenda pessoal e não arredar pé de seu destino, a invisibilidade torna-se então um processo irreversível.

Os amigos mais chegados são os primeiros a acusar falhas em seus sistemas de radar quando o objeto a ser captado é você ou algo que lhe diz respeito. Os convites tornam-se mais escassos, o telefone já não toca como antigamente; e mencionar seu nome ou seus feitos, nas reuniões para as quais você não foi convidado, passará (sic) a ser tomado como um gesto de imperdoável traição ao grupo. Desse momento em diante, só os inimigos falarão de você. Falarão mal, obviamente.

E o mais curioso: à maioria desses "inimigos", a noventa por cento deles, você jamais falou, jamais sequer foi apresentado. Os amigos a gente escolhe, os inimigos escolhem-se a si próprios. Esta talvez seja a parte mais cruel (ou mais irônica) da história. A sua visibilidade, enquanto pessoa, transfere-se para a imagem que os outros fazem de você. Pois é ela, a sua imagem, que circula e passa a freqüentar os lugares para os quais você já não é solicitado. Não é mais você em pessoa – carne, sistema nervoso, personalidade, alma –, que se oferece à percepção do outro, mas uma espécie de correlato simbólico impregnado de tudo o que os outros lhe atribuem.

Para encurtar: vale a pena manter-se fiel ao seu daimon e cumprir com resignação cada etapa de sua lenda pessoal? Acho que sim. Curitiba está cheia de pessoas invisíveis.


Jamil Snege (1929-2003) nasceu em Curitiba, onde passou sua vida toda. Graduou-se em Sociologia e Política pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Escritor e publicitário, dividia seu tempo entre os livros e sua agência publicitária. Publicou crônicas, quinzenalmente, no Caderno G do jornal Gazeta do Povo . Escritor reconhecido pela classe literária, publicou, entre outros, O Jardim, a Tempestade (minicontos, 1989), Como Eu Se Fiz Por Si Mesmo (memórias, 1994) e Os Verões da Grande Leitoa Branca (contos, 2000).

Friday, March 09, 2012

Chá com as borboletas - Série Diálogos Poéticos (VI)

Penelope Dullaghan   -    http://penelopeillustration.com/




Canção para um Homem e um Rio



Porque era um homem sincero
eu o levei ao rio entre junquilhos.
Mas sincero não era
era só homem
e deixei nos junquilhos a esperança
de dar à minha espera serventia.

Porque era um homem forte
eu o levei ao rio entre junquilhos.
Mas forte ele não era
era só homem
e entre pedras deixei o meu desejo
de abandonar o arado, a forja, e a lança.


Porque podia me amar
eu o levei ao rio entre junquilhos.
Mas amante não era
era só homem
e na água afoguei a minha sede
de palavras mais doces que ambrosia.


Porque era um homem
só homem
eu o levei ao rio entre junquilhos.

Marina Colasanti
Rota de colisão (Rocco, 1993)





*****



Inverno em minha Homestead
Meu coração um romance
Que nunca termina
Enquanto embalo a esperança
Que o sol pálido se fortaleça
E aqueça a cidade
Ouvindo Rita Ribeiro
Em um poema de Hilda Hilst:

"É bom que seja assim Dionísio, que não venhas"

Deus no orvalho
- 21 gramas / 2012



Ode descontínua e remota para flauta e oboé, de Ariana para Dionísio. Poesia: Hilda Hilst. Música: Zeca Baleiro - Canção I:





Wednesday, March 07, 2012

Chá com as borboletas - Série Diálogos Poéticos (V)

cena do filme - Los amants du Tage (Henri Verneuil)

 


a maçã em tua mão
a mordida
a marca
dos dentes as gotículas
do sumo
o gosto o aroma
na língua
os lábios molhados
o prazer
no sorriso
rola a fruta
de susto no chão
                 insalubre

Berenice Sica Lamas
Copo de Violetas
Alf / 2011

Berenice Sica Lamas (Pelotas - 1949) Psicóloga, Poeta, doutora em Letras.



Amor mar muerto
Diez veces más sal
Que un amor normal
Aire atado
De amores muertos
Asustados
Con el amor vivo
Que rasga la roca
De modo que fluyan
Él liquido
Y lo granítico
De las flores

Bárbara Lia
Cantata Fugace
21 gramas / 2011

Monday, March 05, 2012

Chá com as borboletas - Série Diálogos Poéticos (IV)










3 poesias do livro - O rasurado azul de Paris - Bárbara Lia:




quando ele corria
pelos telhados de ardósia
as pombas arrulhavam
em ventania
seu casaco - vela sacudida
estremecia
a maré da monotonia

 
 
 
Dans L’air
 
 
Tínhamos a mesma idade
Quando vimos o mar
Este mistério de impaciência
Tínhamos a mesma impaciência
– Rimbaud e eu –

Por isto
Pisamos telhados
Ao invés do chão

Por isto
Machucamos nossos amores
Com nossas próprias mãos

Por isto
As velas acabam na madrugada
Antes que o poema acabe

- Por isto, tão pouca a vida para tanta voracidade.





A vela acesa, o estábulo, o feno
O vento rutilante lá fora
Uma estação no inferno
Um grito dentro
Que ainda espanta
Em todas as catedrais
As pombas brancas




Sunday, March 04, 2012

Chá com as borboletas - Série Diálogos Poéticos (III)

Grande como um quintal de infância - Millôr Fernandes





O caminho do instante já desenhado
mil saladas temperadas a óleo e sal
corto seu vermelho
e a sede aumenta

abro os braços nos dias tardios
rezo o sono do tempo
e amanheço ao som dos pardais

respiro infância
o suor caindo do balanço
tempo raro fotografado ao sol.

Maeles Geisler
Barra Velha, SC
(Lucidez transcrevo no papel e a loucura guardo. Aceito as letras e seu desenho mal feito. Refaço, procuro, me viro do avesso- Maeles)


http://www.terradegabriel.blogspot.com/




Chá para as borboletas


Janela - espelho meu.
Fragrância de almíscar selvagem
me violenta.

Menino com aura violeta.
Jovem com juba desgrenhada.
Velocidade lenta.

Garganta do poço este túnel cinza,
onde trafego dias.

Penso na infância, sombra
dos eucaliptos, recanto secreto

onde eu servia chá às borboletas.

Bárbara Lia
A última chuva
Mulheres Emergentes/2007

Chá com as borboletas - Série Diálogos Poéticos (II)

Edouard Manet





IMPRESSIONISTA


Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.
Adélia Prado

Adélia Luzia Prado Freitas (Divinópolis, 13 de dezembro de 1935) é uma escritora brasileira. Os textos retratam o cotidiano com perplexidade e encanto, norteados pela fé cristã e permeados pelo aspecto lúdico, uma das características o estilo único.



(...)

Um patchwork mineiro dentro de mim:

Odes a Nise e restos do manto
Do Alferes
Orgasmos de Dona Beja
E água memorável
Labirintos de Rosa
Perfume de Diadorim
Um suspiro de Adélia
Um olhar de Drummond
Um dominicano a enviar-me
Paz em postais
Dois poetas meninos
Vestidos de pedras e haicais

Bárbara Lia
A flor dentro da árvore
(fragmento da poesia - "Toquei seu berço silencioso")

Thursday, March 01, 2012

Frei Betto e as sementes da Paz


Querida Bárbara Lia
Agradeço a gentileza de enviar-me "A flor dentro da árvore". Sinto que a sua poesia está mais madura, mais solta, menos discursiva, plena de belas metáforas. Prossiga! É a sua sina.
Amizade e Paz.
Frei Betto
02/2012

...
clique na imagem para ler:

Chá com as borboletas - Série Diálogos Poéticos (I)





Finisterrae


Aqui começa o fim
Feito de vento.

Enlouqueceu a bússola
Do tempo.

Naufragam as certezas
Do infinito.

Aqui se acaba o mapa
Nasce o mito.

Aqui começa a morte
Em naves findas .

Aqui começa o medo.
Como um grito.


Renata Pallottini nasceu em São Paulo, capital, a 20 de janeiro de 1931. Cursou Direito, Filosofia e Dramaturgia; escreveu e produziu trabalhos para teatro e televisão. Publicou, entreoutros,os livros: A casa, Clube de Poesia, São Paulo, 1958; Coração americano, Editora Meta, São Paulo, 1976; Chão de palavras, Editora Círculo do Livro, São Paulo, 1977; Noite afora, São Paulo, 1978; eObra poética, Editora Hucitec, São Paulo, 1995. Coordenou e participou da Anthologie de la poésie brésilienne, Editions Chandeigne, Paris, 1998, que reuniu quatro séculos da nossa história literária.