Thursday, October 29, 2009

Para Camille, com uma flor de pedra

Auguste Rodin



RUE NOTRE-DAME-DES-CHAMPS

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Rue Notre-Dame-des-Champs

Recordas?

Entre nós não foi apenas valsa

Como a que dancei com Debussy

E talhei em mármore.

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Não foi espanto e encanto

Meu olhar azul na onda

- Fuji ao fundo -

Terna reverência à Hokusai.

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Lampejo de esperança – nosso encontro -

Sem saber que em minha vaga

Ao tecer crianças prestes a um naufrágio

Reproduzia o meu destino trágico.

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Antes um plágio – roubar o barco

De Hokusai, não colocar-me aos pés da onda.

Mas, com minhas mãos pequenas

Esculpo apenas o que pulsa

Cão criança mulher amado.

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Rue Notre-Dame-des-Champs

Recordas?

A minha agonia

Que nem podia

Esperar o novo dia

Estar em tua porta

Deitar-me

Natureza morta

Para que me eternizasse

- Danaide.

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Rue Notre-Dame-des-Champs

Tua criança amorável eu era

Amiga feroz e soberana.

Dezoito anos, olhos de céu no dia da criação

Lábios sensuais em flor. Comecei a esculpir

– Pés, pés, pés...

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Sem saber que dentro

Da alma feminina e fera

Esculpia um coração de vidro

Sem imaginar que um dia os estilhaços

Ergueriam em onda fria

E me soterraria – VIVA!

Bárbara Lia


...

Camille Claudel morreu em 19 de outubro de 1943, ao acaso passei alguns dias revendo estas poesias escritas há quase dois anos, com o título - Para Camille, com uma flor de pedra.

Uma mínima homenagem.



Tuesday, October 27, 2009

Constelação de Ossos

Pollock

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FÓSSEIS ROSAS PROFANADAS

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O ar raspando o sangue seco da alma.

Alma mutilada a minha.

Sangue incrustado em suas paredes desde a infância, algumas feridas já cicatrizadas.

Minha alma um painel de Pollock.

Nas partes não cicatrizadas a tinta escorria espessa.

Por muitas noites eu não dormia.

A cor que mais doía era o amarelo aflito, aquele amarelo gritante.

Não sei se algum dia vai esgotar o amarelo de Van Gogh.

Como se ele tivesse a chave secreta da desesperança, em forma de girassol.

O meu interior borrado, sangrado de cores ardia ao vento, o pulmão ardia ao respirar lufadas de ar puro entre medo e delírio.

Raul segue pela Estrada Graciosa, um caminho antigo calçado de pedras, onde abismos se abrem, onde um trem trafega, onde pássaros desnudam suas lágrimas.

Quatro passos necessários para aprumar o esqueleto.

As nuvens se ordenam atrás das bananeiras.

Olho o bangalô e sinto uma ternura de gênesis.

Projeto de éden, recanto de Nyx.

À entrada da varanda um tapete tecido em barbante azul cobalto.

As pedras da entrada são claras, justapostas formam um desenho branco assimétrico.

A varanda pequena adornada de bebedouros ao redor onde um beija-flor pousa, beija a água adocicada e se vai.

Uma rede da cor do trigo maduro.

Raul bate na porta, três toques, a porta está entreaberta.

Ela não está na casa, eu penso.

Silenciosa como um anjo, pousa das alturas ao nosso lado.

fragmento do romance - Constelação de Ossos - Bárbara Lia, 2009

Monday, October 26, 2009

"Autores Múltiplos: do teatro ao cinema, rádio e televisão"


Fernando Bonassi

Núcleo traz os ingleses Dollan e Neville e o brasileiro Fernando Bonassi

Os premiados diretores britânicos Chris Dolan e David Ian Neville, e o brasileiro Fernando Bonassi virão a Curitiba, a convite do Núcleo de Dramaturgia Sesi Paraná, em parceria com British Council. No dia 30 de outubro, eles participam da mesa-redonda "Autores Múltiplos: do teatro ao cinema, rádio e televisão", que acontece no auditório do Sesi, a partir das 19h30. O debate é aberto ao público, com entrada gratuita.

Detalhes no site do Núcleo de Dramaturgia - Sesi/Pr

http://www.sesipr.org.br/nucleodedramaturgia/FreeComponent9548content84589.shtml


Serviço:

Mesa-Redonda: "Autores Múltiplos: do teatro ao cinema, rádio e televisão"
Dia: 30 de outubro, sexta-feira
Horário: 19h30
Local: Auditório do SESI - Rua Cândido de Abreu, 200 - 7º andar
Entrada gratuita

Vagas limitadas Faça sua reserva antecipada através do link abaixo. http://www.fiepr.org.br/eventos/modules/external/inscricao.php?codEvento=2826

Sunday, October 25, 2009

Hart Crane


Brooklin Bridge com Lower Manhattan ao fundo - foto do site - http://www.skyscrapercity.com/

............ALVORADA NO PORTO (Hart Crane) - fragmento


. ..................Quatrocentos anos, mais de quatrocentos anos…
.....................será da margem silenciosa do sonho que o tempo…
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Insistentemente, uma maré de vozes
Vem ao teu encontro, algures a meio de um sonho.
São sons longos, fatigados, nebulosos,
Gongos em sobrepelizes brancas, gemidos de além-túmulo,
Sirenas de nevoeiro, sinais dispersos e tão velados.
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Um camião desloca-se preguiçosamente pelo cais,
Os guinchos vibram sobre o convés de um cargueiro,
Lá em baixo, as imprecações e os passos de um estivador bêbado
Ressoam através das ruas enevoadas pela neve.
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E se acaso te roubam o sono, por vezes
De novo te o devolvem. Suaves bolsas de som
Velam o porto escurecido, a baía aconchegada;
Algures lá fora, na claridade, o vapor
Em vapor se derrama, e vagueia, levado-lavado
.
perturbado pela sonoridade fria dos silvos, redemoinhando
Por entre distantes e as bóias tilintantes, à deriva. O céu
Fresco rebanho de plumagem, suspende, destila
Esta flutuante dormência... Vagarosamente -
Desde tempos imemoriais, a janela, a cadeira semi-nua
.
Mais não pedem que esta bainha de pálido ar.
....................................…te regressa ao amor num sonho acordado
.............................................para fundir a tua semente…

(...)

pérolas da internet: um arquivo com sete traduções de Hart Crane
UMA TRADUÇÃO DE SETE POEMAS DE THE BRIDGE, DE HART CRANE
JOÃO DE MANCELOS:

http://www4.crb.ucp.pt/Biblioteca/Mathesis/Mat9/mathesis9_315.pdf

página de João de Mancelos
http://mancelos.com.sapo.pt/

Estante #28


Há noites a desviarem imperceptivelmente o podador enxameado de sol
para morderem o compromisso dos fluidos na estrada branca
como colérico Agosto coado nos cabelos combatentes das raparigas
Estes peixes luminosos enfaixados na aventura essencial das árvores
dançam na meditação das barragens
até se dissolverem na prosperidade dos olhos nocturnos
Estas vagas dilaceradas vergastam um alfabeto de iluminações
na penetração medicinal das sombras
e as difusas muralhas de orvalho levantam-se nas cinturas
de fruta para rolarem no areal argiloso das coxas
e uma das raparigas sustenta incompreendida
todo o corpo do verão nos peitos demasiadamente aromáticos porque
singra puramente nas virações das águas bravias
onde a cúpula lenta das espigas se cerra com os relâmpagos de nácar
cheios de pássaros pontiagudos

O EXTERNO TATUADO DA VISÃO
LUIS SERGUILHA
editorausência, 2002

Friday, October 23, 2009

O erotismo na Literatura Árabe



Literatura: Em busca do prazer perdido
aula avulsa no dia 29/10/09
Aberta inscrição para esta aula com o Prof. Dr. Michel Sleiman
acessar o site icarabe

Thursday, October 22, 2009

HILDA HILST

Roteiro do Silêncio

Não há silêncio bastante
Para meu silêncio.
Nas prisões e nos conventos
Nas igrejas e na noite
Não há silêncio Bastante
Para o meu silêncio.

Os amantes no quarto.
Os ratos nos muros.
A menina
Nos longos corredores do colégio.
Todos os cães perdidos
Pelos quais tenho sofrido
Quero que saibam:
O meu silêncio é maior
Que toda a solidão
E que todo silêncio.

Exercícios
Ed. Globo, São Paulo, 2001

Sunday, October 18, 2009

Canção dos Olhos


Meu Deus, o que será que tem
Nesses olhos teus
O que será que tem
Pra me seduzir
Pra me escravizar
Não sei
E não saberei também
Como resistir
A seu modo amar

Eu só estou sabendo
Que para te amar
Eu viverei sofrendo
Mas já não resiste
O coração
Quero viver triste
E então

E quando eu tiver os meus olhos chorando
Saberei então seu olhar ilusão


História de Canções - Chico Buarque





...


Este convite é fatal.
Uau!
Olhos de Chico Buarque de Hollanda.
Muita beleza em uma única fotografia.
Muita poesia em uma única mirada.
My god, nem vou dizer mais nada...

Thursday, October 15, 2009

Algo Existe

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Algo existe num dia de verão,
No lento apagar de suas chamas,
Que me impele a ser solene.

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Algo, num meio-dia de verão
Uma fundura - um azul - uma fragrância,
Que o êxtase transcende.

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Há, também, numa noite de verão,
Algo tão brilhante e arrebatador
Que só para ver aplaudo -

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E escondo minha face inquisidora
Receando que um encanto assim tão trêmulo
E sutil, de mim se escape.

Emily Dickinson
Tradução de Lucia Olinto