Tuesday, December 31, 2013

Poema de fim de ano


    Imagem by  Rosie Hardy





NIZAR QABBÁNI (sírio, 1923-1995)


QUE TODO ANO VOCÊ SEJA A MINHA AMADA



Que todo ano você seja a minha amada. (1)
Digo com simplicidade de
reza de criança antes de dormir,
ou o descanso, na espiga de trigo, de um passarinho.
No vestido branco, mais uma flor,
nas águas dos olhos, mais um navio a esperar.
Digo com calor e ira de
pés batendo o chão – dançarino espanhol –,
mil círculos a formar
em torno da terra.
Que todo ano você seja a minha amada.
Sete palavras, embrulho com laço:
meu presente de ano novo.
Os cartões não dizem o meu querer;
todos os desenhos que contêm,
(velas, sinos, árvores, bolas de neve,
crianças, anjos) - nada disso me convém:
não me agradam os cartões prontos
nem os poemas prontos
nem os votos para exportação,
feitos em Paris, Londres e Amesterdã,
escritos em francês ou inglês
servindo a toda ocasião.
Mas você não é mulher de ocasião;
é a mulher que amo,
a dor diária
que não se escreve em cartões,
que não se diz em letras latinas
e nem por correspondência.
Quando chega a meia-noite,
você, peixe, penetra na minha água cálida, se banha,
minha boca explora florestas ciganas, o seu cabelo,
e fica por lá.
Porque amo você,
o ano novo, rei que chega;
e porque amo você, carrego
permissão especial de Deus
para passar entre mil estrelas.
Este ano, não vamos comprar árvore:
Você será a árvore,
e sobre você vou dispor
meus desejos e orações,
minhas lágrimas, lampiões.
Que todo ano você seja a minha amada.
Desejo que temo
para não ser acusado de ambição e pretensão,
idéia que temo alguém a roube
e alegue ser o inventor da poesia.
Que todo ano você seja a minha amada.
Que todos os anos eu seja o seu amado.
Desejo fora do merecido,
sonho além do permitido,
mas quem tem o direito de censurar-me por meus sonhos?
Quem censura ao pobre o sentar-se no trono
por cinco minutos? – um sonho.
Quem censura ao deserto
querer um riacho? um desejo.
Em três casos o sonho é legal.
Caso de loucura,
caso de poesia
e o caso de conhecer uma mulher
estonteante como você.
Eu – felizmente – sofro dos três.
Deixe a sua tribo,
siga-me até as minhas cavernas,
largue o chapéu de papel,
a desajeitada melodia
e a fantasia.
Sente-se comigo na sombra – anestesia:
A poesia tem véu azul;
O meu manto protege-a das chuvas de Beirute.
Tenho vinho tinto, das adegas dos monges. Eu lhe oferecerei.
Prepararei um prato espanhol, de frutos do mar.
Siga-me, minha senhora, para os descaminhos dos sonhos:
Eu lhe mostrarei poemas nunca dantes lidos,
destrancarei baús de lágrimas nunca dantes abertos,
amarei você como nunca amei antes.
Quando chegar a meia-noite
e a terra desequilibrar-se,
quando os dançarinos começarem a pensar com os pés,
retirarei-me para dentro de mim
e levarei você comigo.
Não é mulher pertencente à alegria
comum, você.
E nem ao tempo comum
e nem ao grande circo que passa
nem aos tambores pagãos que tocam,
tampouco às máscaras de papel.
Finda a noite, sobram só
homens de papel e mulheres de papel.
Ah, se fosse do meu alcance,
minha senhora,
construiria um ano só para você
poder recortar os seus dias como quiser,
em sua semana apoiar as costas como quiser,
tomar sol e se banhar,
nas areias dos meses, correr como quiser.
Ah, minha senhora,
se fosse do meu alcance
ergueria uma capital para você
na zona temporal
que não seguisse o relógio solar
nem o areial.
O tempo real só começaria a contar
quando sua mão pequenina fizesse
a sesta dentro da minha.
Que todo ano os seus olhos permaneçam
ícones bizantinos;
seus seios, loiras crianças na neve a brincar.
Que todo ano eu esteja enredado em você,
acusado por amar
como acusam o céu por viajar
e o lábio, por arredondar-se.
Que todo ano eu seja atingido por seu terremoto,
encharcado por suas águas
e tisnado feito vaso chinês
pela geografia de seu corpo.
Que todo ano você... não sei como dizer:
seus nomes, você escolhe,
como o ponto escolhe o seu lugar na linha,
como o pente escolhe o seu lugar nas dobras de seu cabelo.
Apenas, permita-me chamá-la:
“minha amada”.



(1) Um jogo de palavras a partir da expressão árabe equivalente a “Que todo ano e você esteja bem”, usada em  saudações festivas, especialmente na passagem do ano.

Traduçao - Michel Sleiman, integrou o recital de Poesia Arabe em 2006.

Saturday, December 14, 2013

G Ideias _ 7 Poetas Paranaenses

Ilustração: Felipe Lima



Linda ilustração dialogando com minha poesia _ Algo a respirar nas casas naufragadas _ que está no G Ideias deste sábado. Poema inédito que vai figurar em um próximo livro que devo organizar em 2014. 
Os poetas paranaenses deste belo encarte editado por Marleth Silva:
Rodrigo Garcia Lopes
Glória Kirinus
Marcos Losnak
Karen Debértolis
José Marins
Bárbara Lia
Adriano Scandolara

Sábado com Poesia, basta clicar no link:
http://www.gazetadopovo.com.br/cadernog/conteudo.phtml?tl=1&id=1433149&tit=A-producao-dos-poetas-paranaenses#barbara


A imagem que inspirou  _ Algo a respirar nas casas naufragadas:



http://www.vus.com.br/projects/italo-calvino/

Ilustração de uma passagem do livro Cidades Invisíveis de Italo Calvino

Wednesday, December 04, 2013

Artesanais _ Fantasma Civil

Minha amiga Kátia Torres Negrisoli, de Adamantina, sempre fotografa os livros em ensaios poéticos que eu recebo e compartilho. Os dois livros da coleção _ Rosas em Ruínas _ Percurso amoroso de uma Vândala e Femme! e a Antologia da Bienal Internacional de Curitiba, organizada por Ricardo Corona _ Fantasma Civil.











2013: Algumas horas belas



O livro mais impactante de 2013 _ Uma viagem à Índia _ Gonçalo Tavares.
Uma epopeia onde os versos emanam toda Filosofia, a Metafísica. Um homem: Bloom. Até onde ele poderá levar seu segredo? Há algum tempo um livro de poemas não me levava pela mão com tanta beleza e com aquela ranhura de reconhecimento da alma humana. Um grande momento deste ano: Ler Gonçalo Tavares. Ouvir Gonçalo. Beber sua luz.

--

23 _ Canto V

Alimentados por livros, os filósofos
estão no mundo de roupão, se ainda não sofreram.
De roupão, que ridículo! Bloom solta uma gargalhada.
Ninguém recebe visitas estranhas com roupa intermédia
entre o sono obscuro e a vigilância clara.
Mas, de roupão estão de facto os filósofos no mundo
se ainda não olharam de frente para o tumulto inexplicável da natureza,
ou se por amor ainda não sofreram.

Página 211
Uma Viagem à Índia _ Gonçalo M. Tavares _ Ed. Leya


**


O filme impactante _ Blue Jasmine _ Uma adaptação de Woody Allen de _ Um bonde chamado desejo. Longe daquele enfoque nas locações, que ele trouxe nos mais recentes filmes, San Francisco é coadjuvante. Por isto mesmo a cidade se impõem. Como ótima coadjuvante integra a cena em luz e sombra. As horas duras no lusco fusco... As possibilidades em amplidão e luz...  
Uma interpretação impecável de Cate Blanchett. 





**

Momento sublime no cinema _ Monólogo de Javier Bardem em _ To the wonder (Terrence Malick)





**



Um momento impactante envolvido em uma esperança terna que desvaneceu depressa demais.
Sempre ficava triste por perceber a inércia dos brasileiros. Na metade do ano um vento de esperança soprou forte. Não foi em vão, mas, retomada a rotina fica aquela sensação de exército que abandona a guerra ao meio. Foram semanas de nadar no mar da utopia. 



***



Thursday, November 21, 2013

no silêncio do meu caminho...



Algumas imagens de 2.013:
Antologia de poetas de todos os países lusófonos _ organizada por Amosse Mucavele (Maputo)
Matérias sobre o livro _ Paraísos de Pedra:
















Exposição _ Cartões Elegantes _ Outubro _ 2013 _
19/20 - dia do poeta
Castelinho do Alto da Bronze
Porto Alegre
Organização _ Poeta Sandra Santos
poetas convidados:

Ademir Demarchi, Alexandre Brito, Bárbara Lia, Betty Vidigal, Caio Ritter, César Pereira, Dilan Camargo, Edson Bueno de Camargo, Edson Cruz, E. M. de Melo e Castro, Gilberto Wallace, José Geraldo Néres, José Inácio Vieira de Melo, Juliana Meira, Laís Chaffe, Lau Siqueira, Leila Míccolis, Lúcia Santos, Luis Turiba, Mara Faturi, Marcelo Moraes Caetano, Marco Cremasco, Mario Pirata, Manoel Herzog, Nydia Bonetti, Paulo Seben, Ricardo Portugal, Ricardo Silvestrin, Renato Mattos Motta, Romério Rômulo Campos Valadares, Rubens Jardim, Salgado Maranhão, Sandra Santos, Sidnei Schneider, Tchello d'Barros, Tulio Henrique Pereira.

















Fantasma Civil _ Antologia _ Bienal Internacional de Curitiba
Organização _ Ricardo Corona
Projeto Gráfico _ Eliana Santos








No primeiro dia do ano eu estava com meu neto no final da tarde e vi quando o céu ficou inteiramente  rosa. Fiquei com aquela imagem gravada. Ele com seus três aninhos e toda Poesia compreendeu quando eu mostrei este céu diferente e comentei sobre a cor das nuvens. Alguns dias depois ele contou para minha filha (quando ela regressou de uma viagem) sobre as nuvens cor de rosa que nós vimos. Fiz um poema falando deste momento, fazendo uma relação com a fase azul de Picasso (de pinturas plenas de dor) para a fase rosa, onde ele vai despindo aquele manto de espectros para pintar alguma felicidade. Este "Azul Desmoronado" _ o poema _ publicado em Março no Jornal Cândido (Biblioteca Pública do Paraná) abriu a cortina de um ano onde tudo que vivi foi como eu penso ser a vida de quem escreve Poesia. Onde o momento da criação é o ápice, ainda que observe as pequenas coisas dos bastidores da Literatura e perceba os equívocos e ouça ruídos, nada disto pode mudar meu caminho... Sou apenas isto: Uma Poeta. E sigo Poeta no silêncio do meu caminho...

A Poesia no palco:

Em três tempos: 
No evento _ Vox Urbe _ (organizado por Ricardo Pozzo), no mês de janeiro, dividi o palco com a Geisa Mueller na noite das _ Musas de Acetileno _ com a sensibilidade da Geisa para compor o enredo e a direção. 
Na Semana Literária do SESC, em setembro, a homenagem aos cem anos do nascimento de Vinícius de Moraes, ao lado de Marilda Confortin. Elas leem Vinícius.
E para encerrar, o lançamento da Antologia _ Fantasma Civil _ Lançamento da Antologia e recital ao lado de alguns poetas da Antologia.


A Poesia nas Antologias:
_
"O Grito do Sangue Tupiniquim" _ Vinagre _ Uma Antologia de Poetas Neobarracos:

"Alone/Enola" e "Deus no Orvalho" na Antologia _ Arqueologia da Palavra e a Anatomia da Língua:

E minha relação afetiva com a cidade, só podia ser mesmo com a chuva _ que eu amo! na Antologia _ Fantasma Civil, organizada por Ricardo Corona, no primeiro ano em que a Literatura integrou e _ 
brilhou_ na  _ Bienal Internacional de Curitiba.

A Prosa:

Este que foi o _ ano das cidades _ onde, finalmente, consegui publicar pinceladas de um tempo mágico, minha infância em Peabiru. Em um livro de narrativas curtas que mescla ficção e memória, trafegando pelos cenários curitibanos e peabiruenses. "Paraísos de Pedra" (Selo Castiçal _ Editora Penalux). Lançado em Julho na Livraria do Paço. 

2013 _ Intenso e poeticamente lindo:

Naquele dia rosado que inaugurou o ano eu não conseguia colocar tantas horas poéticas em meu pensamento e nem elaborar um ano tão límpido. Cada passo foi meio ao toque daquela Sinfonia preferida, se eu pudesse dizer : é isto que quero para mim... Talvez, nem mesmo assim, eu pudesse compor um quadro poético mais belo. 

Para sublimar o ano, em agosto, na Oficina do Gonçalo M. Tavares, eu ouvi o que precisava ouvir para lavar todo descompasso com alguns fatos do meu passado literário que ficavam arranhando e magoando. Com algumas palavras, frases, pensamentos, poemas, evocações, lavei as mazelas e guardei cada ensinamento do Mestre. Não creio em Oficinas como uma espécie de Escola onde se ensina a escrever. Gonçalo Tavares afirmou que também não crê. Mas, minha intuição em participar de uma Oficina foi vital. Ele gravou um _ recomeço _ quando afirmou coisas como: Os "imortais" podem perder tempo, pois eles são _ ou presumem ser _ imortais. Eles podem ler livros ruins, ver filmes ruins, e fazer coisas que em nada acrescenta usando um tempo precioso... Os mortais não podem fazer isto. O que assimilei como uma cura, foi a colocação dele sobre o tempo que alguém ou algum evento rouba de nossa preciosa vida _ estas coisas insolúveis. Por ter a chance de assimilar uma verdade... Eu carregava mágoas como Sisifo à sua pedra, era erguer e desmoronar sem fim. Aprendi com Gonçalo que um mortal não tem tempo a perder remoendo coisas pequenas e situações pequenas e insultos de pessoas que são pequenas _ sim _ quando perdem tempo com coisas menos importantes que construir sua Obra. 
Outra coisa mais que vital: Escrever e ler como quem se alimenta _ devorar. E também sobre a sua dedicação e seu isolamento em momentos de escrita. Longe da parafernália que rege tudo. Tal qual eu sempre pensei a vida de um Escritor, assim com "E" maiúsculo e um grande destino _ Fechar-se para tudo, em silêncio, como quem deleta o mundo para mergulhar na criação. 

E a minha criação vicejou em romances que necessitam ficar aquele tempo em repouso para serem reescritos, revisados... Em livros que enviei para Concursos e nem sei o que será. Em Poesias que escrevi como não escrevia nos últimos anos.
Passei alguns meses tentando compor uma Antologia Pessoal. Selecionar os poemas mais expressivos em um livro que resumisse toda a minha escrita e criação poética... Arquivei a ideia. Melhor reunir poemas para um livro inédito, sem pressa. Por isto, não tenho nada traçado oficialmente para 2.014, além de seguir criando, no silêncio do meu caminho. 
Dias mais poéticos para todos nós, em 2.014 e para sempre. Gracias a la vida, à partilha de todos que trilharam momentos e lançamentos, buscas e horas banais ao meu lado. A vida é um Mistério e em 2.013 tive esta certeza e saio dele com oitocentas mil perguntas e uma resposta simples, à la Gonzaguinha: É a vida, é bonita e é bonita...

__ sobre esta configuração do blog, ainda não sei como resolver... as palavras eu as escrevo completamente nas linhas, mas, quando publico elas ficam separadas, de uma forma incorreta... então, preciso pesquisar para saber como publicar sem esta configuração estranha __

Wednesday, November 20, 2013

what would i say?




_um aplicativo que resume suas postagens no Facebook. Fui até lá e o resumo da ópera é o poema abaixo _


E pensar que só uma televisão ligada no andar de mim:
_ Rimbaud
E se me perguntarem o que será
Dia nenhum
Mundo melhor
Amem
E esqueçam Deus

Bárbara Lia


Monday, November 18, 2013

Presentei Poesia _ Natal amorável




Sobre os livros artesanais... editei  _ Rosas em Ruínas _ pequena epopeia passional:

Femme! 
Essencialmente erótico. O pequeno livro é o que anda de mãos dadas com Eros, a maioria dos poemas falam do amor carnal. O poema que integrou a Antologia _ Amar, Verbo Atemporal (Umbrática Nuvem) _ está neste livro. 

Percurso amoroso de uma vândala
Primeiro coloquei o título deste pequeno livro de _ Canções de afundar navios _ depois optei pelo percurso. O percurso amoroso de uma vândala está dividido em três subtítulos: Dark Blues / Noir / Shine.




Rosas em Ruínas:
Para ter estes livros escrever para barbaralia@gmail.com
O preço é o mesmo do meu projeto artesanal
R$-9,90 cada exemplar + valor da remessa via Correios _ R$:-5,65
Na compra dos dois segue em um invólucro artesanal.


**O Romance Constelação de Ossos _ quem o desejar com dedicatória _ tenho apenas dois exemplares, mandem e-mail, este livro custa R$_25,00. Este romance e o livro O Sal das Rosas (Poesia_Lumme_2007) à venda na Livraria Cultura. È só colocar meu nome no site. Quem preferir presentear com livros tradicionais. Além desta opção romance e poesia, o meu mais recente livro de contos _ Paraísos de Pedra _ apenas no site da Editora Penalux. Natal com livros, quem gosta de ler gosta de receber livros no Natal. Eu gosto. Até 2014, com mais Poesia, é o que se espera...

Saturday, November 16, 2013

O outro lado do espelho...


ESTAR SOZINHO

(Para Bárbara Lia)

Líquido momento de sentir
E estar sozinho.
Mariana Ianelli


Aqui
não há
a voz das folhas secas 
a te sussurrarem
- sob o peso dos teus passos – 
segredos do outono.

O coração se calou.
                                                         
O silêncio 
aqui
já não te causa medo.
O silêncio
aqui
é líquido como o deserto
ou como a hora 
líquida e incerta
de estar sozinho.

MARCELO BOURSCHEID
Dramaturgo e Poeta
foto _ com Marcelo na Oficina de Dramaturgia _ SESC/PR




que a lua não enregele seus dias de ópio
e o medo da morte não desperdice o lento caminhar
se o gelo das altas madrugadas fazer-te esquecer da vida
esquecer das dores, esquecer da fadiga de dormir
para logo mais acordar...

ainda restará uma xícara de café quente sobre a mesa
e um pedaço de pão
e um papel amassado

e a reclamação de um filho que ainda não se foi.

Clifton Giovanini - 24/02/03

_ Clifton na foto _ o moço de azul





De Sóis Noturnos


para Bárbara Lia

Sou eu?
Atrás do espelho,
tinha um espelho.

Neste, eu estava invertida.
Naquele, a me ver vertiginosamente.

Branca de neve sem madrasta:
eu sol.
De Sóis Noturnos.

Nem quem,
espelho meu,
nem mais bela.
Só eu.

TRÊS TEMPOS

I
Inspirou
Eu sou?

II
Expelindo
Eu sol.

III
Morrerá
Eu só.

Rebecca Loise
in http://rebeccaloise.blogspot.com.br/2013/10/de-sois-noturnos.html




releitura
p/ bárbara lia

tremendos mistérios estão ali,
naquelas
páginas

os átomos que falamos tanto
parecem mais leves

parecem mais pesados,
também

após releitura de uma
última chuva

Isaias de Faria _ somos todos telebobos _ página 59



** uma característica dos poemas: meus amigos poetas captaram minha solidão. O poema do Isaias de Faria é sobre a releitura de um livro, os demais conviveram por algum tempo com minha alma misantropa e a narraram em poesia, para eles também escrevi versos, de todos eles sinto saudades. E a vida é este mistério, e tempo e distância este impasse. Segue o coração com as horas arquivadas, a retirar como quem retira fichas de um arquivo e revê e vive outra vez. Para Marcelo Borscheid foi depois do incrível mergulho na beleza dolorida de: Antes do Fim,_ ainda na época da leitura dos textos em nossos encontros de dramaturgia e o poema foi escrito enquanto ouvia a leitura, capturei imagens, embalada pelo clima do texto desta belíssima Peça, recolhendo cenas e signos. Clifton ganhou uma poesia que entrou no livro "A última chuva", no tempo em que ele viveu no Rio Grande do Sul e escrevia contando sobre o lugar onde vivia diante de uma catedral gótica, sentia saudades do meu amigo e para ele escrevi "Primavera Desfolhada"... E, para Rebecca dediquei um texto escrito após minha ida à exposição no Museu da Língua Portuguesa, ante o silêncio azul que desvelou para mim um pouco mais de Clarice Lispector, pois a escrita da Rebecca tem este viés de Clarice, de profundidade que fere navalha.


LEITURA POÉTICA DE "ANTES DO FIM":
para Marcelo Bourscheid

Chuva no mar
       e Electras estilhaçadas
Ruptura das asas
       e aves mortas na varanda
Luz estéril de farol hirto
       bloqueando sereias
Malas atiradas na areia
       aos pés da catedral de ossos
Rescaldo do sacrifício
       dos serafins tortos

- Bárbara Lia/2009


Fragmento de _ Primavera Desfolhada _ Para Clifton Giovanini (A Última Chuva):

Agora, ele escreve fumando narguilé
batucando a velha Olivetti
diante da catedral gótica.
Meu amigo medieval
ponte de ternura rara
exilado em um lugar
onde a neve cai ao sol
onde ele não esquece
nosso carinho repartido.
Agora, vai descrever as pedras da catedral
com ternura embriagada,
breve, vai ultrapassar a soleira em luz
garrafa de vinho em uma das mãos
uma chama de vidro no coração
e no rastro uma primavera desfolhada.
Bárbara Lia/2006

"MISTÉRIO E CHAVE DO AR"

A porta do elevador se abre e todas as paredes mostram o rosto dela e as palavras. Clarice jovem, Clarice adulta, Clarice em suas últimas fotografias. A penumbra azul traz de volta um pensamento recente: O céu não é baunilha, luz, campos e regatos. O céu é uma penumbra. As mais belas horas vivi na penumbra. E Clarice me sussurra na penumbra "sinto que sou muito mais completa quando não entendo" e "viver ultrapassa todo entendimento". Entrei na penumbra azul da exposição de Clarice sabendo que em mim, como em tantos, nada permanece igual depois que se respira "o mistério e a chave do ar" - Clarice.
E a Estação da Luz fechou por alguns instantes (segurança papal). Não eu não quero ver o Papa, quero ver a palavra viva, fluída, que são regatos escondidos em gavetas escuras. E chorar lendo o poema de Drummond, que resume Clarice no último verso: mistério e chave do ar.
Há que se escolher o ar, e respirar puro. A exposição no Museu da Lingua Portuguesa - A hora da estrela - é pura penumbra, e ao mesmo tempo luz. As fotos que ela tirou em sua polaróide. E as inúmeras fotos de Clarice, sua obra, seus passos, seu itinerário completo. Não pude fotografar como fotografei a exposição da obra de Guimarães Rosa. Em um momento da entrevista dela, ela se confessa cansada. Impressiona. E como ela se mostra humana, frágil, impressiona. Então respiro o ar, a penumbra dos gestos e palavras e o pensamento volta. Vivi instantes de céu, na penumbra asséptica entre verdes lençóis, quando o filho nasceu e contra todos os prognósticos, viveu. Acordar em uma certa madrugada, esquecida de onde estava, da penumbra ver a luz pequena que cai sobre a mesa o vulto do amor a compor poemas - Céu. A penumbra de um porão salpicado de pétalas e poesias, a penumbra sempre... E toda a atmosfera delineia esta idéia que anda vagando em mim - é bem estranho o céu, é uma penumbra, caminhei pelo céu esta tarde. pelas relíquias, documentos, acervo pessoal, cartas, e sorrisos discretos dela.

p/Rebecca Loise _ 2007



Thursday, November 07, 2013

Um poema para Hart Crane



Em Wall Street, dos andaimes até à rua, o meio-dia escorre
Como um rasgão luminoso no acetileno celeste;
_Hart Crane



Crane afogado no mar das Antilhas
Olhos vidrados: duas conchas marinhas
_ Tela onde peixes assistem ao enredo triste _
Um menino desamparado
Um adulto amparado pelo álcool
(A vida é liquida _ disse Hilda Hilst)
Em Crane era liquidez de sonhos e espumas
Assombro diante de pontes
_ Pontes de ferro ou pontes de amor, partidas _
Abandono e amores brutos
No fundo do mar, a solução final

Bárbara Lia

Thursday, October 24, 2013

"desaparecer não é para qualquer um"




Marcos Prado tem razão _ Desaparecer não é para qualquer um _
Vou desaparecer por um tempo. Mergulhar no ócio criativo e escrever.
Antes, quero publicar os links de matérias bem lindas sobre a Antologia _ Fantasma Civil.
No Programa  _ Noites Curitibanas _ Michelle Pucci conversa com Sabrina Lopes e Ivan Justen Santana:



Na TV da Prefeitura Municipal de Curitiba _ A Arte toma conta da cidade




Paraíso de Pedras _ Paradiso _ Curitiba



Os poemas da Antologia _ Fantasma Civil _ o mergulho na cidade, evocou o meu mais recente livro _ Paraísos de Pedra _ onde a primeira parte tem como cenário Curitiba. Minha narrativa em prosa poética que permeia os contos de _ Paradiso:

"O palco tosco da sala da Universidade destoava da modernidade cilíndrica e asséptica da minha Curitiba. Sala antiga, prédio antigo, o professor de Antropologia valia a cena. Quando subia ao palco e improvisava paraísos eu viajava entre as tribos aborígenes _ homens de rostos adornados de branco. êxtase." (Página 17)

"A água não jorra, neste fim de tarde, do símbolo fálico do chafariz do Largo da Ordem. Um cavalo que baba (goza?)... O que secou? O sêmen ou a lágrima? Muito estranho esse cara que fala com o mármore com intimidade de amigo. A água parada, a vida parada, o homem descalço a conversar com as pedras e eu a esperar o amigo..." (Página 21)

"Em todos os invernos provarei o gosto do céu olhando o voo das pombas sentindo o aroma de seus cabelos espalhados.
E um sopro suave à saída do Café Express me trará esta certeza: dela ao meu lado espalhando anis no ar com a ternura dos naufragados." (Página 32)

"Aqui teu cravo branco, amor! Quando coloco os pés na banca do Mercado das Flores a moça me estende tua flor. Nossa flor. Nem preciso dizer nada. É o ritual das visitas das terças" (Página 33)

"O nosso corredor lírico era uma rua de pedestres. A recém-inaugurada Rua XV. No caminho para o apartamento de Mariah nossa parada era na Confeitaria das Famílias para comer uma bomba de chocolate e tomar um chocolate quente. 
Na cidade do nosso desabrochar existe _ a cada dia _ o ritmo das estações. Quatro estações em um só dia."(Página 38)


Bárbara Lia _ Paraísos de Pedra _ Editora Penalux - Selo Castiçal

Sunday, October 20, 2013

E por falar em silêncio...




Cinzas de Pitágoras

"Cala-te ou dê algo melhor do que o silêncio." - Pitágoras

O silêncio é a Música das Esferas da qual Pitágoras falava. Nada existia de mais belo para ele que o silêncio quando ele saia para ouvir as estrelas nas noites. E esta epígrafe _ cala-te ou dê algo melhor que o silêncio _ fica ao meu redor neste tempo sonorizado. Tempo aturdido e sem um instante de céu de Pitágoras. 
Eu recordo a mãe e sua aura silenciosa e tento ouvir os pensamentos antigos que ela aninhava dentro daquela redoma onde nada penetrava. Volto ao ninho de amor _ do mais belo amor _ uma casa incrustada em uma serra, erguida acima de um rio e o amado a meditar sentado em posição de lótus em uma rede branca. Lembra a escultura de Rodin – O pensador, onde o homem apóia seu rosto em sua mão e se isola de tudo, em silêncio. Rodin a chamou inicialmente de _ O poeta. E, sendo poeta, entendo Rodin quando ele quis chamar de Poeta seu Pensador. A poesia nasce no silêncio e diz a Mitologia que o silêncio nasceu antes do AMOR. Os pensamentos, as imagens e as lembranças fluem agora – s-i-l-e-n-c-i-o-s-a-m-e-n-t-e.
As coisas eternas e imutáveis são silenciosas _ as árvores, as montanhas, os lagos profundos. O canyon imponente _ catedral de pedra _ cujo hímen rompido por algum estilhaço de deus irado rasgou ao meio a montanha. Amantes repartidos que se contemplam eternamente. O silêncio tem me interrogado em cada manhã. Quer sugar-me para dentro do seu ventre branco. Traz-me notícias de um éden que desconheço, ou que conheci tão pouco, tão etéreo, tão fugidio, quais os beija-flores que vinham em asas vibrantes a nos visitar na varanda do amor. 
Meu pai amava o deserto. Quando a vida exigia e ele se entristecia com algo, ele dizia que ia embora para o deserto.
O deserto foi minha paixão desde que o li Saint-Exupéry, aquela eternidade calcinada de areia e o vácuo e a paz do não ruído flanando e um príncipe pequeno pousando do nada.
O deserto do meu pai, o deserto de Paul Bowles, o deserto do aviador francês que concebeu um príncipe eternizado que diz de uma rosa e do amor como laço de escravidão com a palavra de aço _ responsabilidade _ uma pequena fábula que engendra um amor estranho. Eu o via como belo quando era menina. Hoje os sacrifícios e as palavras do livro falam-me de um amor pequeno. O grande amor não agrilhoa, não prende, não usa metáforas de rosas, não espera nada, nada diz. 
O verdadeiro amor é como está em Coríntios: Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
O amor que nasceu do silêncio tem esta verve de entrega, de dar e não esperar nada. Segue sua estrada e quando reencontra o objeto amado está lá inteiro, mãos estendidas, sorriso prateado de estrelas.
O silêncio não abandona os corações. Está sempre ali, à espera no canto da parede cavernosa. Quando o ruído estronda, quando a maré invade, quando a cólera colore de sangue tudo, ele está esquivo, quase parede, quase coração, à espera que tudo se acalme que o sangue escoe que a dor crie asas para regenerar a casa, sem exigir nada. 
O silêncio é como a mãe em todas as madrugadas do mundo. A mãe que pisa com pés de tigresa, para não ecoar som algum pela casa. A mãe que se debruça, respiração opressa, sob um berço e cuida que haja paz para a criança que dorme. A mãe que consegue atravessar madrugadas sem voz, sem ruído. A acompanhar a respiração de um filho doente. Esta é a alma do silêncio. A música do silêncio que não é apenas aquela de Pitágoras em suas caminhadas na noite, perscrutando astros. O ritmo que ele colheu das estrelas e utilizou para criar a escala de notas, enriquecer a cítara com seus acordes e segredos emprestados dos astros. 
A música de John Cage, sua sinfonia do silêncio. A peça para piano intitulada 4'33". Sinfonia que não possui nenhuma nota, sendo composta inteiramente por pausas! 
Para testá-la ele a ouviu dentro uma câmera anecóica, que é uma sala construída de tal modo a cancelar todos os ruídos ambientes. Ainda assim, ele não ouviu o silêncio absoluto. Ele ainda conseguia ouvir um barulho _ o ruído do próprio coração.
O silêncio nosso jamais será o silêncio de Deus. É o silêncio da matéria. Deus é a não matéria. Significa que só a Natureza possui totalmente Deus: As árvores, os vales, as montanhas e as flores. Nós o possuímos com uma parcela de humanidade, este coração que bate e interfere na sintonia pura. Por isto, só abraçaremos em eternidade o silêncio após a morte. Penso neste silêncio em um tempo onde os ruídos me raptam, onde a rua com suas máquinas possantes se transformam em uma orquestra desafinada vinte e quatro horas ao dia. Penso no silêncio por que o desejo como meu pai desejava o deserto.
Aquele verso sublime da canção _Silêncio _ que Ormara Portuondo e Ibrahim Ferrer interpretam:

Silencio, que están durmiendo
los nardos y las azucenas.
No quiero que sepan mis penas
porque si me ven llorando morirán

Para que não morram as flores devemos buscar o silêncio. Para que as geleiras não desabem e evoquem o apocalipse narrado. Para que os filhos não cresçam com os acordes da mágoa. Quando penso em silêncio eu penso _ Rio. O silêncio caudaloso e verde. O eterno singrar para um destino, sem alarde. Os rios silenciosos que assistiram ao nosso amor. O silêncio das esferas prateadas de Pitágoras e da alma do Poeta que Rodin tecia, em pedra. 
O silêncio das pedras, das nuvens, da lua miraculosa. As águas banhando silenciosamente as encostas desabitadas. O silêncio de uma paisagem. 
O silêncio de um amor que não pode ser narrado. Guardado em uma estrela. A mais amada por Pitágoras. 
O silêncio fecundo das manhãs esperançadas, todas que acordei com o aroma fecundo do café que minha mãe passava, o silêncio fecundo do novo, esta alegoria bonita _ a surpresa da vida que chega sempre depois de um silêncio fecundo. O silêncio de um respirar profundo, ar invadindo cavernas de um coração necrosado, derrubando as carnes mortas e implantando a luz do silêncio, a música do silêncio, a partitura do silêncio. Regenerando tudo, à revelia de todas as profecias más. A profecia maior é o Amor. A profecia que os poetas escrevem com signos invisíveis _ eternamente _ à sombra de um rio.

Bárbara Lia/Coreografia do Caos/book online no site Germina e parte do projeto 21 gramas da primeira fase (2010) 

Imagem_ Man Ray_1936


Saturday, October 19, 2013

Pra não dizer que nunca falei em Deus...




Menina com bandolim _ Picasso





As pessoas buscam Deus. As religiões o usam. A sociedade ampara-se em dogmas similares para que as Instituições controlem. No fundo de todo homem existe o Fantasma do medo plantado por mãe, pai, padres, pastores... Criamos um mundo de medo, ao invés de um mundo de amor. Não amor no sentido pequeno e humano de querer ser amado, do receber e receber sem a parte mais plena e libertadora que é o _ dar. Sempre voei para os espaços vazios e quintais. Queria acompanhar as formigas no chão, as borboletas no ar... Pois aos que foi dado o direito de viver sem questionar, basta seguir o ritmo natural. Se eu sou hippie? Não. Nova era? Jamais. Vegana? Também não. Então, quando os homens começaram a classificar, incluíram este ranço que se volta contra quem vive, ama e pensa como bicho e flor... Que acordam e preferem o canto do pássaro que o noticiário tão igual. Quem duvida que vivemos o _ Admirável Mundo Novo _ eu que insisto em correr em busca da minha mãe natural (metáfora da criação), não encontro lugar. Tenho pena dos que se contentam com uma religião, ou a busca dela. Deus não está nas religiões. Nada nos faz mais humanos e menos nocivos do que apenas seguir o grito natural daquilo que nos colocou aqui... E isto nem significa família. Significa este fio que segue plantado dentro de cada um. A própria voz, o simulacro da beleza do único amor que importa está lá, desde o Big Bang. Então, desculpem os que vivem com os sermões a apontar a sujeira do sexo, a falta de senso em ter um deus Mamom... Desculpe se eu não creio mais em legados, livros sagrados... Eles ergueram os maiores muros em todos os tempos. Iniciaram e prolongaram as mais sangrentas guerras... Desculpem os crentes, os dementes que se acham crentes, os que acham que humanidade é classificar, julgar, apontar, tentar consertar... Tem um paraíso escondido dentro de cada um... E isto eu penso há muito, bem antes de me saber poeta. Querem um mundo melhor: Amem. E esqueçam Deus. Aliás, ele está saturado de ser usado para coisas pequenas. Ame! Ame! e Ame!... Só assim vale a pena, e ganhar ou perder, não importa... Estar certo ou errado, muito menos... E se me perguntarem o que é o amor, então, já estão pedindo demais... Tire os sapatos, fique nu de pele e ossos, cerre os olhos e caminhe, caminhe, caminhe e quem sabe o amor venha ao teu encontro...

Bárbara Lia, primavera de 2013