Saturday, July 28, 2007

PORÃO LOQUAX - MÁRIO QUINTANA

"Olho em redor do bar em que escrevo estas linhas. Aquele homem ali no balcão, caninha após caninha, nem desconfia que se acha conosco desde o início das eras. Pensa que está somente afogando problemas dele, João Silva... Ele está é bebendo a milenar inquietação do mundo!"
Mario Quintana


LANÇAMENTO DO PACOTE DE POESIA MÁRIO QUINTANA
NO PORÃO LOQUAX - WONKA BAR

Terça-feira, 31 de julho, a partir das 22h.


Nesta terça-feira - o lançamento do Pacote de Poesia Mário Quintana (Sesc da Esquina) no Porão Loquax.
No projeto, grandes nomes da nossa literatura são homenageados periodicamente.

Jéssica e Cléber, da companhia de teatro "Elenco de Ouro", declamarão poesias que se encontram no Pacote de Poesia do Sesc da Esquina.

Friday, July 27, 2007

ANTIGA PAIXÃO

O primeiro desenho animado da minha vida foi uma confecção caseira dos meus irmãos. Junto com o Kalau (onde andará o Kalau?), criaram uma máquina com madeira laminada, uma lâmpada, o mais rústico projetor que vi na vida. Meus irmãos são exímios desenhistas. Desenharam em papel manteiga com tinta nanquim (que era do meu pai agrimensor, ele também desenhava mapas). Projetaram na parede branca da sala. Na cidade - Peabiru - o lugar que mais frequentei, além da escola, foi o Cine Vera. Éramos bem pobres, mas, meu irmão mais velho foi trabalhar no Cine. Nunca perdi a matiné de domingo. Vivi momentos mágicos no Cine Vera. No início ia com meus pais, com direito de entrar no cinema com meu pijaminha de flanela novo. Assistir Marcelino, Pão e Vinho e ver a emoção da minha mãe. Nossa rotina domingueira era revivida durante a semana, em brincadeiras de imitação. Então nos tornamos Batman, construímos circos, e fomos heróis e bandidos, índios e mocinhos. Até que eu já estava quase mocinha, cansada de brincadeirinha de criança, e no último dia de brincadeira o filme tinha a loucura de Nero. Não queria brincar, e meu irmão louco para reviver Roma e Nero. Entrei e disse - não tô a fim. Fui beber água na cozinha, procurar algo mais interessante e ele se mandou para o quintal, no galinheiro que era nosso QG, pois não existia nenhuma galinha e acabou virando nosso ponto de brincadeira. Estava tranquila, nem aí para o Nero quando ouvi meu irmão gritando: fogo! fogo! Achei que ele estava levando a sério a sua brincadeira isolada de Nero, uma interpretação digna de Oscar. Fiquei intrigada com a força que ele imprimia aos gritos, então fui ao quintal e ele havia realmente incendiado o galinheiro. Era verão, o forro era feito de lâmina de madeira e bastou acender o fósforo. Minha mãe apagou o fogo com baldes e baldes de água, ficamos juntos de castigo, embora eu não tivesse incendiado Roma (o galinheiro).
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Passei o dia de ontem lendo um livro que recebi de Almir Feijó:
- Descríticas - 316 filmes.
Mandei meus livros de poesias para ele e fui agraciada com um livro editado com primor pela Criar Edições. Uma loucura. Passear por uma galeria de filmes que vi, um livro de 553 páginas, com fotos e até autógrafos de alguns mitos de Hollywood. Rememorar filmes, cenas, junto, épocas da minha vida. Foi um prêmio para quem está presa em casa (de novo) sem poder andar. Bem, já estou ficando preocupada com minhas semelhanças com Frida Kahlo. O pé direito de novo imobilizado. Um dia eu saro, ou vou ter que ser a charmosa escritora que vai andar de bengala. Ou então, a vida pede um tempo. Deve ser algum aviso, um pedido para esta mulher - Pare!
Paro.
Ler bons livros, ver bons filmes, que agora posso ver em casa, e escrever, escrever, escrever.
...
blog do Almir Feijó:

FONTE (ELA)



A estrela da tarde


A estrela da tarde está
madura
e sem nenhum perfume

A estrela da tarde é
infecunda
e altíssima

Depois da estrela da tarde
so há:
o silêncio.
ORIDES FONTELA


Sunday, July 22, 2007

PLANOS POÉTICOS





Para alguns poetas em Curitiba, o porão do Wonka Bar acabou por tornar-se uma Confeitaria Richmond. Algum dia vai figurar em livros, tal qual a Richmond que Borges frequentava, ou London City, onde Cortázar escreveu "Os Prêmios". Algum dia será lembrado como o bar onde Maiakóvski trafegava entre a fumaça revolucionária, o "Cão Vadio". Ou, o café "A brasileira", onde Fernando Pessoa vivia.
Quando o poeta Mário Domingues anunciou o projeto Porão Loquax em uma parceria com Ieda Godoy do Wonka Bar, eles atiraram uma semente em um porão. A poesia nossa de cada dia ganhou um dia sagrado - as terças-feiras. Desde a primavera de 2.005 o projeto Porão Loquax segue dentro de sua linha independente. Em seu palco estiveram músicos, atores, poetas, escritores... Com uma doçura anárquica, os idealizadores nunca rebaixaram o nível da Poesia. Este momento é único, passa longe das escolhas afetivas que permeiram algumas Instituições, sem se preocupar com apadrinhamentos ou qualquer outro tipo de atitude que pudesse figurar um mínimo de discriminação. Os poetas encontraram um palco, um espaço para suas poesias, músicas e interpretações.
BÁRBARA LIA
Terça-feira, dia 24 de JULHO de 2.007, 22H
Celebração da poesia feita em Curitiba:
Leitura dos poetas e inauguração dos painéis de poesia que ficarão por seis meses no Porão Loquax,  a cada seis meses os painéis homenagearão poetas locais.
Wonka Bar
Rua Trajano Reis, 326
Curitiba
fone (41) 3026.6272
entrada - R$-1,99

TÁBULA RASA










Pollock



As portas da cidade branca.
Abertas, par em par.
Meu espírito, tabula rasa.


Antes da data no tempo gravada,
Para alcançar a eternidade.
Sigo beijando vermes,
Como se fossem jasmins.
BÁRBARA LIA

Saturday, July 21, 2007

Whisky Romeo Zulu (trailer)

Enrique Piñeyro quando menino sonhava ser piloto de avião. Como comandante da empresa Lapa percorreu por meses os corredores da companhia na tentativa de se fazer ouvir. Por muitas vezes negou-se a voar por total falta de segurança. Naufragou os sonhos de sempre, e se viu afastado da empresa passou por momentos duros. Até que o Boeing 737, que ele se negava a pilotar, foi ao chão, nas mãos de um outro piloto. Espatifou no centro de Buenos Aires, em direção à Córdoba, em uma noite estranha, causando a morte de 70 pessoas. WRZ era o prefixo do Boeing. Enrique tornou-se diretor de cinema e interpretou ele próprio a sua trajetória em um filme muito bem conduzido que questiona os interesses colocados acima das vidas humanas. Não ando com vontade de dizer nada. Outro dia ouvi direto do labirinto da minha memória aquela poesia de Guerra Junqueiro que meu pai declamava – pobres de pobres são pobrezinhos – e o nosso Presidente é pobre. Não o respeitam. As crianças pobres do mundo morrem de fome a cada cinco segundo, lembro meu amigo Frei Betto dizendo – a fome é a única causa mortis que só atinge os pobres, e por isto, não comove. Nada abala, esta estatística não comove... Se fosse noticiada a morte destes anjos de paises pobres de pobres de pobrezinhos como quedas de avião, cairia um avião a cada hora... Não sei se nada tem a ver com nada ou tudo está vinculado... Por ser caótica faço conexões várias, e a tristeza acaba chegando com algumas certezas pinceladas... O mundo é um palco, encenamos uma tragicomédia. Alguns piram e se libertam de tudo, são estes profetas vadios das ruas, outros se matam, outros vão morar no mato, outros ficam impotentes, chorando, olhando o dia nascer tão lindo, a lua em sua dança indiferente... Alguns fazem filmes e denunciam. Mas, no ano passado quando vi este filme achei aquele homem muito corajoso. Falta esta coragem no mundo, muita poesia, alguma alegria... Não sei se dá para virar o jogo aos quarenta e seis minutos do segundo tempo... E o mundo está de cabeça prá baixo.. as crianças continuam morrendo, e isto dói muito, tal qual a dor que vi nestes dias - de mães, pais, filhos, maridos, amigos... dói e dá um certo asco, perceber que alguns setores usam tanta dor para interesses pequenos. Mas, a Argentina teve um piloto que virou cineasta, e ele colocou a maior lenha na fogueira, sofreu ameaças, mas, manteve a postura sábia de não conduzir passageiros para a morte.

Friday, July 20, 2007

MARCOS LOSNAK

MÚSICA DAS FOLHAS

Vento
é aquilo que retira a imobilidade das folhas

Dor
é o que recheia o corpo de vazios

Amor
é algo que não aparece quando estamos mortos

Brisa
é a sutil compreensão de que nada é imóvel

Wednesday, July 18, 2007

MICHEL SLEIMAN
















Michel Sleiman / Tiraz















Estou à espera de um livro de poesias de Michel Sleiman - poeta e professor de Literatura Árabe da USP. Editor da Revista Tiraz. Está no site do Icarabe a notícia sobre a edição do terceiro número da revista Tiraz e uma entrevista com Michel, que vez por outra me manda belos poemas como o que está aqui.
sobre a revista
= A revista Tiraz, revista acadêmica do Programa de Pós-Graduação em Língua, Literatura e Cultura Árabe da USP, ganha sua terceira edição agora em julho. Apesar de ser editada por um departamento de Letras, ela aborda diversos temas. Isso porque, segundo seu diretor, Michel Sleiman, a revista espelha o que acontece no mundo. “Embora as pessoas queiram saber também sobre literatura, elas querem saber sobre a política, a religião, a língua, a filosofia, a história, a arte dos árabes”. fonte Icarabe www.icarabe.org



para ler a entrevista do Michel:



Roda roda moinho
traz-me voz dessalina

dias vencidos, ondas vagas

traz-me o guerreiro,
a amazona

traz-me e leva
o que venci na última lide

deixei meu cavalo
encilhado no vento

barcarola,
areias, sisal

quando avistei a longa embarcação
e narrou-me Odisseu a odisséia

e Medéia assaltei com olhos vastos

dor dorida dor
troco-te por um par de asas

[Ouvi-te, vim-te, tem-me, lume dos olhos meus.
Retém o fluxo de magma sangrenta.

- Sim, eu te escuto.

Flor tartamuda,
colibri de asas cegas, eras sonho? eras fera?]

Em primeiro sinal
aqui, na tela móvel,

não à sereia
não à cicuta.

Agora

faço corte à majestade
quem em mim é a cara metade.

E tu, desdobrada em sonhos,
em nome dos meus súditos,
crava com teus dentes

no meu peito

o punhal.

MICHEL SLEIMAN

Tuesday, July 10, 2007

DOUGLAS DIEGUES










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non adianta ter segundo grau completo
graduacion pós-graduación doctorado en la gaveta
um bom curriculum que garanta um buen emprego
quem nasceu pra ser una bestia sempre será una besta
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non adianta dominio de la lengua sem la gosma de la experiência
almoçar jantar cagar vomitar grandes assinaturas
que se estendem como grifes de la más alta cultura
quem nasceu pra una besta sempre será una bestia
..
non adianta saber ler y escrever correta
mente, colecionar diplomas que os otários veneram
conhecimento nunca foi sabiduria nem aqui na china nem lá nu Iran
quem nasceu pra ser una bestia sempre será una besta
.
muchos posam de sábio en la mais badalada de las fiestas
mas como diria titia Gertrude: una bestia es una bestia es una bestia
DOUGLAS DIEGUES
Uma flor na solapa da miséria
(em portuñol)
Eloisa Cartonera - 2.005

Sunday, July 08, 2007

MIA COUTO














Mozambique

MEUS JULHOS


1. Sou julho
estou explicado só pelo sol

Meu erro
é procurar um território
apto a nascer

A única geografia
que me aceita é a poesia

Como a chuva
que repousa entre nuvem e terra
me escrevo
na ausência de todas as línguas

2. Me esqueço-me
só me falto eu
para ficar todo só

3. Antes de nascer
já eu tinha envelhecido tudo
Por isso,
não me espanta
o casal de pedras
nem a árvore que engravidou

Minha doença,
felizmente,
é muito miracurável.
Julho 1.989
MIA COUTO
Raíz de Orvalho e outros poemas
Ed. Caminho

Saturday, July 07, 2007

'RAYMUNDO'














Raymundo Gleyzer

Normalmente a tv aberta nada acrescenta, vez por outra, surpreende. Assistir "Raymundo" documentário realizado pelos cineastas argentinos Ernesto Ardito e Vilma Molina, em 2.002, nesta sexta-feira, foi surpreendente. Mostra a América Latina - sempre escamoteada, escondida, velada - que o documentário escancara. Trafega pelo mundo, e abre as portas de uma vida rara, de Raymundo Gleyzer, nasceu em 25 de setembro de 1.941 e durante toda a sua carreira de cineasta dedicou-se a registrar a realidade de seu povo e de outros povos, seu primeiro documentário foi no nordeste brasileiro - La terra quema - e o golpe militar o faz sair às pressas, em um presságio do que seriam seus dias, de coragem e aventura, mas, não a aventura parca, esta que deságua no nada, uma aventura sementeira, de grãos espalhados em México e sua pátria, e a América Latina, tantas horas vividas e filmadas, registradas, em sua vida que foi ceifada, como tantas. É necessário ver, e a incrível sacada dos realizadores do documentário, abrindo o filme com a palavra do colonizador espanhol, de como ainda é latente a dominação da América. É certo que o documentário foi exibido pelo Canal Futura. As grandes redes de TV jamais abririam ao povo um documentário que relatasse a visão de um homem que acreditava e lutava por um socialismo verdadeiro. Raymundo Glayzer foi sequestrado em 27 de maio de 1.976. O cinema argentino cumpre o papel da Arte. Que é extrair da realidade o belo, e tocar de forma humana, e por mais que isto seja difícil, é preciso admitir que qualquer filme argentino que narra os tristes dias dos que desapareceram nos anos obscuros é de uma verdade que arde e alcança dentro, traz sem enfeites os fatos, no Brasil, deixamos o cinema com uma certa impressão de ficção, e então, nunca viveremos em verdade a dor mais funda dos nossos desaparecidos, e Raymundo foi revivido, inteiro em um documentário forte.




"RAYMUNDO"

OBTUVO 15 PREMIOS INTERNACIONALES Y FUE SELECCIONADA OFICIALMENTE EN MAS DE 40 FESTIVALES DE TODO EL MUNDO.

Friday, July 06, 2007

RESSURREIÇÃO




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Cobri de cal as paredes interiores
Corpo e alma, ranhuras da parede rude
Vi na infância a cor que exala – pura –
Cômodos lavados e leveza de odores

Todos rostos - ali - viraram brancura apagada
Todos os rostos amados de uma vida
Branqueei as entranhas lavei de luz e calma

Expulso o velho para acolher o novo
Tecer dentro uma habitação bem leve
Pura como os regatos da Bíblia de um antigo povo
Como a pomba da paz que se confunde com a neve

Cobri de cal o negro, sepultei ossos, curei a ferida
A maldade retinta, as palavras inventadas,
As mentiras traduzidas com charme

Cubro de cal as paredes interiores, até às veias
Na luz límpida, espero quem não me faça sombra
O ombro, o gozo, a dança, o grito, as aleluias
Já o vejo dançar nu, como um deus, na alfombra

Pintei de cal a parede da alma
Para que o amado não encontre vestígio dos mortos
Para que o amado ressuscite, branco, em minha cama
BÁRBARA LIA

Thursday, July 05, 2007

Drão





“Grão, o amor da gente é como um grão”
Gilberto Gil


grão
grão
grão
a cantar
as horas


gota
gota
gota
a cantar
a chuva


folha
folha
folha
a cantar
o outono

bem-te-vi
bem-te-vi
bem-te-vi
a cantar
novo dia


lâmina
lâmina
lâmina
a cantar
o amor.

(Amar é ferir-se
em
lâminas
sollasidoremifa)

Bárbara Lia
- A última chuva -
(ME - ed. alternativas, 2.007)
-Esta poesia foi publicada na edição de julho do site - Conexão Maringá.
(link ao lado)

Tuesday, July 03, 2007

Eugenio Montale - Non chiederci la parola

Não nos peças a palavra que acerte cada lado
de nosso ânimo informe, e com letras de fogo
o aclare e resplandeça como açaflor
perdido em meio de poeirento prado.

Ah o homem que lá se vai seguro,
dos outros e de si próprio amigo,
e sua sombra descura que a canícula
estampa num escalavrado muro!

Não nos peças a fórmula que te possa abrir mundos,
e sim alguma sílaba torcida e seca como um ramo.
Hoje apenas podemos dizer-te
o que não somos, o que não queremos.

Tradução: Renato Xavier

CIAO, AMORE CIAO







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Luigi Tenco.

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La solita strada
bianca come il sale,
il grano da crescere
i campi da arare.
Guardare ogni giorno
se piove o c'e' il sole,
per saper se domani
si vive o si muore.
E un bel giorno dire
basta ... e andare via.

Ciao amore, ciao amore,
ciao amore ciao.
Ciao amore, ciao amore,
ciao amore ciao.

Andare via, lontano
cercare un altro mondo,
dire addio al cortile
andarsene sognando.

E poi mille strade
grigie come il fumo,
in un mondo di luci
sentirsi nessuno.
Saltare cent'anni
in un giorno solo,
dai carri nei campi
agli aerei nel cielo.
E non capirci niente
e aver voglia di tornare da te.

Ciao amore, ciao amore,
ciao amore ciao.
Ciao amore, ciao amore,
ciao amore ciao.

Non saper fare niente
in un mondo che sa tutto,
e non avere un soldo
nemmeno per tornare.

Ciao amore, ciao amore,
ciao amore ciao.
Ciao amore, ciao amore,
ciao amore ciao.
Luigi Tenco



A sólita estrada
branca como o sal,
o grão para crescer
os campos para arar.
Olhar cada dia
se chove ou faz sol,
para saber se amanhã
se vive ou se morre.
E um belo dia dizer
basta ... e ir embora.

Tchau amor, tchau amor,
tchau amor tchau.
Tchau amor, tchau amor,
tchau amor tchau.

Ir embora, longe
buscar um outro mundo,
dizer adeus ao pátios
e ir sonhando.

E após mil estradas
cinzentas como a fumaça,
num mundo de luzes
sentir-se ninguém.
Saltar cem anos
num só dia,
dos carros nos campos
aos aviões no céu.
E não entender nada
e ter vontade de voltar para ti.

Tchau amor, tchau amor,
tchau amor tchau.
Tchau amor, tchau amor,
tchau amor tchau.

Não saber fazer nada
num mundo que sabe tudo,
e não ter um dinheiro
nem mesmo para voltar.

Tchau amor, tchau amor,
tchau amor tchau.
Tchau amor, tchau amor,
tchau amor tchau.
***

"Esta bela musica, apresentada por Luigi Tenco ao Festival de Sanremo de 1967, foi a causa do seu trágico fim. De fato a musica classificou-se ao décimo segundo lugar e também na sucessiva repescagem lhe foi preferida a musica "Rivoluzione" de Gianni Pettenati. Tenco, arrasado, fechou-se no seu quarto do Hotel Savoy, onde foi encontrado morto com um furo de projétil na cabeça. Foi também encontrado um bilhete escrito de próprio punho que continha a seguinte mensagem: "Eu amei o publico italiano a quem dediquei inutilmente cinco anos da minha vida. Faço isto não por estar cansado de viver (pelo contrário) mas como gesto de protesto contra um publico que manda "Io tu e le rose" para a final e uma comissão julgadora que seleciona "La rivoluzione". Espero que sirva a esclarecer as idéias de alguém. Tchau. Luigi"."






* Quando Luigi Tenco morreu meus irmãos disseram que quem gravava a música Ciao amore, ciao também morria como ele morreu. Recentemente vasculhei sua biografia e descobri que, na verdade, a sua amante na época a cantora Dalida é que tinha um histórico um tanto tétrico - todos os homens que ele amou se mataram. Assim também, Luigi. O que eu não sabia quando era menina e ouvia suas canções é que ele era tão belo. A voz forte e potente era tudo o que sabia, a era do rádio me fazia associar Luigi a um homem velho, e no entanto, ele morreu com 28 anos, um rosto belo italiano e uma história muito estranha...
....
ah! e a letra da canção é pura poesia.

Sunday, July 01, 2007

BAILADO NOTURNO



Ninfetas nuas nas ruas
Trazendo grandes sonhos
de adolescência prematura
Ah, criatura
o que seria de mim sem teus acordes de piano?
Prossigo acreditando promessa
do teu retorno sem pressa, sem medo
Das catedrais do mundo
minhas juras profundas
redundam em devaneios anárquicos
Vira-latas se equilibram
no meio-fio da inconstância urbana
Luzes refletem nossas cabeças
de encantamentos por Alices e marcianos
Procuro teu amor nas drograrias
E até no resto do meu bom senso
que ficou naquela taça
durante a noite...

(everton bortotti & reinaldo henrique
– Fevereiro/1992)