Thursday, April 30, 2009

estante #17


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METAFÍSICA DOS COIOTES I
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Rasgo o trago do imprevisto
que distrai o tempo que passa rápido.
Canto o cântico dos malditos que me cai.
Tudo vaza, tudo explode.
A noite é lenta quando lírios conspiram
contra a sorte perdida.
Lâminas que a incerteza jura fatiar para a salada
de nepotismo barato e regular da gargalhada da
noite.
Bebo as estrelas virgens,
como os meteoros platônicos,
latindo, uivando pra lua prostituta
que cavalga numa nuvem
o sexo dos anjos devassos.
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...
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violetas desaguadas na calçada
pálpebras da cinza do dia
reflexo do choro na aurora de Maiakóvski
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poesias do livro SONNEN
Edições Jar - Araxá-MG, 2008
CÁSSIO AMARAL
-

Era uma vez um outono...



Beatriz na Torre e Epitáfio - duas poesias na edição de Maio:

Coletânea Artesanal
Ano III - XXIII Edição
Ano 2009

Wednesday, April 29, 2009

Alejandra Pizarnik





"La vida perdida para la literatura por causa de la literatura. Por hacer de mí misma un personaje literario en la vida real fracaso en mi intento de hacer literatura con mi vida real, ya que la última no existe: es literatura."


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No querer blancos rodando
en planta movible.
No querer voces robando
semillosas arqueada aéreas.
No querer vivir mil oxígenos
nimias cruzadas al cielo.
No querer trasladar mi curvas
in encerar la hoja actual.
No querer vencer al imán
al final la alpargata se deshilacha.
No querer tocar abstractos
llegar a mi último pelo marrón.
No querer vencer colas blandas
los árboles sitúan las hojas.
No querer traer sin caos



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Alejandra Pizarnik (Buenos Aires, 29 de Abril de 1936 - 25 de Setembro de 1972) foi uma escritora e poeta argentina.
Estudou filosofia e letras na Universidade de Buenos Aires e posteriormente pintura con Juan Batlle Planas.
Alejandra Pizarnik publicou
La última inocencia (1956),
Las aventuras perdidas (1958),
Árbol de Diana (1962),
Los trabajos y las noches (1965),
Extracción de la piedra de locura (1968)
El infierno musical (1971), postumamente foi publicado Textos de Sombra y últimos poemas que reune textos publicados em revistas desde 1963 e poemas do final de sua vida, inéditos até então.
Alguns de seus artigos (ensaios poéticos) foram dedicados a
Erszebét Bathory ou Elizabeth Bathory como em La Condesa Sangrienta (1967), à obra de Julio Cortázar, Silvina Ocampo, André Breton e Antonin Artaud.


fonte- wikipédia


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Admiro a poesia de Alejandra Pizarnik, como Sylvia Plath encurtou seus dias. Produziu em pouco tempo uma obra potente. Alejandra nasceu em um 29 de abril. Um dia li a palavra alpargata em sua poesia e pensei em pés que calçam alpargatas pelas trilhas e emprestei a palavra para uma poesia...

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"No querer vencer al imán
al final la alpargata se deshilacha"

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Alejandra escreveu no ano em que nasci
a palavra que eu queria em um poema
pois nos olhos dele
vejo alpargatas cortando trilhas
Lampião amando Maria Bonita
na tenda.
Eu pensava em uma poesia
que calçasse os pés dele nas trilhas
estas que desconheço
como desconheço sua Maria
seu rio secreto
sua estrela.
BÁRBARA LIA
* versos da poeta argentina Alejandra Pizarnik

Sunday, April 26, 2009

estante #16

DUAS POESIAS - MÁRCIO CLAUDINO:
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O segredo do silêncio
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"Jogavam-se nas tumbas sementes de painço e papoula
para nutrir os mortos que chegavam voando -- pássaros".
(Czeslaw Milosz)
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Não pises assim a minha relva.
Não a manches com os cabelos
nem sais amargos dos teus olhos.
Só pés de brisa enluarada
poderiam supor pisá-la.
Seja leve, delicado
e até breve.
Não ores, não estou ali.
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Alguém tocou o sepulcro e lhe deu este nome:
Canteiro.
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Alguém tocou o meu corpo e lhe deu outro nome:
Semente.
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Plantado à cabeceira do canteiro com cruzes,
sou árvore.
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Árvore!
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Depois,
pássaros me disseram que serei pássaro.
Depois vento, depois nuvem
então anjo, o teu arcanjo.
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(Arcanjo,
te abençoarei
sim,
saberei quase todos os segredos)
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***
Do Amor e Outros Objetos Cortantes
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1.
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Eles se esquecem em divãs solitários
depois de beberem água-tofana
ventanias, temporais , absinto.
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Atormentam-se com palavras,
queixas e olhares
e seus corações urdidos em noite tênebra
estremecem pelo avesso.
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Perdem a chance
de serem felizes
porque carregam
nos ombros
pianos de chopin,
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cáctus de culpas infalíveis,
almofadas intoleráveis de vaidades,
nuvens de audácia malsã.
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2.
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Deitados em divãs
inclinam-se para o poço
escutam a música de Hades e Eros
atônitos e imóveis.
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Desfilam nus
pelo apartamento,
deixam copos pela metade,
cancro mortos nos cinzeiros,
roupas pelos cantos
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(acordam multidão de solidões
pesam numes a troco de pesadelos).
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E um dia
irão embora sem cumprimentar-se
como se nada houvesse acontecido.
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MÁRCIO DAVIE CLAUDINO
O SÁTIRO SE RETIROU PARA UM CANTO ESCURO E CHOROU

Saturday, April 25, 2009

Abril

Abril.
25 de abril, aniversário da Revolução dos Cravos.
Uma linda poesia toda Abril de Manuel Alegre:
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Abril de Abril
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Era um Abril de amigo Abril de trigo
Abril de trevo e trégua e vinho e húmus
Abril de novos ritmos novos rumos.

Era um Abril comigo Abril contigo
ainda só ardor e sem ardil
Abril sem adjectivo Abril de Abril.

Era um Abril na praça Abril de massa
sera um Abril na rua Abril a rodos
Abril de sol que nasce para todos.

Abril de vinho e sonho em nossas taças
era um Abril de clava Abril em acto
em mil novecentos e setenta e quatro.

Era um Abril viril Abril tão bravo
Abril de boca a abrir-se Abril palavra
esse Abril em que Abril se libertava.

Era um Abril de clava Abril de cravo
Abril de mão na mão e sem fantasmas

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1. O enterro dos mortos
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Abril é o mais cruel dos meses, germina
Lilases da terra morta, mistura
Memória e desejo, aviva
Agônicas raízes com a chuva da primavera.
O inverno nos agasalhava, envolvendo
A terra em neve deslembrada, nutrindo
Com secos tubérculos o que ainda restava de vida.
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...
início da poesia A Terra Desolada de T. S. Eliot, em tradução de
Ivan Junqueira, fragmento no link abaixo:

http://hps.infolink.com.br/peco/libraria/l000102d.htm

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Quando eu nasci, raiava
O claro mês das garças forasteiras:
Abril, sorrindo em flor pelos outeiros,
Nadando em luz na oscilação das ondas
- fragmento - Poemas ao Mar - Vicente de Carvalho

...esta poesia evoca a voz do meu pai e uma luz brilhava em algum lugar quando ele dizia - abril sorrindo em flor pelos outeiros...

http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/sao_paulo/vicente_de_carvalho.html

Thursday, April 23, 2009

CLOUD COLD


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Ardor louco em mim aguerrido
E o pranto triste derramado
Nosso incêndio alastrado
Em rio de abandono convertido

Busquei-te nas auroras escondido
Todos os nós do meu peito desatado
Deste amor que me manteve aprisionado
No gelo – da ausência – derretido

Se me abraçasses longamente
Em silêncio esquecesses a porfia
Preferistes ser prudente

Amor negado se transforma em tirania
Como quando o sol em manhã ardente
Permitiu que lhe nublasse a nuvem fria

Bárbara Lia
2002/
- Para lembrar o dia de Shakespeare uma poesia trágica e antiga - 23 de abril - dia de nascimento e morte de Shakespeare - como um ciclo perfeito a vida do dramaturgo, que por duas vezes escapou da peste negra... nada ao acaso, estas vidas poupadas no berço são sempre as que erguem as catedrais magníficas, impressionou saber que ele foi o único bebê a ficar livre da peste quando nasceu, nenhum sobreviveu ao redor, e ele ficou livre para escrever suas peças e poemas e seguir em caravanas pela Inglaterra - o Teatro - sua marca em eternidade: Ser ou não ser.

Wednesday, April 22, 2009

Dia Internacional do Livro

Depoimento de Escritores sobre o Dia Internacional do Livro:

Nicolas Behr
Bárbara Lia
Luiz Antônio de Assis Brasil
Leonardo Brasiliense
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No Programa Conexão Regional
Rádio Santa Cruz AM 550
Santa Cruz do Sul, RS
http://www.radiosantacruz.com.br/
Dia 23/04 - de 08h - 10h
Gracias ao Cláudio B. Carlos pelo convite!

Thursday, April 16, 2009

Uma imagem para Lia #9

Loraine Thais -minha amiga poeta - por sua mãe Mary Elita
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LAYLA
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calçadas molhadas
- uma lâmpada grávida
estremecida de sol
pequeno -
a lembrar
que ainda é verde o trigo
florirá
amanhã
em sol granulado,
farpas de doçura,
sempre.
Bárbara Lia
- in A última chuva

Saturday, April 11, 2009

estante # 15 e um poema para joão filho e állex lélia

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Deus é a chuva.
Só seu abraço líquido
me faz leve.
-Uma tarde na volta do colégio
o vendaval molhou cada poro meu,
encharcada de Deus entrei na panificadora
e era só alma
- o pão pesava mais que eu-
Sei que Deus é a chuva
quando o mais belo som
é Ele abraçando a grama.
É um diálogo de amantes
como se os pingos em som de prazer
se unissem às pétalas rudes
pequeninas verdes,
e o som rascante do gozo fatal
se ampliasse, sem ferir.
É calmo o som do amor
-chuva na grama -
do livro - A última chuva.


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- o novo layout do blog sugere que nesta coluna de postagens diárias eu não coloque mais imagens para não poluir o visual. Em 2005 quando decidi criar um blog acreditando que ia ser a maior pedreira publicar um livro, quando decidi que era um espaço-vitrine para colocar meus poemas, não sabia que ia ficar assim - abduzida pelo azul - fiquei. Vez por outra eu penso em parar para utilizar melhor a água rara - o tempo - e terminar aqueles romances que escrevo. Quando vejo estou de volta ao chá para as borboletas, que eu mudei para -chapar as borboletas - o márcio claudino, meu irmão de caminho, foi quem primeiro disse que era mais bonito assim. Outro dia a maria de lourdes jaude me procurou pois alguém leu um verso dela aqui na - chapada das borboletas - bem... a verdade é que estou guardando poesias para um livro novo e não posso publicar aqui o título nem resumo e nem mesmo a ideia dos novos livros - nem mesmo nada dos romances que vou mandar para estes poucos concursos e ficar mais um ano na espera... Escrever é isto.
Esta poesia eu fui buscar lá no livro - A última chuva. Dedico ao João Filho e Állex Lélia. Segundo eles a que eles mais gostaram deste livro.
Encarniçado é o meu livro raro ali na estante. O livro que colocou João Filho na mira dos olhares. Gosto MUITO da poesia do João Filho. Não há como acompanhar toda a produção nacional, mas, é certo que fatalmente paro tudo para ler as poesias do João. Quando abriu um edital do Itaú Cultural, há uns dois anos, até tentei preencher um projeto para uma bolsa de escritor e fui atrás do livro - Encarniçado - que eu sabia esgotado. Encontrei em um sebo e comprei e fui agregando outros livros com a idéia de traçar um paralelo entre jovens escritores e - Grande Sertão: Veredas - a influência de Guimarães Rosa na escrita destes moços. Bernardo Brayner estava no meu roteiro com seu livro - Exercícios de Morrer. Marcelino Freire e minha pequena seleção de jovens escritores ficou suspensa. Depois, João Filho confessou-me que sua escrita era mais próxima de Graciliano Ramos. Projetos totalmente descartados da minha agenda, este e outros. Vou escrever aquilo que verte assim, sem regras ou regulamentos. Um tempo eu ficava escrevendo para caber nas 130 páginas do Sesc Literatura, no espaço simples ou duplo, ou coisa que o valha... Agora eu primeiro concluo o livro para depois ver se ele cabe em algum regulamento... Sem pressa vou arquivando tudo no baú do futuro - difere muito do baú antigo de Emily Dickinson - Meu baú é um pen drive. Tudo na mínima arca. Olho para meus filhos e digo - se eu morrer meus arquivos estão aqui - morta de dor já em perceber o que um escritor é capaz de fazer para tentar manter o registro de sua alma. Sentindo-me uma canalha em ver dor no olhar de filho... Mas, a quem mais confiar estes escritos todos que jorram e me perco entre o labirinto deste infinito debulhado?... Tudo isto é para dizer que o item 15 da minha estante é o precioso livro - Encarniçado - do João Filho. E que não tenho publicado muita poesia pois estou selecionando inéditos para um novo livro. Breve farei o - Inventário da Biblioteca Invisível: Meus livros inéditos. .
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p. 29 - Encarniçado - João Filho. Ed. Baleia, 2.004:
Nenê
parideira. pariu duas vezes no ano. todo sábado esmolava seu café em pó no balcão da Venda. por que tinha certo ranço com ela? não manjas, mas sempre dava o café. dadeira. a prole a tiracolo, encurvada numa ossatura, fina-de-fome. piva dum macho por vezes. não-nascida na Maloca, veio de fora. tive ganas de chutá-la com meu rancinho-burgo de quinta. nunca o fiz, não por piedoso, invalia.
(...)
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blog do João Filho

Wednesday, April 08, 2009

Cem primaveras de Bandini

(...)

e eu observava Camilla dançando com a bandeja. Seus cabelos eram tão negros, tão profundos e cacheados, como uvas escondendo seu pescoço. Era um local sagrado, este bar. Tudo aqui era santificado, as cadeiras, as mesas, aquele trapo em sua mão, aquela serragem sob seus pés. Era uma princesa maia e este era o seu castelo. Observei os huaraches maltrapilhos deslizarem no chão, e eu queria aqueles huaraches.

Gostaria de segurá-los contra o peito quando adormecesse. Gostaria de segurá-los e respirar seu odor.

Página 42

Pergunte ao Pó – John Fante

Tradução: Roberto Muggiati

Editora José Olympio Ltda


Pergunte ao Pó sacudiu-me inteira. O Mojave a garota e o cão. A cena onde Camilla ri das poesias de Bandini enquanto ele espia pela janela do café. Aquelas sandálias rotas - huaraches - o ponto frágil, altar puído que faz a deusa maia descer do pedestal. Fetiche para os dias meus aquelas sandálias.
Do que vivi eu sei da doçura de Fante - o mel ardente de sua alma italiana. Como li em uma matéria do tradutor do livro - Roberto Muggiati - para a Gazeta do Povo. O depoimento de Joyce, a esposa de Fante:
"Havia algo em John. Não conseguia sentir raiva dele. Quando olhava no seu rosto, eu me derretia.”
http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/cadernog/conteudo.phtml?tl=1&id=874146&tit=O-escritor-que-saiu-do-po

...
08 de abril, cem anos do nascimento de John Fante. Um dos escritores da mínima galeria dos meus ícones. Um dos que me levou a caminhar por Bunker Hill e me atirou em uma viagem sem volta pelo deserto, um cão e a eternidade pela frente.
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Deixa-me calçar-te
como se fosses

as rotas sandálias

de la niña de Fante


(para nunca mais sonhar

que ando descalça

nas noites)
(...)

Andar descalça nas noites... A imagem do encontro de Bandini e Camilla invade-me vez por outra como tempestade de areia... O real fatigado e suado e dopado mareado e colado a mim como fiapo de felicidade que a gente carrega, o amor ânsia divina. Vejo Bandini fugir pela janela. Vejo-o amar a garota e amparar a garota e curar seu corpo e alma enamorado de outrem e andar com um exemplar de uma única revista onde o DNA da alma transita e se fixa em eternidade na ficção, na realidade. A realidade nua despida das cartilhas do comportamento ilhada em cafés cabanas praias e desertos é o que nos eleva do pó, pergunte ao pó... Cem primaveras de Bandini à nossa espera.
John Fante
(1909-1983)

Sunday, April 05, 2009

Luis Serguilha por Jairo Pereira


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UMA POÉTICA QUE PROVA O SIGNO A FRENTE DO PENSAMENTO



O arquétipo do poeta pra mim, era e ainda é, a figura de um velho cego falando sem parar sobre o topo de uma montanha. Arauto ou rapsodo!? As palavras correndo na frente do pensamento e tudo num enliado que o próprio discurso vai enliando, tecendo, como uma imensa rede de ditos. Inteligível ou não, de todo o conteúdo lançado ao espaço, parte seria apreendida e muito bem aproveitada. Imagens. Imagens. Sons. Significados… O discurso se impondo, sem preocupação de clarear caminhos, mas apenas por necessidade de existir. Depois de vinte anos, enliado na poesia e seu fazer, me aparece a figura arquetípica de meus sonhos de poeta. O nome: Luís Serguilha, português de Vila Nova do Famalicão. Sua poesia vem em borbotões, tomando tudo, cobrindo de palavras as paisagens internas e externas. Lembra Omeros de Derek Walcott, só que mais mundo interior que exterior. Profundo na pegada. Pancognocedor, a tudo investiga e põe a nu, poeticamente. Uma viagem fecunda, navegar nesse imenso rio de palavras. Rio ou oceano, onde os signos proliferam verdades transfinitas. Interessa além da poesia que se possa analisar, o ser-poeta, Luís Serguilha. Pesquisador incansável de poéticas novas. Amigo íntimo da poesia brasileira contemporânea e seus poetas, com quem vive profícuo diálogo. Uma crítica que se faz além da palavra escrita, além do que no livro é substância e significação, deve realmente centrar-se também no emissor dos signos. O gestor da megapoética, é relativamente jovem, quase sério, no orgulho de poeta que todo português tem, mas amigo e humilde como os grandes de espíritho. Seus livros “A Singradura do Capinador”, “Embarcações”, “Lorosa’e Boca de Sândalo”, “O Externo Tatuado da Visão” e “Hangares do Vendaval”, dão bem a mostra dessa poética livre, auto-criativa, que se expande em signos fortes, instituindo espaços novos. Uma lira prenhe de imagens, metáforas, prolíferas verdades. Mergulhar no oceano poético de Luís Serguilha é conhecer as mônadas originais do dizer, que não se traem, sim espelham as projeções, conquistas do poeta, nos desafios do fazer. Poeta contemporâneo na plena acepção da palavra, Luís Serguilha, quebra o cânone. Inaugura o discurso paradoxal, em espirais ao sabor do espíritho que conhece e tanto mais quer descobrir, conhecer. Há ânsia de procura nas palavras. Ânsia de descobrimento nas imagens atiradas como formigas pra fora do formigueiro. Imagino um poeta brasileiro, com essa fúria do poético, essa avidez de transformar o mundo em palavras, carnavalizar o criado na segunda nathureza, que é a nathureza plena do engendrador, filho do Senhor. O artista que delibera, projeta, constrói e realiza, com os instrumentos possíveis (a sua linguagem) a obra humana. Contraditória, polêmica, essa poética do excesso do “verbo belo” em nosso tempo. Mas cuidado, crianças. Cuidado meninos, versejadores “cocô de cabrito”. No princípio era o caos, a fúria das linguagens. Os precipícios do sem-razão. As falésias de significação. Os turbilhões magmáticos do dizer sem precedentes. Uma poética vulcânica, que ainda ninguém conseguiu destrinchar, decodificar, não pode ser tachada, alinhada, selada na vida de seu tempo. Luís Serguilha, pelo que se vê, está mais preocupado em expor os seus mundos do poético, como lhe vem assim, em borbotões. O panconhecimento de tudo, instituindo o particular. A poesia franca, resultante da abertura de canais com o desconhecido. Infovia da percepção livre. A crítica reducionista, é capaz até de matar o poeta. Matar o verbo em ser. Atirar no passado o que se instituiu com rigor e originalidade. Acredito no sensível, que antecipa os tempos. Acredito nas palavras obrando mundos novos no por aí. Sim, as linguagens tem esse dom, de inovar, inaugurar espaços, em sua nathureza de ser-dinâmico. O poeta Luís Serguilha, como dominador majoritário dos signos de sua criação, finje-se de morto quando convém, e deixa fluir a vida-palavra pro onde quiser. Nesse ato de liberação do discurso, atinge-se o êxtase da criação livre de autor, e muitas inaugurações imagéticas ocorrem. O Luís Serguilha sabe disso e deixa-se estar no processo para o bem da poesia portuguesa contemporânea e universal. Essa action poetic particular de Luís Serguilha, traz Homero na raiz ou confunde-se com a imagem de minhas visões do rapsodo no pico da montanha. Transcendem as sentenças, história e verdades. Estamos aquém do início (nascimento) e além da morte, no transfim a esmo. Inserir-se numa poética que desrespeita o cânone, atropela o próprio contemporâneo quando homeriza o discurso, é perder-se e reencontrar-se na vida e no pensamento. Atirar-se nos redemoinhos dos ditos, pra ver o que se pode haurir dali, dos dínamos ou detratores de significação. Uma aventura (existencial de criação) que assusta pelo megaempreendimento, só pode ser louvada e Luís Serguilha merece atenção. Sua obra constituída pelos muitos livros, dispensa peroração de dúvida de valor. A cobra está morta e o pau repica no chão da lira enthusiasmada. Poucos poetas conhecem como o autor de “A Singradura do Capinador” a poesia que se pratica hoje no mundo. Pode se inferir de tudo que primeiro é um conhecer que se habilita no processo. Depois é o criador, ou ambos juntos, haurindo a poesia que é espelho da alma expansiva do poeta, num arrastão de redes (malhas finas) em mundo interior e exterior. “onde uma categoria de turbilhões procura a eternidade do pântano na ingenuidade da atmosfera/onde o fôlego repercute os mausoléus das enxurradas/o esforço do fogo volátil ordena a indolência calamitosa das árvores”. De “A Singradura do Capinador”, Canto XIII, pg. 59. Vivemos os tempos do pensamento dispersivo. A velocidade das imagens na Net, conspurcando o intelecto. Poetas em sua sina de criadores, obram na palavra a vida. A recusa é regra e injustificada. Poesia não tem editor, preço ou público. Sobrevive dos próprios poetas que se lêem, interpretam e divulgam. O caos e o poético se confundem. Ambos refletem a dinâmica dos mundos em se criando. A missão ou não-missão, sina de poeta, afeita a Luís Serguilha é de enfrentamento de realidades, sentidos. Coragem não lhe falta. Domínio e técnica das linguagens, também não. “Um rio aceso de tigres infinitos é habitado/pelos noivados exaltados dos lenhadores/que enlaçam os escombros das rédeas/solares nas fracções persistentes das clepsidras/trabalhadas desamparadamente/pelos grânulos misteriosos”. HANGAR 15, pg. 131 de “Hangares do Vendaval”. O poeta trabalha com estado de ser e anunciação. Na supermônada pulsante da vida, os signos detentores do conhecimento em alarde. Há uma matriz forte, aparentemente estática, mas ao contrário em plena potência. Dessa matriz invisível, é que o poeta tira a substância preciosa do seu dizer. “As épocas diluídas sobre as entranhas hipnóticas da noite são loucamente/arrastadas pelos acenos unânimes dos pássaros curvilíneos/e os olhos desinvestidos apuram as comunidades dos voos”. De “O Externo Tatuado da Visão”, I, pg. 15. A obra de Luís Serguilha, desafiará críticos e exegetas no tempo e no espaço. Não é um todo que se apreende de primeira, facilmente, como uma poesia de cotidiano, urbana ou rural. Os veios criativos que sustentam essa poética complexa exigem ampla e demorada análise. Complexo no complexo. Os complexos do alto espíritho tomam conta da poesia de Luís Serguilha, prestidigitando o conhecimento, num desafio de especulação ao leitor. Quantos se habilitam a emparceirar os grãos?! Em jAiRo e poeta mezzocrítico de província, não faço mais que cogitar sobre, longe de identificar em detalhes a máquina mantenedora do signos. A poesia brasileira, portuguesa e universal precisa disso, do que não se dá de cara expedito, claro, objetivo. Complexo e poético se confundem. Teias, veios, redes, enliados no próprio enliado. Quem quiser ler calendários, livros de auto-ajuda e manuais de bom comportamento que passe ao largo da obra de Luís Serguilha. “As cartas atléticas das naus elevam-se no nervosismo dos/clarões mastreando o mais breve rito dos apegamentos selvagens/e os andaimes concêntricos do horizonte os arsenais ilegíveis dos pássaros”. De “Embarcações” pg. 151. O poeta é o navegador arbitrário. O navegador das palavras instituidoras do real poético. Tudo tem a ver com o poeta. As imagens de mundos seus, conhecidos na ponta da pena que lavra, e nos experimentos do viver. Arbitrária a navegação se faz quando se colocam antíteses num mesmo barco/valise de significação, e o poeta compõe o que parece impossível. “É no mênstruo dos veios taciturnos/nas pranchas das metrópoles/reaparecidas/que uma sutura da loucura escuta a âncora desenvolvida pelos pianos/fátuos”. In “Lorosa’e – Boca de Sândalo”. A poesia busca o seu lugar, antilugar no mundo. O poeta Luís Serguilha, dá o exemplo de imensos desafios cumpridos. Prova também que a poesia pode mais que a filosofia na inauguração dos novos espaços, sagrações. A poesia contemporânea praticada hoje, contempla acima de tudo o poeta como criador, e não há arte no seu complexo signo-simbólico a exigir mais de autoria. Salve Luís Serguilha na sua coragem, de transformar em arte e sagrado, o produto do ver, sentir, e que a realidade comete o prodígio do desaparecimento.


jAiRo pErEiRa
Autor de O abduzido, Espirithopéia
e outros.



Texto publicado em 02.04.09 no site:
http://palavrastodaspalavras.wordpress.com/

Saturday, April 04, 2009

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jardim de rosas falsas
em valsa
céu azul Magritte

(pano de fundo
para esta dor
azeviche)


Bárbara Lia

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Magritte

Friday, April 03, 2009

estante #14




O céu de Lisboa

(Lisbon Story, Win Wenders, Ger/Por. 1994).



É sobre sons - e sobre o silêncio. Nova, sincera e bonita declaração de Wenders ao cinema e à cidade pela qual se enamorou. Ao contar a estória de um técnico (Rudigler Volgler) que caminha por Lisboa gravando material para um documentário, ele registrou o imaginário, a nostalgia, o fado mítico que permeia o inconsciente da capital. Acrescentando a isso elementos de suas próprias obsessões - passado, fuga, busca, o retorno, a poesia do silêncio - fez um filme triste, saudoso. É como um nostálgico, ou criança, veria Lisboa (e o cinema) Fundindo Fernando Pessoa com Buster Keaton em The Cameraman, jogou-os dentro de uma LIsboa ingênua, perdida no tempo, de delicadas imagens e pequenos sons. Com vários poemas de Pessoa lidos em inglês e alemão e o diretor português Manoel de Oliveira dando um texto. Um sósia do próprio Pessoa é visto de relance, no fim, na sequência que homenageia Keaton, quanto todos quase são atropelados não por um trem, mas por um elétrico. Madredeus criou a trilha. A solista Teresa Salgueiro - sempre de passagem, bela e triste como uma canção de Amália Rodrigues - aparece em alguns diálogos; está arrasadoramente melancólica (há séculos de solidão e misterioso silêncio em seu rosto quando ela explica a alguém que está indo viajar de novo). Liza Rinzler fotografou, Peter Przygodda e Anne Schnee montaram. Produzido por Wener e Paulo Branco, pela Road Movies.
p. 376
Descríticas
- 316 filmes -
Almir Feijó
Criar Edições
2ª edição (revisada) 2004

- Guardo com carinho este presente do Almir Feijó - Sua crítica sincera,corrosiva e inteligente de 316 filmes. Uma obra de Arte.

Wednesday, April 01, 2009

Izabel Liviski - texto sobre Solidão Calcinada

- Fragmentos de um texto acadêmico escrito por Izabel Liviski para:

Estudos Avançados - II - História (Gêneros da escrita: literatura, história e a teoria feminista sobre a escrita de mulheres) Ministrado pela Profa. Dra. Ana Paula Vosne Martins. Depto de Pós em História - UFPR
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I. Introdução: Introduzindo a autora

Este trabalho se propõe a fazer uma análise da obra literária da escritora paranaense Bárbara Lia – mais especificamente sobre o romance “Solidão Calcinada”, de 2007 - tomando como base os subsídios teóricos contidos na bibliografia estudada ao longo do curso Escrita de Mulheres, bem como as discussões travadas durante as aulas, que nos guiaram pelo universo de escritoras que foram do século XVI - precursoras como Tullia d’Aragona (1508-1556) - ao início do século XX, com a inovadora Virginia Woolf (1882-1941).
(...)

O objetivo principal é o de conhecer e destacar uma escritora ainda não consagrada pelos cânones literários, que continua ainda nos termos como colocou Elaine Showalter, em “território selvagem”. Ou seja, pretendo valorizar “a prata da casa”, mesmo que com isso, tenha pela frente um trabalho mais árido, porque praticamente inédito. Pretendo como pressupostos, localizar o lugar de onde a escritora fala, seu contexto histórico, assim como identificar as implicações de gênero em sua escrita, de forma mais ampla dentro da perspectiva feminista, que é a de “dar voz e tornar visíveis as mulheres na História”.
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Uma pergunta surge, nesse momento do trabalho: existe uma subjetividade feminina? há uma maneira peculiar de sentir e de se expressar, própria da mulher? A essa questão, que não é possível responder, ao menos no âmbito deste trabalho, mas minimamente se fazer uma reflexão, deve-se tomar um primeiro cuidado para não partir de um pensamento determinista, já que o gênero é fundante na nossa maneira de pensar, e o mesmo deve ser tratado enquanto categoria de pensamento e vivência social. Para não se cair na armadilha de considerar a sensibilidade feminina como produto de uma essência, originária de uma idéia de naturalidade, fundada no fator biológico. Vários autores já tentaram desconstruir os fundamentos da biologia, da natureza como algo imutável, a idéia de que a biologia é que dá o destino à humanidade, considerando que a biologia também é histórica, é uma forma de construção do conhecimento. Em uma primeira visão de gênero e sexo, a cultura se constitui a partir da natureza, é o substrato do que a cultura vai significar. O pensamento oposto é a de que o gênero é que cria o sexo, e não vice-versa, já que o gênero é uma criação cultural e histórica.
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Toril Moi em seu livro O que é uma mulher ? aponta para o conceito de corpo vivido, substituindo o de gênero, que para ela não é mais útil para se teorizar subjetividade e identidade. Para ela, gênero foi um conceito apropriado em certa etapa histórica do projeto feminista, quando o desafio era se contrapor à convicção de que “biologia é destino”. Porém na atual etapa teórica, Moi propõe a troca de gênero por corpo vivido, um conceito oriundo da fenomenologia existencial e que é, segundo ela, mais rico e mais flexível para teorizar a experiência socialmente constituída de mulheres e homens do que os conceitos de sexo ou gênero. Seria uma forma de teorizar a subjetividade sexual sem cair no reducionismo biológico nem no essencialismo de gênero. (apud Young, 2003)

“O corpo vivido é uma idéia unificada de um corpo físico agindo e experienciando em um contexto sócio-cultural especifico; é um corpo-em-situação. Para a teria existencialista, situação denota a produção de facticidade e liberdade. As pessoas sempre enfrentam os fatos materiais que ocorrem em seu corpo e suas relações em um dado meio. Todas as relações materiais concretas da existência corporal de uma pessoa e de seu meio físico e social constituem sua facticidade. No entanto a pessoa é uma atora/ator; ela tem uma liberdade ontológica para construir-se em relação a essa facticidade. Portanto, afirmar que o corpo é uma situação, é reconhecer que o significado do corpo de uma mulher está preso à forma como ela usa sua liberdade.” (Young, 2003;pg.5)

Trata-se então de pensar as mulheres não como uma categoria à parte, como uma massa de oprimidos, mas como atores sociais que historicamente tiveram o uso e o acesso da palavra de modo diferenciado, porque em última instância, “gênero nada mais é do que atuação social.”
Como a trama do romance analisado é toda calcada em memórias, ou em diários escritos, recorri ao belo trabalho de Raquel Thomaz de Andrade (2007) como recurso explicativo para esse gênero de escrita, mesmo fazendo parte de uma ficção. Ela esclarece que a tradição memorialística brasileira se fortalece apenas no século XX, coincidente com o nascimento do chamado “Novo diário do século XX”, descendente direto do “livro do eu”. Esse termo foi usado pela escritora americana Tristine Rainer para definir as práticas diarísticas de escritoras como Virgina Woolf (1882-1941), Anäis Nin (1903-1977) e Sylvia Plath (1932-1963).

II. Sobre o romance propriamente dito (ou escrito)

Comecemos com a própria autora falando sobre o seu trabalho: questionada sobre a criação do romance, o que teria sido a inspiração para o tema central da narrativa, ela diz:
“...Quando comecei a escrever senti naturalidade e até uma necessidade de voltar ao tema – o golpe militar de 1.964 - Eu sentia necessidade de me penitenciar por, mesmo sendo criança, fazer um juízo errado daqueles rebeldes. Por isto a necessidade de focar os "terroristas" daquele tempo e mostrar que eram humanos, rebeldes com desejos justos em um país sufocado, na época em que os direitos foram anulados. Quando eu era criança as emissoras de rádio traduziam o pensamento do governo ditatorial e meu pai era ferrenho defensor dos militares. Este grande conflito que foi parte da minha vida – acreditar que aqueles rebeldes que queriam um país longe das amarras ditatoriais eram terroristas – este livro é uma espécie de redenção tardia.”
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Andrade (2007) nos leva à interessante percepção de que a escrita feminina no passado está muito associada à produção de diários íntimos para o registro de suas memórias, devido ao fato da mulher ser historicamente ligada à esfera privada e por poucas vezes ter tido direito a uma voz pública, o que na prática significava um “silenciamento”, um processo de obstaculização das mulheres à palavra falada ou escrita. O confinamento feminino está diretamente ligado portanto, com a escrita intima. Suas auto-representações estão descritos nesse gênero de escrita, secreto por definição, que funcionava como um refúgio do eu, escondido em uma gaveta ou armário, e no caso do romance em questão, em um recôndito baú.
Em um trecho do diário de sua bisavó Pietra datado de 1910, então com dezessete anos ela havia escrito:

“Circunlóquio do espanto, suspiros, leques aflitos, diademas arfantes em seios suspirantes. A beleza da voz dele – Boa noite! Entra na cena que meu pai narra. A voz dele, arquitectura sonora da beleza.
Recolho-me ao quarto e procuro, entre os pontos do bordado e as notas áridas do vizinho Cássius, uma explicação para este solar crepitar da alma” (pág.63)

A bisavó é descrita como a mítica Pietra, a ancestral mais ilustre, filha de desembargador, e a figura mais falada de toda a família. Era “aquela que sorria em um porta-retratos de louça branca enfeitado com borboletas lilases”.(pág.56). Pietra casou-se com um homem que havia perdido a mulher, que se suicidara no mar. Ele era bem mais velho, e devido à falência econômica acabou se consumindo na bebida, morrendo tísico e desgostoso. Pietra ficou viúva aos trinta anos com a filha Esperança para criar, e nunca mais encontrou outro amor. A idéia de que seu marido tinha voltado para os braços da ex-mulher na eternidade a fazia ferver de ciúme, e isso “transformou dia a dia; não apenas seu nome, mas também seu rosto, em pura pedra”. (pág.72)
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Refletindo sobre suas ancestrais, ela se sentia como a herdeira de historias de amor que terminaram em tragédia, participante de uma ciranda de mulheres com nomes que selavam seus destinos.
“Por isto Bárbara pensava que algo de desencanto brotara em alguma manhã no centro do universo. Não mais havia amores de morte e renúncia e de entrega tão lírica, como os de Pietra, Esperança e Serena. Talvez amar Gabriel desde menina não lhe dera esta chance de ter um tresloucado amor. Mas, no intimo, ela sabia que a desesperança era também a mãe de um novo tempo.” (pág.72)
Nos diários de sua mãe Serena, Bárbara vai encontrar os relatos de sua vivência entre 1968 e 1970, ano de sua morte. Serena era uma mulher típica de sua época: vestia-se como hippie, tinha intensa vida social e cultural, e participava dos movimentos políticos no período em que o Brasil vivia sob ferrenha ditadura militar. Bárbara a representa como um Quixote moderno, não uma Dulcinéia. Ela era o presságio daquilo que as mulheres se tornariam: as lutadoras do terceiro milênio, ela inaugurava um novo estilo assim como Cervantes havia feito no romance. Compara sua beleza não a uma Vênus de Milo e sim a uma Diana, caçadora e audaz.
Um poema escrito por Serena em seu diário, contextualiza a época em que viveu:
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“Além eram sonhos desenhados.
Saltando das paginas de enciclopédias, almanaques.
Eram mundos narrados.
Sons que emanavam da caixa envernizada.
Rádio. Era do rádio.
Era encantada.
Primeira sinfonia de amor.
Primeira vez que ouvi “A Banda”
Primeiro gol.
A voz sonora do repórter Esso.
A introdução dolorida
Da voz do Brasil – O guarani.
Amava o retumbar das noites enfurecidas.
Tempestades tropicais.”
(pág.45)
(...)


Andrade (2007) descreve o boom dos escritos memorialísticos nas décadas de 1970 e 1980, como um reflexo das lutas feministas, das mudanças sociais, no crescimento da classe média, e na chamada revolução sexual, repercutindo o interesse pelas vidas das mulheres nos estudos das ciências humanas em relação à questão de gênero. Aponta como uma das razões, a elevação da intimidade como parte do político, o caráter hedonista da sociedade da época, que buscava mergulhar em si para conhecer as próprias subjetividades. Era também uma oportunidade para as mulheres se despirem ao olhar público sem constrangimento.
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III. À guisa de Conclusão

A escrita de mulheres tem sido alvo de análises sob diversas perspectivas e olhares, praticamente sem algum consenso. É corrente, porém, que poetas mulheres trazem o corpo para a produção da escrita, em que traduzem seus sentimentos em metáforas corporais, que sua estrutura narrativa é diferenciada e que a experiência do corpo dá outra dimensão de ser no mundo, principalmente em função da maternidade.
Encontramos no texto de Nye (1988) referindo-se à autora Cixous que a saída para esses impasses teóricos, não estaria em artifícios do teatro, nem em brinquedo com categorias, mas em uma espécie diferente de experiência: do corpo e de outros corpos. Ela diz que a descoberta do feminino é uma descoberta do corpo feminino, e uma descoberta das relações do corpo com outros corpos: “deve-se escrever o corpo” recomendava Cixous, repetindo a advertência de Rosseau por uma linguagem sensual. Em O riso da Medusa ela diz:

Ao escrever o seu corpo, a mulher voltará ao corpo que lhe foi mais que confiscado, que foi convertido no misterioso estrangeiro em exibição – a figura atuante ou morta, que tão frequentemente vem a ser o detestável companheiro, a causa e motivo das inibições. (Apud Nye, pg.233)

Assim, a escrita intima privada foi um dos primeiros espaços onde a mulher também se pôde mostrar, inscrevendo o corpo, os desejos e as paixões – embora nem sempre tenham feito uso dos relatos íntimos para tais usos. Ainda assim, foi através da escrita que a mulher teve a oportunidade de se impor pela primeira vez. Com o poder da palavra, ela pode reconstruir sua própria imagem, antes tão ambígua, difusa em lendas e mitos das sociedades patriarcais milenares, e posteriormente, até em supostas “verdades” científicas. A escrita abriu possibilidades para que mulheres mostrassem uma imagem complexa, multifacetada, mas já não maniqueistamente ambígua como historicamente foi representada. (Andrade, 2007; pg.97). Hoje, ao contrário, os weblogs se constituem em um espaço ou suporte de escrita pessoal destinado a uma grande audiência, mas essa já é uma outra (longa) questão que não abordaremos nesse pequeno trabalho.
Voltando ao romance analisado e sua autora: questionada sobre o grau de envolvimento de sua vida pessoal com sua escrita, com a criação de seus personagens, Bárbara Lia responde:
“Sei agora que já escrevi alguns romances que dentro de cada um deles vai estar um momento verdadeiro de algum amor que vivenciei. Como um registro de uma passagem minha, uma participação especial, assim como Hitchcock fazia em seus filmes aparecendo em alguma cena. (...)
Não creio em psicografia, mas, existe um mistério na criação que torna difícil falar claramente sobre o surgimento de um personagem. Não é algo mental e nem matemático, nem burocrático. Acredito no Espírito da Arte. Este que se impõem e se abre para quem está disposto a ceder seu próprio espírito à fecundação. Por isto não posso descrever de forma objetiva e materializada como surgem os enredos e seus protagonistas. É uma fagulha, uma cena, uma frase, um momento. A partir dele e do fio puxado surge um enredo, pessoas, situações, que o autor constrói. Sigo validando o mistério da criação. (...)
Tenho certeza que emprestei minha vivência ao livro e explorei a solidão. A ciranda de mulheres solitárias da família Piccoli e Pablo Arrabal em sua solidão optada”.
Para concluir, emprestamos a frase que Virginia Woolf disse em/para Orlando, e que parece se aplicar também à nossa autora: “Pois, segundo parece – seu caso prova isso -, escrevemos não com os dedos, mas com a pessoa inteira. O nervo que controla a pena enrola-se em cada fibra do nosso ser, amarra o coração e trespassa o fígado.” (pág.176)
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IV. Referências Bibliográficas

Hollanda, Heloisa Buarque (coord.)- “Tendências e Impasses- O feminismo como crítica da cultura”.

Woolf, Virginia- “Orlando”, São Paulo, 1984

Lia, Bárbara- “Solidão Calcinada”, Curitiba , 2007.

Andrade, Raquel Thomaz- “Percursos de memórias femininas: uma análise da escrita íntima de mulheres no papel e no digital” - Fortaleza, 2007.

Young, Íris Marion- “Corpo Vivido vs. Gênero: Reflexões sobre Estrutura Social e Subjetividade”, 2003.

Cruz, Marcio Davie Claudino- “Duas Tendências da Novíssima Poesia Curitibana no Alvorecer do Século XXI”- Curitiba, 2008.

Nye, Andrea – “Teoria Feminista e as Filosofias do Homem”, Rio de Janeiro, 1988.
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Izabel Liviski é fotógrafa, mestre em Sociologia pela UFPR, seu e-mail: liviski@yahoo.com.br

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