Monday, December 29, 2008

o nove

gerânios - nancy caro
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Certa noite eu estava em uma platéia e ouvi Ana Miranda dizer que ficou nove anos mergulhada nos arquivos de bibliotecas pesquisando sobre Gregório de Matos. Ela encontrava as pessoas e elas perguntavam - o que você anda fazendo? indagavam do seu sumiço e ela dizia - estou escrevendo um livro. "Boca do inferno" é um dos melhores livros que li. Gosto deste caminho que Ana trilhou. Impossível um poeta não amar um livro sobre outro poeta. Ana Miranda repetiu a dose com Augusto dos Anjos e Gonçalves Dias. "A última quimera" e "Dias & dias". Ela consegue trazer para dentro do livro o clima, o ambiente pesado que cercava Augusto dos Anjos, a dor do amor de Gonçalves Dias - Enfim te vejo! — enfim posso, / Curvado a teus pés, dizer-te, / Que não cessei de querer-te, / Pesar de quanto sofri. - A cena surreal onde o outro poeta queima todos os seus escritos depois de ler os poemas de Augusto.

*

O nove chega e com ele a lembrança de Joaquim Nabuco. Um dia copiei esta carta de Nabuco onde ele diz do nove - O último ano de sua vida, o ano que ele percorreu inteiro foi 1.909. Ele morreu no início de 1.910. O que será o 09?

Nabuco enviou a Graça Aranha no dia 1° de dezembro de 1.908:

Eu já começo a ver a sombra do novo nove. Já lhe disse que os nove marcam sempre novas fases de minha vida desde 1.849, o nascimento.
É curioso lembrar: 49, o nascimento; 59, o internato (a separação de casa); 69, o Recife; 79, o Parlamento e a Abolição; 89 o casamento e a queda da Monarquia; 99, a diplomacia.
Que será o novo sem mais nada, o 09?

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*

Pablo Arrabal é personagem do livro Solidão Calcinada. Um poeta que se uniu aos rebeldes revolucionários no final dos anos sessenta. Pablo Arrabal é meu primeiro heterônimo, pois lhe dei uma vida e escrevi versos vestindo a sua carne. Mesmo alguns poemas que emprestei a ele parece não serem mais meus.

Alguma poesia do livro que lancei este ano:

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MINUANO NO SUL SOMBRIO

Teu olhar por entre as frestas da veneziana – um sinal.
Jamais eu teria inteira a tua figura que me assola.
Jamais estaria contigo amor em chama em todas as horas.
Ainda assim no sul sombrio um amor sem igual.
Um jardim de poltronas de ferros – brancos.
Uma noite de estrelas em desalinho – brancas.
Duas taças tilintando em vida & vinho - branco.
E aquele teu jeito precioso de cruzar as tuas pernas – brancas.
Mas sempre que o amor ardia em teu olhar azul,
Sabia que o amor eu só o teria ali, pleno amor ardente no sul.
Vento minuano no sul sombrio.
Chuí inteiro abraçando tua partida e o meu vazio.

pg. 12

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GERÂNIOS

Pessoas regam gerânios
Na manhã de primavera.
A voz do repórter Esso
Informa meias-verdades.
Não diz da minha carne
Costurada pelas chamas
Nesta masmorra.
A minha voz quer ser a voz
Que propala
Romper os muros. Pisar
Em parapeitos inocentes
Regar com meu sangue
As flores brancas.
Delatar o que não sabem.
Dizer das catacumbas tristes.
Que o repórter Esso não conta.

Os gerânios sabem
E choram no solo da Pátria.
Ninguém entende a flor.
Não aprenderam o idioma do gerânio
Nem percebem seu pranto.

pg. 17

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SHANGRILÁ


Luz exangue do dia que se vai
Lençóis de estrelas
Perfume suave
Da malha negra
Espia nosso amor

Azul intolerável me abraça
Ouço uma canção africana
Sonho uma cena:
Brancas melenas
Cigarro bailando em seus dedos
Charme cruel.

Tempo marcando a seqüência
Inexata, sinuosa:
Dois pássaros
Unidos pelo fio invisível
Do amor real.

pg. 20

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PABLO ARRABAL
(do seu único livro - Crepúsculo)
*
- sobre a morte de Valêncio Xavier - um texto de Wilson Bueno na revista Sibila:

Sunday, December 28, 2008

os livros que mais gostei em 2.008

...
Os depoimentos sobre as leituras de alguns escritores em 2008 no site cronopios, foi o ano da minha descoberta de Jose Maria Arguedas. Fico sempre feliz quando encontro um escritor que me captura. Tento retomar o blog... melhor comprar outro teclado primeiro, virginiano nao suportar ver coisas fora de lugar e ausencias, mesmo de minimos acentos. cade o acento que deveria estar aqui (ponto de interrogacao)

Saturday, December 27, 2008

por Darwich e Fausto Wolff pelas crianças da Palestina






O ano termina com a carnificina imposta as criancas palestinas, lembrei a perda irreparavel de dois poetas que sangravam esta dor pela palestina em unidade - o poeta palestino e o grande escritor Fausto Wolff - A eternidade do conflito vai acabar por varrer a palestina do mapa e os avatares defensores dos pequeninos morrendo um a um - as vozes calando e o futuro prometendo mais poeira e escombros - uma chance para a paz (ponto de interrogacao) ecos de imagine e uma dor...








Mahmud Darwich (palestino, 1942-2008)

Uma nuvem na minha mão



Fere-me uma nuvem na mão: não
quero da terra mais do que
esta terra: o cheiro do cardamomo e da palha
entre o meu pai e o cavalo.
Na minha mão há uma nuvem que me feriu, mas
não quero do sol mais do
que a bola laranja, mais do que
o ouro que derramam as palavras ouvidas.
***
Selaram os cavalos,
não sabem por quê,
mas selaram os cavalos
no final da noite, e esperaram
sair um fantasma das rachaduras...



traducao de Michel Sleiman


-minimo fragmento do poema - uma nuvem na minha mao.


PARA CESSAR-FOGO NA FAIXA DE GAZA - abaixo assinado para o Conselho de Segurança da ONU, União Européia, Liga Árabe e EUA:


http://www.avaaz.org/po/gaza_time_for_peace/97.php?cl_tf_sign=1

Friday, December 19, 2008

À sombra de um rio I




120

"Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruto,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuto,
Aos montes ensinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.
CANTO III - Os Lusíadas - CAMÕES
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Fiquei pensando nos amores que floresceram à sombra de um rio e selecionei os reais amores eternizados em estátuas e livros - Inicia com o Rio Mondego, onde Pedro I de Portugal levou sua amada Inês de Castro a navegar para talvez amainar entre as águas o fogo da paixão infinita, enquanto as ribeirinhas cochichavam enquanto lavavam roupas nas pedras do rio, sobre o rei adúltero e a aia bela, a loira flamejante que depois de morta foi rainha.

À sombra de um rio II




(...)

Augusto espectro
de fogo
onde queima
a aurora.
.
Sei!
Tudo isto
é mármore!
Mas, antes
foi carne
vermelho abandono
amor petrificado
.
Antes do fim
às margens
do Rio Loire
nossa carne carmim
foi mármore

Bárbara Lia

(Fragmento de "Sakountala")
.
Auguste Rodin e Camille Claudel em seu pouco tempo de vida de amantes felizes, antes do desenlace trágico, alugaram uma casa às margens do Rio Loire e lá viveram À sombra de um rio.

À sombra de um rio III


Jane March, Tony Leung Ka Fai
O amante - filme de Jean-Jacques Annaud
- Rio Mekong-


Fala-me, diz que soube logo, desde a travessia do rio, que eu seria assim com o primeiro amante, que amaria o amor, diz que sabe já que o hei-de enganar e também que hei-de enganar todos os homens com quem virei a estar.
Marguerite Duras (O amante)

Wednesday, November 19, 2008

SAKOUNTALA

Sakountala - Camille Claudel




Well, well.
I had my way.
I trusted a king
And put myself
in his hands.
He had a honey face
and a heart stone
(She covers her face
with her dress
and weeps)
- Calidassa –

..

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Cinzel de prata
esculpindo pés
Cada fagulha vermelha
um fio de seus cabelos
.
.
Cinzel de prata treme
acende astros
de um azul escuro
em meu olhar algodão
.
.
Rodin!
Rodin!
Tantos pés teci
em mármore angustiado
-trilha de pés moldados-
.
.
esquerdo / direito
esquerdo / direito
esquerdo / direito
.
.
Tantos pés emprestei-te
para ter-te assim
ajoelhado
enlaçado
abismado
abandonado
.
.
Augusto espectro
de fogo
onde queima
a aurora
.
.
Sei!
Tudo isto
é mármore!
Mas, antes
foi carne
vermelho abandono
amor petrificado
.
.
Antes do fim
às margens
do Rio Loire
nossa carne carmim
foi mármore
.
Bárbara Lia
(do livro: Para Camille, com uma flor de pedra)

Hamadryade

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Poesia escrita com cinzel
Resquícios passados à pedra
a retirar das entranhas, risos
e guirlanda de nenúfares
.
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Ninfa das árvores
tocada de abismo
a olhar o limiar trágico
acima dos lagos azulados
.
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Hamadryade orgulhosa
retorna ao quarto escuro
brancas corujas no muro
no casarão da vida gloriosa
.
.Crua beleza nua,
Danaide
ouvindo as estrelas do Sena
um céu-verde claro sonoro
a levar a barca dos amantes
.
.
(Trinta anos descolorem
rios
pedras
corujas.
Nunca os nenúfares)
.
.

Estes que rolam em cascatas
no castanho seda dos cabelos
e caem no lago do esquecimento
calcinando o ódio da menina
de Villeneuve-sur-Fére
.
.Sepultada viva em Ville-Èvrard
sonha na cripta:
o café do Brasil
cerejas embebidas em aguardente
um pacote de amor de mãe
um beijo da coruja ausente



Esculpe em astros abrasados
o ódio ao amante hostil
dorme congelada
destroços abraçados
à uma tola estrela senil

BÁRBARA LIA

(Para Camille, com uma flor de pedra)

Monday, November 17, 2008

Cronópios e Revista Lasanha




No caminho com Rodrigo Madeira

A entrevista que fiz com o poeta Rodrigo Madeira, publicada no Site

CRONÓPIOS
http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=3654

*





Revista Lasanha - no ar a edição n°11


Revista editada por Maicknuclear,


nesta edição minha poesia - Flora
(link ao lado)

Tristessa


ESTOU EM UM TÁXI com Tristessa, bêbado, com uma garrafa de uísque Juarez Bourbon no malote de dinheiro da ferrovia que eles me acusaram de roubar da estrada de ferro em 1952 - aqui estou eu na Cidade do México, um sábado à noite, chuvoso, mistérios, velhas ruas laterais de sonho e sem nomes passam vertiginosamente, a ruazinha onde eu caminhara por entre multidões de vagabundos índios enrolados em mantas trágicas, suficientes para fazer você chorar, e você achou ter visto facas reluzindo sob as dobras - sonhos lúgubres tão trágicos quanto aquele da Velha Noite da Estrada de Ferro, com meu pai sentado com suas coxas grandes no vagão de fumantes da noite, cochilando enquando seguia pelos trilhos vastos, enevoados e tristes da vida - mas agora estou no alto daquele platô vegetal que é o México, a lua de Citlapol com quem eu esbarrava algumas noites antes no telhado sonolento a caminho do antigo banheiro de pedra com goteira - Tristessa está doidona, linda como sempre. Vai alegre para casa deitar na cama e curtir sua morfina.
Noite anterior tive uma discussão silenciosa na chuva sentado com ela nos balcões sombrios da meia-noite comendo pão com sopa e bebendo Delaware Punch. Saí dessa conversa com a visão de Tristessa em minha cama, em meus braços, a estranheza de seu rosto amoroso, asteca, garota índia com olhos de Billi Holliday misteriosos e semicerrados e com uma grande voz melancólica como as atrizes vienenses de rostos tristes como Luise Rainer que fizeram toda a Ucrânia chorar em 1.910...
(Este é o início desta novela de Jack Kerouac - Tristessa)
.
Após a leitura de Tristessa, escrevi esta poesia:
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TRISTESSA
..
ame quem te ama e conheça o inferno
fogo a fogo no porão do medo
fogo a fogo no cabelo da Medusa
atiçando cobras
atiçando demos.
ame quem te ama e conheça a dor
amputar pernas braços sexo e coração.
ame quem te ama
nesta luta cega
boitatás no milharal
não sobra espiga sobre espiga
e o espantalho, mudo, tira o chapéu
e dança triste no chão de palhas.
ame quem te ama e conheça o inferno
dois sustos travestidos de sons
querendo narrar o que o humano não narra
escrevendo em aramaico o avesso do vivido.
ame quem te ama
e se arrependa de viver rezando pelo amor.
ame quem te ama
e descubra
a agulha fina e gelada do olhar
o rio de deus que rola tua nuca quando ele te toca
o que é não sentir o corpo do outro
cópula de luz.
o que é ter a língua presa o corpo preso o gesto preso
e a alma livre pluma de algodão te levando onde não quer
onde não deve estar, nem teus pés, nem tuas mãos

Bárbara Lia (A última chuva)
...

Friday, November 14, 2008

quichiligangues


TANTA COISA
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um índio de cabelos ônix
rabo-de-cavalo ao cóccix
sopra queñas em cascata
hey jude inca-trocaico
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o som escala e encapela
caixas-dágua furacéus,
e pela borda da rua-rio
um táxi vermelho ri:
.
que faz um táxi vermelho
bem aí? o índio, o táxi,
quem sopra! estou vivo,
longamente vivo, e aqui
Sidnei Schneider

http://umbigodolago.blogspot.com/

Thursday, November 13, 2008

Porque Era Ela, Porque Era Eu (CHICO BUARQUE)

Eu não sabia explicar nós dois
Ela mais eu, por que eu e ela
Não conhecia poemas
Nem muitas palavras belas
Mas ela foi me levando
Pela mão

Íamos tontos os dois assim ao léu
Ríamos, chorávamos sem razão
Hoje, lembrando-me dela
Me vendo nos olhos dela
Sei que o que tinha de ser se deu
Porque era ela
Porque era eu

Cássio Amaral

Sonnem

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Tramo um poema
que abre
a porta do átimo
no buraco negro
destrambelhando
a trama
na tramela
do oráculo
perturbação
no inaudível
corte da espada
imprevisível
de um samurai
.
SONNEN
- edições JAR - Araxá - MG, 2008.
prefácio Rodrigo de Souza Leão


http://www.cassioamaral.blogspot.com/

Monday, November 10, 2008

Variações sobre o mesmo tema: Machado de Assis


- Convite que recebi do Edson Cruz - Para quem estiver em São Paulo:

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13/11/2008, às 20h,

SESC Consolação

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A literatura talvez seja a arte máxima do diálogo. Mesmo quando o autor diz estar escrevendo apenas para si mesmo, a escritura, por vocação, sugere a existência de um leitor, um receptor, um interlocutor.

Machado de Assis é, na literatura nacional, sem dúvida, a grande força centrífuga que, mesmo após 100 anos de sua morte, continua dialogando e influenciando (às vezes de forma reativa) não só autores e leitores brasileiros, mas, como se constata a cada dia, vários autores e estudiosos da literatura mundial.

Em um momento de efemérides justificadas a sua obra, chamou-nos à atenção a reescritura de narrativas de Machado, em particular o conto, por autores contemporâneos.

Um diálogo riquíssimo acontece nesses exercícios literários, possibilitando a todos nós um maior contato com a contística contemporânea e ao mesmo tempo voltarmos à produção de Machado em um gênero que ele exerceu com maestria e que, por vezes, é relegado a um segundo plano devido à genialidade do Machado romancista.

O SESC Consolação reúne, nesta noite denominada de Variações sobre o mesmo tema: Machado de Assis, autores que recontaram alguns dos melhores contos de Machado. Oportunidade para relermos as pérolas escritas pelo Bruxo de Cosme Velho e avaliarmos como alguns excelentes ficcionistas atuais se saíram neste exercício de reconto, que exige habilidade, diálogo e personalidade artística própria.

Aproveitamos a oportunidade para apresentar ao público presente o conto inédito de Machado, “Um para o outro”, recuperado pelo pesquisador Mauro Rosso e recontado pela ganhadora do Prêmio Jabuti deste ano, na categoria melhor livro de contos, Vera do Val, especialmente para este evento.

Convidados da noite:

13/11/2008, às 20h, SESC Consolação

Rinaldo de Fernandes (recontou O Alienista)

Moacyr Scliar (recontou Missa do Galo)

Tatiana Salém Levy (recontou Um Esqueleto)

João Anzanello Carrascoza (recontou Noite de Almirante)

Deonísio da Silva (recontou A Cartomante)

Ivana Arruda Leite (recontou A Cartomante)

Mauro Rosso (pesquisador que recuperou o conto “Um para o outro”)

Vera do Val (ganhadora do Jabuti deste ano.

Recontará o conto “Um para o outro”)

Mediação: Edson cruz

Friday, November 07, 2008

Romance LXXV ou De Dona Bárbara Heliodora

( Edésio Esteves)




Há três donzelas sentadas
na verde, imensa campina.
O arroio que passa perto,
com palavra cristalina,
ri-se para Policena,
beija os dedos de Umbelina;
diante da terceira, chora,
porque é Bárbara Heliodora.


Córrego, tu por que sofres,
diante daquela menina?
Semelha o cisne, entre as águas;
na relva, é igual à bonina;
a seus olhos de princesa
o campo em festa se inclina:
vê-la é ver a própria Flora,
pois é Bárbara Heliodora!


(Donzela de tal prosápia,
de graça tão peregrina,
oxalá não merecera
a aflição que lhe destina
a grande estrela funesta
que sua face ilumina.
Fosseis sempre esta de agora,
Dona Bárbara Heliodora!


Mas a sorte é diferente
de tudo que se imagina.
E eu vejo a triste donzela
toda em lágrimas e ruína,
clamando aos céus, em loucura,
sua desditosa sina.
Perde-se quanto se adora,
Dona Bárbara Heliodora!)

Das três donzelas sentadas
naquela verde campina,
ela era a mais excelente,
a mais delicada e fina.
Era o engaste, era a coroa,
era a pedra diamantina...
Rolaram sombras na terra,
como súbita cortina.

Partiu-se a estrela da aurora:
Dona Bárbara Heliodora!

CECÍLIA MEIRELES
- Romanceiro da Inconfidência -

Thursday, November 06, 2008

Propriamente Dita



Evento poético, musical, com poetas e músicos do Grupo Pó & Teias e convidados da cidade de Curitiba. Contando com a participação especial de artistas plásticos e outros interventores culturais.

Quando:
Nesta sexta-feira, dia 7 de novembro, às 22 horas
Onde: Café Parangolé, rua Benjamin Constant, 400 (próximo à reitoria)
Entrada Franca

Tuesday, November 04, 2008

As árvores


Porque somos como troncos de árvores na neve. Aparentemente, apenas estão apoiados na superfície, e com um pequeno empurrão seriam deslocados. Não, é impossível, porque estão firmemente unidos à terra. Mas atenção, também isto é pura aparência.
Franz Kafka
Contos - A colônia penal e outros
(ediouro)

Sunday, November 02, 2008

As rosas mortas a me contemplar


dead roses
ilustração - Mayko

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Quando eu era menina
tinha medo da cortina
que lembrava
o quintal do mal.
Era adornada de pecado
rosas em gritos menstruais
sangrando folhas descomunais.
Durante o dia eram bizarras.
Na noite me assombravam
formando rostos
na contra luz da lua azougue.
Eu farfalhava no colchão
cerrava os olhos
encolhia-me em posição fetal.
Nunca disse à minha mãe
(que trocaria a cortina – para minha paz)
Nasci de frente para os fantasmas.
Contemplo.
Não expulso.
Não acendo a lâmpada.
Enfrento.
No quarto escuro
(agora da alma)
os mil rostos
de rosas mortas
a me contemplar.

Bárbara Lia

in A última Chuva (ME, 2007)

Thursday, October 30, 2008

Orientalismo





Programação:
Dia 29/10, quarta-feira:
Edward Said e o lugar da crítica ao orientalismo nos estudos humanistas
- Renato Queiroz (Antropologia, FFLCH-USP)
- Gabriel Cohn (Sociologia, FFLCH-USP)
- Mamede Jarouche (Letras Orientais, FFLCH-USP)
- João Quartim de Moraes (Filosofia, UNICAMP)
- Coordenação: Francisco Miraglia (Instituto de Matemática e Estatística, USP, e ICArabe)
Dia 30/10:
O orientalismo e os orientes

- Ana Maria Alfonso-Goldfarb (História da Ciência, PUC-SP)
- Emir Sader (Laboratório de Políticas Públicas, UERJ, e Secretário Executivo de CLACSO)
- Milton Hatoum (Escritor e Prof. de Literatura)
- Miguel Attie Filho (Letras Orientais, FFLCH-USP)
- coordenação: Arlene E. Clemesha (Letras Orientais, FFLCH-USP, e ICArabe)
Dia 31/10:
Projeção do filme "Conhecimento é o início" (Dirigido e produzido por Paul Smaczny, 93 min)

Seguido de debate com:
- Carlos Calil (Escola de Comunicação e Artes-USP, Secretário Municipal de Cultura de São Paulo)
- Sylvio Band (Engenheiro e pesquisador em Filosofia da História)
- Jorge de Almeida (Teoria Literária e Literatura Comparada, FFLCH-USP)
- coordenação: Soraya Smaili (Universidade Federal de São Paulo e ICArabe) e Mohammad Habib (Universidade de Campinas, UNICAMP e ICArabe)
*O seminário se realiza no Centro Universitário Maria Antonia, no mesmo momento em que se registram 40 anos da decretação do nefasto Ato Institucional no 5 da ditadura militar.


(Ainda dá tempo de participar deste simpósio!)


Esse simpósio promovido pelo Instituto da Cultura Árabe comemora 30 anos da publicação da principal obra de Edward Said - Orientalismo - expondo a maneira como suas idéias continuam inspirando novas apreciações e análises ao redor do mundo. Em Orientalismo, Said demonstrou pela primeira vez, de maneira sistemática, que o que se convencionou chamar de Oriente reflete uma construção intelectual, literária e política do Ocidente, como meio deste ganhar autoridade e poder sobre o primeiro.Ao demonstrar que na base do pensamento racionalista do século XIX está a criação identitária que opõe Ocidente a Oriente, a obra de Said tem instigado a própria renovação dos conceitos fundamentais das mais diversas disciplinas humanistas. Onde se percebe que o rigor e a suposta neutralidade axiológica têm sido decisivamente influenciados pelos interesses econômicos e políticos da sociedade produtora dos conceitos e métodos de trabalho que embasam essas disciplinas.
Coordenação: Arlene E. Clemesha, Francisco Miraglia, Márcia CamargosComissão Organizadora: Arturo Hartman Pacheco, Isabelle Somma, José Farhat, Michel Sleiman, Natália Nahas, Safa Jubran, Said Bichara e Soraya Misleh. Agradecimentos: Daniela Wasserstein (do Festival de Cinema Judaico) Apoio Cultural: Brasilprev e Instituto do Sono

Wednesday, October 22, 2008

Ocean 1212-W



p/Ia Santanché


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Point Shirley, a vida protegida feito um navio em uma garrafa - um mito branco e obsoleto - assim descreveria ela um dia esta passagem granulada de ternura, de um mar onde se recolhe conchas para um pai que se adora. Winthrop. Um gato chamado Mowgli, um irmão chamado Warren. Sylvia e seu elemento primeiro - a água. O mar e a pacífica entrada no mundo. Antes do peso dos pés gangrenados de Otho puxarem-na para o mar profundo da inconformidade. Lavar com o sal marinho o sorriso expandido. Secar este sal na pele até doer mais que ferroada de abelha. Princesa que não chegou a ser rainha. Concha que matou a pérola. Um caminho estendido de areias e oceano. Um pai a desvendar a vida social das abelhas e a enclausurar a abelha pequena em uma caixa de interrogação:
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tenho um eu a recuperar, uma rainha
estará ela morta, estará dormindo?
onde tem ela andado,
com seu corpo vermelho-leão, suas asas de vidro?
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Este primeiro rito de paz sob as asas dos avós maternos, os Schobers.
Em 1962, quando a BBC encomendou um pequeno trecho biográfico para Sylvia, ela o entitulou Ocean 1212-W. Um número que ela jamais esqueceu, o número do telefone dos avós. Mas, não dava mais para discar o número, adentrar a redoma-garrafa, voltar ao mar da infância, recolher conchas e abraçar Mowgli. Ocean 1212-W, o fio do telefone um cordão umbilical, uma chamada jamais atendida por uma menina, esta que pula e sorri diante de um oceano inumerável.

BÁRBARA LIA no caminho com SYLVIA PLATH
Sylvia Plath (27-10-1932//11-02-1963)


Monday, October 20, 2008

todos os cachorros são azuis


"A primeira liberdade é sair do cubículo. A segunda liberdade é andar pelo hospício. Liberdade, só fora do hospício. Mas a liberdade mesmo não existe. Estou sempre esbarrando em alguém para ser livre. Se houvesse liberdade o mundo seria uma loucura com todo mundo. Eu podendo sair por aí com Rimbaud e Baudelaire. Viajando para Angra dos Reis"
- Rodrigo de Souza Leão
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O livro do Rodrigo de Souza Leão chegou hoje. Ficção científica ou fábula nonsense? Comecei a ler e veio a lembrança de um outro livro - Hospital Britânico - do argentino Hector Viel Temperley, estes mergulhos no inconsciente e no que a loucura pode engendrar mesmo de arte como em Artaud e Van Gogh, mas, ainda não passei da página 15 e pode me fazer companhia nesta noite. Eu costumo dizer boa noite para a poesia, beijá-la assim como eu beijo um filho, mas, não consigo enxergar o rosto da poesia, nublaram o cinza curitibano, enegreceram, soltaram os cachorros negros. Black dogs black dogs black dogs sinos ressoando espadas sibilando torres demolindo pentagramas encolhendo-se e enforcando todas as claves e as notas musicais semibreves e o DÓ e o DÓ, dó para valer, MI FA(z) SOL

dulcinéia catadora




7.
O tempo é o poema que embala os mortos?
O espaço é o tempo que sonha com os vivos?
O que é o sagrado?
(Marcelo Ariel - Me enterrem com a minha AR15)

O Marcelo Ariel enviou o seu livro da Dulcinéia Catadora, que é parte de um projeto que está abarcando cada dia mais poetas, e agora tem mais lançamentos do selo, recebi o convite do José Geraldo Neres

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Quatro poetas lançam livros na Casa das Rosas
Dia 25 de outubro a partir das 17 horas

Não esperem encontrar livros impressos em gráficas, com capas feitas com o uso de computação gráfica e editoração eletrônica. As capas são recortadas de papelão comprado de catadores de papel e pintadas uma a uma, com guache, por artistas e jovens, sendo alguns filhos de catadores, outros, menores em situação de risco, recém-saídos da rua. Essas capas dão um colorido especial aos poemas dos autores Celso de Alencar, Whisner Fraga, Ademir Demarchi e José Geraldo Neres, que estarão na Casa das Rosas dia 25, sábado, a partir das 17 horas, recebendo amigos e autografando seus livros.
Embora com estilos bem diversos, este grupo de poetas que também têm livros "tradicionais" publicados e se dedicam há vários anos ao ofício de escrever, apresenta alguns pontos em comum: eles encaram a literatura como um ato de resistência, como forma de aquisição de conhecimento e de propor questões, estimular a reflexão. Neste sentido, abordam temas que afetam nosso cotidiano, que muitas vezes são ignoradas ou tratadas como tabus pela sociedade. E mostram uma inquietação no trato da palavra, muitas vezes desprendendo-se de formas já bem-estabelecidas e procurando experimentar, encontrar maneiras singulares de criar sua poética.
Claro fica, ao terem suas obras "editadas" como livretos com capas de papelão, vendidos a R$5,00, o papel atuante desses escritores que passam a integrar o coletivo Dulcinéia Catadora
.

Friday, October 17, 2008

Noir na antologia do Luis Serguilha

(clicar para ver a imagem)


patchwork #7




Saí pela janela e escalei a encosta até o alto de Bunker Hill. Uma noite para o meu nariz, uma festa para o meu nariz, cheirando as estrelas, cheirando as flores, cheirando o deserto e o pó adormecido, no alto de Bunker Hill. A cidade espalhava-se como uma árvore de Natal, vermelha, verde e azul. Olá, velhas casas, belos hambúrgueres cantando nos cafés baratos, Bing Crosby cantando também. Ela vai me tratar gentilmente. Não daquelas garotas de minha infância, não daquelas garotas da minha adolescência, daquelas garotas dos meus dias de universidade. Elas me assustavam, eram inseguras, me recusavam; mas não minha princesa, porque ela vai entender. Ela também foi menosprezada.Bandini, caminhando sozinho, não alto, mas sólido, orgulhoso dos seus músculos, apertando o punho para gratificar-se no duro deleite dos seus bíceps, o absurdamente destemido Bandini, sem medo de nada a não ser do desconhecido num mundo de misteriosa maravilha. Os mortos ressuscitaram? Os livros dizem não, a noite grita sim.
fragmento - pergunte ao pó - John Fante

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"Por acaso há humildade na terra? Aparentemente qualquer um pode fazer o que quiser dela: cavar, revirar, plantar. Mas no fim ela engole todos os que a dominam. E fica lá, num silêncio eterno."
fragmento do livro Caixa Preta - Amós Oz

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Fausto Wolff


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"Sem leitura não se pode escrever. Tampouco sem emoção, pois a literatura não é, certamente, um jogo de palavras. É muito mais. Eu diria que a literatura existe através da linguagem, ou melhor, apesar da linguagem."
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As nossas tristezas escondêmo-las nas jarras, temendo
Que os soldados as vejam e celebrem o cerco…
Escondêmo-las por futuras causas,
Tendo em vista uma celebração,
Uma surpresa ao longo do caminho.
Quando a vida for normal,
Sentiremos tristeza como toda a gente, por pessoais motivos
Hoje ocultados pelos grandes slogans.
Esquecemos as nossas pequenas chagas que sangravam.
Amanhã, quando o sítio sarar,
Sentiremos os seus efeitos secundários.
fragmento de Estado de Sítio - Mahmoud Darwich

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Sem a cultura, e a liberdade relativa que ela pressupõe, a sociedade, por mais perfeita que seja, não passa de uma selva. É por isso que toda a criação autêntica é um dom para o futuro.
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FIM DE 68
Contemplei da lua, ou quase,
o modesto planeta que contém
filosofia, teologia, política,
pornografia, literatura, ciências
exatas ou arcanas.
Nele há mesmo o homem, e eu entre eles.
E tudo é muito estranho.
Dentro de poucas horas será noite e o ano
terminará entre explosões de espumantes
e fogos de artifício.
Talvez de bombas e coisas piores,
mas não aqui onde estou. Se alguém morre
ninguém se importa desde que seja
desconhecido e longe.
Eugenio Montale
(tradução: Geraldo H. Cavalcanti)


patchwork #6




É monstruoso dizer-se que o artista não serve a humanidade. Ele foi os olhos, os ouvidos, a voz da humanidade. Sempre foi o transcendentalista que passava a raios X os nossos verdadeiros estados de alma.
Anais Nïn


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Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.
Clarice Lispector


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Não posso e não vou violar minha consciência para me adaptar ao que está na moda.
Lillian Hellman
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Uma palavra morre
Quando é dita
Dir-se-ia
Pois eu digo
Que ela nasce
Nesse dia
Emily Dickinson (trad. Aila de Oliveira Gomes)
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O escritor original, enquanto não está morto, é sempre escandaloso.
Simone de Beauvoir
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Sinto-me livre para fracassar.
Hilda Hilst


AXIOMA
Sempre é melhor
saber
que não saber.
Sempre é melhor
sofrer
que não sofrer
Sempre é melhor
desfazer
que tecer
Orides Fontela

Thursday, October 16, 2008

PROESIA

Degas


Depois de ler SOLIDÃO CALCINADA Frei Betto enviou-me um cartão com estas palavras:

"Agradeço a saga de Pietra, Esperança e Serena, toda PROESIA"
A Marina pinçou palavras dos textos em forma de versos, então lembrei as palavras do meu amigo Frei... Tem sido uma alegria ouvir algumas opiniões sobre o livro.


" Mesmo em meio aos escombros
o amor nasce em flor teimosa
que rompe a terra, o cimento
e beija as botas dos carrascos."


" O olhar desfaz em vinho minhas vestes.
E entre o fogo que me chega acariciante
percebo-o temerário. O amor lembra
mortalha lilás e ele o ignora.
Teme a morte.
Abraça-me em timidez de estanho ardente
e nossas peles assim de calor dividido
não conseguem separar-se."

" Percorrer a trilha,
recolher solenemente
os grãos da saudade.
Trilhar o meu corpo
que se cobre a outros
olhares e se despe
quando chegas como
um vento impreciso,
sem aviso, e apenas
anuncias como dono
do meu segredo e alma
-Estou aqui!"
( BÁRBARA LIA )...

trechos do livro "Solidão Calcinada"

estes fragmentos foram pinçados pela minha amiga Marina T. Maneschy, de Belém, de uma parte do livro (narrativa da personagem Serena)

De Shakespeare a Lennon, passando por Jane Austen





Meu momento - tia coruja - Meu sobrinho Lincoln, no palco do Teatro em Campo Mourão, em homenagem a Lennon, dia nove. Saudade de ouvir uma canção dos Beatles na voz do Lincoln. O outro sobrinho Flávio, vive em Londres com a namorada Mel. Foram visitar Stratford-upon-Avon, lá onde Shakespeare nasceu e me escreveram dizendo que pensaram em mim, e que gostariam que um dia eu aparecesse por lá, pela terra do William. Quiçá? O postal que enviaram de Londres é para me atiçar mesmo. E neste ambiente todo Inglaterra, culminou com um filme que vi, baseado na vida de Jane Austen. Tem gente que me procura em Curitiba, mas, faz tempo que eu deixo um esqueleto cansado fechado em um apartamento em um bairro chamado Portão e vou para outras paragens. Os lugares confessáveis eu publico. Algumas coisas só quando escrever minha biografia. Penso que está na hora de começar a escrever a minha história, para tal qual Fernando Pessoa disse no poema Tabacaria - Para provar que sou sublime.

Becoming Jane - filme de Julian Jarrold, baseado nas cartas de Jane Austen.
Um retrato da escritora antes da fama e seu romance com um jovem irlandês (James McAvoy) - Anne Hathaway interpreta Jane Austen. Nada de excepcional no filme, além de perceber que nada muda com o passar dos séculos. Jane Austen sonhava "viver da sua caneta". E de como ela cortava as palavras de seu texto, literalmente, com tesoura, formando um mosaico bonito na folha. Estas coisas que a gente vê e percebe as manias dos escritores, estas pessoas voluntariosas, como era Jane.

Sunday, October 12, 2008

Fausto Wolff


Eu tenho a mania de apagar algumas postagens. Vez por outra publico e apago. Mas, como diz minha filha Paula - o blog é teu, você escreve o que quiser. E segue o blog escrevendo e apagando - mania de virginiano - excesso de crítica, estas coisas. Uma destas postagens apagadas, além de alguma poesia, informava que o Jean Scharlau publicou o meu texto em homenagem ao Fausto Wolff, na revista eletrônica - O lobo. Jean Scharlau, lembro deste nome, pois foi para ele que o Fausto pediu que eu enviasse minha poesia, lá pelo ano de 2.003... É muito especial lembrar estas pequeninas coisas. Que foi no site dele, do escritor que eu mais admiro, que pela primeira vez a Internet conheceu esta poeta. Agora, o que escrevi quando tomei conhecimento da morte do Fausto, o Jean pescou na rede e publicou entre uma série de homenagens:

Wednesday, October 08, 2008

Patchwork #4




Quarta percepção – A alma é um beija-flor.

Magnólia sabia que não era só corpo.
Enrustida dentro vibrava em agonia ou alegria:
A alma.
A alma tem o peso de um beija-flor.
21 gramas.
Sabia depois de Guillermo Arriaga e de seus enredos únicos. Finalmente o cinema americano tinha alma, embora fosse alma de um mexicano. Tinha alma e ela pesava 21 gramas.
Na infância a percepção da alma trazia um estranhamento que a tirou do tédio.
Então somos algo mais...
Mais que barro, bem mais que terra & água modeladas por um Criador.
O sopro de Deus tinha 21 gramas e inflava dentro esta angústia ou esta sensação de hosana.
Sabia que a alma pesava pouco quando era feliz. Elevava a potências infindas quando vinha a dor. A dor aumentava o volume metafísico do elemento que nos aproximava de um éden.
Magnólia não gostava de perder tempo pensando no éden. Achava um desperdício viver em função do desconhecido.
Achava enganação acreditar no perdão e em reinos que cobririam todas as dores...
Na varanda do amado, em um final de inverno, ela veria o beija-flor.
A um palmo de seu rosto.
Penugem de veludo verde escuro olhos mínimos negros.
Esteve mais próxima do beija-flor que jamais estivera de outra alma.
Um diálogo de olhares de Magnólia com o beija-flor:

- Voas?
- Por vezes...

Foi a resposta de Magnólia à súbita interrogação.
Para provocá-lo pensou – sabendo que eles lêem mente como todos os pássaros...
- Minha alma tem o peso da constelação Ursa Maior -O beija-flor arregalou os olhos negros e teve pena de Magnólia.
Ela queria tocar o veludo verde que cobria o corpo mínimo e ele se foi sem que ela tivesse tempo de estender as mãos.
BÁRBARA LIA

Monday, October 06, 2008

Homenagem a Lennon em Campo Mourão


patchwork #3

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Algumas pessoas já nascem com um genoma de Deus? Uma substância a mais na alma, ou no sangue, ou nos ossos? Onde Deus pincela a genialidade? Na Alma? Os gênios riem altas gargalhadas como Amadeus... Wolfgang Mozart...
Eu queria decifrar o segredo da beleza, ler em uma partitura os símbolos que soassem como um bálsamo. O encanto é. Ninguém narra, mas tenta. Em sinfonia, como Mozart, em lírica alegoria de palavras, como os poetas. Em ti o encanto é luz apenas, e não necessita nem de música nem de palavra.
Bárbara Lia

Saturday, October 04, 2008

patchwork #2






as águas do entendimento
a insistência em prolongar o céu
só sabem manchar o belo
rasurando as tintas
que um pintor sábio traçou
cronologia sonsa, inócua
um dia em teus braços
sela o éden
por uma vida
dura mais que uma década
de noites frias
regadas à vinho Santa Ana
e acordes de Mozart.

Bárbara Lia

- Quando conheci o Francisco dos Santos, editor da Lumme, que publicou meu livro - O sal das rosas - recebi um livro com pinturas. Francisco dos Santos é artista plástico. A imagem acima está neste livro, e também no endereço abaixo: