Friday, April 30, 2010

A Última Chuva

foto de Ana Mestre - Portugal



- Poesias do livro - A Última Chuva  - Bárbara Lia (ME - 2007)



A chuva baila cinza na vidraça
que abre a cidade e
as cicatrizes de concreto...


 
 


LAYLA



calçadas molhadas
- uma lâmpada grávida
estremecida de sol
pequeno -
a lembrar
que ainda é verde o trigo.
florirá
amanhã
em sol granulado,
farpas de doçura,
sempre.








DESDÊMONA



Olhou-me como nuvem,
a sugar os vapores
da minha alma.
Por que ele é meu deus,
guardei-o em um lago
onde Iago
jamais chegará.



...
 
 
Os elementos em A última chuva são líquidos e noturnos, nota-se o emprego abundante do vocábulo água, além de outros correlatos como chuva, lágrima, gota, pingos, lago, menstrua, bebe, vinho, chá, abraço líquido, vendaval molhou, enxurrada, enxágua, sede, sangram, óleos, barco. A maioria dos poemas traz essa marca indelével, a considerar a partir do próprio título do livro. A poeta prefere a água à areia, pois, dentro do silêncio quebrado pelo ritmo incômodo dos pingos de “uma torneira vazando / enlouquecendo em azul / a noite”, o tempo é marcado pelo elemento líquido que “cai em ritmo de segundos, / tatua o tempo em estilhaços líquidos”.

Além disso, a água não trai como a areia silenciosa – sub-reptícia -- “Os pingos alertam / o que a areia silencia – enganosa” (A última chuva, p. 27). A água é um símbolo a ser alcançado, na alquimia da palavra, é a fluência, a limpidez, a pureza. A poeta refaz a metáfora do tempo – areia – para água, “Com o pingar aflito do tempo – água –” (A última chuva, p. 27). Mas nesse ritual de passagem, necessita de coragem: “minha alma silenciosa / necessita de coragem / para a inevitável passagem / de grão de areia para pingo d’água.”( A última chuva, p. 27).

- Márcio Davie Claudino da Cruz - DUAS TENDÊNCIAS DA NOVÍSSIMA POESIA CURITIBANA NO ALVORECER DO SÉCULO XXI

Wednesday, April 28, 2010

Prêmio Ufes

Lo que más admiro en un escritor? Que maneje fuerzas que lo arrebaten, que parezca que van a destruirlo. Que se apodere de este resto y disuelva la resistencia. Que destruya el lenguaje y que cree el lenguaje. Que durante el dia no tenga pasado y que por la noche sea milenario. Que le guste la granada que nunca ha probado y que guste la guayaba que prueba todos los dias. Que se acerque a las cosas por apetito y que se aleje por repugnancia.
(Lezama Lima, in Simón, Pedro.    Interrogando a Lezama, p.33)

- Do livro José Lezama Lima - Anacronia, Lepra, Barroco e Utopia - Luis Eustáquio Soares - EDUFES

...

.

Recebi a caixa de livros da Edufes - Prêmio Ufes de Literatura - que concedeu aos dez premiados em cada categoria  - quinhentos reais em livros.

Escolhi os títulos, entre eles este Livro que vai me aproximar mais de um mito - Lezama Lima - li apenas Paradiso e La Cantidad Hechizada, alguma poesia na Internet e esta vontade de estar próxima ao vulcão Lezama, pisar levemente cada palavra para voltar ardente, sem ficar queimada em tanta vida que toquei quando li seus livros.
Companhia para o Inverno - esta leitura, que inclui entre tantos - Murilo Mendes - O olhar vertical, de Raimundo Carvalho, o Itinerário da Estrela - deslocamento e construção da Identidade - de Adriana Pin (sempre Clarice) e uma autora que ainda não li  - Charlotte Perkins Gilman - O papel de parede amarelo e outros contos - tradução e crítica - organização Stelamaris Coser. Cousas Nossas - Pinturas e paisagens do Espírito Santos - Samira Margotto... Entre tantos de quase vinte livros da Edufes.

Tuesday, April 27, 2010

Festipoa - a volta / post poesia

.

Uma porção de livros sobre a mesa
e esta alegria.
Difere tanto do sentimento que causa
uma porção de pratos sobre a pia.


O tempo para viver a ARTE voa rápido.
Vento que assusta o mundo
levantando (c)asas.

A rotina de louça na pia -
Brisa lerda e cansada
que não move nada

A Poesia?


Rara beleza
a esperar - acesa -
sobre a mesa

*

Livros do Festipoa. Entre eles a poesia do Wladimir Cazé (Macromundo - Confraria do Vento) e a prosa do Altair Martins (Duas Palavras - Coletivo Dulcinéia Catadora)
Uma ave de origami
montada com guardanapo
ganha vida de repente
no palito de dente empalada,
voa bonita no vento
apesar do sangramento,
seu sofrimento abreviado
quando o papel é amassado.

Wladimir Cazé - Macromundo


 
Duas Palavras - Altair Martins


Poemas Gravados - 2008

Gravura em Metal - Raquel Lima - Poesia de Sidnei Schneider

Sunday, April 25, 2010

Valeu Poa!

Volto de Porto Alegre. Uma viagem/passagem que deixa marcas, que ajuda a sacudir a poeira, dar a volta por cima e abraçar a poesia com mais garra que nunca. No sábado o Wladimir Cazé não chegou a tempo para a nossa mesa redonda e foi substituido por Everton Behenck, um poeta muito jovem que foi - para mim - uma das surpresas do Festipoa. Em maio ele lança seu primeiro livro pela Não Editora. O Cazé transferiu seu lançamento (Macromundo - Confraria do Vento) para o horário da tarde e integrou o recital da tarde com os poetas do projeto da Lais Chaffe. Um encanto ver Porto Alegre como uma grande ciranda de poesia...

Serguilha e eu na Letras & Cia

Feliz por estar com Lais e Everton naquele momento de falar sobre a criação literária e ler nossos poemas, logo após a apresentação do Coletivo de Criação Literária Nos Lemos

Nos Lemos Por Aí - Com leitura dos contos do Sérgio Faraco e dos poemas do grupo. Uma manhã poética em uma Livraria clara com jovens poetas ouvindo os poetas do sul -  Encantada com estes dois espaços que acolhem os poetas de Porto Alegre - Letras & Cia e Palavraria - Lais Chaffe coordena o projeto Cidade Poema - e espalha poesia pela cidade - Logo na entrada da Livraria Letras & Cia - a poesia...


Encontros e trocas e outro inesperado encontro e pequena dádiva, ter sido apresentada ao Sérgio Napp - Músico e Escritor, que ao receber o meu livro retribui com um CD que ouço com a certeza de que Porto Alegre abasteceu minha alma por uma temporada inteira do inverno que me espera - O CD é belíssimo - Ângela Jobim interpreta Sergio Napp - este que ouço agora, com músicas belíssimas do senhor que Sidnei Schneider me apresentou na Palavraria enquanto ele deixava o local - E ele nem sabe o quanto amo música, o quanto amo música popular brasileira e o quanto amo estas pessoas que caminham como quem não quer nada e levam dentro este universo tão bonito e nada dizem, apenas te estendem um cd, um livro e um sorriso. Valeu, Porto Alegre!



.

Porto Alegre



Sérgio Faraco - o Homenageado da - Festa Literária de Porto Alegre - a foto de Bettina Vallandro - as  demais são minhas:

Lucia Rosa na tarde de sábado - Apresenta o Coletivo Dulcinéia Catadora - Os autores Xico Sá
e Altair Martins na platéia
Luis Serguilha - Lúcia Rosa - Lima Trindade
no Zelig no Recital - Sexta Básica
Meu amigo o poeta / tradutor Sidnei Schneider


abaixo - Cardoso - Cláudia Taje e Xico Sá na Palavraria
Lais Chaffe - José Antonio Silva - Liana Timm
antes da apresentação no ICBA

Festipoa

Fernando Ramos ao meu lado no palco, o editor do Jornal Vaia que agita Porto Alegre com a Festa Literária - neste ano em sua terceira edição.

Os dias de festa encurtam as horas. Quando estou em minha casa vivo esta elasticidade do tempo. As tardes que passo com meu neto de três meses - voam. A Festipoa voou. Uma sucessão de poesia saltando à flor dos olhos e uma sucessão de homens e mulheres embebidos em Água Viva.
Uma saudade de Clarice Lispector.
Uma saudade da minha amiga Rebecca Loise cujo amor mútuo explodiu em um olhar, na escuridão do porão do Wonka Bar, a menina com cabelos de fogo que sobe ao palco, este farfalhar de almas que ao primeiro momento se reconhecem. Lembrei minha amiga distante quando o mesmo instante-fagulha ocorre em um outro lugar, uma outra pessoa incrível que se aproxima - Marília - caminhar por Porto Alegre sem lenço ou documento e tomar café na confeitaria com Marília, Estela. Sempre uma Estela maravilhosa em cada esquina, com E ou com S. É de chuva o meu livro, é de chuva a bibliomância de quem abre e lê - a chuva baila cinza na vidraça que abre a cidade e as cicatrizes de concreto - algumas cicatrizes serão eternas, pois cortaram fundo demais...

Aqui tudo é esta alegria que apenas a poesia explica - atualizando notícias no twitter -  este menino corajoso que é um dos organizadores do evento - o Fernando  - que edita o jornal - Jornal Vaia -

Paranaue, paranaue, paraná.


Ontem na livraria Letras & Cia conheci jovens poetas e fui surpreendida por uma pergunta que Lais Chaffe está fazendo para seu projeto - cidade poema - Com qual poesia você quer ser lembrado? Nunca penso neste futuro improvável e alheio a mim. Hoje meço a temperatura dos meus poemas pelas publicações que permeiam em blogs, pelas palavras que caem em minha caixa de e-mail, escritas pelos que lêem meus livros e pela recepção do público nas raras leituras quando impera a força que o autor imprime. Qual poema espelha o que sou? Cada qual tem uma mínima fagulha desta poeta. Cada qual tem um - pedaço de mim.
Por conta da programação, vi apenas o final do debate do Luis Serguilha e Ronald Augusto. Uma pena, minha ânsia de ouvir sobre a poesia não se esgota. O lançamento dos livros da Dulcinéia Catadora e um debate com o Cardoso, Cláudia Tajes e Xico Sá, para fechar a noite em clima de festa. Com as discussões de sempre. Mesmo os escritores que chegam mais próximo das - massas - detesto esta palavra, mas, que seja - ou que é lido por leitores não tão enfronhados na Literatura Contemporânea - mesmo eles tem esta paixão pelo livro. Como eu tenho e como vi que não importa o lugar, uma poeta tecendo seus livros com furor e mostrando sua poesia molhada de chuva é, afinal, uma paranaense aqui nos Pampas. E foi este refrão que me acompanhou ontem quando o táxi nos trazia para o hotel. Um refrão dentro do coração a confirmar que sou de um lugar onde a luta vive junto com a dança. Então, não estou na poesia apenas para o grande baile, mas, posso seguir minha luta dançando pelas ruas do mundo, como fazem os livres.

Saturday, April 24, 2010

Música!

(armação de ferro - máquina de costura - lembrança da mãe esta peça que encontrei no hotel - no evento com Jorge Furtado, Pena Cabreira e Juarez Fonseca a foto foi tirada de longe, mas, são eles no palco falando sobre Música, tão bom esta evocação que abarca as canções mais belas que são a trilha sonora da sua vida - muito bom!)

.

Na manhã fria de Porto Alegre, no interior de um Café do Hotel um momento poético. O que apoia  o mármore - suporte do computador - é a engenhoca de ferro daquelas antigas máquinas de costura. A essência materna rompe o tempo e a dimensão e me abraça leve em um lugar onde a poesia brilha a me dizer que apenas isto necessito. Viver dia após dia em poesia, para virar páginas. Minha vida é mesmo um eterno virar de páginas  no ritmo dos sábios - viver o momento. O momento é de MÚSICA. Meu amigo Sidnei Schneider me acompanha e me apresenta a Festipoa, conheço a Palavraria - Espaço de arte e cultura - livraria, onde Jorge Furtado, Pena Cabreira e Juarez Fonseca conversam sobre letras de canções na música popular brasileira. Uma Festa Literária que abraça outras Artes - Uma inserção nas nossas canções mais belas e na narrativa dos três acompanhar as notas de um País inteiro desde Chiquinha Gonzaga até Arnaldo Antunes. A noite termina no Zelig - na Sexta Básica - com a alegria de conhecer Lima Trindade e a Lúcia Rosa do Coletivo Dulcinéia Catadora. Rever o amigo Luis Serguilha. Fernando Ramos - um dos organizadores - nos convoca ao palco para ler poesias e contos e novamente - MÚSICA - excelente música com Antonio Falcão e banda. Hoje a Festa recomeça cedo, Às 10h vou até a Livraria Letras & Cia. falar sobre poesia e lançar A Última Chuva. A música no ar, a palavra solta e o diálogo pleno com uma platéia que faz da Festa Literária de Porto Alegre um evento e tanto. É preciso raça, como disse a Maria Júlia que me apanha no aeroporto e faz com que eu me sinta em casa.

*
Não encontro um programa de transferência de fotos por aqui e espero até a volta para mostrar as cenas - dias de poesia e noites de música - uma cidade que vira poema.

Monday, April 19, 2010

Abertura Festipoa - Convite


Pausa no - Chá para as borboletas - para ir participar da Festa Literária de Porto Alegre - Dia 24 na Livraria Letra & Cia às 10h  com Wladimir Cazé e Laís Chaffe, vamos falar sobre nossas produções poéticas - com lançamentos e autógrafos - do meu livro A última chuva, (Belo Horizonte: Mulheres Emergentes Edições Alternativas, 2007)  e Macromundo (Confraria do Vento, 2010) de Wladimir Cazé

 



Programação
*Dia 20 de abril: Terça-feira (abertura):



Na Palavraria:

17h: Cíntia Moscovich e crítico e curador de arte Jacob Klintowitz (SP) conversam com Sergio Faraco sobre produção de contos e tradução.

18h30: Maratona Literária 7, com leitura em voz alta, em revezamento da coletânea de contos “Dançar tango em Porto Alegre”, de Sergio Faraco.

19h: Edgar Vasques conversa sobre literatura adaptada para HQ com o artista plástico e designer gráfico Fabriano Rocha e o escritor e artista gráfico Leandro Dóro.

No CineBancários:

15h, 17h e 19hs: Sessões dos filmes Ferreira Gullar, a necessidade da arte; O canto e a fúria; e Por acaso, Gullar.

Sinopses:

Ferreira Gullar, a necessidade da arte: (2005), produção e direção de Zelito Viana, co-dirigido por Vera de Paula, Aruanã Cavalleiro e Cláudia Duarte, realizado pela Mapa Filmes, baseia-se nos depoimentos do poeta maranhense sobre a arte ocidental e suas transformações desde o Renascimento até a produção contemporânea.


O canto e a fúria: Documentário com depoimentos de Ferreira Gullar, direção de Zelito Viana, 1996. Sempre no mesmo cenário, Gullar fala de todas as fases de sua obra: conta casos engraçados como o fracasso do "Poema enterrado", criado com Hélio Oiticica; explica a opção que fez pela poesia política no início dos anos 60; e ainda lê alguns de seus poemas preferidos.


Por acaso Gullar: 2005 - Em uma conversa informal com o poeta Ferreira Gullar em sua casa, o acaso é tema e guia. Gullar fala sobre seu processo de criação, mostra suas colagens e pinturas, e revela seu humor e seu encanto com o fazer artístico em um filme guiado pelo improviso, como um cinema-jazz, que só se revela na montagem. Participação: Maria Bethânia. Direção: Rodrigo Bittencourt e Maria Rezende.


No Café da Oca:

20h30 às 23h30: Mostra artística Cabaré do verbo: música e leituras de poemas, Diego Petrarca, Lorenzo Ribas, Karine Capiotti, Petit Poa-RS, Rádio Putzgrila, Rodolfo Ribas, Rocartê, Projeto Floco e exposição de trabalhos dos artistas plásticos Carla Trautmann, Gui Beck e Marcelo Monteiro.

Van Gogh By Ia - Salvador

Sunday, April 18, 2010

ODE AO SILÊNCIO



"Cala-te ou dê algo melhor do que o silêncio."  - Pitágoras

O silêncio é a Música das Esferas da qual Pitágoras falava. Nada existia de mais belo para ele que o silêncio quando ele saia para ouvir as estrelas nas noites. E esta epígrafe – cala-te ou dê algo melhor que o silêncio – fica ao meu redor neste tempo sonorizado. Tempo aturdido e sem um instante de céu de Pitágoras.
Eu recordo a mãe e sua aura silenciosa e tento ouvir os pensamentos antigos que ela aninhava dentro daquela redoma onde nada penetrava. Volto ao ninho de amor – do mais belo amor  – uma casa incrustada em uma serra, erguida acima de um rio e o amado a meditar sentado em posição de lótus em uma rede branca. Lembra a escultura de Rodin – O pensador – onde o homem apóia seu rosto em sua mão e se isola de tudo, em silêncio. Rodin a chamou inicialmente de – O poeta. E, sendo poeta, entendo Rodin quando ele quis chamar de Poeta seu Pensador. A poesia nasce no silêncio e diz a Mitologia que o silêncio nasceu antes do AMOR. Os pensamentos, as imagens e as lembranças fluem agora – s-i-l-e-n-c-i-o-s-a-m-e-n-t-e.
As coisas eternas e imutáveis são silenciosas – as árvores, as montanhas, os lagos profundos. O canyon imponente - catedral de pedra cujo hímen rompido por algum estilhaço de deus irado rasgou ao meio a montanha. Amantes repartidos que se contemplam eternamente. O silêncio tem me interrogado em cada manhã. Quer sugar-me para dentro do seu ventre branco. Traz-me notícias de um éden que desconheço, ou que conheci tão pouco, tão etéreo, tão  fugidio, quais os beija-flores que vinham em asas vibrantes a nos visitar na varanda do amor.
Meu pai amava o deserto. Quando a vida exigia e ele se entristecia com algo, ele dizia que ia embora para o deserto.
O deserto foi minha paixão desde que o li Saint-Exupéry, aquela eternidade calcinada de areia e o vácuo e a paz do não ruído flanando e um príncipe pequeno pousando do nada.
O deserto do meu pai, o deserto de Paul Bowles, o deserto do aviador francês que concebeu um príncipe eternizado que diz de uma rosa e do amor como laço de escravidão  com a palavra de aço - responsabilidade – uma pequena  fábula que engendra um amor estranho. Eu via como belo quando era menina. Hoje os sacrifícios e as palavras do livro falam-me de um amor  pequeno. O grande amor não agrilhoa, não prende, não usa metáforas de rosas, não espera nada, nada diz.
O verdadeiro amor é como está em Coríntios -  Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
O amor que nasceu do silêncio tem esta verve de entrega, de dar e não esperar nada. Segue sua estrada e quando reencontra o objeto amado está lá inteiro, mãos estendidas, sorriso prateado de estrelas.
O silêncio não abandona os corações. Está sempre ali, à espera no canto da parede cavernosa.  Quando o ruído estronda, quando a maré invade, quando a cólera colore de sangue tudo, ele está esquivo, quase parede, quase coração, à espera que tudo se acalme que o sangue escoe que a dor crie asas para regenerar a casa, sem exigir nada.
O silêncio é como a mãe em todas as madrugadas do mundo. A mãe que pisa com pés de tigresa, para não ecoar som algum pela casa. A mãe que se debruça, respiração opressa, sobre um berço e cuida que haja paz para a criança que dorme. A mãe que consegue atravessar madrugadas  sem voz, sem ruído. A acompanhar a respiração de  um filho doente. Esta é a alma do silêncio. A música do silêncio que não é apenas aquela de Pitágoras em suas caminhadas na noite, perscrutando astros. O ritmo que ele colheu das estrelas e utilizou para criar a escala de notas, enriquecer a cítara com seus acordes e segredos emprestados dos astros.
A  música de John Cage, sua sinfonia do silêncio. A peça para piano intitulada 4'33". Sinfonia que não possui nenhuma nota, sendo composta inteiramente por pausas!
Para testá-la ele a ouviu dentro uma câmera anecóica, que é uma sala construída de tal modo a cancelar todos os ruídos ambientes. Ainda assim, ele  não ouviu o silêncio absoluto. Ele ainda conseguia ouvir um barulho - o ruído do próprio coração.
O silêncio nosso jamais será o silêncio de Deus. É o silêncio da matéria. Deus é a não matéria.  Significa que só a Natureza possui totalmente Deus: As árvores, os vales, as montanhas e as flores. Nós o possuímos  com uma parcela de humanidade, este coração que bate e interfere na sintonia pura. Por isto, só abraçaremos em eternidade o silêncio após a morte. Penso neste silêncio em um tempo onde os ruídos me raptam, onde a rua com suas máquinas possantes se transformam em uma orquestra desafinada vinte e quatro horas ao dia. Penso no silêncio por que o desejo como meu pai desejava o deserto.
Aquele verso sublime da canção –Silêncio- Que Ormara Portuondo e Ibrahim Ferrer interpretam:

Silencio, que están durmiendo
los nardos y las azucenas.
No quiero que sepan mis penas
porque si me ven llorando morirán
 
Para que não morram as flores devemos buscar o silêncio. Para que as geleiras não desabem e evoquem o apocalipse narrado. Para que os filhos não cresçam com os acordes da mágoa. Quando penso em silêncio eu penso - Rio. O silêncio caudaloso e verde. O eterno singrar para um destino, sem alarde. Os rios silenciosos que assistiram ao nosso amor. O silêncio das esferas prateadas de Pitágoras e da alma do Poeta que Rodin tecia, em pedra.
O silêncio das pedras, das nuvens, da lua miraculosa. As águas banhando silenciosamente as encostas desabitadas. O silêncio de uma paisagem.
O silêncio de um amor que não pode ser narrado. Guardado em uma estrela. A mais amada por Pitágoras.
O silêncio fecundo das manhãs esperançadas, todas que acordei com o aroma fecundo do café que minha mãe passava, o silêncio fecundo do novo, esta alegoria bonita - a surpresa da vida que chega sempre depois de um silêncio fecundo. O silêncio de um respirar profundo, ar invadindo cavernas de um coração necrosado, derrubando as carnes mortas e implantando a luz do silêncio, a música do silêncio, a partitura do silêncio. Regenerando tudo, à revelia de todas as profecias más. A profecia maior é o Amor. A profecia que os poetas escrevem com signos invisíveis – eternamente – à sombra de um rio.
BÁRBARA LIA

- Coreógrafa do Caos - Coleção Ônix & Cereja - ed. 21 gramas

Prosa poética

Friday, April 16, 2010

Sopro de Deus

.

Sigo distraído e breve: piedade na alma
opulência no calabouço.


Sigo sereno, neblina me abraça.
Meu corpo um jarro de esperanças. 


O amor – única navalha que me corta.
Aprendi que somos sopros de Deus – instantes.


Bárbara Lia
O sal das Rosas
Lumme Editor/2007

Thursday, April 15, 2010

PRÊMIO UFES DE LITERATURA 2009/2010


 

Já está no prelo a Antologia do Prêmio Ufes de Literatura - Prêmio organizado pela Universidade Federal do Espírito Santo. 10 poesias inéditas vão entrar nesta Antologia que reúne as poesias e os contos dos dez premiados.

Saturday, April 10, 2010

Festipoa - Programação

Dia 24, sábado, na Letras & Cia:

09h30: Grupo Nos Lemos (Manuel Estivalet, Bruno Brum Paiva, Janaína Quiroga, Nelson São Bento e Tina Gonçalves).

10h: Bárbara Lia, Wladimir Cazé e Laís Chaffe conversam sobre suas produções poéticas. Lançamento e sessão de autógrafo dos livros A última chuva, de Bárbara Lia e Macromundo, de Wladimir Cazé.



Dia 24, sábado, no Instituto Cultural Brasileiro Norte-Americano:

11h: Projeto Bate Boca Bom: Linhas de fuga e transmigrações da poesia de língua portuguesa: painel com Luis Serguilha e Ronald Augusto. Mediação: Liana Timm. Lançamento e sessão de autógrafo do livro Korso, com Luis Serguilha.

14h: Lúcia Rosa fala sobre o coletivo Dulcinéia Catadora. Lançamento e sessão de autógrafos dos livros Quatro quartos, de Monique Revillion e Duas palavras, de Altair Martins.

16h: Exibição de minimetragens do projeto Cidade Poema e leitura de poemas com autores convidados do projeto coordenado por Laís Chaffe.

16h30: A poética do mar: da poesia de Castro Alves à canção de Dorival Caymmi, poesia e música com Marlon de Almeida e Moisés Dornelles.

18h30: Vida e obra de Oliveira Silveira, com Jorge Fróes e recital de poesia com Vera Lopes e Grupo. Lançamento de antologia de poemas de Oliveira Silveira.



Dia 24, sábado, na Palavraria:

16h: Riobaldo e eu, a roça imigrante e o sertão mineiro: Luis Augusto Fischer conversa com José Hildebrando Dacanal.

17h30: Leitura Desacordo ortográfico, com Reginaldo Pujol Filho.

18h: Debate com Xico Sá, Cardoso e Cláudia Tajes. Lançamento e sessão de autógrafo de Chabadabadá – aventuras e desventuras do macho perdido e da fêmea que se acha, com Xico Sá

 
 
A Festa Literária de Porto Alegre é de 20 a 25 de abril
Acima a programação do dia 24 - abaixo o link para a
PROGRAMAÇÃO COMPLETA:
 
 
 
...
 

Festipoa

Autores

Alexandre Brito
Altair Martins
Ana Mariano
Caio Riter
Carlos André Moreira
Carol Teixeira
Cassio Pantaleoni
Cris Cubas
Diego Petrarca
Edgar Vasques
Guilherme Moojen
Ítalo Ogliari
José Antônio Silva
Laís Chaffe
Leandro Dóro
Leonardo Marona
Luis Pimentel
Luis Fernando Verissimo
Marcelo Spalding
Márcio-André
Maria Rezende
Monique Revillion
Olavo Amaral
Paulo Tedesco
Reginaldo Pujol Filho
Rafael Bán Jacóbsen
Ricardo Silvestrin
Rodrigo Rosp
Rubem Penz
Sidnei Schneider
Telma Scherer
Walmor Santos

Nova capa do livro NooN




NooN - Bárbara Lia
- foto da capa -
Mel Bandeira

Friday, April 09, 2010

Felipe Stefani

E eu que amava o sonho dos pássaros,
dizia às vozes imprevisíveis
que dormiam no mar:

Como posso sonhar,
se a exatidão em que navegam as aves
é maior que a própria vida?

E as sombras do silêncio repetiam:

"É preciso cantar para invadir o segredo".


Felipe Stefani, Manly, Australia, 2010. 

Tuesday, April 06, 2010

Oração a São Dalton da Curitiba impossível, invisível, risível, ou qualquer coisa que o valha...


 .


São Dalton da Curitiba impossível
Ajuda-me a ignorar os vampiros daltônicos
A atravessar incólume a chuva de cólera
Senta ao meu lado em um coletivo e unge minha testa
Para que eu ouça apenas os belos da cidade insone:
Os Eleotérios das livrarias
As polaquinhas do Passeio
Os pedintes da XV
Aponta o altar onde te benzes contra os anjos do rancor
A lua que escalas nas noites para tornar invisível teu semblante
O elixir que tomas para ignorar quem te usa para 'brilhar' um instante
Guia meus passos até o labirinto da expressão humana
Me ensina a lavar  as sandálias na fonte da compreensão
São Dalton Trevisan das causas sempre ganhas
Dos 77 ais que guardas entre as costelas
Como um antídoto para as facadas dos teus desafetos
São Dalton amigo das violetas nas sacadas
Unta-me apenas de poesia e me esconda do resto
Eu, quase invisível na cidade dos invisíveis
Nesta Curitiba impossível  
De ódios tão pequenos como os enredos escritos para nos ferir
O sol dos contistas de todos os séculos se levante sobre mim
Com a tua força e com aquilo que posso te dar
Um chá sem horário e sem tédio
Pleno de rimas e mariposas
E esta  vibrante camélia entre os meus dedos

Deixo aos teus pés , São Dalton da Curitiba impossível
Por todos os séculos dos séculos... Amém! 

Bárbara Lia


;



Só a obra interessa.O autor não vale o personagem. O conto é sempre melhor que o contista. Vampiro sim, de almas.Espião de corações solitários, escorpião de bote armado. Eis o contista. Só invente o vampiro que exista. Com sorte, você adivinha o que não sabe. Para escrever mil novos contos, a vida inteira é curta.Uma história nunca termina. Ela continua depois de você.Um escritor nunca se realiza. A obra é sempre inferior aos sonhos. Fazendo as contas percebe que negou o sonho, traiu a obra, cambiou a vida por nada. O melhor conto só se escreve com tua mão torta, teu avesso, teu coração danado. Todas as histórias, a mesma história, uma nova história.O conto não tem mais fim senão começo. Quem me dera o estilo do suicida em seu último bilhete. (Dalton Trevisan)

....


...

Thursday, April 01, 2010

Contos Grotescos





(O elevado nível literário é o que caracteriza "Set", conto classificado em quinto lugar no "I Concurso Literário Contos Grotescos - Prêmio Edgar Allan Pöe". Nele, a ressurreição de um instinto assassino é narrada com rara maestria)
- Texto acima retirado do site - Contos Grotescos -  "I Concurso Literário Contos Grotescos - Prêmio Edgar Allan Poe"




SET


Meu nome é Zayin. Um signo, dos mais potentes. Símbolo sagrado para os filhos de Abraão (o imaculado que significa o Zayin) por mim vilipendiado e desonrado. Meu sobrenome – Neves. Zayin Neves. A sétima letra hebraica – Zayin. O Neves invertido – Seven. E além do nome duplamente assinalado sinto que tenho a alma horripilante do meu duplo, o deus Set. O horripilante assassino que há dentro de mim ressuscitou na noite em que vi a mulher com o Zayin tatuado no lírio da pele. A ruiva do Bar Sossego. A tatuagem dela na nuca raspada, abaixo dos cabelos de fogo, o símbolo


Acho que nos olhamos por pura identidade. Ruivos. A pele enferrujada, os cabelos vermelhos e os olhos azuis como duas contas de vidro. Na mesa ao lado, quando ela se curvou para ouvir melhor um senhor que tentava falar mais alto que a música, sem conseguir, brilhou a tatuagem diante dos meus olhos. Negro no branco e acima os cabelos curtos - chuva de fogo. Estremeci. Um desejo que rasgou meu plexo solar de forma dolorida. Um desejo. Eu, o campeão de desejos nunca realizados. Eu, o abandonado. Eu, o órfão, órfão sempre. Eterno órfão no sótão negro.
Um verso de Dante em chispas na memória, tal qual a fagulha elétrica que produz o encontro de dois fios desencapados... Nas chispas da memória entre o azul do atrito de fios desencapados - eu - o menino no sótão mal cheiroso. Só, entre as réstias do sol que entra pela janela. Um e outro raio clareando a tessitura prata da aranha que era minha companhia. Lendo livros que tumultuaram todos os neurônios em uma guerra caótica:
O certo o errado.
Deus e o demônio.
Céu e inferno.
Guerras e amores aflitos.
Uma sucessão de símbolos.
Um menino perdido no sótão com Clarissa, a aranha confidente. Ela seguia meus passos rangentes pelo quarto pequeno, e observava meu caminhar, e respirava uníssono para não acordar-me nas noites. Sentia até mesmo a alegria em seu ego aracnídeo massageado cada vez que meu olhar celeste palmilhava cada milímetro da sua teia.
O verso de Dante sacode o mar interior.
Não. Nunca tive um Virgílio a palmilhar o reino da escuridão que se chama viver.
Ela estanca diante da minha mesa. A moça tatuada.
- O senhor já escolheu?
- Uma Bohemia.
Na hora de pagar a conta não consegui me conter.
- Que horas termina teu turno?
- Dez da noite...
- Se importa se eu te esperar? Meu carro é aquela Pajero, cor violeta...
Aponto para a rua. Diante do bar o carro embaixo de uma árvore, no escuro noturno, com sua cor estonteante – violeta - sétima cor do arco-íris.
- Ok!
Ok. Amava o século das condescendências.
Sorriso fast-food.
Tudo à mão na hora que se quer...
Ok, ok ok ok ok ok ok ok ok ok
Fui dizendo ok da minha mesa ao interior do carro, liguei o rádio.
We are de champions, my friends...
Há quanto tempo não ouvia Queen?
Noite sete de confusão interior.
Quase viro a chave na ignição e esqueço a ruiva tatuada que deve deixar dentro de alguns minutos o trabalho. O ódio vence. Desligo a chave.
O casarão nas imediações do Lago Barigui era herança da mulher para quem meu pai me entregou em adoção, ela era enfermeira. Aquela que me alimentava pouco e me trancava no sótão escuro. Na meia-idade, quase chegando à velhice, cativou um solitário.
Na adolescência a guinada súbita e o estranhamento. Ficar rico de repente. Minha mãe postiça era alma gelada. Sem têmpera. Sem cor. Bege. Nada mais cruel que uma pessoa bege. São as pessoas bege que criam os monstros, são as pessoas bege que descolorem todas as pinturas do paraíso.
Para que eu pudesse ter uma vida sempre calma, ela disse sim ao senhor embora estivesse brilhando no olhar a ausência do amor e do desejo. Mas já havia fantasmas demais no meu sótão, vômito de harpias, coco de morcegos, mênstruo das serpentes antigas.
Quando a ruiva abriu a porta e me olhou e sorriu como uma ovelhinha que segue o carniceiro, meu pensamento voou até meu quarto, para lembrar se "por puro acaso" lá estava uma caixa com pequenos envelopes de estricnina. Sim, estava.
Minha sala poderia ser a sala de um apartamento do centro de Nova Iorque. Minha sala se dava ao luxo de ter um quadro de Portinari, um piano branco e uma leveza que fez a menina arregalar os olhos. Jogo meu charme...
- Vinho?
- Nooooosssaaaaa! Que linda a tua casa.
- Olhando esta estrutura de pedra antiga ninguém imagina um mundo moderno aqui, não é?
Por um momento imaginei um instante normal: um homem e uma mulher, o vinho, uma trepada cinematográfica, descobrir a temperatura da pele, embora eu pressentisse que ela era uma daquelas pessoas que armazenam gelo na superfície, estas que quando se abraça nada se sente.
Na segunda vez que derramei o vinho na taça dela, derramei a morte, e esperei que ela morresse silenciosamente no sofá.
O silêncio da noite era quebrado pelo som alto da sinfonia, para que não ouvissem o meu cavar à luz lilás da lua, abaixo do imenso pé de ipê.
No meu banheiro cinco estrelas eu tocava meu corpo, o sexo murcho, sem demonstrar nenhuma reação, desde o instante no bar quando pedi a cerveja até o instante que a última pá de terra a soterrou.
Coloquei uma roupa esportiva e fui correr no Parque Barigui.
Depois do crime, da manhã estranha, do almoço inquieto, do banho e do chá de melissas. Lembrei Flor. Flor de Lis. A menina do sobrado ao lado da casa tétrica onde me enfurnavam no sótão - tardes e noites – a casa onde eu vivia como um abandonado. Aos sábados a madrasta abria as asas e se fazia humana, e eu podia brincar no quintal de Flor, diante do olhar de sua mãe.
Flor de Lis foi o meu refúgio divino naquela infância de pedra.
Acho que o último comboio que levou Deus para sempre do meu mundo foi o mesmo que levou Flor de Lis.
Nada me faria esquecer Flor.
Ela saltitando na única neve curitibana, seus braços abertos e a neve, seu gorro branco branco branco, suas mãos me chamando para o quintal, e nossas mãos meninas tecendo o boneco eternizado naquela foto que adorna o meu quarto:
- duas crianças, um boneco de neve, uma casa azul ao fundo –
Uma alegria pequena na minha face sempre tão agressiva.
No tempo -  das tardes de Lis - eu me recolhia ao sótão, ao fúnebre ar daquela casa, e me enrolava naquela colcha de retalhos, de tantos retalhos de tantas cores, que eu já decorara cada milímetro e dormia esperando o sábado. E desenhava a flor que era seu nome, e meu quarto era inundado da flor da real flor da monarquia francesa. A vida era leve com Flor, e só sobrou mesmo voltar à companhia da aranha, depois do drama, do fim. 
Lembro que não chorei, pois estava estático - dentro e fora.
Uma mão de ferro embalsamando cada músculo meu.
Não me lembro de mover um músculo, nem uma lágrima, nada.
Minha infância e suas perdas ininterruptas.
Pai Mãe e Flor.
A ferida mortal no cérebro extirpou-a tão rápido da cena, com raiz e tudo... Ficou a doçura de histórias e tardes e uma foto que prendeu meu olhar pelo resto de um sábado inteiro. O que Flor diria a seu amigo louco? Minha náusea ao lembrar a menina e a vida pura fez com que eu corresse e vertesse minhas golfadas no banheiro. Vomitar até sentir que eu saíra de mim. Depois guardar a foto dela entre as toalhas perfumadas.
Nos jornais por meses a pergunta era sobre o desaparecimento. A cada dia eu acordava com toques de campainhas e toques de celulares, mas, depois era só o bem-te-vi e olhando da janela eu via a árvore e as folhas lilases beijando a terra e o ar calmo das manhãs foi lavando o medo.
Matar, no entanto, é soltar o trenó do alto da montanha de neve.
Eu havia acionado a minha descida ao inferno, sem Virgílio, sem Dante, e pior, minha Beatriz estava mesmo no céu, com nove anos e um vestido azul.
Só lembrava depois de cada morte que sempre era sete, que eram peles de lírio e que eu tinha um rasgo de lucidez, pois apanhava as vítimas sempre onde não havia ninguém, testemunha alguma, sempre na solidão, eu a mulher branca e o ódio antigo.
A gótica chorando sentada no monumento do centro histórico. Largo da Ordem. O cavalo babava silenciosamente. Nunca entendi aquele cavalo que baba, que simbologia estranha.
Fim de tarde de um dia sete na Estrada Graciosa. A moça parada e o carro quebrado. E o mesmo jeito estranho de segurar os cigarros – como a madrasta - não como todo mundo entre os dois dedos. Ela segurava como a madrasta. Unindo polegar, indicador e anular, e tinha o mesmo jeito de sacudir os ombros. Dizia que Deus me mandara.
Naquela manhã acordei com ressaca e tomei um banho rápido e tomei um suco de laranja. Quando meu corpo caiu no azulejo frio, em um átimo de segundo compreendi de onde vinha aquele “açúcar”. Na euforia do momento esqueci três pequenos pacotes do veneno no criado mudo. A última mulher, com ela fiz amor. A boca quente dela e suas mãos tateando meu corpo, tudo isto me fez esquecer o resto. No outro dia estava lá a diarista, Rita. Rita, a mão de vaca. Pude ver Rita confundindo o pacote com aqueles dos aviões e dos cafés que eu frequentava. Rita, a econômica. Pude vê-la balançando a cabeça e colocando o pó no açucareiro. Último som que ouço - gargalhadas trazidas pelo vento embalando as flores, as flores roxas adornando-me, a porta da cozinha aberta, e o vento depositando riso lilás na porta. Estendi a mão para discar o número de emergência e no meio do meu torpor, o mundo todo esgazeado, uma ciranda abaixo da árvore.
Uma ciranda de mulheres brancas e aladas rindo do meu fim sem glória, patético ao extremo.
Bárbara Lia