Saturday, February 20, 2016

Homenagem: Todo dia é dia da mulher




O dia das mulheres se aproxima e hoje fiquei bem feliz com uma homenagem no blog do Projeto Tataritatá do Luiz Alberto Machado, clicar neste link:


Ao lado da incrível Norah Jones e de um conto do Luiz Alberto Machado, o meu poema - Amar é respirar em casas naufragadas - e esta homenagem... Começar bem o final de semana:

VIVA LA VIDA!


Thursday, February 18, 2016

A garota dinamarquesa



'Meu Oscar" vai para o Eddie Redmayne... Ele me assombra. Ele incorporou Stephen Hawking... Agora ele arrasa como Lili.
Que espetacular sensibilidade vive neste moço que o torna uma espécie de vaso virgem que se transforma quando derramam dentro dele uma qualquer alma. 
O filme mostra os eventos da vida do pintor noruguês Einar Magnus Andreas Wegener, primeira pessoa que submeteu-se a uma cirurgia para
mudança de sexo, para - enfim - tornar-se Lili, aquela que gostaria de serdesde o início. Esta troca de amor palpável na tela é possível pela interação impecável dele com Alicia Vikander. 
Precisamos falar de Gerda...
Em um tempo em que tudo está tão na fala e longe da ação, ela amou. Ela AMOU. Ponto final. E penso no final daquele meu conto Mulher na Árvore. E a frase final fica batendo como sino. A certeza da beleza. Os esvoaçantes lenços claros sobre as charnecas, a coragem de transubstanciar o querer, por puro Amor... E a frase bate, como os pingos da tempestade no pátio lá fora:
- permaneço no amor.

As telas são de Gerda, que tocou meu coração de poeta com tanta beleza. Amei! Amei!

sozinha na praça ônix (leitura poética de um sonho)




ela disse:
sou arquiteta de ideias
e primeira prostituta
no lupanar Pompeia
ao meu lado na praça ônix
nocauteava o chão
com seu salto agulha
cruel Marilyn Monroe morena

à minha esquerda
procissão bizarra
loucos estropiados
de olhos esgazeados
cantavam uma música
incompreensível

acima o céu estupendo
pontos brancos bordados
no cobalto irascível

na noite rançosa
sacudo asas
flano a dez centímetros
do ônix impassível

on the road singular
nem os loucos de lá:
nem a deslumbrada de cá
sigo á procura de quem
pesa menos que ar

Bárbara Lia

photo by Jan Saudek

Thursday, February 11, 2016

Sylvia Plath

Um céu / sem estrelas e sem pai: uma água negra
Sylvia Plath



O céu água negra de Plath
Pleno de alegorias fatídicas
Bebês carbonizados e Medusas
Ovelhas de neve na névoa
A balir para a enigmática lua
Em seu capuz de ossos

Bárbara Lia
Lua de Boston (21 gramas)

-- 11 d fevereiro, 53 anos da morte de Sylvia Plath ~~

Tuesday, February 09, 2016

de amantes







se escrever 
é a única forma 
de te tocar
toda verborragia
substituirei
pela poesia/silêncio
em tua presença 
nada será dito 





***



vem para meu corpo
e fica
como um épico
que atravessa séculos
e segue êxtase

    

***




Imagem - La despedida de los amantes - Carlos Acostaneyra.

Sunday, February 07, 2016

as filhas de manuela




Era bela a silhueta de Maya pelos bulevares. Jean-Luc seguindo-a como se ela fosse o ar. Ela era noturna. Durante o dia usava sombrinhas coloridas, para não permitir que o sol denunciasse sua sombra de sangue. As pessoas paravam para olhar a sua silhueta esbelta, com seus ternos femininos de cores claras e a sua beleza rara. Sua pele claríssima, herança de Savério. Seu cabelo escuro, herdado de Magnólia. Ninguém diria que ela era uma mulher amaldiçoada. Quando ficava nua diante da janela, sua sombra era escultura escarlate no chão claro. E ela, a sós, achava poético ter uma sombra sangrada. Achava bela sua sombra que vibrava mais que a sombra das mulheres da família, achava que era pelo seu excesso de vida. Quiçá por ser ela fruto de um incontestável amor. Admitia. Sabia da inquebrantável linha solar que unia sua mãe ao italiano. O pai era seu pequeno deus e ela o adorava. E ele nada cobrava. Não dizia nada, não fazia como Magnólia que a queria outra Uma menina quase deusa, uma pessoa magnânima talvez.

As filhas de Manuela
Bárbara Lia
Menção Honrosa no Prémio Fundação Eça de Queiróz, em sua primeira edição



Neste ano o Prémio Fundação Eça de Queiroz premiará um ensaio... o link abaixo para o regulamento do concurso...

Saturday, February 06, 2016

escolhas...





Algumas coisas não merecem nossa atenção, mesmo que tenham sido criadas com a intenção de chamar nossa atenção... 
Uma vez ouvi Gonçalo Tavares dizer que - as pessoas que sabem que não são eternas precisam dedicar seu tempo apenas ao que é importante - mais ou menos isto, não recordo as exatas palavras. Apaguei uma postagem. 
A vida segue e só as coisas belas devem chamar a atenção. As coisas pequenas, a gente contorna...
Ninguém para no meio do caminho ao redor de lixo ou lama. De minha parte, gosto de olhar os passarinhos pela rua, as flores que não tem jardim e nascem meio às calçadas, a chuva, as casas bucólicas e as crianças.
Tenho sessenta anos, e nem comecei a contar minha história.
Esta é minha escolha... Escrever, contar histórias.
Peço desculpa aos meus leitores, de vez em quando publico coisas que não interessam à poesia. 
E depois eu penso: o que isto acrescenta à minha obra? E já sei a resposta: NADA.
Só peço desculpas e sigo...
A Poesia é MAIS...





algumas poesias na mídia impressa




Algo a respirar nas casas naufragadas



Amar...
É respirar em casas naufragadas
É virar, subitamente, raro anfíbio
É ser peixe estrela do mar arraia
É uma canção de afundar navios

É romance brutal de Almodóvar
Filmado em cenário de T. Mallick
É ser uma libélula acima do lodo
Âmbar antigo cravado nos ossos

E o amor é este visitante indócil
A revirar alma, móveis interiores
Corte rascante que – ao cicatrizar –
Deixa eternos traços de Pollock

Alegoria cicatrizada, pura loucura
A loucura, a loucura, a loucura...
Que persigo como um cão ferido
E já sei a curvatura do calcanhar

O amor é todo não/dor que atiras
Lava meu rosto em lágrimas de cal
Grão de angústia, ária de flechas
É sermos um único ser, qual o mito

Atados pela cervical – eu quero ir
E tu queres ir e, atados, eu não te
Levo comigo e tu me paralisas –
Há que vir um deus antigo, saído

De – O Banquete – de Platão
Cortar o que ata minha coluna
– que me sustenta ferreamente –
À coluna tua a desorientar passos

Depois de livres, continuar atados
Não mais de costas um ao outro
E ao amor... Mas, frente a frente,
Boca a boca, luz a luz, a caminhar

Entre destroços de um navio soul
Ouvindo canções em ritmo lerdo
Corpos colados em ritmo violento
Para recuperar o tempo, enganar

O tempo, apagar o tempo, amar
Enquanto é tempo, amar enquanto

Há tempo

Bárbara Lia

poema que integrou a matéria - 7 poetas paranaenses - de Marleth Silva - G Ideias - edição impressa - dezembro 2014

ilustração de Rafa Camargo para um dos 3 sonetos publicados no Jornal Rascunho - da série diálogos com Fernando Pessoa:

O ano da morte de Ricardo Reis


Não cante o desprezo dos deuses, Ricardo
Não colha as flores mortas ao lado do Tejo
Os fardos humanos são apenas isto – Fardos
E os beijos sensuais são apenas isto – Beijos

Sou toda verão na alcova, acesa,  à tua espera
Estonteante mulher que levas a ver as flores
Enquanto os pássaros trinam alto – Neera!
Nada nos falta, mas, em ti brotam mil dores

Quando a morte te buscar, aquela que conheces
Voltarei aos prados colhendo as flores vivas
Tocarei a pele do planeta murmurando preces

Banquetearei na relva, as flores como convivas
Dói, Ricardo, saber que todos os campos serão meus
Ainda orvalhados de lágrimas dos belos olhos teus

Bárbara Lia



Revista Coyote n°10 


Ramagem arranha janela.
Sonho:Aeroporto fantasma.
Espíritos de náufragos do Titanic.
Ku Klux Klan ateando fogo ao enforcado.

Seqüência horripilante:

A mulher sem olhos na cama,
entre lençóis úmidos de chuva.

Acordo com o bem-te-vi
na manhã de sol
na mesma paisagem.


BÁRBARA LIA



ontem choveu no fututo - número nada

Revista Etcetera - Travessa dos Editores








Insônia





Este é o século da nossa insônia
Mentes plugadas em telas isonômicas
Longe dos mitos e da cosmogonia
Dopados de “soma” e monotonia

Este é o século lavado à amônia
Escravos cardíacos da luz de néon
Escravos maníacos dos mantras
Escravos agônicos do abutre Mamon

E havia esperança no pássaro
Havia luz nas colmeias tardias
Havia ar nas barricadas de Paris
Havia armar-te. Havia amar-te... Havia.

Bárbara Lia in Respirar (2014)

photo by  Vladimir Kudinov