Wednesday, July 28, 2010

Leminski & Bueno


 
Wilson Bueno foi convidado a compor o debate poético com o Edu Hoffmann no Projeto - Café, Leite-Quente e Poesia, no Café do Paço - O tema Oriente x Ocidente. Logo após dizer sim ao Elisson Silva, o Bueno foi assassinado - a ideia segue como homenagem. Por isto, esta edição do projeto do Café do Paço - no Paço da Liberdade - vai ser em homenagem ao Wilson Bueno...
Oriente x Ocidente
dia 07/08
16h
Café do Paço
Curitiba
Entrada Franca


e no Wonka Bar, homenageando Leminski:




"Sinal cifrado para enovelar o divino"

Imagem de Pia Calderón






Trinta e dois ventos
    da rosa dos ventos
Vinte e um gramas
    do peso da alma
Oito países
    a comandar a Terra
UM Deus louco
    pelas ruas bombardeadas


Bárbara Lia
in Antologia do Prêmio Ufes - Literatura

Monday, July 26, 2010

Hoje é dia de Arthur!


Minha filha Tahiana e Meu neto Arthur

Não comemoro as datas. Apenas uma significava MUITO. O dia das Mães. Acrescenta-se agora ao momento que vivo o dia da Avó. Quando ele nasceu prometi que escreveria histórias de reis, pois seu nome é Arthur. Fico muda e pasma e as palavras morrem pequenas diante do menino. A poeta Maria de Lourdes Jaude mandou uma carta, um acróstico ao Arthur e eu rabisco alguma emoção que salpica. Hoje é meu dia, logo mais ele chega e vamos viver mais uma segunda-feira sem pressa. Uma tarde, apenas nós dois na casa, lembrei da importância das palavras. Ele estava deitado de costas na minha cama e eu disse - Vou te ensinar as palavras que você vai precisar pela vida: - Amor! Eu disse, tentando iniciar uma fila de signos. Então ele abriu um sorriso do tamanho do mundo. Esperei um segundo, então repeti; - Amor! Ele sorriu novamente, esqueci as milhares de palavras e pensei - na verdade é apenas desta palavra que a gente precisa.
Não falo da minha vida privada, sigo com a certeza que só a obra de um escritor interessa. Mas, hoje é dia da avó e estou vivendo esta saga poética. Não consigo escrever sobre, mas, vou escrever para ele uma história. Um dia comprei para Arthur uma abelhinha colorida e ele amou, então, para ele compus um bloco artesanal, coloquei um desenho meu - três gatinhos na janela - e lá pousou um único texto, com a dedicatória:
Ao menino que tem uma abelha e o céu inteiro



"Au clair de la lune
mon ami Pierrot..."
Aprendi esta canção francesa na escola. Com ela vem a imagem de um menino de pijamas, segurando um castiçal enquanto a vela pinga estrelas na grama.
"La chandelle est mort
Je ne plus de feu"
Vou criar uma canção para tua vida com estrelas plantadas na grama...
Vejo teus pés pequenos em uma ponte pétrea, restos de estrelas na tua sola e aquele sorriso de sol que clareia qualquer noite, mesmo quando apagam as velas e estrelas desmaiam na grama.


...

O acróstico da Maria de Lourdes Jaude
primeiro poema para o Arthur e um trecho da carta que ela enviou:

Ah! Ton
Raggio del bene
Tutto il
Halo
Unissono
Racine d"amore

Sunday, July 25, 2010

Aforismos e Arremedos - Lincoln D'Ávila


tia coruja




Meu sobrinho Lincoln D'Ávila poeta, músico e professor de História vai lançar o seu primeiro livro de poesias e letras de músicas - Aforismos e Arremedos - entro nesta publicação com o carinho orgulhoso de tia coruja. Parece que foi ontem que ele fez um aninho nesta foto em meu colo e eu, menina ainda. O tempo voa e ele cresceu em arte e sabedoria. Agora vou entrar neste livro em uma parceria que me deixa muito feliz, pelo convite e pelo carinho. O semestre promete parcerias, vou relatando aqui os novos passos da poeta. Este momento é de celebração. Lincoln vive em Campo Mourão, todo ano organiza um evento em outubro - Homenagem a John Lennon. Compõem belas canções e escreve poesias. Por isto, vamos comemorar a poesia e a música muito em breve.
Dois poemas que vão entrar no livro - Aforismos & Arremedos:

Tributo a Nietszche



A Grande Árvore atravessa altaneira as estações
Da beleza verdejante à secura do inverno
Os frutos podres lamentam a dor da queda
Os brotos rebentos não sabem que são felizes
As flores que anseiam pela criação tornarão ao chão


A Grande Árvore só conserva o necessário
Os membros mortos são levados pelos ventos
As verdes folhas são abandonadas quando importunam
A beleza efêmera da florada não ultrapassa a reprodução



Ah, agora a Grande Árvore preza pelo raio
Seus ramos adoecidos gangrenaram
Os macacos insanos vieram e abusaram de seus ciclos
A sacudiram até derrubarem suas crias
Arrancaram suas peles para adornarem o ventre
Perfuraram suas artérias para tomar a seiva
Mutilaram suas raízes para o progresso da ciência


Porém, o raio derradeiro ama a grandeza da Árvore
E junta suas forças para o beijo renovador
Oxalá Deus nos perdoe, pela ignorância e abuso
Que demos à nossa mãe Terra
Porque ela há de continuar
Com ou sem nossa presença
Lincoln D'ávila
 
 
"O pedigree do mel não diz nada a uma abelha"
                                                    Emily Dickinson


O rancor dos homens
Contaminou as flores
As abelhas
Morreram de cólera
Adocicada



Último zumbido
Acordou o Sol
Em cadência afinada
Qual canção do Vangelis
Bárbara Lia

me roubaram uns dias contados









"Um céu despe-se em nódoas e gotas de sol. Vai escurecendo. São dezessete horas e quatro minutos. Com quantos dias de neve se faz um inverno? Com quantas pétalas de rosa se faz uma primavera? Com quantas folhas caídas e farfalhando ao vento se faz um outono? Com quantas gotas de sol se faz um verão? Estão lançando a coleção primavera-verão. Vou ao coquetel de tênis branco e roupa de palhaço. Vou fazer macaquices para os ricos. Eu frequento festas para comer e beber um bom vinho. Vou a todos os lançamentos de livros. Conheço todos os escritores. Tomara que este livro não me dê um prêmio bom. Mozart teve dívidas. Balzac teve dívidas. O que me para é o SPC."

"O poema é o espaço da rebeldia da linguagem e a prosa é a linguagem da rebeldia."


"Ontem Johnny Depp comprou uma ilha. Perguntaram a ele por que comprou uma ilha. Respondeu que comprou para nada. Somos uma ilha. Todos nós somos uma ilha. Cercada de gente e cada vez mais gente. Por que tanta gente coloca mais gente no mundo? A economia global está pronta para o crescimento. Eu queria acabar o livro aqui, pois ele já disse tudo que eu queria dizer. Mas Rodrigo quer seiscentas páginas. No fundo, é um ambicioso. Um cara que quer fama, poder e você. Ele só quer você. No fundo escrevo porisso. Uma interrogação. Uma pergunta. Um mistério. Um enigma. Um oráculo. Não sou o seu oráculo. Também, você não me pergunta nada. O meu silêncio à vezes cala, e eu não consinto quando calo."

(me roubaram uns dias contados - Rodrigo de Souza Leão - ed. Record)



Um livro que leio com reverência, sabor de adeus antecipado, despedida à revelia. Lembro trocas poéticas esparsas e a interrupção abrupta. Neste vácuo da tua ausência eu fico aqui, com este livro e com as lembranças, puxando a linha do tempo pra recuperar os dias contados, nossos dias roubados, nossos dias...

Saturday, July 24, 2010

Uma lua em teu ventre (fragmento)

Foto Ana Mestre - Portugal


(...)



As mãos paternas
elevam-me diante
da luneta que lembra
fuzil hasteado
e entre a eternidade
e a terra
pernas magras
balançam, nadam no ar
dos segredos
Flutuam entre Deus
e o nada
Somos o nada
A lua flutua
azul e enfeitiçada
fluorescente
náutica e errante
diante dos meus nove anos
Expectadora do impossível
um astro vergado
em minha íris
e a solidão desmascarada

(...)
Bárbara Lia

Wednesday, July 21, 2010

The Burning Plain


Este filme de Guillermo Arriaga lembra 21 gramas e Babel, não poderia deixar de ser assim. Quando a gente escreve, um belo dia constata que estamos contando uma história que se interliga e que dentro de cada enredo tem um enredo único. Os roteiros de Guillermo Arriaga vão sempre abrir o paletó de carne e revelar corações sangrados. Não há tempo para a leveza, mas, há para a poesia. Como diretor de seu próprio texto ele conseguiu cobrir todas as arestas e unificar a trama em um único golpe. Um grande escritor este cara. Um revelador do drama das fronteiras. Fiquei pensando nesta dramaticidade que só mesmo Charlize Teron podia incorporar, com a facilidade que ela tem de vestir a alma dos personagens. O silêncio do inverno aniquilante ficou triste, mas, ficou real. O silêncio do meu inverno acompanhando as alternadas cenas, esta facilidade que ele tem de revelar tudo em polaróides líricas. É um filme para assistir assim, a sós, isolado como um velho trailer que incendeia em uma planície e, finalmente, constatar a inevitabilidade das paixões.

Tuesday, July 20, 2010

Camille Claudel


HAMADRYADE I



Poesia escrita com cinzel
Resquícios passados à pedra
a retirar das entranhas, risos
e guirlanda de nenúfares


Ninfa das árvores
tocada de abismo
a olhar o limiar trágico
acima dos lagos azulados


Hamadryade orgulhosa
retorna ao quarto escuro
brancas corujas no muro
no casarão da vida gloriosa


Crua beleza nua, Danaide
ouvindo as estrelas do Sena
um céu-verde claro sonoro
a levar a barca dos amantes...


...Trinta anos descolorem
rios
pedras
corujas. ..
Nunca os nenúfares!


Estes que rolam em cascatas
no castanho seda dos cabelos
e caem no lago do esquecimento
calcinando o ódio da menina
de Villeneuve-sur-Fére
Sepultada viva em Ville-Èvrard
sonha na cripta:


o café do Brasil
cerejas embebidas em aguardente
um pacote de amor de mãe
um beijo da coruja ausente



Esculpe em astros abrasados
o ódio ao amante hostil
dorme congelada.
Destroços abraçados
à uma tola estrela senil




HAMADRYADE II




Ária de adeus
nos lábios do amante
Guirlanda de Nenúfares
em cascata
Quando chega ao chão
petrifica o rio
Ninfa das árvores recupera
o tempo do amor ardente

O corpo imberbe que esculpias
Danaê alva no ateliê escuro
Corujas na vidraça
enganando o dia.

Bárbara Lia
Para Camille, com uma flor de pedra
ed. 21 gramas/2010

Saturday, July 10, 2010

Ponte Necessária



TODAS AS MANHÃS
                        para Ferreira Gullar


a existência é um instante
convém não chorar suicidas
ou o dorso etéreo da vida

toda hora é apenas
a sequência invisível
de um fotograma súbito
e tudo é, todos somos
construção que desaba
: há, a todo fim, somente história
tua, minha, de todos, no ar,
no vento, no ventre e nos passos
esquecidos sobre a terra
em verdade, perdidos
estamos todos pela vida
como se diante de um muro
: o futuro, é preciso cuidado

e assim é, assim somos
finitude óbvia o tempo todo,
todas as manhãs, cada qual
com seu gesto bom, palavrão

e abismo

Ernani Fraga
Ponte Necessária
Edições Costelas Felinas/2010

Tuesday, July 06, 2010

Frida

Frida Kahlo



A coluna partida é um dos quadros que mais admiro, Frida é o espelho. Tão próxima que me fundi com ela quando li sua vida em 1992. Era eu - Era ela. Sangue de índio, liberdade sem rédeas, pés com resquícios da doença infantil. Éramos nós fundidas em um quarto fechado, meu mundo mergulhando na aura de um tempo que traria esta proximidade lúdica. À sombra dos murais em flor é uma poesia escrita a partir desta obra. Frida nasceu em 06 de julho de 1907. Ícone. Deusa tolteca. Presença Potente. MULHER.




La vie en noir

 


Cantar a dor – Piaf
Pintar a angústia – Kahlo
Esculpir a mágoa - Claudel


Não me afasto dos mitos
Escrevo o abandono
Com a coluna partida
La vie en noir



Bárbara Lia
- Coreografia do caos
21 gramas/2010

Monday, July 05, 2010

Carmen Silvia Presotto









 Indecisão


Cresci silvestre no oceano
estrangeira sem nome
água e éter


   vida...


Na terra,
poemas de barro.






**




Boca farta de risos sem dentes
ruíram os pássaros.


Além das nuvens,
estava o caminho para as novas pontes.


Na frente,
restaram os caninos


Encaixes
Carmen Silvia Presotto
Razão Editorial / Vidráguas - 2006


Site da autora:
http://vidraguas.com.br/wordpress/

Friday, July 02, 2010

Rodrigo de Souza Leão



Tela de Rodrigo de Souza Leão




Pequeno Tratado da Delicadeza



p/Rodrigo de Souza Leão






Rimbaud te espera
No barco bêbado encalhado
Em um mar crespado de turmalinas
-lágrimas dos poetas-
Nas mãos, duas taças de absinto
Para brindar a vida fera
Dois homens de branco
Ancorados na beleza
A repartir
O fogo santo
O espanto
O canto
O eterno canto
Dos poetas...


-Por delicadeza


Perdi minha vida-


Por delicadeza
Entregamos a vida
Aos escarros
Por delicadeza
Entregamos a carne
Aos caninos ávidos
Por delicadeza
Atravessamos a bruma
Com lírios brancos
Nos braços
Rimbaud sempre à espera
Para brindar
A eterna primavera


Bárbara Lia
 
Completa  hoje um ano sem Rodrigo de Souza Leão. Sem palavras. Recordo apenas que uma das últimas vezes que escrevi pedi autorização para publicar uma tela sua em meu blog. É estranho amar tanto alguém que a gente nunca viu. Ou é mesmo verdade que somos apenas e somente, como disse Maiakóvski...
 
 
Nos demais,

todo mundo sabe,
o coração tem moradia certa,
fica bem aqui no meio do peito,
mas comigo a anatomia ficou louca,
sou todo coração.
Maiakovski
 
- Rodrigo foi todo coração e dialoguei com este meu coração cansado por um tempo com o coração eletrizado dele - saudades!