Thursday, April 21, 2011

No Caminho com Cássio Amaral








1.



a borboleta
balança o oceano
nas asas

Li teu livro de haicais para crianças - Arco-Íris - para meu neto Arthur. Com as mãozinhas ele fazia gestos de vôo de borboletas enquanto eu lia este haicai. O nascimento do meu neto puxou o fio da minha infância e quero para ele a magia da música e da poesia. Como foi tua infância em Minas Gerais?

 
Minha infância foi perseguindo a bola, o futebol. Desde criança, de uns 4 ou 5 anos brincava de bola, gostava de futebol influenciado pelo meu pai que também sempre gostou muito de futebol. Fui um menino quieto, calmo, sem dar preocupações aos meus pais. No Ensino Fundamental fui campeão no futebol de salão, sendo da antiga 5ª a 8ª série o artilheiro, ainda tenho as medalhas que ganhei naquela época.

Além disso, sempre fui muito observador do mundo e das pessoas.

Sempre gostei de música desde pequeno também, desde muito pequeno fui ligado à música.


 
2.



de Leminski
a Rodrigo de Souza Leão
a poesia é explosão


Quando e como você deu de encontro com a Poesia?

Aos dez anos meu tio que era ator de teatro, tinha voltado para Araxá para dar um curso de teatro. Nessa época fui ao show do Oswaldo Montenegro com ele. Era época dos festivais. Em 1986 antes de entrar na escola ficávamos eu, meu primo e dois amigo ouvindo Titãs, RPM, Legião Urbana, Plebe Rude, Barão Vermelho, Cazuza, IRA, Paralamas do Sucesso, Finis Africae, Engenheiros do Hawaii, Garotos da Rua, Zero Capital Inicial, enfim ouvíamos as mais variadas bandas do Rock Nacional dos Anos 80, meu contato com a poesia veio no sentido de tentar compor letras de música. De colocar letra em música, eu na verdade queria ser compositor e montar uma banda naquela época. Por não saber tocar violão, mas tarde migrei para a poesia. Eu até em 1986 escrevi para o fã clube do Ultraje a Rigor no Rio, a resposta da carta veio com a assinatura da primeira formação da banda. Nessa época tinha um caderninho com minhas supostas letras. Com o tempo o joguei fora por não ter conseguido montar a banda e tocar algum instrumento.

Enfim, a poesia veio nas músicas politizadas e questionadoras que eu escutava nos anos 80, me considero filho da geração coca-cola, vi muitas dessas bandas tocar, bandas as quais ainda ouço. No ano de 1996 quando morei em Brasília comecei a escrever versos. E achei legal e não parei mais. Foi assim o meu contato com a poesia. Sempre ouvi muita música, desde os clássicos do Rock and Roll, Jazz, Blues e MPB. Assisti muito também FM TV um programa de clipes que passava na extinta Rede Manchete. E depois nesse período de Brasília e em Goiás conheci um amigo do meu tio que chegou a me dar aulas de poesias, dos poetas malditos franceses aos poetas brasileiros. Ele se tornou uma espécie de professor de poesia para mim, não tenho contato com ele há muito tempo.

Fernando Braga dos Santos me influenciou a escrever, me deu algumas dicas de como e o que era poesia. Digo poesia escrita. Quero ressaltar que escrevi cinco letras de músicas que nunca foram gravadas em cd, mas que foram musicadas por amigos.

 

3.



Cerebral
   Para Rodrigo de Souza Leão

 

A coisa coisando
Tudo causa
Vida pele no fatal
Gangrena no verso conciso
Os deuses dizem pegue sua lira
No labirinto da sina
Faça da passagem
Volts
Eletrodos que gingam na tua
poesia musicada
vulcão do leão
que uiva todos os cachorros azuis.


 
Quando recebi tua visita aqui em Curitiba, Rodrigo de Souza Leão ainda estava vivo. Tomando café na minha sala você contava de quando foi até o Rio de Janeiro e conheceu o Rodrigo. Agora, em Barra Velha, percebemos que o tempo não amainou o espanto diante da morte dele. Qual a importância deste poeta em tua trajetória? Quantas lições Rodrigo deixou para nós?



A importância do Rodrigo é que ele me ensinou que poeta, poesia e obra fazemos para nós mesmo, sem se importar se as pessoas vão gostar ou não. Sempre produzir e selecionar o melhor, principalmente em livro. Lembro na entrevista que fizemos com ele no Rio onde ele diz que o poema tem que ter a forma apolínea e o conteúdo dionisíaco.

Ele nos ensinou, a mim, ao Rafael Nolli e ao Ricardo Wagner na entrevista que nos concedeu que poeta é um ser que deve ser humanista, que deve fazer as pessoas pensarem, e que devemos escrever sobre nossas vidas, não existe poesia sem acreditar na vida e no contexto daquilo que vivemos. Ou seja, a crítica e a autocrítica do que acontece e de nós mesmos.

Me ensinou a não ser egóico como a maioria dos poetas são, a me defender mais desse mal dos poetas de acharem que não são reconhecidos.


 

4.



FAGULHA PARA ALICE

                   Para Alice Ruiz

o futuro
é o claro
dentro do escuro



Confesso minha dificuldade para os poemas curtos. Você, ao contrário, é intimo do haicai. A tua filosofia zen tem algo a ver com esta opção pelo haicai?



Sim, aos nove anos fiz karatê, fui até a terceira faixa apenas. Depois fiz judô, mas sempre me encantou o Japão, sua cultura e seu povo. Ministro Johrei, sou membro da Igreja Messiânica Mundial que é mantenedora do johrei, da Agricultura Natural. Hoje prefiro pensar em filosofia sim a Igreja Messiânica e o johrei, tem a ver sim com o HAIKAI porque o jorhei te leva em estado de meditação. Já li o zen, já li outras coisas do Budismo também, sempre precisei do silêncio, de estar um tempo só durante o dia. Isso me ajudou sim nos haicais e poemas curtos. Isso porque o haikai é o átimo, é captar no instante como se fosse uma fotografia. Li os mestres zen do haikai: Bashô, Issa, Busson. Enfim penso que minha filosofia me ajudou sim no sentido de interiorização para a escrita e de assim poder me expressar em três versos de forma objetiva e clara.


 

5.

Para quem os poetas escrevem?

Para o uni-VERSUS, é onde cerne, medula, leitura, devaneio, oficina de sonhos e domínio de linguagem se enquadram perfeitamente. Os poetas escrevem primeiro para eles mesmos, por ser uma função biológica quase, o cara já nasce poeta na minha opinião. E concordo com Leminski quando ele diz que a poesia é um inuntesilio, ela não serve para nada, mas é tudo. Leminski diz também que o poeta é uma espécie de sapato torto, acho isso muito pertinente também, o poeta é um ser que não tem compromissos, seu compromisso e desconstrução verbal na construção de um verso ou um poema. O poeta tira sua máscara e se mostra ao mundo nu.

Enfim, o poeta escreve para a humanidade dando a cara à tapa.



6.

Enten Katsudatsu é o título do seu blog. Sonnen, o título de um de seus livros. Fale sobre sua produção poética, publicações e planos poéticos futuros.



Bom, publiquei os livros de poesias:

LUA INSANA SOL DEMENTE -2001.

ESTRELAS CADENTES – 2003.

SEM NOME – 2005.

SONNEN – 2008

ENTEN KATSUDATSU - 2010 em E-book pela Revista Eletrônica Germina Literatura.

Sai em duas coletâneas de poesia Trilhas e Corpo e Alma em verso e prosa, organizadas pela Euza Procópio Noronha (Loba)

Tenho publicado poesia desde 2004 em blogs. Minha produção poética está no meu blog atual, onde há haikais, poemas, contos e fotos.

Penso em ler uns poemas e publicar no Youtube.

Já pensei em fazer um projeto com amigos para ir a algumas capitais para uivarmos e fazermos saraus.

Eu e Maeles minha esposa vamos publicar um livro de poesia juntos.

Ler e fazer o projeto de mestrado sobre os haikais de Olga Savary





7.

Cássio Amaral por Cássio Amaral:



Um buscador, um peregrino, um eremita, aquele que caça a si mesmo.

Místico, religioso, calmo e nervoso. Mistura de mansidão com vulcão,

Um bom amigo, às vezes muito distraído, sonhador. Um romântico incorrigível.

Uma pessoa que adora arte, cultura, música, poesia, teatro, História e filosofia.

Alguém que pensa que o simples é tudo e que busca a essência das coisas.





Cássio Amaral - Poeta, Professor de História e Filosofia. Atualmente vive em Barra Velha com sua esposa, a poeta Maeles Geisler. Para finalizar, uma poesia da Maeles.

http://cassioamaral.blogspot.com/





Moldura



    Maeles Geisler



O caminho do instante já desenhado



mil saladas temperadas a óleo e sal


corto seu vermelho


e a sede aumenta






abro os braços nos dias tardios


rezo o sono do tempo


e amanheço ao som dos pardais






respiro infância


o suor caindo do balanço


tempo raro fotografado ao sol.