Monday, June 27, 2011

Sampa dia 30/06

QUINTA POÉTICA – 38ª edição – 30 de junho de 2011

Governo de São Paulo, Secretaria de Estado da Cultura e Escrituras Editora convidam para a QUINTA POÉTICA – 38a edição – 30 de junho de 2011, a partir das 19h – na Casa das Rosas (evento gratuito).
Com os poetas convidados:
Bárbara Lia (Curitiba - PR), Gracco Oliveira (Diadema - SP) e Maiara Gouveia (São Paulo – SP).
Participação especial de Sansakroma - Julio e Débora D'Zambê (Contos e Mitos Africanos)
Curadoria: José Geraldo Neres

Mensalmente, a Casa das Rosas - Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura abre suas portas para a Quinta Poética, um grande encontro dos amantes da boa poesia, com a presença de poetas consagrados e novos talentos, que têm a oportunidade de apresentar seu trabalho. Intervenções artísticas das mais diferentes expressões, como dança, música, artes plásticas, cultura popular, envolvem a leitura dos poemas. Grandes nomes da poesia já estiveram presentes nesses encontros, que são promovidos pela Escrituras Editora e a Casa das Rosas - Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura.



Os poetas:



Bárbara Lia nasceu em Assaí, norte do Paraná. Publicou os livros: O sorriso de Leonardo (2.004), O sal das rosas (Poesia, Lumme editor – 2.007), A última chuva (Poesia, ME – MG – 2.007), Solidão Calcinada (Romance, Secretaria da Cultura / Imprensa Oficial do Paraná - 2008), Constelação de Ossos (Romance, Vidráguas/2010), Tem um pássado cantando dentro de mim (Poesia – 2011). Por duas vezes finalista Prêmio SESC de Literatura. Menção Honrosa no Conc. Nacional de Contos Newton Sampaio/2009. Conc. Nacional de Poesias Helena Kolody – SEEC – PR 2007. Premiada no Concurso de Contos Grotescos – Prêmio Edgar Alan Poe/2009. Prêmio Ufes Literatura/2009. Faz parte do livro de entrevistas O que é poesia? (Ed. Confraria do Vento), organizada por Edson Cruz.



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Maiara Gouveia de São Paulo, Capital escritora, publicou artigos, ensaios e poemas em alguns países da América Latina e também em Portugal e nos Estados Unidos. Participou de inúmeros eventos literários, oficinas, e integrou a organização da FLAP – Festival Literário Internacional. Em 2006, foi finalista do Prêmio Nascente com o livro de poemas O Silêncio Encantado. A obra inaugural sofreu alterações e hoje se chama Pleno Deserto (Nephelibata: 2009). Dos livros à espera de publicação, menciona Antes que se rompa o fio de prata, disponível para download.




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Gracco Oliveira é de Diadema, SP. Publicou “Refém das Ideias” em edição independente. Músico. Blog: eunaoleria.wordpress.com



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Sansakroma - Julio e Débora D'Zambê (Contos e Mitos Africanos) Formados em Artes Plásticas na Faculdade de Belas Artes de São Paulo. Estudaram música e se tornaram professores de arte. Iniciaram o projeto cultural "Sansakroma", escrevendo, ilustrando, cantando e contando histórias para quem quisesse ouvir, pelo Brasil afora e em muitos outros países. Site: http://www.sansakroma.com/
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Curador da Quinta Poética:

José Geraldo Neres. Poeta, ficcionista e roteirista. Publicou: Outros Silêncios, Prêmio ProAC - 2008, (Escrituras Editora, poesia, 2009 - bolsista da Fundação Biblioteca Nacional em 2007/2008), e Pássaros de papel (Dulcinéia Catadora, poesia, SP, 2007). O livro Olhos de Barro recebeu menção especial no 3º Prêmio Gov. de Minas Gerais de Literatura (ficção - 2010). Blog: http://neres-outrossilencios.blogspot.com/

SANTOS!






arlequins


p. antonio madeira




Paulo Henrique Ganso, Neymar, Robinho e André,
em recordação que não tenho e não se esquece,
trazem a mim – dando astúcia de mão aos pés –
Dorval e Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe.

Santos endemoninhados, peixes da peste,
tudo o que desfaz no outro e faz em nós a fé,
tudo o que tu, meu pai, em detalhe disseste,
tanto que, no estádio de dentro, em sonho até

chegou a fato consumado eu lá estivesse...
Arqueiro santista alegre se compadece
do que noutros é patético ou garnisé

à arteciranda, o irresistível da maré...
Eu lembro aquilo que não vi mas não se esquece,
Dorval e Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe.

RODRIGO MADEIRA



* Poema do ano passado, por ocasião do título na Copa do Brasil. O técnico é outro, o elenco mudou um bocado, mas permanecem os mesmos a alma e o intelecto do time (Neymar e Ganso). Além disso, a campanha para o tricampeonato começou exatamente com a conquista daquele torneio.

** Parodiando Armando Nogueira, a tabelinha entre Arouca, Ganso e Neymar confirma a existência de Deus.
 
(capturei do blog do Rodrigo Madeira link aqui - Não resisti. Meus amigos são tão jovens que quase sempre eu tenho a idade de seus pais. Embora o meu Santos da "descoberta" foi mesmo o de 1969, um pouco antes da Copa de 70. No bi campeonato mundial interclubes eu tinha seis anos. Vivi um tempo encantada ouvindo as partidas no velho rádio Semp. Fiori Gigliotti e os narradores que derramavam o gramado em nossa sala.  Clodoaldo era meu ídolo. Carlos Alberto, Coutinho, Edu, Pelé... O Santos é um time que vem em ondas como o mar, depositando gênios em sua praia. Muito bom torcer para um gigante. Ser gigante é ser quem se renova sempre e o Santos se renova sempre)

Mãos azuis colantes Josealoisebahiabhzmg: Jun2011

 Yves Klein Anthropométrie sans titre (ANT 63) 1960 153 x 209 cm


Chapar as borboletas com o azul de Klein



 TDKMC [Josealoisebahiabhzmg: Jun2011]



Tardar o sonho

     Dadá e Klein

     Mãos azuis

Colantes
 
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(Gracias ao José Aloise Bahia, meu querido amigo poeta de BH que enviou todo este azul para chapar as borboletas)

Sunday, June 26, 2011

O Melhor da Festa 3

(clique na imagem)

O MELHOR DA FESTA 3
dia 16 de julho, sábado
no 512 Bar rua João Alfredo, 512 - Porto Alegre (RS)
a partir das 20 horas.




Informações sobre a coletânea “O melhor da festa volume três”

Título: O melhor da festa volume três

Número de páginas: 264

Preço: R$ 25,00

Número de autores participando: 71

Conteúdo: poemas, contos, crônicas, cartuns e tiras

Projeto gráfico: Jorge Nácul

Capa: Márcio-André

Revisão: Press Revisão

Supervisão editorial: Laís Chaffe

Organizador: Fernando Ramos

Editora: Casa Verde

Mais rápido que o pensamento





imagem - Gazeta do Povo deste domingo



Vez ou outra perguntam se vou lançar Cereja & Blues. Decidi que não. Eu o escrevi em 1995. A ausência de maturidade na escrita reflete no texto. Era meu exercício de artista. Os romances que escrevi descartei. Tudo começa mesmo com Solidão Calcinada. A partir dele posso publicar os livros que tenho.
Fiquei com aquele roteiro de Cereja & Blues, jovens ou adolescentes vivendo em um tempo futuro. Escrevi outra pequena história com personagens de quinze anos que vivem em Curitiba em um futuro próximo. Sempre penso na alquimia do verbo. Em como os escritores conseguem captar o amanhã, sem ser vidente, é claro. Um mistério mais ameno. Hoje quando li que vão reabrir o Cine Luz e o Cine Ritz e que há um projeto para revitalizar o entorno da Riachuelo eu resgatei um trecho do meu livro inédito (ainda sem título) onde os meninos se encontram exatamente ali, na Rua Riachuelo, já revitalizada. Muito legal ler isto, por saber que os Cinemas vão voltar e por saber que vai existir um lugar que eu imaginei há um ano ou mais...


a matéria da Gazeta do Povo

http://www.gazetadopovo.com.br/cadernog/conteudo.phtml?tl=1&id=1140805&tit=Cine-Luz-e-Ritz-saem-do-papel




Encontro com Kin




Kin me abraça. Tão quente o abraço de Kin! Sempre tem aquela alegria. Sempre alegre, sempre. Estamos no ponto de encontro esperando Alana. Kin me conta o sonho que teve.

No sonho, estávamos ali no ponto de encontro. Era tudo igual, menos o céu. As nuvens eram de cores rosa, alaranjada e rubra. O diálogo do sonho que ele guardou nítido, ao acordar, e que ele me narra agora com sua pose de ator. Mais ou menos assim:


- Salmão claríssimo.

- o que você disse Kin?

- Aquela nuvem à esquerda...

- Fotografou?

- Não, tenho muitas fotos de nuvens...

- Não tem o salmão claríssimo, vai me dizer qualquer hora: Bia, eu devia ter fotografado aquela nuvem...

- Bia! Bia!

- Eu te conheço, Kin... Depois da nossa visita à reserva ecológica você se arrependeu de cada foto não tirada. Eu me lembro. Fiquei uma semana ouvindo você... Não fotografei a gralha azul, não fotografei a gralha azul... Parecia um mantra.

- Beatriz Lia Carolina Bárbara, quem te agüenta?

- Você, Kin...


- O que achou deste sonho, Bia?

- Só você mesmo Kin, para transformar a brancura das nuvens em um arco-íris de matizes avermelhados, mesmo que em sonhos. Já estudamos estes fenômenos... Você sabe por que as nuvens são brancas - porque elas espalham e refletem todos os comprimentos de ondas na faixa visível e a soma de todas as cores é o branco. Parece que a voz do professor Giba ficou gravada com aquela conotação de locutor de rádio:

“E no crepúsculo as nuvens são mais alaranjadas, neste instante, os raios solares percorrem uma maior camada da atmosfera, porque eles estão mais horizontais. E com isso, o comprimento de ondas mais curtas - (azul e violeta) - são espalhados na atmosfera antes de chegar até nós. Então somente conseguem chegar até as nuvens os comprimentos de ondas maiores que são da cor vermelho e laranja. O principal determinante da cor de uma nuvem é a radiação solar.”

Seria muito poético se as nuvens adquirissem cores.

Kin me sorri aurora-boreal...

As nuvens continuam brancas.

Se a poluição interferisse na cor das nuvens seriam como sangue refletido no céu, há muitas décadas tentam reeducar o homem, mas, o homem é o animal mais teimoso do planeta e tem uma leve tendência suicida, ainda assim consideram uma evolução e vamos indo entre o gás tóxico e a crise de alimentos.

O mais rubro tom das nuvens - vermelho asqueroso e sanguinolento - estaria lá nos Estados Unidos da América do Norte. Talvez aqui, com mais natureza, veríamos uma nuvem de tom salmão suave da nuvem que Kin não fotografou no sonho, cuja imagem se desfaz lentamente em minha imaginação, como uma cálida lágrima que vai evaporando quando passa a dor dentro da gente.

Kin se volta e sacode a cabeça, já estamos, no fundo, acostumados com os calotes de Alana...

- Alana não virá...

- Ela adora mesmo nos deixar à espera...

- Vamos esperar mais cinco minutos.

O chão deu aquela leve trepidada que sempre dá quando o metrô passa abaixo deixando vazar um som oco e estranho.

A floreira deu uma valsada leve e um amor-perfeito azul sacudiu suas folhas.

Pousei o olhar na floreira sabendo que desde o século XX elas estavam ali na minha cidade, enfeitando as ruas.

Primeiro era só na Rua das Flores. A rua de pedestres. Agora, também ali, na Rua Riachuelo. Adornando a calçada branca e moderna repleta de bancos de acrílico. Uma rua clara ao sol impetuoso. As lojas pequenas, de variedades. Lojas de disco, pequenas livrarias, cafés, uma floricultura, pequenos prédios que surgiram de um lugar onde ficavam casarões antigos.

Minha mãe narra histórias que sua mãe contava. Aqui, à noite, trafegavam prostitutas entre os prédios velhos, sempre em reforma. Pilastras de madeira que atrapalhavam a passagem. Cheiro de urina. Hotéis baratos onde os programas das moças que vendiam sexo eram combinados. Uma rua que se tornou tão clara, e tão diurna, que nas noites ninguém passava por ali. Apenas o metrô sacudindo a flor azul, à sua passagem. Tudo se transforma, eu penso.

Menos a mania de Alana de nos dar o fora e nos deixar esperando. No aquário da loja em frente um peixe sacode as águas azuis:





abaixo do camarim

aquático

primavera seca

de plantas iluminadas

no pensamento

periscópio do sonhador



- O que está dizendo Bia?

- É um poema de Thomas Gabriel...

- Thomas Gabriel! Bia! Acho que você ama mais ele do que teu amigo Kin...

- Não tenha ciúme dele Kin, agora que sua fase de ciúmes de Manoel de Barros já passou... Poetas não deviam morrer jamais.

- Bia, poetas não morrem. Você não está aí até hoje, bebendo os poemas de Manoel de Barros. Catando a poesia que ele entorna no chão...

- Kin! Isto você tirou daquela música do Chico...

- Não, Bia. Eu falei o que pensei assim quando você declamou a poesia.

- Não, você deve ter ouvido esta música lá em casa, deve ter ficado aí na tua cabecinha:



Na galeria

Cada clarão

è como um dia depois de outro dia

Abrindo um salão

Passas em exposição

Passas sem ver teu vigia

Catando a poesia

Que entornas no chão



- Vamos indo, que Alana não vem, dona Bia expert em Chico...

- Certo, Kin, pela milésima vez, Alana não vem.

BÁRBARA LIA

Fragmento de um romance (literatura juvenil?) em fase conclusão

Cidade aTravessa 12

Saturday, June 25, 2011

Tuesday, June 21, 2011

Tem um pássaro cantando dentro de mim






DECRETO:




Proibido derrubar
qualquer árvore


(exceto para
construir
berços
e violinos)

***



EM CARNE VIVA




Um poeta em carne viva
abriga a terrível pulsação
de um coração-estrela
e um silêncio
encravado nas entranhas
como filho bastardo
que nasce
à revelia do seu canto


Um poeta em carne viva
pisa as pedras
imaginando-as
seda da China


Um poeta em carne viva
é um louco no tribunal
das almas de chumbo:
culpado sempre

Culpado de ser humano da fala ao falo

 
***



Jardim do Caos


III



Signo de Salomão
na palma
Napalm na pele
Da alma
Tatuagem recebida
no berço
Caligrafia de Deus
- risco estrela -
Que oblitera
A pele canela
O mel de flor evaporada
Os traços arcaicos
Incinerados no espelho
Reflete em branca fogueira
Intacta
Minha alma
Ignorata



Bárbara Lia
Tem um pássaro cantando dentro de mim
capa - Cinthia Casagrande


Venda - barbaralia@gmail.com

Constelação de Ossos


foto - Darlan Cunha



CAPA DE GELO EM SUAS ASAS DE VIDRO

 
A primeira poesia que fiz eu tinha dez anos. Tomada de uma tristeza estranha ao ver uma abelha morta coberta de uma fria camada de gelo no vaso de antúrio que existia nos fundos da casa. Mortificava-me o medo das abelhas nas tardes de primavera temendo uma ferroada, temendo a dor que era ser picada por uma delas. Elas chegavam sempre apavorando a minha infância. Ficava temerária esperando o instante da dor. E no final, a dor foi outra. Vi uma abelhinha morta em uma flor vermelha. Uma camada de geada a cobria, como o açúcar que cristalizava os doces que minha mãe fazia. Sob o gelo ela estava inteira. As asas de vidro e o corpo amarelo forte. Amei aquela abelha como quem ama pela primeira vez. Quis ressuscitá-la, mas, estava nítida a sua rigidez, sua vida estancada em um inverno, petrificada. Não recordo os versos, a poesia se perdeu. Falava de uma amizade desperdiçada, por medo, por puro medo de enfrentar a sua natureza. Minha professora disse que era filosófico demais para uma menina da minha idade. Depois disto, cada descoberta, ou perda, ou alegria ou dor, eu delineava em versos. Catarse. Pura catarse. Quando cresci, aprendi que a poesia merecia certo apuro e um carinho estético. Então eu comecei a compor poesia com cuidado, pura reverência. Guardei-as, guardei-as por anos a fio. Como quem guarda um pedaço de sua alma em uma concha secreta.

Bárbara Lia - Constelação de Ossos = Romance = ed. Vidráguas / 2010

Venda: Livraria Cultura

O Sal das Rosas

KAMIKAZES




Doze kamikazes

arrastam a delicada açucena.



Doze kamikazes.



As lágrimas descem

feito fontes.



Nenhuma música

de anjos sonoros,

nenhuma.



Nas nuvens que passeiam,

exausto de tédio, atira longe

o grão da maldade – o dragão da guerra.

Bárbara Lia
O sal das rosas / Lumme editor 2007
 
 
Venda - Livraria Cultura

A Última Chuva




UM TANGO COM DEUS



tranquei os covardes na sacristia
e explodi o templo
desci a rua de pedra rasgando em fúria
os ídolos e seus pedestais
as estátuas e seus ancestrais.

tranquei os covardes na sacristia
e tombei as torres áridas
que nunca chegarão ao céu
e impedem o tráfego
da poesia & pássaros.

tranquei os covardes na sacristia
guardei nas dobras da alma
os que amo e são meus,
na clareira incendiada de papoulas
dancei um tango com Deus.

Bárbara Lia
A última chuva / 2007

Venda - Livrarias Curitiba

A Senhora Selvagem





tutto il viaggio è metafora del viagggio interiore
quando sono attraccata a Venezia
                                              lo sapevo
approdavo anche in me stessa




toda viagem é metafora da viagem interior
quando desembarquei em Veneza
                                              sabia que
aportava também em mim mesma



**


"inquieta era qui una bambina im-
palpabile, una donna intangibile una signora
selvaggia andava sempre fino in fondo"
                                            Epitafio


"inquieta-se aqui uma menina impal-
pável, uma mulher intangível uma senhora
selvagem que ia sempre até o fundo"
                                           Epitáfio


A Senhora Selvagem
Berenice Sica Lamas
Capa: colagem de Berenice Medeiros
Evangraf/2011

Coleção Sempre Viva ALF

Sunday, June 19, 2011

O Velho Tema III


Quando as veias deste silêncio explodirem vai ficar difícil andar pelas ruas. Quando saturar o depósito cavernoso líquido - tinta estocada em um jardim de rosas que já murcharam há setecentos anos. A maioria esconde no silêncio o amor. Entram no jogo. O jardim dos amores silenciados está obeso de rosas florescidas em lágrimas de sangue. Vão pensar que é o fim do mundo quando explodir a veia submersa dos amores enterrados.

Bárbara Lia









Velho Tema



Vicente de Carvalho




Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.


Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.



...



Publiquei a poesia - Velho Tema - que para Vicente de Carvalho era a Felicidade. Para mim nestas postagens sem pretensão é o mais que maltratado e tripudiado e mal dito e quiçá maldito - Amor.


Friday, June 17, 2011

O VELHO TEMA II

Esfarrapado e imundo
dei de cara com ele, enfim,
- mendigo extraviado
que implora pra ser notado.

Eis o amor:
despejado
humilhado


não vive em estrelas
nem mar profundo
nem no limite do mundo


está sempre no meio do caminho
pedra poema
estirado
um cão sublime à espera
de um dono franciscano
que o acolha
com todas as chagas
e enganos.

Bárbara Lia
Fragmento da poesia - Sonhos em preto e branco

O VELHO TEMA

O amor é um Deus escondido e não é todo mundo que dá de cara com ele. Para complicar tudo, apelidaram a tal paixão de amor, então vive por aí o amor - mascarado - tripudiado com sua imagem tatuada em um deus pequeno, um deus sem asas e sem força, um deus que queima mais rápido que as tuas lenhas no fogão e tudo se perde. Pode ser bonito como aquele fogo, mas, é só miragem. É o externo tatuado na visão, o interno tatuado é que fica impresso nos olhos da alma que não esfria que não se consome em labaredas - o externo é a paixão e o interno é o amor - seria isto? E quando o externo e o interno vibram na mesma frequência? Então é o Eros revivido. O amor em carne viva...

Bárbara Lia

Thursday, June 16, 2011

A ESFINGE NA NÉVOA





Quando a alma
fala
já não fala a alma.
Se o corpo é sua escada
a língua é por onde
ela escapa?


Jamais sairemos
desse labirinto
de falsos silêncios;
Então, por que não cantamos
enquanto afundamos


Ou por que não nos calamos,
até o fim da névoa
do labirinto
e do silêncio torpe?...


Se a canção da Ursa Maior
não nos alcança,
afundar no canto ausente
das sereias de antes,


e apesar da vitória
deste abismo em nós
de nossa secreta Ítaca
não estamos tão distantes.


Ítaca dentro de nós:
A torre, a amada a fiar o manto,
o cão cego e fiel,
a mesa, o vinho...


Ítaca – a felicidade-
escondida no mar de abismos
e nos labirintos de sal
- nossa casa-alma:

Esfinge na névoa
que sempre encontramos
no final.

BÁRBARA LIA / MARCELO ARIEL


Marcelo Ariel é poeta, escritor & performer. Nasceu em Santos em 68. Adaptou para o teatro obras de Dante Alighieri, Byron, Hilda Hilst, Yukio Mishima, Fernando Pessoa e Hermann Broch. Entre outros livros, publicou pelo Coletivo Dulcinéia Catadora o livro: ME ENTERREM COM A MINHA AR 15 e pelo Selo LetraSelvagem o TRATADO DOS ANJOS AFOGADOS. Pela Multifoco, CONVERSAS COM EMILY DICKINSON E OUTROS POEMAS.

Uma poesia do livro "O sal das rosas"




VIOLETAS BRANCAS




Sigo teus passos, feito asteca, sonhando
a terra eterna e rica – tua pele.
Pele dos diários, onde leio a lua.
A maré suave que me enlaça nua,

écharpe de brisa e aurora, corais gris.
Adeus soledade de pedra. Paloma triste
em vôo riste, ao longe.
O deus-do-sol-do-meio-dia, colibri azul

da era atômica, é um sopro de luz e sons.
Sonhos delineados na tela fria.
O mundo sangra e transforma a garça


em íbis rubro. Leio um salmo antigo,
acordo em manhãs violetas. Tenho por companhia
um pequeno vaso de violetas brancas.
Bárbara Lia

Tuesday, June 14, 2011

O chapéu do anjo




Este filme é baseado em um conto de Philip K. Dick - The adjustment team - O filme recebeu o título "The adjustment bureau"
Nos cinemas do Brasil - Os agentes do destino.
Deus é chamado de Presidente e ele tem seus agentes para garantir que o Plano dele não seja alterado.
O personagem de Matt Damon se apaixona por uma bailarina de uma companhia de dança contemporânea e entra em conflito com o plano original. O filme tenta responder à velha dúvida: O destino está traçado, ou cada qual constrói o seu próprio destino? Não gostei muito de saber que aposentaram o céu lírico com rios que correm leite e mel para ficarem trancafiados em um edifício com ternos e chapéus e cachecóis, mas...
Um filme que mescla romance e ficção científica. Bom para assistir no inverno cinza e ao final desejar roubar o chapéu de algum anjo distraído. Aquele chapéu abre muitas portas.


Matt Damon e Emily Blunt

Monday, June 13, 2011

Fernando Pessoa, 123 anos e toda POESIA

imagem retirada daqui

LAGOA DA POSSE



A posse é para meu pensar uma lagoa absurda — muito grande, muito escura, muito pouco profunda. Parece funda a água porque é falsa de suja.

A morte? Mas a morte está dentro da vida. Morro totalmente? Não sei da vida. Sobrevivo-me? Continuo a viver.

O sonho? Mas o sonho está dentro da vida. Vivemos o sonho? Vivemos. Sonhamo-lo apenas? Morremos. E a morte está dentro da vida.

Como a nossa sombra a vida persegue-me. E só não há sombra quando tudo é sombra. A vida só nos não persegue quando nos entregamos a ela.

O que há de mais doloroso no sonho é não existir. Realmente, não se pode sonhar.
O que é possuir? Nós não o sabemos. Como querer então poder possuir qualquer coisa. Direis que não sabemos o que é a vida, e vivemos... Mas nós vivemos realmente? Viver sem saber o que é a vida será viver?

O LIVRO DO DESASSOSSEGO
Bernardo Soares

Wednesday, June 08, 2011

38ª edição QUINTA POÉTICA - 30 de Junho - Casa das Rosas





Governo de São Paulo, Secretaria de Estado da Cultura e Escrituras Editora
convidam para a QUINTA POÉTICA – 38a edição – 30 de junho de 2011
a partir das 19h – na Casa das Rosas (evento gratuito)
Com os poetas convidados:
Bárbara Lia (Curitiba - PR), Gracco Oliveira (Diadema - SP) e Maiara Gouveia (São Paulo – SP).
Participação especial de Sansakroma - Julio e Débora D'Zambê (Contos e Mitos Africanos)
Curadoria: José Geraldo Neres

Poeminha (Lord Gulliver)



O vocalista da banda de Porto Alegre Lord Gulliver, o Leandro Tomaz, enviou este clipe


"Poeminha" A estória do cara que não sabia fazer uma canção...

Cidade Poema - Fotos de Leonardo Brasiliense


Maria Carpi - O pão e o vinho






O Avental




No centro da casa,

uma vertente.

No centro do movimento,

o avental de minha mãe.

As toalhas jamais

sabiam secar-me.

Ali acalmava as mãos

interrompidas de voar.

Ali as lágrimas

e toda a trégua.


Maria Carpi
(Nos Gerais da Dor)

 
Foto de Leonardo Brasiliense para o Projeto de Lais Chaffe Cidade Poema
Gosto muito de filme e fotografia em preto e branco. Leonardo Brasiliense publicou uma sequência de imagens dos poetas do projeto.
http://leonardobrasiliense.blogspot.com/
 

Friday, June 03, 2011

Grandes Mulheres Grandes Amores VII

I




Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca
Austera. Toma-me AGORA, ANTES
Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes
Da morte, amor, da minha morte, toma-me
Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute
Em cadência minha escura agonia.



Tempo do corpo este tempo, da fome
Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,
Um sol de diamante alimentando o ventre,
O leite da tua carne, a minha
Fugidia.
E sobre nós este tempo futuro urdindo
Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida
A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.



Te descobres vivo sob um jogo novo.
Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,
Antes do muro, antes da terra, devo
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo
Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza.


HILDA HILST

Júbilo, memória, noviciado da paixão


Um beijo em morse:
Hilda se encontra com Carlos Drummond de Andrade e este, superando sua renitente timidez, disse: "Você não dormiu com essa cara, não é? Os poemas estão tão bons que eu sei que você não dormiu com ele." "É verdade", respondeu Hilda.
A respeito de Hilda Hilst e de sua obra muito se disse. O próprio Drummond, em 1952, dedicou-lhe um poema, em que, entre outros versos, diz: "Então Hilda, que é sab(ilda) / Manda sua arma secreta: / Um beijo em morse ao poeta."
fonte deste texto - Globo Livros - http://globolivros.globo.com/


O amor proibido de Hilda

Grandes Mulheres Grandes Paixões VI

“No teu cabelo negro brilham estrelas
cadentes, arredias.
Para onde irão elas
tão cedo, resolutas?
– Vem, deixa eu lavá-lo, aqui nesta bacia
amassada e brilhante como a lua.”
Elizabeth Bishop
 
Lota Macedo