Tuesday, November 08, 2016

filha do Vinícius de Moraes com a Florbela Espanca: texto de apresentação do livro Forasteira pelo poeta Fernando Koproski (filho de Vinícius de um outro casamento)


       Fernando Koproski: poeta paranaense, escritor e tradutor





Bárbara é minha irmã por parte de pai. Ainda que hoje ela negue veementemente isso, e diga que é filha do seu Ladercio com a dona Patrocínia, tenho certeza que ela é filha do Vinicius de Moraes com a Florbela Espanca. Daí vem nosso parentesco. Só não me perguntem como meu pai Vinicius pode ter tido em agosto de 1955 uma filha com a poeta Florbela Espanca que uns dizem morreu em 8 de dezembro de 1930... Esse tipo de coisa não se explica, pelo menos não no nosso mundo. Mas é o tipo da coisa mais natural que pode acontecer no mundo de Alice. No país das maravilhas, de onde ela veio, deve haver uma centena de explicações razoáveis para que tal encontro aconteça. Posso até imaginar essa e outras questões, completamente plausíveis na boca do Chapeleiro, enquanto ele toma um tradicional chá das cinco com a Lebre de Março. Enfim, mas não é de Alice que falamos aqui e sim de Bárbara. Embora a menina Bárbara, na seção que abre este livro, intitulada “a menina de sua mãe” guarde muito da menina Alice, dançando entre assombros e deslumbramentos, em seu percurso de descobertas pelo país das maravilhas que é a infância. Sim, a infância é este país de saudades doces onde a menina poeta se inaugura em versos e se descobre num mundo de magia, afetividades e delicadezas. A magia da poesia, nessa instância é regida pela beleza, ternura e o mais puro encantamento (naquele tempo eu colhia o sol mesmo nos dias cinza). Não à toa, a autora quando encontra a ternura revisitada na fase adulta, a abraça de forma irreversível, pois sabe o valor que ela tem e, sobretudo, compreende a raridade e a preciosidade que há nessa ternura em tempos de caos e decadência: quando alguém rasga uma nesga de humanidade terna/ você quer sugar esta veia/ comer pelas bordas a pessoa inteira/ guardá-la em ti de todas as maneiras.

Mesmo quando se revolta diante da ríspida realidade da fase adulta, e é atirada na dimensão angústia, isto é, nesta dimensão onde se descobre que os poetas mentem e tudo que é belo se deteriora, Bárbara ainda é impulsionada pela magia e não se conforma com a decadência humana. Em certo sentido, sua busca por compreender e rastrear a beleza em tempos de pobreza, e de empunhar buquês de delicadeza em meio ao terror de nossos tempos, é ainda uma forma de ver Alice revisitada na fase adulta, lutando por nossos últimos resquícios de humanidade. Essa nova Alice, já senhora e ainda menina, veste uma armadura delicada, se arma de fragilidades e de compaixão, e com certeza sabe de suas impossibilidades... mas isso pouco importa. Nada vai convencer Bárbara a ser de outra maneira. Ela há muito já atravessou as grandes águas e desvendou o poder transformador da Arte. Tanto que sente na maior naturalidade que sua casa é o olhar azul de Van Gogh/ dentro dele as estrelas enlouquecem/ e o girassol incorpora o sol. Assim é que a encontramos nesse livro, como uma bárbara Alice disposta a experimentar, escrever, se reescrever e amar, e principalmente isso: Amar em tempos inamáveis. Como ela mesma diz, como um rouxinol eletrocutado, temo partituras/ ainda que siga amando loucamente a música.

Como o bolo mágico que faz Alice crescer, essa crença na poesia como profissão de fé (e de febre) faz o texto poético de Bárbara crescer aos olhos incrédulos do leitor e o convida a uma incrível jornada noite e dia adentro de uma menina, que um belo dia surgiu em Assaí em 1955 e de lá partiu para deliciar o mundo. Portanto, ao entrar nesse livro, se preparem para provar várias delícias em versos. Pois minha irmã é ótima confeiteira. Disso eu tenho certeza. Digamos que ela tem uma mão boa pra isso. Ou talvez isso seja coisa de família mesmo... E por falar em família: pra finalizar digo que seus versos têm a grandeza dos versos de Vinicius conciliada com a espontaneidade das melodias do canto da Florbela Espanca. Tanto que é possível sair desse livro, com pelo menos um coração em flor, abraçado por seus poemas ou acarinhado por suas músicas de ideias.

Um abraço do seu irmão,
Fernando Koproski

(filho do Vinicius de um outro casamento...)


Forasteira
Poesia 
Vidráguas 

Coleção VentreLinhas
(2016)
80 páginas


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