Friday, February 22, 2008

UM AMIGO É UMA PONTE

PRIMAVERA DESFOLHADA
p/Clifton Giovanini


De uma ponte de suicidas
surgiu o nome do poeta
que na Ilha do Mel
filosofou com astros
e na minha sala
derramava o século XIX
- cartola e fraque
e sorriso maroto -
Sempre trazia chocolate
e uma dama à tiracolo
histórias de noites
vagando entre túmulos
(hobby à la Jorge Mautner)

e planos de rasgar o sul

nos trilhos.
Agora, ele escreve fumando narguilé
batucando a velha Olivetti
diante da catedral gótica.
Meu amigo medieval
ponte de ternura rara
exilado em um lugar
onde a neve cai ao sol
onde ele não esquece
nosso carinho repartido.
Agora, vai descrever as pedras da catedral
com ternura embriagada,
breve, vai ultrapassar a soleira em luz
garrafa de vinho em uma das mãos
uma chama de vidro no coração
e no rastro
uma primavera desfolhada.

BÁRBARA LIA

- A última chuva -

(ME ed. alternativas - 2.007)


Clifton é o moço de azul diante da barraca. Conheci Clifton Giovanini em 2.002, em uma oficina de poesia do poeta Fernando Karl. Nesta oficina conheci Márcio Davie Claudino, o Marcos Ferreira, Carol Casagrande, Bianca Lima, Loraine Thais,o Paulão, a Micheliny Lobo, o Waldinei... e o Trótsky, Pedro era o nome do senhor que era a cara do Trótsky, tinha a Camilla que tinha a idade do meu filho Thomas Gabriel. Thomas um dia chegou irritado do colégio pois o filho de uma amiga que sabia que eu era poeta insinou que a poesia que ele leu na sala era minha, e não dele. Ele escreveu um poemaço, um diálogo com Becket, que a professora elogiou. Fui ler a poesia e fiquei de queixo caído. Convidei-o para a oficina que ia ter no Muma, era perto de casa, e nos matriculamos no horário noturno. Thomas escreveu 40 poesias e parou com a escrita. Prefere torcer para o Atlético e ouvir suas bandas preferidas, vez por outra diz que vai voltar a escrever. Aos treze anos escreveu versos como este

Jarro arcaico vermelho
A morte constrói montanhas
De pano. Sonhos de
Bela criança
Paisagem de setembro

Desenhos do artesão. (Thomas Gabriel, 2.002)


O Clifton, meu amigo querido, nasceu no mesmo dia que minha filha mais velha, temos uma afinidade enorme, estas ligações tecidas nos astros. No meu livro - A última chuva- publiquei uma poesia que escrevi no tempo em que ele foi viver em Vacaria, e me contava que escrevia diante de uma catedral gótica, e me contava da neve e da dificuldade de estar longe, em uma cidade pequena. Agora ele vive em Santa Catarina, e ontem encontrei uma poesia que ele enviou cinco anos atrás... A minha curiosidade quis descobrir o que significa o nome dele, logo que o conheci. Existe uma Ponte Clifton nas proximidades de Bristol. No século XIX, tempos duros para os ingleses, era conhecida como a ponte dos suicidas. A prefeitura pagava um barqueiro para recolher os corpos dos suicidas pela manhã. Era um tempo difícil e quem não tinha emprego e não encontrava saída se atirava da Ponte Clifton. Hoje, outros tempos, ela é utilizada por esportistas que praticam body jump. Fui procurar uma imagem da Ponte Clifton e encontrei mais que isto, encontrei um site de Bristol que mostra a Ponte por inteiro - 360° - e em diferentes momentos - north side, south side, sunset, dusk, night...

Um amigo é mesmo uma ponte. Os que eu mais amo tem sempre uma ponte no nome, ou ao lado... Ou uma ponte imaginária, de rosas, ou nenúfares... pontes de pássaros, de gôndolas... de mãos estendidas... Passeando pela ponte Clifton, pensando nos amigos...

...
O e-mail antigo, um poema do amigo:

...

que a lua não enregele seus dias de ópio

e o medo da morte não desperdice o lento caminhar
se o gelo das altas madrugadas fazer-te esquecer da vida
esquecer das dores, esquecer da fadiga de dormir
para logo mais acordar...

ainda restará uma xícara de café quente sobre a mesa
e um pedaço de pão
e um papel amassado

e a reclamação de um filho que ainda não se foi.
Cllifton Giovanini - 24/02/03



visão panorâmica da Ponte Clifton:

http://www.panavista.eu/#7.12.0