Monday, November 17, 2008

Tristessa


ESTOU EM UM TÁXI com Tristessa, bêbado, com uma garrafa de uísque Juarez Bourbon no malote de dinheiro da ferrovia que eles me acusaram de roubar da estrada de ferro em 1952 - aqui estou eu na Cidade do México, um sábado à noite, chuvoso, mistérios, velhas ruas laterais de sonho e sem nomes passam vertiginosamente, a ruazinha onde eu caminhara por entre multidões de vagabundos índios enrolados em mantas trágicas, suficientes para fazer você chorar, e você achou ter visto facas reluzindo sob as dobras - sonhos lúgubres tão trágicos quanto aquele da Velha Noite da Estrada de Ferro, com meu pai sentado com suas coxas grandes no vagão de fumantes da noite, cochilando enquando seguia pelos trilhos vastos, enevoados e tristes da vida - mas agora estou no alto daquele platô vegetal que é o México, a lua de Citlapol com quem eu esbarrava algumas noites antes no telhado sonolento a caminho do antigo banheiro de pedra com goteira - Tristessa está doidona, linda como sempre. Vai alegre para casa deitar na cama e curtir sua morfina.
Noite anterior tive uma discussão silenciosa na chuva sentado com ela nos balcões sombrios da meia-noite comendo pão com sopa e bebendo Delaware Punch. Saí dessa conversa com a visão de Tristessa em minha cama, em meus braços, a estranheza de seu rosto amoroso, asteca, garota índia com olhos de Billi Holliday misteriosos e semicerrados e com uma grande voz melancólica como as atrizes vienenses de rostos tristes como Luise Rainer que fizeram toda a Ucrânia chorar em 1.910...
(Este é o início desta novela de Jack Kerouac - Tristessa)
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Após a leitura de Tristessa, escrevi esta poesia:
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TRISTESSA
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ame quem te ama e conheça o inferno
fogo a fogo no porão do medo
fogo a fogo no cabelo da Medusa
atiçando cobras
atiçando demos.
ame quem te ama e conheça a dor
amputar pernas braços sexo e coração.
ame quem te ama
nesta luta cega
boitatás no milharal
não sobra espiga sobre espiga
e o espantalho, mudo, tira o chapéu
e dança triste no chão de palhas.
ame quem te ama e conheça o inferno
dois sustos travestidos de sons
querendo narrar o que o humano não narra
escrevendo em aramaico o avesso do vivido.
ame quem te ama
e se arrependa de viver rezando pelo amor.
ame quem te ama
e descubra
a agulha fina e gelada do olhar
o rio de deus que rola tua nuca quando ele te toca
o que é não sentir o corpo do outro
cópula de luz.
o que é ter a língua presa o corpo preso o gesto preso
e a alma livre pluma de algodão te levando onde não quer
onde não deve estar, nem teus pés, nem tuas mãos

Bárbara Lia (A última chuva)
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