Tuesday, October 27, 2009

Constelação de Ossos

Pollock

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FÓSSEIS ROSAS PROFANADAS

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O ar raspando o sangue seco da alma.

Alma mutilada a minha.

Sangue incrustado em suas paredes desde a infância, algumas feridas já cicatrizadas.

Minha alma um painel de Pollock.

Nas partes não cicatrizadas a tinta escorria espessa.

Por muitas noites eu não dormia.

A cor que mais doía era o amarelo aflito, aquele amarelo gritante.

Não sei se algum dia vai esgotar o amarelo de Van Gogh.

Como se ele tivesse a chave secreta da desesperança, em forma de girassol.

O meu interior borrado, sangrado de cores ardia ao vento, o pulmão ardia ao respirar lufadas de ar puro entre medo e delírio.

Raul segue pela Estrada Graciosa, um caminho antigo calçado de pedras, onde abismos se abrem, onde um trem trafega, onde pássaros desnudam suas lágrimas.

Quatro passos necessários para aprumar o esqueleto.

As nuvens se ordenam atrás das bananeiras.

Olho o bangalô e sinto uma ternura de gênesis.

Projeto de éden, recanto de Nyx.

À entrada da varanda um tapete tecido em barbante azul cobalto.

As pedras da entrada são claras, justapostas formam um desenho branco assimétrico.

A varanda pequena adornada de bebedouros ao redor onde um beija-flor pousa, beija a água adocicada e se vai.

Uma rede da cor do trigo maduro.

Raul bate na porta, três toques, a porta está entreaberta.

Ela não está na casa, eu penso.

Silenciosa como um anjo, pousa das alturas ao nosso lado.

fragmento do romance - Constelação de Ossos - Bárbara Lia, 2009