Sunday, October 09, 2011

John Lennon

Nothing is real
And there's nothing to get hung about (Lennon/McCartney)

Pensei ter visto uma vez uma fotografia - teus óculos na calçada diante do Edifício Dakota. Pensei ter visto e não sei se existe tal fotografia, ou se a forjei em minha mente como um poema visual, naqueles dias que eu apenas estendia em varais imaginários meus pensamentos poéticos e eles ficavam lá, leves e límpidos, como as fraldas da primeira filha. Pensei ter visto aquela cena/poema e sentir a dor - agulha fina - trazendo a certeza da tua morte. Os signos de eternidade e as pessoas eternas imprimem suas almas em lugares, objetos, pessoas... Então és os óculos diante do Dakota e és este portão misterioso de filme encantado. Li em algum lugar, na ocasião dos seus setenta anos, John, que se estivesses vivo estarias mais calmo. Acomodado? Pintaram uma imagem tua que nada condiz com aquela que eu penso. Fizeram aquela imagem com jeito de professor de francês de colégio do interior nos anos setenta. Eu te vejo indignação e ira. Energia sem fim, canções aos milhares e o mesmo grito. Nu, outra vez, em alguma cama, ao lado de Yoko. E os teus cabelos brancos agitados, longos e descuidados, a lembrar mil bandeiras aflitas para reviver esta paz aniquilada. Eu vi outro homem e vi outra alma. E vi outros lugares ícones que agora seriam John Lennon, não seriam mais lugares. Como não é mais um portão este portão, como Imagine agora não é mais palavra, é canção.